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Os Jardins e o Pandemônio, de David Dephy



Os jardins e o pandemônio
David Dephy
Traduzido (do inglês) por Úmero Cardoso
Lumme Editor, 2013, 360 p.

Eu vou te contar. Vou contar o exato. Como aqueles dias desgraçados foram se sucedendo, eu vou contar; pelo menos enquanto ainda estou vivo e Deus sabe quanto tempo ainda tenho neste mundo. Eu atinei e olhei pro céu. Escutei o barulho de explosões por toda parte, longe e perto. Havia barulho de tiros e helicópteros.

Eu sou Gigga, Sardlishvili Giorgi, da Quarta Infantaria, tenente da Terceira Companhia Charly... E agora, enquanto estou com esses ferimentos fatais, prostrado nesta cama de hospital, posso morrer a qualquer momento e até parece que o tempo reduziu seus passos diante da morte,quem sabe ele não interrompe a caminhada e me deixa falar...



O escritor georgiano David Dephy (1968) já apareceu aqui várias vezes, desde o conto Antes do Fim (BEF 2012), passando por A Cadeira e Palavras, palavras, palavras. Este Os jardins e o pandemônio é seu romance publicado no Brasil.


O lançamento vem a calhar num 2014 que se iniciou com a questão entre Rússia e Ucrânia (na verdade, longe de acabar, conforme o noticiário de hoje). Desde fevereiro se fala de Crimeia, de OTAN, de ex-repúblicas soviéticas... e da Georgia, que em 2008 foi palco de uma guerra aberta com os russos. Duas regiões, 20% do pequeno país de cerca de 4 milhões de habitantes, proclamaram suas independências, somente reconhecidas por Moscou.

Dephy, além de escritor, é conhecido pelo seu posicionamento pró-ocidente - e, consequentemente, anti-Moscou. Participou do conflito de 2008 e mesmo agora esta sua postura lhe rende, eventualmente, alguns problemas em seu próprio país. 

Os jardins e o pandemônio retrata este período. O autor o declara um manifesto. Além da própria experiência - foi líder do movimento de resistência Solidariedade Civil - Dephy se baseou em relatos dos militares de seu país - até a SMS enviados. O romance é narrado por várias vozes, e os capítulos se alternam entre os meses que antecederam o conflito e o fatídico agosto de 2008. Os detalhes da guerra são contados com apuro documental.

E somos apresentados ao comandante da companhia Charlie, tenente George (Gigga) Sardlishvili, apaixonado por Lellyo. Mas, se o conflito em si é o grande acontecimento da narrativa, os capítulos a ele dedicados são bem menores que aqueles anteriores a agosto.

Dephy se concentra nos "jardins". Os jardins trazem uma ideia de paz e harmonia, que estariam dentro de cada georgiano. Além de Gigga, Lellyo e seus irmãos, Pharna e Phido, e seus pais Irakly e Lally, vivem na vila de Ertatsminda. Uma viagem para a América se aproxima - e, ao mesmo tempo, o clima de guerra e uma provável convocação. Enquanto isso, lidam com problemas tão prosaicos como uma vaca separatista - ela teima em fugir para a Abcásia...



Igreja de Ertatsminda - os jardins

A Guerra de Agosto invadiu este mundo, trazendo medo, choque e reflexões. É o pandemônio. À medida em que fica mais provável a eclosão da guerra, a  atmosfera de sonho vai sendo perturbada. Uma estranha visita de ciganos os intriga ainda mais - Melchizedek, Kyiko, Zara e Melissa. Com eles, vem também um grou... uma sensação de inevitabilidade e de tragédia fica no ar. 

O romance de Dephy, escrito em 2010 sobre a guerra de 2008, é tragicamente atual. Numa narrativa de longo fôlego, David Dephy chega de vez ao público brasileiro. 

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