quarta-feira, 31 de julho de 2013

O fim da Bravo!

Depois do Sabático e da Ilustríssima, chegou a hora da Bravo!, em circulação desde 1997. A editora Abril anuncia amanhã o encerramento da publicação. Fará falta. Sua melhor fase durou até 2004, período em que era publicada pela editora D'Avila.

Quais serão as próximas vítimas?

domingo, 28 de julho de 2013

Os Bacharéis de Machado

Deu-lhe a fortuna um emprego suave: não fazer nada. Possui um diploma de bacharel em direito; mas esse diploma nunca lhe serviu; existe guardado no fundo da lata clássica em que o trouxe da Faculdade de São Paulo. De quando em quando Azevedo faz uma visita ao diploma, aliás ganho legitimamente, mas é para não o ver mais senão daí a longo tempo. Não é um diploma, é uma relíquia.

Ernesto Azevedo - Linha Reta e Linha Curva 

O menor livro do mundo

Uma interessante matéria - em inglês - sobre livros em miniaturas. Uma advogada inglesa de 75 anos, conhecida colecionadora, dispara: o que se pode fazer quando se gosta de colecionar coisas e se vive num apartamento de dois quartos? 

A 22-page micro-book, entitled

Conto da semana, de Richard Ford

Durante algum tempo, um ano e meio antes, eu tive um caso amoroso com a esposa de Bolger, Beth Bolger. Por estranho que pareça - porque para nova-iorquinos tudo que se passa fora de Nova York parece estranho e irreal - nosso caso se passou na cidade de St. Louis, aquela desprezível abstração em tijolinhos vermelhos que não é oeste nem meio-oeste, tampouco sul ou norte; é uma cidade perdida no meio de tudo isso, creio eu. Sempre achei interessante o fato de ser ela a cidade da infância de T. S. Eliot, bem como, apenas 85 anos antes disso, o ponto inicial da expansão do país em direção ao oeste. É um lugar, a meu ver, de onde se deve manter sempre distância.


O trecho é do conto do americano Richard Ford - Reunião - do volume Antologia Pan-Americana, organizado por Stéphane Chao e editado pela Record. O narrador encontra Mack Bolger na Grand Central Station. Passa a rememorar o romance - um caso banal de adultério - e o fato de reconhecer que o traído foi forçado a me confrontar. 

Mack, ao vê-lo, dispara - você tem em mente alguma coisa especial para me dizer? Recém-divorciado, espera a chegada do trem de sua filha - que não quer que encontre o desafeto.

E, a partir daí, um tenso diálogo entre amante e traído. Johnny sabe que o que fez foi errado, e parece querer reencontrar seu oponente como que de forma a "resolver" a situação; chama a atenção a tentativa que o narrador faz em tornar mais palatável a sua ideia em criar um evento sem reverberações do passado. Algo que, obviamente, não será fácil...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

1942 - O Brasil e sua guerra quase esquecida, de João Barone

1942: o Brasil e sua guerra quase desconhecida
João Barone
Nova Fronteira, 2013
284 p.

O grande mérito deste comemorado livro do baterista dos Paralamas, João Barone - um estudioso não-acadêmico da Segunda Guerra - é o de trazer ao grande público informações e narrativas em geral encontradas em livros mais, digamos, formais e acadêmicos.

Não se veja nisso uma crítica. Sempre defendi que uma das razões pelas quais lemos pouco da história do Brasil é por não termos um número expressivo de seus divulgadores, e sim, de teses e dissertações que, se mais precisas e analíticas, certamente são de leitura mais restrita. 

