segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Desonra, de J. M. Coetzee


Desonra
J. M. Coetzee
Tradução: José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 2000
248p.
David Lurie é um bôer perdido na África. Como nos conta o próprio narrador, Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada valem na África negra. Está desamparado, um alvo fácil. A África do Sul de Desonra é pós-apartheid (o livro é de 1999, menos de dez anos após o fim do regime). 

Um mundo estranho para David, professor de literatura, nada empolgado na Universidade (que já não se interessa pelo seu cultuado Byron. Sua vida é bem, digamos, metódica, o que inclui seus encontros com uma prostituta, Soraya. 

Na universidade, envolve-se com uma aluna, Melanie. Força bastante a barra, consegue-a mas o envolvimento (consentido) não escapa aos pais da moça e o colegiado. A partir daí, David é tragado pelo momento em que vivemos: é chamado a se arrepender publicamente, mas o faz de forma a não parecer "verdadeiramente arrependido" e a Inquisição universitária não o perdoa. 

Impossível não se lembrar de Coleman Silk, infeliz professor universitário que se refere a um aluno faltoso como faltoso, mas é interpretado como racista. O escândalo o leva a deixar a universidade (e a perder a mulher, que morre de desgosto). E a máquina inquisitorial do politicamente correto irá passar seu rolo compressor.  A marca humana, de Philip Roth aborda um momento peculiar da história dos EUA: o quase impeachment de Clinton, durante o caso Monica Levinsky (a marca humana, aliás, foi deixada por ele no vestido dela...). Roth e Coetzee mostram a condenação de professores pelas universidades e o seu degredo da vida intelectual urbana.

Afastado da universidade, resolve morar com a filha Lucy, que vive numa fazenda. Não se dá muito bem com o pai, além de ser homossexual. David não se adapta àquela vida. É o colonizador branco (sua filha sente a culpa dos que a antecederam). Petrus é o negro colonizado - a quem se espera que David peça desculpas por tudo. É a classe C da África do Sul pós-apartheid. 

Isso parece ficar mais evidente no episódio em que três negros atacam pai e filha. A relutância da filha, que, afinal, foi estuprada, em denunciá-los exaspera por completo David. E aí se percebe novamente a questão da culpa: Um dos bandidos, Pollux, é conhecido de Petrus, que lhe garante proteção.

Os professores não se conformam com a falta de interesse de David em se defender na Universidade - ela teria o direito de exigir o seu arrependimento? David também não aceita a resignação de Lucy após o incidente. Ele não consegue sobreviver - não se adapta ao mundo intelectual universitário mas também não consegue se ajustar ao mundo em que o homem branco já não tem qualquer papel relevante, no interior do país. Quem pode garantir a segurança de Lucy naquele deserto é justamente Petrus, e não sabemos o que é pior: a proposta deste, a aceitação (resignação) de Lucy ou a lógica por trás de toda essa argumentação...

Um pária; um fracasso como homem, como professor, como pai e como cidadão da nova África. Resta-lhe então viver com Bev (com quem tem outro caso) dedicando-se a sacrificar cães. Um grande fracassado. Uma grande desonra.

2 comentários:

  1. Por indicacao da biblioteca, comecei a ler hoje

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  2. Nunca tinha lido o autor. Foi uma descoberta (graças a Biblioteca) e estamos lendo sem-parar. Inclusive numa boa tradução. E.

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