terça-feira, 26 de abril de 2016

A Sevilha de Cervantes


Sevilha, hoje uma cidade incrível (e escaldante no verão) foi a capital econômica do Império Espanhol do Século de Ouro. 

Cervantes viveu na cidade durante o reinado de Felipe II, e a matéria do El Mundo traz várias referências a ela em sua obra - em especial, Rinconete y Cortadillo, uma das mais conhecidas Novelas exemplares. 




sábado, 23 de abril de 2016

O português de Camões

Seria um mito?


De 735 adjetivos usados por  Camões nos seus Lusíadas, apenas um é uma criação nova do poeta, uma estreia na história da língua portuguesa. É a palavra “insofrido”, que quer dizer impaciente.

A tese é polêmica:

Os cultismos que Camões utiliza já são correntes em castelhano e conhecidos na época por qualquer português instruído. Camões não parece acreditar num português autônomo, "com recurso a criações castelhanas e ao latim do castelhano". E isso é “uma absoluta novidade, que desautoriza os nossos mitos criados à volta duma ‘língua de Camões’, um mantra sem base material”. Se o português era a língua dos marinheiros e dos comerciantes, o castelhano era a grande língua internacional da classe culta portuguesa e europeia. “Os portugueses estavam muito familiarizados com o castelhano. Isso vale para todo o português com contatos na corte, nas universidades. A língua culta, aquela em que as classes instruídas se exprimem, é muito devedora do castelhano.” 

A tese é do linguista Fernando Venâncio. A matéria pode ser lida aqui.

Cervantes & Shakespeare

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Não, eles não morreram no mesmo dia, uma vez que a Inglaterra ainda não havia adotado o calendário gregoriano. Mais provável seria dizer que morreram com um intervalo de onze dias, mas isso também não é muito seguro.

Sim, obrigado, Miguel e William.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Messias de Estocolmo, de Cynthia Ozick

Se você é leitor de Schulz - e lê em inglês, francês ou italiano - não perca a oportunidade. E torça para que o livro seja publicado no Brasil - com sorte, Ozick, que está sempre nas listas para o Nobel, aparece por aqui.

Curiosamente, em 1987, um certo Alex Schulz se declarou primo de Bruno, e disse a Jerzy Ficowski (biógrafo do escritor) que um homem de Lwów, provavelmente um diplomata ou um agente da KGB, lhe teria oferecido um pacote de cerca de dois quilos, contendo manuscritos e desenhos do autor. Ficowski concordou em verificar a autenticidade do material; meses depois, Alex morreu e Fixowski perdeu a oportunidade de travar qualquer contato com o misterioso homem de Lwow. Anos depois, encontrou o embaixador sueco em Varsóvia, que disse um pacote contendo o romance O messias estaria escondido nos arquivos da KGB; o embaixador teria sabido disso por meio de um russo e pediu a Ficowski que o acompanhasse na Ucrânia para procurar pelo pacote, mas recebeu duas negativas das autoridades locais. O embaixador acabou morrendo também e a questão ficou esquecida. A história, com detalhes, pode ser lida na New Yorker. 

A história do Messias é fascinante, e serviu de inspiração para diversos escritores, como Cynthia Ozick e David Grossman.

Um livro de leitura difícil - ainda mais no original - mas que vale a pena. Cynthia Ozick tem poucas obras publicadas no Brasil, o que é uma verdadeira lástima. Neste O Messias de Estocolmo, uma homenagem a Bruno Schulz, foi publicado em 1987, o que deve ser levado em consideração pelo leitor: não havia Internet e, consequentemente, Google. Um livro pequeno e complexo, mas absolutamente fascinante.


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Lars Andemening é um editor do caderno de cultura de um jornal de Estocolmo. Escreve às segundas - suprema humilhação para um articulista de cultura, já que ninguém lê o caderno às segundas (isso é coisa para sexta, sábado ou domingo). Pior, o sujeito só fala de autores do leste europeu, como Danilo Kis, Kundera, Kafka, Gombrowicz, Schulz... Costuma visitar uma livraria estranha, comandada por Heidi Eklund e seu misterioso marido.