Uma série de personagens, mais ou menos conhecidos - alguns, especificamente os praças, apenas conhecidos nos círculos de ex-combatentes - é apresentada. E episódios como o treinamento dos brasileiros:

Os novos equipamentos dos americanos não chegavam em quantidade suficiente para treinar o efetivo da FEB, problema que se estendeu de janeiro até julho de 1944, às vésperas da partida do primeiro escalão para a Itália. O 9º Batalhão de Engenharia, sediado em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, foi obrigado a improvisar no treinamento de prospecção de minas terrestres. Seus integrantes pediram à população da cidade que doasse todas as latas de goiabada disponíveis, as quais seriam utilizadas com o propósito de simular minas enterradas para que fossem localizadas pelos novos detectores eletrônicos e, assim, possibilitassem os treinamentos em campo. p. 112-113.

E este 1942 tem assim seu valor. Inspirado não pelas histórias de seu pai, um dos 25 mil pracinhas, mas justamente pelo que "não ouviu": uma vez que o combatente pouco ou nada falava do conflito, o autor passou a estudar intensamente o período.

Apesar da motivação bastante pessoal, o livro não cai na ideia de que a FEB foi perfeita ou fundamental para a vitória aliada - e evidentemente não fica naquela outra ala, para quem tudo não passou de algo ridiculamente exótico. 


domingo, 21 de julho de 2013

Luz Antiga, de John Banville

Luz Antiga
John Banville
Tradução: Sergio Flaksman
Biblioteca Azul, 2013
336 p

O que me lembro dela, aqui nesses dias pálidos e suaves de passagem do ano? Imagens do passado distante se aglomeram na minha cabeça, e quase nunca sei dizer se são memórias ou invenções. Não que existia muita diferença entre as duas, se é que existe qualquer diferença. Há quem diga que, sem percebermos, vamos inventando tudo à medida que avançamos, com bordados e enfeites, e me inclino a concordar, pois a Senhora Memória é muito dissimulada e sutil. página 12. 


Lançado na FLIP, o novo romance de John Banville (1945), figurinha fácil nas listas anuais de candidatos ao Nobel, trata da memória. Alexander Cleave é um velho ator que narra a sua história - dividida entre um caso com a mãe de seu melhor amigo, há mais de 50 anos, quando era um garoto de 15, e o suicídio de Cass, sua filha. No momento, é convidado para fazer um filme, representando o famoso crítico Axel Vander. O roteiro é de autoria de um sujeito desagradável, J.B. 

JB é especialmente estranho, e cada vez que o encontro acho mais estranho ainda, Está sempre com uma expressão furtiva e ansiosa, e dá sempre a impressão de estar prestes a se afastar, nervoso, mesmo quando está sentado imóvel, somo agora, em sua poltrona alta de braços elevados, com as pernas cruzadas e um copo de conhaque na mão.

O JB que escreve este romance também tem uma fama bem discutível, considerado arrogante em suas entrevistas.

O caso amoroso da juventude moldou a personalidade de Alex, mas ele descobre meio século depois que as coisas não aconteceram da forma como ele imaginava. É a memória pregando peças. Não por acaso, Paul de Man é mencionado diversas vezes - ele que se dedicou à obra de Proust que, com Nabokov e Henry James, é a referência encontrada em todos os textos sobre Banville.

Vander estava com Cass quando ela se matou. No papel da filha, a atriz Dawn Devonport, por quem Axel acaba se apaixonando. Ela também não é o modelo de equilíbrio, o que talvez a tenha aproximado ainda mais de Alex.

Alex e Cass. Eles já apareceram em outros romances de Banville - que pretendo ler em breve. Eclipse e Shroud devem ser lançados em breve por aqui, pela mesma editora Globo - pelo selo Biblioteca Azul.

No entanto, ele é considerado um grande artesão do romance de língua inglesa, e estou curioso para lê-lo no original.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Conto da semana, de Will Self

Will Self at Humber Mouth 2007.jpg

Will Self (William Woodard Self, 1961) é conhecido e editado no Brasil há algum tempo. Ainda não li seus romances, mas este conto iAnna publicado na antologia Best British Short Stories 2012  vale a pena. Pode ser lido, no original em inglês, aqui.

