sábado, 10 de junho de 2017

O túmulo de Lenin, de David Remnick


Na esteira do centenário da Revolução Russa, a Companhia das Letras lança o livro do jornalista americano David Remnick, hoje na New Yorker e testemunho dos últimos dias do império soviético como correspondente na Rússia do Washington Post.

O livro foi publicado nos EUA em 1993, ainda sem Putin no radar e com Yeltsin como presidente. Por outro lado, lê-lo alguns meses depois de ter me dedicado ao Fim do Homem Soviético, da Nobel Svetlana Aleksievitch não prejudica em nada, pelo contrário: permite uma visão bastante ampla. São visões complementares. Aleksievitch se dedica, principalmente, às pessoas comuns, escrevendo, ainda, na condição de uma cidadão soviética/bielorrussa,

Já Remnick, correspondente internacional, não apenas tinha acesso aos grandes nomes como um senso de urgência em conseguir entrevistas. No início do livro, por exemplo, conta das tentativas para entrevistar Lasar Kaganovich.

O mais interessante é o fato de o autor ter vivido a abertura do regime - os arquivos que eram abertos, as pessoas que começaram a contar suas histórias, as prisões e os gulags - se você já leu os contos de Kolimá, de Varlan Chálamov, vai certamente se interessar; a constatação de que Lênin só não foi pior que Stalin por ter morrido relativamente cedo; a libertação de Sakarov (alguém com menos de 45 anos ainda se lembra dele?); a volta de Soljenitzin (idem) etc.

Gorbachov, por outro lado, não é merecedor de admiração por parte do autor, que definitivamente não se contaminou com o clima que atingiu boa parte do ocidente na época - "Gorby" quase virou popstar. Remnick reconhece sua importância histórica e os primeiros anos do seu governo, mas apresenta-nos um sujeito dúbio, rancoroso, vaidoso e de uma autoconfiança que quase o derrubou. Nitidamente, Yeltsin sai bem melhor depois dessas mais de 700 páginas.

Seu papel no massacre na Lituânia em 1991 é exposto sem condescendência, assim como suas tentativas de compor ("controlar") a ala mais conservadora do PCUS - uma jogada fracassada, como ficaria claro em agosto de 1991.

E como Gorbachov conseguiu fazer o que fez? Na verdade, diz um dos personagens, todos, desde Kruschev e indo até Andropov, começavam com um discurso mais radical, que era devidamente domesticado pelo sistema nos anos subsequentes. O partido tolerava esse discurso, achava-o saudável e até mesmo necessário. Mas, a partir de 1985, a coisa realmente degringolou. O sistema econômico já estava completamente inviabilizado.

Com relação à tentativa de golpe de agosto de 1991, a narrativa é quase um "em tempo real" dos acontecimentos. Um parágrafo resume toda a história:

Os conspiradores haviam desencadeado o putsch para salvar o Império soviético e suas posições nele. Seu fracasso foi o golpe de misericórdão. Nenhum movimento de independência no Báltico, nenhum liberal russo, ninguém até então tinha feito tanto para levar a coisa toda a ruir. E agora Yazov, pelo menos, parecia saber disso. "Tudo está claro agora", disse ele ao ser colocando num camburão com barras na janela. "Sou um velho idiota mesmo. Fiz uma grande cagada".

Agora não havia mais volta. E o autor mostra como a transição foi abrupta: Moscou, agora, pouco mais de um anos depois do golpe, tinha se transformado numa fantasmagoria, um mundo pós-comunista pintado por Hieronymus Bosch. Os moscovitas mais jovens, em especial, pareciam determinados a mergulhar de cabeça num mundo vulgar, bizarro e aprazível de capitalismo primitivo. Numa virada típica da história russa, a nova economia tinha saltado de um estágio de desenvolvimento ao estágio seguinte, passando rapidamente da completa carência para a permissividade, nunca parando para resolver os problemas prosaicos de subsistência, estrutura e propriedade.

Talvez a melhor descrição da mudança vivida pelos russos nos anos 1990.

O livro rendeu a Remnick, com justiça, o Pulitzer de 1994. Imperdível.




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