quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Os russos atacam novamente

Book spines

Isto sim é sofisticação intelectual. Esse negócio de se matar em estádio de futebol é coisa de atrasado. Inconformado com um colega que afirmou preferir prosa, um amante de poesia esfaqueou o desafeto até a morte.

A vítima, de 67 anos, afirmava que a única literatura era aquela em prosa. O assassino, de 53, não se conteve...

No ano passado, dois sujeitos começaram a brigar numa fila para comprar cerveja, por discordarem a respeito de Kant.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O fim dos clássicos?

Há dois dias conversava com um amigo sobre a morte dos clássicos, ao menos no Brasil. Este artigo, que pode ser lido em inglês, aqui, mostra que o problema não se resume a estas terras. Pois o departamento de inglês da UCLA decidiu, em 2011, que não há necessidade de ler Chaucer, Shakespeare ou Milton, para horror de muitos. O autor do artigo é ex-editor da Enciclopédia Britânica e está claramente neste grupo. O texto segue afirmando que, agora, bastam textos didáticos e antologias, apresentando trechos de um ou outro autor, com longos ensaios acadêmicos e "pós-modernismos impenetráveis". Troque suas edições baratas de Hamlet por um "calhamaço contendo pouca literatura e um monte de besteira".


Essa discussão rende. Por aqui, há muitos anos bastava ler resumos de livros nas escolas - e se você ousasse ler a obra indicada era visto como estranho até mesmo por alguns professores. Agora dá para substituir o resumão pelo filme ou a wikipedia. Um professor de francês já me disse que, nas faculdades de Letras, a maioria dos alunos não leu (e obviamente sai sem ter lido) a imensa maioria das obras que ele leu nos tempos gloriosos de sua escola pública. 

Cinco grandes momentos da pontuação

Artigo interessante sobre grandes momentos da pontuação - os parênteses de Nabokov, o travessão de George Eliot... que pode ser lido, em inglês, aqui.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ninguém escreve como eu

António Lobo Antunes, na edição brasileira do El País:

P: Em Portugal é muito conhecido também por suas crônicas em revistas e jornais...

R: Isso só faço porque pagam bem. As pessoas gostam porque são como piscinas para crianças. É impossível afogar-se. Os livros, por sua vez, são feitos para que se afoguem. Comecei a fazer essas crônicas com meu amigo José Cardoso Pires, de quem sinto muita saudade.

A entrevista, que pode ser lida aqui, não ajuda a melhorar sua imagem diante dos saramaguistas mais fanáticos que sempre o odiaram. Mas, justiça seja feita, ele não dá a mínima para essa questão.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Uma cadeia humana

Para transferir os livros da Biblioteca para o novo prédio. Aqui.


O Bom Soldado Svejk (III)

O segundo livro - No Front -, ao contrário do que o titulo pode indicar, não se passa propriamente na frente de batalha. O bom soldado bem que tentou, mas ficou preso na teia burocrática do império. Ele seguiu de Praga para um local de treinamento. Mas o trem acaba parando (o freio de emergência é acionado) e, enquanto sua participação é investigada, fica retido na estação. 


O trem segue com seu regimento e, a partir daí, ele tentará chegar à companhia. Com os personagens loucos para escapar da guerra - só os austríacos estavam realmente empenhados - é claro que poucos realmente acreditam no objetivo de Svejk. Diante das suas habituais respostas curtas e desconcertantes, é inicialmente tomado por um espião russo altamente qualificado, querendo chegar ao front para passar imediatamente suas preciosas informações ao inimigo. 

Não há descrições sobre as batalhas; elas aparecem de forma indireta. Lá pelo meio deste segundo livro, o autor passa a ser mais explícito. Os soldados se amontoam no trem, para serem novamente feridos, mutilados e mortos, e ganhar uma cruz de madeira sobre suas covas, diz-nos Hasek. Não se pode esquecer que ele próprio esteve no campo de batalha, chegando a ser feito prisioneiro pelos russos.

E fica mais evidente a questão das nacionalidades - especificamente, entre austríacos, tchecos (eslavos, afinal, combatendo a Rússia) e húngaros. O amigo de Svejk, Vodicka, passa mais tempo tentando destruir as outras etnias do seu império do que propriamente os inimigos.