Uma mulher de 20 e poucos anos acha que é um Ipad. Logicamente, ela está internada numa clínica psiquiátrica, e é tratada pelo dr. Mukti. Ele convida o recém-aposentado dr. Busner a conhecê-la. Anna Richards é a paciente, ou iAnna, como acaba sendo conhecida. Quando Busner a vê pela primeira vez, gesticulando, pensa imediatamente em Marcel Marceau e a mímica. Mas Mukti logo lhe explica o que ocorre.

Contar o desfecho é estragar a história, muito bem-humorada e que mostra de forma irônica a invasão dos gadgets em nossas vidas - há até um mal, chamado de i-frenia. Anna é incapaz de travar um contato com o mundo real. Imagine um psiquiatra entrando nas configurações do paciente, que fornece dados extremamente precisos de seus estados mentais...



sexta-feira, 12 de julho de 2013

Conto da semana, de Lydia Davis

Já falamos dos contos de Lydia Davis e de sua passagem por Paraty. Ela também é tradutora - já tendo trabalhado em romances de Flaubert e Proust. Em Kafka prepara o jantar, afirma, fiquei imaginando o que o Kafka sofreria ao tentar preparar uma refeição em casa.

Encho-me de angústia à medida que se aproxima o dia em que minha querida Milena virá jantar. Não consigo sequer escolher o que lhe servir. Não fui ainda capaz de enfrentar a ideia, só consegui revoar em torno dela, como uma mosca em torno da luz, queimando a cabeça.

Tenho medo de ficar só com salada de batata, o que para ela já não é surpresa. Não posso deixar que isso aconteça.

Em todo o conto, fica evidente a ansiedade e a confusão mental em que se encontrava o escritor tcheco. É interessante, também, como que sua vida é repertório para grandes narrativas breves, como este conto de Kirill Kobrin.

Lydia afirma que busca sua ficção das situações mais estranhas. Numa entrevista à Revista Época, faltou sobre a origem deste conto:

Eu estava preparando um jantar francês para amigos uma noite dessas quando pensei: nossa, é muito difícil cozinhar para uma ocasião especial. Como Kafka enfrentaria a situação? Assim comecei “Kafka prepara o jantar”. Mas fui além. Fui atrás da correspondência dele com Milena (sua namorada). As cartas confirmaram o que eu já pensava dele: um sujeito muito estranho, em estado permanente de hesitação. No conto, procurei imitar o próprio estilo de Kafka em suas cartas.

A prosa de Lydia tem muito de Kafka, sobretudo nos contos mais curtos.


 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Na FLIP (3)

A outra mesa a que assistimos foi a 14, reunindo a americana Lydia Davis e o irlandês John Banville, tratando dos limites da prosa. 



A americana se notabilizou por uma prosa curta - às vezes, de poucas linhas e frases, quase aforismas, à moda de Kafka. Sua prosa é considerada bastante experimentalista. Curiosamente, o mediador da mesa pareceu um tanto grosseiro, ao falar que seus textos se parecem "resumos" de histórias. Não fomos os únicos a ter essa opinião, tanto na tenda do telão, onde estávamos, quanto na fila para autógrafos, mas não vi essa mesma impressão em nenhum artigo sobre o evento.
 
Perguntada sobre seu processo criativo, mais especificamente sobre suas fontes de inspiração, respondeu: o que faço é sempre tomar nota das coisas que acontecem comigo; pode ser uma mosca pousada no papel, uma conversa que ouvi na rua. Tenho muitos bloquinhos. Em geral, o conto está esperando. Às vezes, pego os papeizinhos e levo para minha mesa; vou melhorando um pouco.

Penso neles como fragmentos de uma história completa; não de forma negativa, mas começando no meio e também terminando no meio...

A prosa curta é uma arte difícil. Trabalha-se como ourives, usando pouca matéria-prima, que tem de estar no lugar certo. A escolha das palavras é muito mais importante que o próprio enredo; não há tempo para erros. Depois, ela me diria: sim, é muito difícil; tento há mais de quarenta anos e continua difícil.
Também não se furtou a dizer que, conquanto não entenda que o escritor não deva ser panfletário, é inegável que seu texto acaba revelando suas opiniões políticas.

