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O pecado do padre Ondrej, de Jaroslav Hasek

Tradução a partir da versão inglesa: Padre Ondrej estava agora em seu décimo oitavo ano no Purgatório e ainda não entendia o porquê. Seu caso ainda não havia alcançado a sentença final, embora a pressão das almas chegando ao Purgatório tenha aliviado nos últimos dois anos. A maioria das almas hoje em dia faz apenas uma rápida parada por lá e é então conduzida, rangendo os dentes, para o Inferno. De vez em quando, ele criava coragem para perguntar a um dos Anjos da Guarda: “Por que os senhores continuam me prendendo aqui? ” Eles encolhiam suas asas e diziam: “Seu caso ainda não foi decidido, Senhor Reverendo.” Essas palavras o deixavam desconfortável, como apenas uma alma no Purgatório poderia sentir, pois não lhe constava ter cometido qualquer pecado. Ele era um exemplo de manual de um padre venerável. Durante sua estadia na Terra, encaixou-se na descrição em cada particular: os longos cabelos brancos, a voz trêmula de um ancião, a pureza moral, Primeira Classe. ...

Enclausurado, de Ian McEwan

Um ano com lançamento de Ian McEwan é sempre um bom ano. Enclausurado tem como narrador um feto.  Se Machado de Assis criou um autor defunto, McEwan tratou de nos apresentar um autor nascituro, ainda inominado. Poderia perfeitamente se chamar Hamlet, já que McEwan parece trazer para a Londres de hoje a história de Shakespeare. Gertrude (Trudy) e Claude planejam o assassinato do marido/irmão, John Cairncross, para se apoderarem do imóvel da família, uma velha casa em ruínas mas localizada num ponto da cidade que a faz valer alguns milhões. O Hamlet intra-uterino de McEwan é consciente. É como se, de dentro de sua mãe, dispusesse de uma boa biblioteca ou, vá lá, acesso ao Google: ele reconhece ser um felizardo, já que, de todas as opções possíveis, será um europeu ocidental. Claro, nem tudo é perfeito: não terá os benefícios sociais nem o poderoso fundo soberano de um norueguês, nem nascerá na ensolarada decadência italiana (e sua culinária) ou na França, com seu a...

Bob Dylan

Estava em Roma na semana passada quando foi anunciado o nome de Bob Dylan para o Nobel de Literatura de 2016, pela Academia Sueca. Não é correto dizer que foi uma grande surpresa pois, afinal, seu nome já apareceu como favorito na lista da Ladbrokes há alguns anos. Desta vez, no entanto, não aparecia entre os 10 mais apostados (ainda que, na madrugada de 12 para 13 de outubro, seu nome tenha despontado para quarto lugar - deve haver algum vazamento nesse negócio). Martin Amis, Michael Cunningham e Salman Rushdie foram os primeiros - que eu saiba - a elogiar a decisão. Dylan é um grande músico e, como tal, um grande poeta, dizem. Em Tangled Up in Blue, por exemplo: Then she opened up a book of poems   And handed it to me   Written by an Italian poet From the thirteenth century Will Self, por outro lado, disse que Dylan terá a grande chance de imitar Sartre e, felizmente, recusar o prêmio... O que dizer? Todos os leitores do mundo parecem ter o pod...

Bellow e Roth

Às vésperas do anúncio do Nobel de Literatura de 2016, um excelente texto de Isabel Lucas, no caderno Ipsilon, que pode ser lido aqui. Um trecho:   Philip Roth e Saul Bellow conheceram-se em Chicago em 1956. Roth era estudante na Universidade de Chicago, e Bellow "um dos seus entusiasmos literários", como o definiu em  Os Factos. Foi em Chicago que leu  Augie March  e viu um exemplo do génio de Bellow, para ele “o grande libertador do tradicional confinamento da literatura judaica”, lê-se em Roth Unbound . Entre outras coisas, foi também evidente que “a experiência judaica podia ser parte da literatura americana”. Zachary Leader, autor da biografia  The Life of Saul Bellow , cuja primeira parte foi publicada em 2015 (sem tradução em Portugal), referiu agora ao PÚBLICO que para Bellow era claro que como escritor “estava em melhor posição enquanto judeu na América do que um judeu na Europa”. Porquê esta afirmação? “Apesar dos alertas e das ...

Arturo Pérez-Reverte

Para quem pensa que algumas coisas que se passam são exclusividades destas terras... Trecho da entrevista de Artur Pérez-Reverte: A boa e velha Europa dos direitos do homem, que iluminou o mundo, essa Europa que nasce na Bíblia, no Talmude, no islão, em Homero e em Dante, em Virgílio, Camões, Cervantes, Voltaire e Rosseau, na Enciclopédia e na Revolução Francesa, essa Europa foi condenada à morte. E isso é um problema de educação. Estamos a criar gerações de jovens que carecem de mecanismos culturais e históricos que lhes permitam saber quem são. Estamos a criar órfãos culturais. Todo o sistema educativo europeu está feito para esmagar a inteligência. Para a igualar à mediocridade. Mas alguma vez foi diferente? Antes era diferente, sim. Antes, o miúdo brilhante era apoiado, potenciado, porque sabiam que dali sairia a elite do futuro. Aqueles que poderiam iluminar os que o não são. Mas isso não era característica de um ensino mais elitista? Talvez o nível mé...