O segundo livro não é tão bom quanto o primeiro, o que é muito mais um elogio a este do que uma crítica àquele. Mas já dá para notar algumas pequenas mudanças no comportamento do bom soldado, que é agora explicitamente mais cínico. O episódio da carta de Lukacs à amante - ele deveria entregá-la num determinado horário, mas acaba se "atrasando" e lendo-a, na frente do marido. E acaba criando uma imensa confusão entre tchecos e húngaros...






sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Conto da semana, de Florencia Abbate

Sem querer polemizar... os argentinos estão com uma safra incrível em literatura e cinema. O conto da semana vai novamente para o sul, e encontra Florencia Abbate (1976). Seu Uma pequena luz integra a antologia Os outros - narrativa argentina contemporânea, organizada por Luis Gusmán e editada pela Iluminuras.

Hoje acordei tão cansada que não consegui me levantar da cama. Para tentar esquecer o pesadelo, me agarrei à leitura do livro que havia deixado no criado-mudo. Fiquei pior, Novalis... Não entendo os poetas que falam da doença como se ela fosse fascinante. estar doente é algo vulgar e bastante repulsivo. O que mais me horroriza é que a vida se torne tão minimalista, que vá se reduzindo a minúcias como não esquecer de tomar os remédios na hora certa, ou estar contente só por ter conseguido caminhar da minha casa até o hospital sem sentir dor ou fadiga.

A narradora descobriu estar com leucemia. Agora está em casa. Horacio não pode visitá-la - a região em que mora está inundada (sim, não é só no Brasil). Abre a janela e se depara com alguém, pendurado de cabeça para baixo, que lhe pergunta se pode entrar. É Agustín, estudante de cinema, e que quisera filmar uma tomada da perspectiva de alguém que se joga do bungy jumping. 

Agustín é completamente alheio a esta situação. É curiosa a analogia que a autora faz - acho que, até agora, todas as pessoas que tiveram a possibilidade de me fazer mal, já fizeram, seja consciente ou inconscientemente. Acredito que agiram assim não por nada pessoal, e sim por alguma coisa semelhante a esse instinto que leva as galinhas - quando percebem que uma delas está ferida - a se atirarem em cima da outra a bicadas. Agustín, claro, parece-lhe ser uma exceção...

Um conto curto, que consegue não ser nem sentimentalista/piegas nem artificialmente seco.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Juan Gelman (1930-2014) - o askenazi que escrevia poemas em ladino

Juan Gelman faleceu dia 14 na Cidade do México. Um dos grandes nomes da poesia argentina, foi militante comunista e mais tarde montonero - o que lhe rendeu pendenga judicial no início da redemocratização em 1983 e um exílio no México. Escritores de diferentes matizes ideológicos como Gabriel Garcia Márquez e Vargas Llosa se manifestaram a seu favor. Seu filho foi assassinado pela ditadura; seu neto somente foi identificado muitos anos depois.

Gelman escreveu também em ladino (!)

O poema abaixo faz parte do volume bilíngue Dibaxu, publicado em 1994 na Argentina e em 2010 no Brasil. Foi retirado do site www.juangelman.net.

X.

não tens porta/ chave/
não tens fechadura/
voas de dia/
voas de noite/
o amado cria o que se amará/
como tu/ chave/
tremendo
na porta do tempo/ 

-

no tenis puarta/ yave/
no tenis sirradura/
volas di nochi/
volas didia/
lu amadu cría lu qui si amará/
como vos/ yave/
timblandu
nila puarta dil tiempu




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Bom Soldado Svejk (II)

O pendant humorístico, genialmente humorístico, é o soldado Svejk, de Hasek: o soldado checo, anti-herói, forçado a servir no exército austríaco contra os irmãos eslavos, ilude os oficiais, fingindo-se de idiota; e como idiota pode dizer, com a cara mais ingênua, verdades subversivas, enquanto pagando a franqueza pela humilhação sem vergonha. É a epopéia picaresca da guerra e uma as grandes obras satíricas da literatura universal, muito lida mas ainda não bastante apreciada.

Otto Maria Carpeaux, História da Literatura Ocidental, volume 4, pág. 2531.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Conto da semana, de David Rose

O primeiro conto da semana do ano é do inglês David Rose (1949), de quem já li Flora. Recebi gentilmente do autor suas Posthumous Stories (Histórias Póstumas), lançadas no ano passado. Inédito por aqui.  Considerado um tesouro escondido do conto inglês pelo The Guardian. Uma coletânea de contos, que aos poucos aparecerão por aqui. Vou tentar traduzir alguns. 