Neste ponto, foi mais audaciosa que Banville, que se resumiu a falar que política e literatura não devem se misturar. A única obrigação da arte é ser arte, e é isso o que eu faço.
 
Banville, por sua vez, sempre bebericando um copo de cachaça, esbanjou ironia e bom humor. Como todo irlandês, não poderia passar sem falar em Beckett e Joyce. Seus romances são mais conhecidos - li Os Infinitos, mas não O Mar, considerado por muitos o seu melhor momento. Aproveitei para comprar Luz Antiga, que foi lançado no Brasil em Paraty, e que em breve estará por aqui na biblioteca.

Banville se apresenta como autor europeu - e não irlandês. Segundo ele, isso lhe causa alguns problemas na Irlanda, o que é fácil de imaginar conhecendo o Brasil. E é como autor europeu que aguardo sua fase como editor e organizador da Best European Fiction a partir de 2014, no lugar de Hemon.

 
 

Na FLIP (2)

A ideia era publicar estes posts ao longo da Festa mas minha conexão 3G, ao invés de honrar seu nome, deu um solene adeus ao meu Ipad. No sábado, então, fomos às mesas 13 e 14. 

A mesa 13 trazia o bósnio Aleksandar Hemon e o francês Laurent Binet, e tratava da conexão entre a ficção e a História. 


A vantagem de Hemon era evidente - afinal, em que pese ele não ser uma vítima direta dos horrores da guerra, já que estava nos EUA quando começou o cerco a Sarajevo, como ele próprio afirma, é claro que sua ficção é marcada indelevelmente pelo conflito. O mesmo se pode dizer dos seus artigos e ensaios reunidos no Livro de Minhas Vidas, que comentei aqui.

A leitura de um trecho deste livro - especificamente, o texto bastante proustiano sobre o borsh - abriu o caminho para os debates. Ele também falou de sua filha, e deixou claro que, como escritor, não pode fugir de temas difíceis. 

Já Binet falou sobre seu HHhH - ler aqui. Seu foco foi o fato de seu excelente livro tratar não apenas de Heydrich e a operação que o assassinou, mas também - e principalmente - a própria pesquisa, a decisão de escrever sobre o tema. Como dito pelo próprio, o romance e o romance do making of. 

Além disso, acabou falando do seu livro sobre a campanha presidencial de François Hollande, da qual participou dos bastidores.

Curiosamente, no momento em que conversavam, os protestos chegaram à Flip, do lado de fora das tendas, com Binet dizendo-se surpreso e empolgado com tudo aquilo. Hemon também, acrescentando a questão de que lado se fica nestes momentos (e, fundamentalmente, quantos "lados" existem), mencionando um político brasileiro que dizia não querer ficar do "lado errado".




segunda-feira, 8 de julho de 2013

Na FLIP (1)


Depois de muitos anos falando em um dia assistir à Festa Literária Internacional de Paraty, conseguimos colocar os planos em prática.
 
Chegamos no final da tarde de sexta, diretamente para a Pousada Águas de Paraty, um refúgio à beira do rio, fora do centro histórico - mas nada que uma caminhada tranquila por cerca de 900 metros não resolvesse.
 
 
 
 
E que atrai muitos e ilustres hóspedes - estes aqui sempre nos visitavam no café da manhã.
 
 
 
 
E ainda chegamos à FLIP a tempo de ouvir a Cleonice Berardinelli, que dividia a mesa com a Maria Bethania e roubou a cena.
 
 


Na última pergunta, sobre como Fernando Pessoa entrou em sua vida, a imortal de 96 anos contou uma longa história, falou sobre seus professores e, quando todos já achavam que ela tinha esquecido a pergunta, eis que concluiu seu raciocínio, sob aplausos entusiasmados. E aproveitei, claro, para adquirir seus livros Cinco Séculos de Sonetos Portugueses e uma edição de seus Estudos Camonianos.