quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O remanescente, de Rafael Cardoso

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O escritor e historiador da arte Rafael Cardoso lançou O remanescente, simultaneamente aqui (Companhia das Letras) e na Alemanha (Fischer). Romance baseado na vida de seu bisavô, Hugo Simon, ex-ministro das finanças, banqueiro judeu na Alemanha do entre-guerras, é o resultado de uma intensa pesquisa e reconstrução histórica.

Grande personalidade de Weimar, transitando entre personalidades como Thomas Mann e Einstein e um foco de resistência ao nazismo, Simon, junto com sua família, é obrigado a deixar a Alemanha, partindo inicialmente para a França, o que logo se revela uma opção não muito segura. Rafael Cardoso constrói com rigor seus personagens e seus ambientes - a Alemanha, o sul da França "livre", a vinda para o Brasil. O destino encontrado para sair da Europa foi um lugar meio esquisito e exótico - o Brasil do Estado Novo, ainda não decidido a apoiar os aliados.  

O uso de passaportes falsos (Hugo Simon e sua esposa Gertrud se transformaram no casal tcheco Hubert e Garina Studenic; o filho, Wolf, e sua esposa Ursula se transformaram no casal André e Renée Denis, franceses) foi eficiente, claro, mas traumático: para despistar as autoridades francesas e brasileiras (não se esqueça que o Brasil ainda era simpático ao Eixo), eles não puderam embarcar como uma família. Assim, Hugo e Gertrud viveram no Rio, Penedo e Barbacena; Wolf e Renée em Curitiba e, mais tarde, em São Paulo  Somente em 1972 conseguiram restabelecer suas identidades.

Mas o mais interessante, na minha modesta opinião, é a descoberta da saga familiar pelo autor (que podemos acompanhar no Prelúdio e nos três Interlúdios). A Segunda Guerra se transformou num tabu, em algo a não ser tocado na vida brasileira dos parentes alemães, de modo que, até os 16 anos, o autor acreditava ser descendente de franceses. E, passada a guerra, fica cada vez mais evidente o esquecimento em que Simon é aprisionado. 

Um imenso grupo de exilados surge nas quase 500 páginas do romance, de Stefan Zweig a George Bernanos. Curiosamente, não consegui encontrar nenhuma resenha, ou mesmo uma nota nos jornais brasileiros a respeito do livro... Uma pena; um dos grandes romances do ano.

PS. Consta tratar-se do primeiro volume - O tempo no exílio -, o que nos permite esperar pelo prosseguimento desta verdadeira saga (sem trocadilhos adolescentes) familiar.

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