segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Professor, de Cristóvão Tezza

O Professor
Cristóvão Tezza
Ed. Record, 2014, 240 p.

Cristóvão Tezza (1954) reconhece: a literatura brasileira não existe fora do Brasil, exceto em alguns nichos acadêmicos. Não temos nenhuma imagem literária forte que, de algum modo, nos revele (Folha de S. Paulo). Dele li o justamente celebrado O filho eterno, há alguns anos. Ele já esteve na Flip, em 2009.

Heliseu da Motta e Silva é um eminente professor de filologia românica, disciplina considerada pelos seus colegas e alunos um fóssil. Bom, Tezza é professor de Linguística. Heliseu, aos 70 anos, está para ser homenageado na universidade, e as 240 páginas são a recapitulação nostálgica de sua vida. Conhecemos seus sucessos acadêmicos e seus fracassos pessoais - as duas mulheres, Mônica (morreu - acidente, suicídio?) e Therèze, e Eduardo, o filho homossexual que o despreza. 

Muitos apontam um romance com traços autobiográficos, coisa que o autor nega. Outros, proustiano. Bom, do ponto de vista de Heliseu, sem dúvida. Proust conta como a mãe o fazia dormir, com paciência, todas as noites; Heliseu também precisava da mãe, e Eduardo, de Mônica... As lembranças do Professor acabam por atravessar a história do Brasil: a ditadura e a redemocratização, o desastre econômico a partir de Sarney, os fora Collor e FHC, as greves de professores... sobra até para a Dilma, cujas opções o filólogo não perdoa:

ela, uma presidenta, que nome horroroso, alguém que só pela barbárie lexical que escolheu para ser, pela dissonância riscante do presidenta, um som que dói no ouvido, alguém sem sensibilidade para a sonoridade da própria língua que fala, presa na arrogância travada pelo seu idioleto, só por isso testemunhava o seu curto limite, um bloco de anacolutos, e no entanto haveria de ser, milagrosa, anos depois, à cabeça do pior governo brasileiro dos últimos 30 anos...

Heliseu tem seus herois - coisa de filólogo: Duarte Nunes de Leão, Gomes Eannes de Azurara. Milagre um sujeito desses fazer sucesso com Therèze, com um acento mesmo. E Heliseu faz algumas considerações que me lembraram o romance de Helder Macedo - Tão longo amor tão curta a vida: o "triunfo da doçura das vogais sobre a brutalidade das consoantes, que foi a deriva lusitana". Suas conversas com a francesa são muito interessantes - chegaram até a Monteiro Lobato, que entendia que a França estava se perdendo e afundando em uma série de acentos, ao contrário do mundo anglo-saxão.

A prosa é refinada; Tezza alterna primeira e terceira pessoas de uma forma natural e fluida, sem comprometer, em momento algum, o texto, entre pensamentos, memórias, e um notável desconforto em dividir o espaço de sua casa, naquela manhã, com Dona Diva, que lá chegou para lhe preparar o café da manhã deste grande dia.

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