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O padeiro que fingiu ser rei de Portugal, de Ruth MacKay

No dia 4 de agosto de 1578, sob o causticante sol marroquino, D. Sebastião de Portuga liderou suas tropas para a carnificina. Quando o jovem rei morreu, o mesmo aconteceu com a independência de Portugal (...)

Dezesseis anos depois da batalha, numa cidade da Espanha, surgiu um homem que dizia ser (ou que se pensou ser) Sebastião. Seu nome era Gabriel de Espinosa, Pelo que se pode saber, o inventor desta impostura foi o vigário português de um convento agostiniano para mulheres bem-nascidas, e o objetivo imediato do plano era convencer uma das freiras que, por acaso, era sobrinha de Felipe II, que este homem, ex-soldado e padeiro ocasional (pastelero), era seu primo.


O rei Juan Carlos acaba de abdicar ao trono e, no dia 18, o príncipe das Astúrias se tornará Felipe VI. Há, sim, um movimento republicano forte, mas já há pesquisas indicando que a mudança no trono deu um pouco de gás à monarquia. No caso da Espanha, diga-se, a República durou de 1931 até a morte de Franco, o que não é exatamente um grande atrativo. A imagem de Juan Carlos dominou as televisões de todo o mundo. Não há quem não o conheça, nem quem nunca o tenha visto. É bem possível que, em pouco tempo, a causa monárquica entre novamente em declínio junto à opinião pública. Há questões de unidade territorial, contudo, que podem dar nova dinâmica e nova utilidade aos Bourbons.

Enquanto ainda especulamos sobre como será (será?) o reinado de Felipe VI, vamos dar uma passada na Espanha em seus melhores momentos, sob outro Felipe, o II. É também um período bem negativo para Portugal, com a morte de Sebastião.

Ruth MacKay, em seu O padeiro que fingiu ser rei de Portugal (Rocco, tradução de Talita M. Rodrigues), conta a história do desaparecimento de Sebastião, o jovem rei de Portugal nas areias marroquinas (Alcácer-Quibir). Irresponsavelmente, morreu sem filhos - ao que parece, ele detestava a simples menção aos atos preparatórios. O fato de seu corpo jamais ter sido encontrado levou a uma série de especulações. A primeira parte do livro trata da personalidade de Sebastião. Fica clara a grande irritação existente em Lisboa diante da irresponsabilidade do rei ao partir para a guerra no Marrocos, deixando o trono vazio.

Estamos, afinal, em 1580, e não em 2014. Muito poucos conhecem o soberano pessoalmente ou o viram alguma vez na vida. O fato é que, sem corpo, fica difícil falar em morte - ainda mais quando isso significa o fim da independência de um pequeno país, que se vê novamente tragado para a Espanha.

O livro de Ruth MacKay, da Universidade de Stanford, é fruto de longa pesquisa (há uma série de referências às fontes utilizadas e bons índices onomásticos), através da qual nos são apresentados o Sebastianismo - como marco mental, inclusive, da cultura portuguesa -, a perda da independência portuguesa e os "retornos" de Sebastião - evidentemente, fraudes.

Um destes impostores, o padeiro, foi Gabriel de Espinosa, que apareceu em 1594. Visita um convento espanhol sob a identidade de Sebastião, algo que, presumivelmente, gerou enorme preocupação por parte dos espanhois. Dessa conspiração participam personagens como o frei Miguel, apoiador de outro pretendente, Antonio, prior do Crato, e de Ana de Áustria.

A autora faz um importante destaque. Lembremo-nos, mais uma vez, que estamos no século XVI. O reconhecimento de um rei por marcas físicas se confundia com profecias e outros relatos. MacKay nos apresenta uma série de exemplos, como o do rei Rodrigo. O corpo do último governante visigodo da Espanha, depois de derrotado pelos mouros em 711, jamais fora localizado, dando início a oito séculos de dominação moura. O "retorno" de Sebastião é, para a autora, mais um - talvez o principal, por tudo o que representou no imaginário português - rei oculto em ascenção, num contexto de crenças milenares numa época de tensão política explosiva.

Uma curiosidade: o estudo de MacKay apresenta um painel bastante completo da época dos fatos. São presenças constantes justamente os dois mais brilhantes homens de letras da Península: Camões e Cervantes. E pensar que, com os dois andando e escrevendo, ainda se procurava por Sebastião...

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