Autobiografia de Nicolae Ceausescu, de Andrei Ujica

Vinte e cinco anos da História romena. O blog tem uma queda por filmes sobre a queda do bloco soviético. Este é uma colagem de filmes oficiais , desde o funeral de Gheorghe Gheoghiu-Dej, em 1965 - subiu ao poder com o fim da Segunda Guerra -, até a execução de Nicolau e Elena, no Natal de 1989.  Para quem acompanhou, pela TV de então e pelas revistas americanas (entre 1988 e 1989 a Time, a cada número, trazia uma grande reportagem sobre o país que havia derrubado o comunismo naquela semana).   Ceausescu , no início, foi visto como um lí der sofisticado e mo dernizante e que, como Tito, buscava independência de Moscou. No final, foi talvez o mais ridículo e sanguinário ditador entre os tantos da região. O culto à sua personali dade atingiu níveis que hoje nos parecem caricatos, nos remetendo à Coréia do Norte. A partir das 2 horas de filme, a situação de Ceausescu começa a mudar, e surgem os primeiros questionamentos públicos. M eia-hora depois, aparece Gorb...

Apostas para o Nobel 2016

Setembro é o mês em que tradicionalmente o blog especula o que especulam os apostadores da Ladbrokes a respeito do Nobel de Literatura. Até o momento, temos: 1. Murakami (sempre ele) 2. Ngugi Wa Thiong'o (nigeriano) 3. Roth, (Philip ) 4. Joyce Carol Oate s, tamb ém american a 5. Ismail Kadare, albanês 6. Jon Fosse (Noruega) 7. Adonis ( poeta sírio) 8. Amós Oz (is raelense) 9. Peter Nadas (húngaro) 10. Peter Handke (austríaco) Lobo Antunes é o escritor de língua portuguesa mais bem cotado, apesar de achar que o próximo Nobel para o idioma irá para Mia Couto. Essa l ista, a essa altura do ano, a menos de um mês para o anúncio, deve ser levada a sério, pois a probab ilidade de o escolh ido estar aqui é muito grande. Svetlana Aleksijevic estava em primeiro em 20 15; Alice Munro em 6º em 2013 e Mo Yan era o 4 º em 2012. S ó Mo diano , em 2014, estava fora dos 10 pri meir o s.

As causas da guerra, por Lemuel Gulliver

Perguntou-me ele quais eram as Causas ou Motivos usuais que levavam um País a ir à Guerra contra outro. Respondi que eram inumeráveis, porém mencionaria apenas umas poucas entre as mais importantes. (...) As diferenças de Opiniões têm custado muitos milhões de Vidas: por exemplo, se a Carne é Pão, ou o Pão é Carne; se o Suco de uma certa Fruta é Sangue ou Vinho ; se Assobiar é um Vício ou uma Virtude; se é melhor beijar uma Táboa ou jogá-la no Fogo; qual a melhor Cor para uma Túnica, Preto, Branco ou Vermelho ou Cinza ; se ela devia ser longa ou curta, estreita ou larga, suja ou limpa, e muitas outras coisas. E não há Guerras tão furiosas e sangrentas, nem tão duradouras, quanto as que são ocasionadas por Diferenças de Opinião, especialmente quando se trata de coisas sem importância.

Jonathan Swift

Jonathan Swift - clérigo humanista, fiel-infiel à Igreja da qual era sacerdote - é um dos maiores satíricos da literatura universal, talvez o maior de todos. Gulliver's Travels é o livro mais cruel que existe. As atividades febris e inúteis dos anões de Lilliput ridicularizam a vida parlamentar na Inglaterra do século XVIII e em todos os países e épocas de política constitucional e profissional (...)  Tampouco são melhores os intelectuais que, no país de Laputa, vegetam como imbecis completos. Na última parte, o elogio dos Houyhnhms , isto é, dos cavalos, mais nobres e mais inteligentes que os homens, é a condenação absoluta do gênero humano in totum. Enfim, o episódio dos Struldbrugs, que devem ao progresso científico a imortalidade da vida, não escapando, porém, às doenças, fraquezas e senilidade da extrema velhice, e que não conseguem morrer, já condena a própria vida. Carpeaux, História da Literatura Ocidental, v. II, p. 1063

Olimpíadas das Letras

Neste artigo do site do New York Public Library , 188 autores de 188 países que participaram das Olimpíadas do Rio 2016. Da Samoa Americana (se você disser que conhece Caroline Sinavaiana-Gabbard terá de me provar) a Alemanha de Herta Muller. Quantos você já leu?