quinta-feira, 31 de março de 2016

FLIP 2016 e a Nobel de 2015

Svetlana Aleksiévich, Nobel de Literatura de 2015, é o primeiro nome a ser confirmado para a FLIP deste ano - 29 de junho a 3 de julho. Na ocasião, Svetlana lançará, pela Companhia das Letras, A guerra não tem rosto de mulher, sobre a participação das mulheres soviéticas durante a Segunda Guerra.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O boxeador polaco, de Eduardo Halfon


Judeu nascido na Guatemala, formado em engenharia nos EUA e vivendo no Nebraska, Eduardo Halfon foi finalmente publicado no Brasil em 2014, pela coleção Otra Língua, da Rocco. Já o conhecia do site Words Without Borders. Nas palavras do próprio, não se identifica em luga algum, Nicarágua, EUA ou Espanha - sou um desubicado, afirma.


Este livro de cento e poucas páginas mostra um autor mais identificado com a literatura europeia. Um livro de contos que pode ser encarado, também, como uma narrativa única. No centro de tudo, o conto que dá o título do livro, a história do avô, sobrevivente de Auschwitz, com seu número tatuado. 69752. Segundo o avô, seu número de telefone, que estava escrito no braço para que dele não se esquecesse. É o melhor conto do livro.

Fumaça branca, por sua vez, deu origem a outro livro, Monasterio, que deverei ler em breve, e que conta a história de um judeu, Eduardo que acaba de chegar a Israel para o casamento de sua irmã com um ortodoxo.

Para muitos, um escritor para escritores, categoria em que se encaixa também Vila-Matas. Nenhum dos dois merece essa redução, claro, mas os dois primeiros contos deste volume explicam a associação. Distante mostra a distância entre literatura e vida real; Twaineando, por sua vez, trata de um professor, Eduardo Halfon, vai aos EUA para uma conferência sobre Mark Twain. Torna-se uma figura exótica - afinal, o que um guatemalteco teria a dizer a americanos sobre o grande escritor?

Halfon é crítico à ideia de que um escritor da América Latina tem que se encaixar no realismo fantástico, como um Garcia Márquez. Também critica a ideia de uma literatura latinoamericana (não se fala em "literatura europeia", mas em literatura inglesa, francesa... - por que colocar toda a América Latina em um único saco? 


segunda-feira, 21 de março de 2016

Filho de Saul, de László Nemes



Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (até agora, o único indicado para esta categoria que assisti). 

A história, a esta altura, já é conhecida: Em Auschwitz, Saul Ausländer (Géza Rohrig) é um prisioneiro, parte do Sonderkommando, responsável por encaminhar os judeus às câmaras de gás e depois retirar os corpos ("pedaços", segundo os alemães) e limpar o local. Após uma das matanças, encontra uma criança agonizando (diz o médico que às vezes alguém consegue escapar com vida do Zyklon-B). O médico logo acaba com o sofrimento, matando a criança. Saul diz ser seu filho (seu companheiro do Sonderkommando duvida e diz que ele não tem filho) e passa a procurar um rabino que possa encomendar um enterro. 

Naquele inferno, Saul ainda acredita em Deus. Seria isso possível?

A câmera está sempre muito próxima (colada, melhor dizendo) ao rosto de Saul; todo o seu entorno está ligeiramente desfocado. É assim que vemos os primeiros cadáveres. É um filme feio, sujo, angustiante e claustrofóbico. É um filme imperdível.

No final, com a proximidade dos soviéticos, os alemães executam os judeus à beira das covas, ao mesmo tempo em que se desfazem dos restos daqueles mortos pelo gás. É nesse momento que Saul acha um rabino - ou, ao menos, alguém que se apresenta como um. A cena é de Dante. No Sonderkommando, há uma tentativa de fuga, junto com alguns outros prisioneiros. Saul, mesmo assim, não se desfaz do corpo da criança. 

A história remete a outro húngaro, agora das letras: o Nobel de Literatura de 2002, Imre Kertesz e seu Kaddish - Por uma criança não nascida. E me lembra, como sempre, Primo Levi, o grande escritor a tratar do tema.


***

Em tempo: acabo de ver reportagem na televisão sobre os restos de Mengele. Ao que parece, irão para a USP. Formará médicos, dizem. Acho uma lástima. Por mim jogaria num alto-forno para que derretesse.

sábado, 19 de março de 2016

O castelo branco, de Orhan Pamuk



No século XVII, um marinheiro italiano, indo de Veneza a Napoles, vê seu navio capturado pelos turcos. É feito escravo mas, graças aos seus conhecimentos de medicina (apesar de não ser médico), escapa de ser mandado para as galés e é comprado por Hoja, um professor ansioso por aprender tudo o possível sobre o Ocidente.

