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Navi in bottiglia, de Gabriele Romagnoli

Navi in bottiglia Gabriele Romagnoli Esse livro reúne 101 pequenos contos (em geral, uma página cada - trinta linhas) de Gabriele Romagnoli (Bologna, 1960), em geral situações aparentemente comuns mas que são levadas a um final abrupto e mesmo estranho. O primeiro livro italiano que leio no original (daí para Dante vai demorar um pouco...).  Alguns contos são realmente muito interessantes: Pepe, stazione dopo stazione , em que o personagem, passageiro em um trem, vai se desfazendo em cada estação, até se tornar uma ideia (esqueça a besteira que ouviu de um político brasileiro na última semana); Il sogno del mare de Ian , onde somos apresentados a um sonho recorrente; ou   Stupro e vendetta. Um dos melhores é Occhi di Paola (Olhos de Paola), que numa tradução apressada, por alguém que ainda está nos níveis intermediários da língua, seria mais ou menos assim: Não consegue dormir. Algo o atormenta. Mas não consegue entender o quê. O fato é que há du...

O livro negro, de Orhan Pamuk

  O livro negro Ohran Pamuk Companhia das Letras Trad. Sergio Flaksman 2008, 515 p. Não sei se meus leitores perceberam que as águas do Bósforo estão secando. Acho que não. Enquanto nos entretemos todos com a matança desenfreada que vem tomando conta das nossas ruas, febris e entusiasmados como crianças que assistem a uma queima de fogos, quem teria tempo para ler ou descobrir o que acontece pelo mundo? Já é difícil acompanhar nossos cronistas - lemos  seus textos enquanto nos acotovelamos em nossas estações das barcas, enquanto nos aglomeramos nos pontos de ônibus repletos, enquanto bocejamos sentados nos bancos dos táxis coletivos com as letras trêmulas diante dos nossos olhos. Encontrei a notícia de que lhes falo numa revista francesa de geologia. Lançado em 1990 e publicado no Brasil em 2008, só agora cheguei a esse O livro negro, do Pamuk.  O que aconteceu com Rüya (Sonho), esposa de Galip? O jovem advogado volta para casa em Istanbul e não enco...

A castle in Romagna, de Igor Stiks

  Li um conto de Igor Stiks (Sarajevo, 1977) na antologia Best European Fiction 2010, da Dalkey Archive Press, editada pelo Aleksandar Hemon. No conto No mercado de Sarajevo, a história de pessoas, em meio à guerra de 1995, vendendo suas bibliotecas pessoais a preço de banana no mercado da cidade - o que aconteceu com aquele seu livro tão especial?  Um belo conto, que me levou a este A castle in Romagna, achado em inglês na Amazon(Kindle). Duas narrativas são apresentadas. Em 1995, um turista bósnio, em companhia de mais duas mulheres, visita o Castello Mardi, em Rimini. Está interessado na história de Enzo Strecci, "um gigante da literatura renascentista", que lá passou seus últimos momentos esperando por sua morte.  Os três estão entrando nas ruínas. Lá, um frei, especialista na história do Castello e de Strecci, identifica o idioma e, fascinado por encontrar um bósnio, procura detê-lo. Suas companheiras acabam por entrar nas ruínas, e o frei, apó...

Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa

  Pantaleão e as visitadoras Mario Vargas Llosa Alfaguara Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman 246 p.  Publicado em 1973, é um dos mais conhecidos e elogiados romances de Mario Vargas Llosa. Pantaleão Pantoja é um oficial com um futuro brilhante pela frente no Exército, e recebe a missão (secreta) de organizar o Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteiras e Afins, sob a burocrática sigla SVGPFA. Uma operação para baixar a temperatura da tropa: um serviço de prostitutas que devem saciar os soldados solitários e perdidos em serviço no interior da selva amazônica, e que se tornaram uma ameaça para as mulheres e animais da região. Diligentemente, Pantaleão, que não fuma, não bebe, jamais traiu sua mulher - um sujeito que não cede a vícios e tentações - faz um estudo de mercado completo. Sua planilha merecia ser estudada nos MBA: quantifica o público alvo, estabelece o número de visitadoras a contratar, o tempo de cada "visita"....

A história dos judeus, de Simon Schama

Passei a acompanhar Simon Schama assistindo aos seus documentários sobre arte, que começaram a ser transmitidos no incrível canal da TV a cabo Arte1. E, conhecendo o autor, fui direto ao primeiro volume da sua História dos Judeus , que saiu por aqui pela Companhia das Letras. O título original é Story, e não History of the Jews. A ideia é mesmo a de um contador de histórias, muito mais que o trabalho de um historiador.  Assim, o livro começa com uma carta escrita por um pai aflito ao seu filho, um mercenário por volta de 475 a.C. – você está sendo pago? Está comendo direito? – que integrava a tropa judaica, nas ilhas Elefantinas, último posto da civilização à beira do deserto da Núbia. Schama mostra que era possível ser judeu e egípcio. Como, depois, por séculos, seria perfeitamente natural ser judeu e árabe. Até que Maomé aparece e mais uma religião monoteísta aparece. Das ilhas Elefantinas até a expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, Schama mostra a v...

Aharon Appelfeld (1932-2018)

Ontem, dia 4, morreu o escritor israelense Aharon Appelfeld, aos 85 anos. Dele, li Badenheim 1939, um dos melhores livros sobre o Holocausto.     Appelfeld nasceu em Czernowitz, então parte da Romênia e hoje território ucraniano. Sobreviveu ao Holocausto escondendo-se nas florestas da Romênia, trabalhou por alguns meses para o Exército Vermelho, que deixou em 1945 e, no ano seguinte, aos 14 anos, emigrou para a Palestina - segundo ele, não havia lugar para órfãos na Europa. Recusava a classificação de "escritor do Holocausto", por entender que não se pode ser um "escritor da morte". Foi professor de letras na Universidade Ben Gurion.  Era grande amigo de Philip Roth (há uma conversa entre ambos no livro Entre nós , do escritor americano), que nele se inspirou para escrever seu melhor romance, Operação Shylock .