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Ostend: Stefan Zweig, Joseph Roth, and the summer before the dark, de Volker Weidermann

Lançado em 2016 e acessível pelo Kindle, este pequeno livro (176 páginas) do alemão Volker Weidermann traz uma série de pequenas passagens da vida intelectual dos anos 30.  Em 1936, às vésperas da catástrofe, a pequena cidade belga de Ostende atrai inúmeros escritores, artistas e intelectuais - muitos deles judeus - que, em sua maioria, logo seria tragada pela Segunda Guerra. Lá estavam Klaus Mann, que lançou seu romance Mephisto, Arthur Koestler, Ernst Toller, Irmgard Keun, entre outros. Mas o foco do livro de Weidermann é a amizade entre Joseph Roth, de Brody, nos confins do finado império habsburgo, e imerso na cultura iídish e no álcool, e o austríaco Stefan Zweig, cosmopolita, assimilado e ocidental escritor, lido por milhões, aclamado por onde passava. Em 1936, no entanto, já não podia ser lido na Alemanha. Zweig desaprovava a propensão à bebida de Roth, mas financiou, por muito tempo, o amigo, que vivia sem dinheiro e com fome. O sucesso de seus livros era todo d...

Diplomacia, de Volker Schlöndorff (2014)

Baseado na peça de Cyril Gély. Mesclando algumas imagens da época, conta a história do encontro entre o general alemão Dietrich von Choltitz (interpretado por Niels Arestrup) e o cônsul sueco Raoul Nordling (André Dussolier). Os alemães, já em fuga, pretendem destruir Paris antes da chegada dos americanos que libertariam a cidade em poucos dias. Vemos a descrição do plano, que levaria a explosões e inundações, que resultariam na morte de mais de 2 milhões de habitantes. O plano, de fato, existiu, bem como os personagens, cujo encontro, no entanto, é fictício. O cônsul sueco, de origem francesa, tenta convencer o general a desobedecer Hitler. O Führer desistiu de preservar a cidade após o bombardeio de Berlim. A trama se passa durante a manhã de 25 de agosto de 1944. O general, no início, reitera sua lealdade - e menciona episódio envolvendo judeus. Mas acaba cedendo a Nordling (não dá para chamar isso de spoiler - sabemos que a cidade não foi destruída...). Humanismo ou a...

Happy Bloomsday

Sétimo Bloomsday deste blog, sétima promessa de ler Ulysses. Portanto, já não tem lá muita credibilidade.  Mas agora, com o guia do Caetano Galindo, autor da última tradução brasileira do livro (nada mau para um país como o nosso se dar ao luxo de ter três versões do Ulysses ), quem sabe a coisa vai... em homenagem ao 16/06, vou lá me arriscar, ao menos, nessa visita guiada. A leitura da Odisseia fazia, até certo ponto, parte do projeto... Quanto ao Bloomsday, e esperando poder escrever bastante a respeito em 16/06/2018, veja a  página do The James Joyce Centre.

O que cantavam as sereias?

Dúvida cruel, que sempre me perseguiu. Pois descubro  nesta entrevista com Francisco Luís Parreira  não ser o único. Ele acaba de traduzir Gilgamesh e acaba falando do assunto - no caso, quando lhe perguntam sobre a tradução de Frederico Lourenço. Aqui, um trecho: Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê? Não creio que uma edição do   Gilgameš   pudesse caber nessa tendência. Seria quase afrontoso publicar o poema babilónico sem dar resposta às perplexidades ou apetências – pelo menos às mais previsíveis – que a sua leitura está destinada a suscitar, nomeadamente em vista do seu estado de conservação, dos aspectos interpretativos que são internos às possibilidades da leitura contemporânea, e da situação literária e produtiva de que emana, que não podia ser mais remota. Para a   Odisseia , por ...

O túmulo de Lenin, de David Remnick

Na esteira do centenário da Revolução Russa, a Companhia das Letras lança o livro do jornalista americano David Remnick, hoje na New Yorker e testemunho dos últimos dias do império soviético como correspondente na Rússia do Washington Post. O livro foi publicado nos EUA em 1993, ainda sem Putin no radar e com Yeltsin como presidente. Por outro lado, lê-lo alguns meses depois de ter me dedicado ao Fim do Homem Soviético, da Nobel Svetlana Aleksievitch não prejudica em nada, pelo contrário: permite uma visão bastante ampla. São visões complementares. Aleksievitch se dedica, principalmente, às pessoas comuns, escrevendo, ainda, na condição de uma cidadão soviética/bielorrussa, Já Remnick, correspondente internacional, não apenas tinha acesso aos grandes nomes como um senso de urgência em conseguir entrevistas. No início do livro, por exemplo, conta das tentativas para entrevistar Lasar Kaganovich. O mais interessante é o fato de o autor ter vivido a abertura do regime - o...

Odisseia

Quantas Odisséias contém a Odisséia? - pergunta Ítalo Calvino ( Por que ler os clássicos , Companhia das Letras). Acabo de ler a tradução de Frederico Lourenço da Odisséia (Companhia das Letras/Penguin). Minha versão da Ilíada é a de Odorico Mendes, o que praticamente faz com que tenha lido dois livros de dois autores diferentes. Lourenço estará em Paraty para a FLIP deste ano.  Manguel fala que os ingleses têm a sorte de dispor de duas grandes versões: a de Alexander Pope e a de Robert Fagles, ainda que reconheça a existência de numerosos desastres. E, em se tratando de um texto (?) em grego antigo, mais do que nunca é possível dizer que não lemos Homero, mas traduções de Homero. Aliás, se você estiver disposto a uma leitura, digamos, bastante completa dos dois clássicos, o livro de Manguel, publicado no Brasil pela Zahar - Ilíada e Odisséia de Homero: uma biografia - é uma excelente introdução ao mundo homérico: dificilmente você irá encontrar livro em português tão complet...

O nó górdio de Frederico Lourenço

Neste  artigo de José Pacheco Pereira, no Público , um elogio a Frederico Lourenço, tradutor da edição da Odisséia da Companhia das Letras/Penguin, e que acaba de receber o Prêmio Pessoa. E um lamento pela decadência da cultura clássica na Europa (ainda que Churchill já tivesse percebido isso há mais de cinquenta anos): O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a...

Stork Mountain, de Miroslav Penkov

Autor do excelente livro de contos East of the West, o búlgaro Miroslav Penkov (1982) lançou em 2016 o romance Stork Mountain , que consegui ler pelo Kindle.  Um jovem búlgaro que emigrou com sua família para os EUA retorna ao seu país, para reencontrar seu estranho avô, na região de Strandja, na região do Mar Negro, próxima à fronteira com a Turquia. (Observação: o autor, nascido em 1982, foi para os EUA em 1991, dois anos após a queda do regime comunista no país). O jovem, apesar de bastante popular na escola, se considera um estranho, um estudante fracassado e sem dinheiro na América. Decide então obter algum dinheiro vendendo sua parte das terras da família. O avô, no entanto, já vendeu tudo para um projeto de parque eólico - o que ameaça a existência das cegonhas (storks) do local - uma ave migratória. Associadas a bebês, essas cegonhas despejam mistérios e segredos. Como o avô acabou parando por ali? Os comunistas chegaram ao poder em 1944 e confiscaram proprieda...

O mapa-mundi da literatura

De acordo com o The Independent.