Uma fábula em pouco menos de 200 páginas, na forma de um manuscrito descoberto, de acordo com o prefácio, por um certo Faruk Darvinoglu (filho de Darwin). Hoja é um mestre, sim, mas ao longo dos anos torna-se cada vez mais difícil saber quem é mestre de quem (o italiano ensina-lhe astronomia e engenharia e, também, controle de doenças, em meio a uma epidemia de peste). E ambos tentam desenvolver uma arma de guerra letal. Os otomanos estão em seu auge, e a guerra, aqui, é contra os poloneses, nos Cárpatos.

Quem é quem? Lá pelas tantas, mais ou menos no meio do livro, ambos se olham no espelho, e o italiano reconhece: "somos uma mesma pessoa", a tal ponto de, ao final da história, não termos mais certeza se o italiano existiu mesmo ou tudo não passa de uma criação do turco, que afirma ter escrito toda a história. A confusão das identidades é um ponto chave do romance.

Uma curiosidade é a "participação" como personagem de Evlyia Çelebi, um grande viajante que efetivamente existiu no século XVII e conheceu todo o Império, além de países vizinhos.  Escreveu seu Livro de viagens - o Seyahatnâme. Mas para falar melhor de Çelebi, prefiro aguardar um pouco mais - voltarei a falar dele ainda este ano ou, na pior da hipóteses, no início de 2017...




quinta-feira, 10 de março de 2016

O museu da inocência

O Museu da Inocência. O museu europeu do ano (2014) - nessas horas a Turquia vira europeia...




Uma filha de Eva, de Balzac

Image illustrative de l'article Une fille d'Ève

É o último texto de Balzac do segundo volume da edição organizada por Paulo Rónai, para quem "o principal interesse do romance talvez seja devido à habilidade com que Balzac conduz a sua heroína ao longo do precipício, mantendo até o fim a atmosfera do perigo". Chama atenção, também, para o reaparecimento de diversos personagens que já andaram por aqui - o conde de Granville (Uma dupla família), por exemplo. 

A alta sociedade de Paris é o meio onde se passa a narrativa. O conde de Granville e sua esposa deram origem a duas filhas que mal conseguiam sobreviver em seu meio. 

A mãe lhes conferiu educação excessivamente rigorosa a tal ponto de Maria Angélica e Maria Eugênia não estarem aptas à vida adulta - só foram a bailes com a idade de dezesseis anos, e isso mesmo só quatro vezes por ano, em casas bem selecionadas.

E conhecemos Nathan, famoso escritor, um tremendo mau-caráter, amante por anos de Florine, que tenta conquistar Maria Angélica, agora a condessa de Vandenesse. Mas a história não é das que melhor sobreviveram ao autor.



quarta-feira, 2 de março de 2016

Shakespeare

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SHAKESPEARE

Shakespeare criou o mundo em sete dias.
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
e os outros sentimentos -
e deu-os a Hamlet, a Júlio César, a Antônio, a Cleópatra e a 
Ofélia,
a Otelo e outros,
para os dominarem, eles e os seus descendentes,
até o fim dos tempos.
No terceiro dia reuniu todos os homens
e ensinou-lhes o gosto:
o gosto da felicidade, do amor, da desesperança,
o gosto do ciúme, da glória e assim por diante,
até se terem acabado todos os gostos.

Chegaram então alguns indivíduos que tinham se atrasado.
O criador afagou-lhes a cabeça compadecido
e disse-lhes que não lhes restava senão tornarem-se 
críticos literários

e contestaram-lhe a obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
para darem cambalhotas,
e deixou os reis, os imperadores
e outros infelizes divertirem-se.
No sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
pôs no caminho uma tempestade
e ensinou ao rei Lear
como se deve usar a coroa de palha.
Ainda haviam sobrado alguns desperdícios da criação do mundo
e então fez Ricardo III. 
No sétimo dia viu se ainda tinha algo por fazer.
Os diretores de teatro já tinham enchido a terra com cartazes,
e Shakespeare pensou que depois de tanto trabalho
merecia ele próprio ver um espetáculo.
Mas antes, como estava exaustivamente cansado,
foi morrer um pouco.

O poema é do romeno Marin Sorescu (1936-1996), que:

"retoma a tradição renascentista de Pico della Mirandola e Marsílio Ficino. A obra de Deus e a obra do Artista. Uma autêntica teodiceia nos céus de Shakespeare. Mais que uma teodiceia, uma arte poética, declaração de princípios, que poderia chegar a Harold Bloom. Um hino do grande leitor Marin Sorescu, que parece ter realizado uma geopolítica dos livros que o emocionaram no decorrer de sua vida" - Marco Lucchesi, Ficções de um gabinete ocidental. 

Deduzo que a tradução para o português seja de sua autoria.