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Postagens

A leitora e a escritora

Diretamente do 2º Salão do Livro Infanto-Juvenil, em Belo Horizonte, na Serraria Souza Pinto, o encontro inesquecível entre uma leitora e sua escritora favorita, Paula Pimenta. E assim, aos poucos, vai surgindo uma nova Biblioteca...

Notas sobre o Brasil

A situação é mais compreensível se levarmos em conta que na América do Sul toda pirâmide começa a ser construída pela ponte. Quando em outro lugar se constrói uma cidade, começa-se pelas ferrovias e estradas. Depois vêm os encanamentos, a luz, os esgotos... A seguir as casas, o hospital e os edifícios públicos... por fim, talvez se pense na igreja. A construção da nova capital, Brasília, começou pela estrutura da catedral, e por enquanto não há ferrovia, e também carro é difícil chegar lá. Em outros lugares fabricam-se bicicletas, depois motocicletas, locomotivas... quem sabe um dia reatores nucleares. Aqui existe reator nuclear, mas não há fábrica de bicicletas. Assim, existe a Academia dos Imortais, todos os quarenta homens ilustres têm um fraque verde bordado em ouro e um sabre enfeitado, mas a escola primária tem problemas, porque não há professores. Não há professores em número suficiente, porque não existe escola de pedagogia, e não se podem criar escolas de pedagogia porque não...

Conto da semana, de E. T. A. Hoffmann

O Homem de Areia é o conto mais conhecido do alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1766-1822). É, seguramente, um dos meus contos favoritos. Mas também, com muita frequência, papai nos dava livros ilustrados para folhear e punha-se muito calado e imóvel na poltrona, soltando baforadas tão densas que todos acabávamos envoltos em uma neblina de fumaça. Nessas noites, mamãe ficava muito triste e, assim que o relógio dava as nove horas, dizia: "Vamos, meninos! Para a cama! Par a a cama! O Homem de Areia está chegando, eu sei". Nessas ocasiões, eu sempre ouvia barulho lá fora, passos lentos e pesados subindo a escada: só podia ser o Homem de Areia. Certa vez, aquelas pisadas abafadas me assustaram muito; quando estávamos indo para o quarto, eu peguntei: "Mamãe! Como é esse Homem de Areia tão malvado, que não nos deixa ficar com o papai? Como é ele, afinal?" . E ela respondeu: "O Homem  de Areia não existe, meu filho. Quando digo que ele chegou, sig...

Dia 4 na Revista Samizdat

Depois de uma ausência em julho, marcamos presença neste dia 4 de agosto, com o conto  Elias.

Hannah Arendt

Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta, finalmente estreou na cidade.  O filme se concentra na cobertura do julgamento de Eichmann, em 1961, quando Arendt (Barbara Sukowa) já vivia nos Estados Unidos com o marido Heinrich (Axel Milberg) e vai a Israel cobrir o evento para a revista New Yorker. Na primeira cena, à noite, assiste-se à prisão de Eichmann pelos agentes do Mossad. Os artigos geraram imensa polêmica. Deles saiu a expressão "banalidade do mal", hoje igualmente banalizada. Li Eichmann em Jerusalém há mais de quinze anos, e logo depois, Primo Levi - É isto um homem? As relações - evidentemente involuntárias - entre ambos é evidente. A história com Heidegger (Klaus Pohl)  aparece de forma superficial, e talvez seja este o único senão do filme. A seu favor, pode-se dizer que não era este o foco da história, mas a polêmica em torno das ideias de Arendt - Eichmann não era um monstro, mas um burocrata; que muitos líderes judeus tiveram participação ...

Conto da semana, de Antônio Prata

Então Deus, cansado dos meus pecados, resolveu punir-me: enviou uma obra ao apartamento de cima. Faz alguns dias que salto da cama, apavorado, sob a orquestra de marretadas, crente que é a célula paulistana da Al-Qaeda que acaba de entrar em atividade. Deus, ao que parece, mandou trocarem o piso. Inteirinho. Este é o início do conto Marretadas, de Antônio Prata (1977). A  Words Without Borders  dedica sua edição de agosto ao Brasil e este conto - melhor, esta crônica - pode ser lido  aqui.  O autor acerta em cheio em sua constatação de que o mundo é injusto; não se pode ouvir Wagner depois das dez da noite, mas nada impede que seu vizinho destrua seu apartamento a marretadas a partir das oito da manhã. Como vizinho de um prédio de vinte e poucos andares que acaba de ser construído, sei bem o que é isso... No link acima, aparecem ainda as crônicas Plano, Diga trinta e três e A gostosa . Além de Prata, o site traz Rodrigo de Souza Leão, Carol Bensimon e Lou...

O fim da Bravo!

Depois do Sabático e   da Ilustríssima, chegou a hora da Bravo!, em circulação desde 1997. A editora Abril anuncia amanhã o encerramento da publicação. Fará falta. Sua melhor fase durou até 2004, período em que era publicada pela editora D'Avila. Quais serão as próximas vítimas?

Os Bacharéis de Machado

Deu-lhe a fortuna um emprego suave: não fazer nada. Possui um diploma de bacharel em direito; mas esse diploma nunca lhe serviu; existe guardado no fundo da lata clássica em que o trouxe da Faculdade de São Paulo. De quando em quando Azevedo faz uma visita ao diploma, aliás ganho legitimamente, mas é para não o ver mais senão daí a longo tempo. Não é um diploma, é uma relíquia. Ernesto Azevedo - Linha Reta e Linha Curva 

O menor livro do mundo

Uma interessante matéria - em inglês - sobre livros em miniaturas.  Uma advogada inglesa de 75 anos, conhecida colecionadora, dispara: o que se pode fazer quando se gosta de colecionar coisas e se vive num apartamento de dois quartos? 

Conto da semana, de Richard Ford

Durante algum tempo, um ano e meio antes, eu tive um caso amoroso com a esposa de Bolger, Beth Bolger. Por estranho que pareça - porque para nova-iorquinos tudo que se passa fora de Nova York parece estranho e irreal - nosso caso se passou na cidade de St. Louis, aquela desprezível abstração em tijolinhos vermelhos que não é oeste nem meio-oeste, tampouco sul ou norte; é uma cidade perdida no meio de tudo isso, creio eu. Sempre achei interessante o fato de ser ela a cidade da infância de T. S. Eliot, bem como, apenas 85 anos antes disso, o ponto inicial da expansão do país em direção ao oeste. É um lugar, a meu ver, de onde se deve manter sempre distância. O trecho é do conto do americano Richard Ford - Reunião - do volume Antologia Pan-Americana, organizado por Stéphane Chao e editado pela Record. O narrador encontra Mack Bolger na Grand Central Station. Passa a rememorar o romance - um caso banal de adultério - e o fato de reconhecer que o traído foi forçado a me confrontar....