Shuffle aborda uma questão que, se não é exatamente inédita, está longe de ser resolvida: o leitor que sabe que não tem tempo para ler tudo o que deseja. Armado de seu e-reader, o narrador - mais de 50 anos - está angustiado - vamos considerar que eu viva até 83, a idade em que meu pai morreu. Ajustando as variáveis - aumentando o tempo de leitura na aposentadoria mas com uma gradual desaceleração na velocidade, considerando ainda que eu não tenha glaucoma, catarata, Parkinson, etc - e numa média de 3 livros por semana, eu teria um total de 4992. Parece muito. 

Mas considerando que a lista da Penguin Classics está por volta de 1300, e a da Penguin Modern Classics talvez mais; que juntando a lista de Manguel com o cânone de Bloom daria um total de cerca de 1800, e que apesar de já ter lido vários deles, cheguei numa idade em que sinto necessidade de reler alguns livros...

A conclusão nós já sabemos, e é evidente: a missão é absolutamente impossível. Decide, então, selecionar o que ler. Parte do cruzamento das listas de Manguel e Bloom, faz o download de uns 500. Como sabemos, um livro leva a outro, de forma imprevisível, mas o método não funciona para o narrador no e-reader, que parte, então, para uma ordem alfabética, lendo, aleatoriamente, capítulos de A Invenção de Morel, As Viagens de Gulliver, entre outros. Tudo isso enquanto visita prostitutas do leste europeu que, sem dominar direito o inglês, confundem petrol com patrol, sempre temendo uma batida policial.

Uma média de 3 livros por semana. Não tenho nenhuma pretensão neste sentido. A missão é impossível, ainda mais para quem fica procurando por novidades. Este volume de contos de David Rose é uma dessas boas novidades, que nos permitem descobrir um novo nome. Com alguma sorte, poderemos esperar vê-lo editado por aqui.




quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Bom Soldado Svejk (I)

A sra. Müller e Joséf Svejk a caminho do quartel (Josef Lada)

Um dos meus objetivos para 2014. Antecipo-me, pelo Kindle, à edição brasileira que deve sair este ano, pela Alfaguara. Vale a pena tê-lo "em analógico". Mais ainda se acompanhada das ilustrações de Josef Lada, amigo de Hasek.

Jaroslav Hasek (1883-1923) não conseguiu concluir sua obra-prima (como Kafka, aliás, com quem é sempre comparado - um Kafka com humor e escrevendo em tcheco). Sua ideia era fazê-lo em seis livros. Morreu ditando o quarto. Azar o nosso. Trata-se de uma divertidíssima história sobre a Primeira Guerra do ponto de vista de um império decadente e que sabidamente seria derrotado, a partir de Joséf Svejk, na vida civil um negociante de cães roubados - vira-latas vendidos como de pedigree, graças às falsificações de suas "árvores genealógicas" - e que foi dispensado do exército por ser oficialmente declarado idiota.

Alguns episódios que foram tratados pelo autor em seus contos (impagáveis) estão novamente aqui - como o caso da punição da faxineira cujo filho partiu para a Austrália - uma crença satânica, uma vez que Santo Agostinho negou a existência dos antípodas.

Hasek ataca nacionalismos e militarismo. Logo no início, Svejk confunde o arquiduque (assassinado em Sarajevo, estopim do conflito) com um conhecido seu... Em vários momentos, Hasek deixa claro não levar a sério nem o império e muito menos o imperador. É difícil resistir à tentação de enumerar os episódios pelos quais passa o herói. Mas Svejk é eternamente grato pela passagem pelo manicômio, "onde as pessoas têm liberdade para ser o que quiserem". Não surpreende o fato de ter tido problema com os Habsburgos (pelos contos. Neste romance, quando a dinastia já havia sido varrida da face da Terra, o velho Francisco José é chamado de idiota), nazistas e comunistas. O que diz muito (bem) de seu caráter.

Neste primeiro volume - Na Retaguarda - somos apresentados ao nosso herói, que se dispõe a servir ao imperador após o episódio de Sarajevo. Aparentemente, sofre de reumatismo. Seu entusiasmo é tão grande que as autoridades o vêem como um provocador. Svejk se envereda pela burocracia do Império Austro-Húngaro, seus médicos, formulários, exigências. Vale também uma especial atenção ao capelão Otto Katz, judeu que resolveu ser batizado e fazer carreira no exército, bom bebedor de vinho consagrado e jogador compulsivo (ele chegou a apostar - e perder - Svejk numa mesa para o tenente Lukacs). 

Um idiota? Muitos vêem em Svejk um precursor de Forest Gump. Ele quer fazer sempre a coisa certa, mas acaba sempre dando tudo errado, diz. Mas ele se dá bem - atendeu por seis vezes seguidas aos "pedidos" da amante de Lukacs... haja fôlego.