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E sobre Schulz, há algo especial. Lars se diz filho do estranho escritor judeu polonês assassinado por um oficial nazista na Polônia ocupada, em 1942. Ele teria escrito um livro desaparecido, O messias. O que o autoproclamado filho de Schulz não imaginava era encontrar Adela, uma mulher que se anuncia como... filha do polonês e, consequentemente, de alguma forma, sua irmã. Pior: essa irmã possui os originais d'O Messias.

Ozick transita entre o universo de Schulz e uma história de duplicidade - Lars é, de fato, filho do escritor polonês? Schulz teria, realmente, escrito o Messias? Os originais existem? Adela é o nome de personagens de outras histórias de Bruno. E Lars parece entrar em parafuso, ao deduzir que Adela é, na verdade, filha dos Eklund. Mas, e o original - é de Schulz ou não? Cabe ao leitor descobrir. Lars está em dúvida... 

Sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O magistrado de Chaucer

Um sábio e judicioso MAGISTRADO
(os que atendem no pórtico sagrado
Da catedral de Londres) lá estava:
Um homem de sabedoria rara
- Ou assim sugeriam seus discursos.
Aquele magistral jurisconsulto
Viajava com régia comissão,
Ganhando universal reputação
E juntando presentes, rendimentos.
Usava seu legal discernimento
Comprando terras ao menor tributo.
Era um negociador bem vivo e arguto,
E era o mais ocupado da Inglaterra.
(Mas parecia ser mais do que ele era).
Sabia todo caso memorando
Desde William, primeiro rei normando.
Cada processo seu era obra-prima
E nem o mais astuto casuísta
Podia abrir-lhe brechas no argumento.
Um casaco com mínimo ornamento,
Cinta em seda listrada - eis o que usava,
E de seus trajes não direi mais nada.

Prólogo geral, Contos da Cantuária
Tradução de José Francisco Botelho

terça-feira, 12 de abril de 2016

De amor e trevas - o filme


Em maio, estreia no Brasil o filme Uma história de amor e trevas, adaptação do livro de Amós Oz pela diretora estreante Nicole Portman. Aqui, o trailer. Mês que vem, mais um post.

O Primeiro Folio

Uma cópia do Primeiro Folio de Shakespeare foi encontrada na Escócia. O livro é de 1623. 

Das 36 peças, 18 não haviam sido encenadas durante a vida do autor. Se conhecemos hoje A Tempestade e Macbeth, devemos a essa publicação. Quando pensamos em Shakespeare, pensamos geralmente nas suas peças apresentadas em palco. Mas as palavras escritas e o Primeiro Folio são centrais para a compreensão de Shakespeare - diz Emma Smith, da Universidade de Oxford, que comprovou sua autenticidade.


terça-feira, 5 de abril de 2016

80 anos de Vagas Llosa

É difícil dizer a imensa felicidade e riqueza de sentimentos e de fantasia que os bons livros que li me deram — e continuam me dando. Nada me acalma mais quando estou inquieto ou me eleva o espírito se me sinto deprimido do que uma boa leitura (ou releitura). Ainda me lembro da fascinação maravilhada com a qual li os romances de Faulkner, os contos de Borges e Cortázar, o universo crepitante de Tolstói, as aventuras e desventuras de Don Quixote, os ensaios de Sartre e de Camus, e os de Edmund Wilson, especialmente a obra-prima Rumo àEstação Finlândia, que li do começo ao fim pelo menos três vezes. O mesmo poderia dizer das sagas de Balzac, de Dickens, de Zola, de Dostoiésvki, e o difícil desafio intelectual que foi poder conseguir desfrutar de Proust e Joyce (embora nunca tenha conseguido ler o indecifrável Finnegans Wake).

Mario Vargas Llosa, El País

domingo, 3 de abril de 2016

Chaucer

When April with his showers sweet with fruit. 
The drought of March has pierced unto the root


Como Dante, ele inventou novos modelos de representação do eu, e tem com Shakespeare um pouco da mesma relação que Dante tinha com Petrarca, sendo a diferença a incrível fecundidade de Shakespeare, que transcendia até mesmo o que John Dryden quis dizer quando comentou sobre Contos da Cantuária: "Eis a abundância de Deus". Nenhum escritor, nem Ovídio, nem o "Ovídio inglês", Christopher Marlowe, influenciou tão crucialmente Shakespeare quanto Chaucer.

Harold Bloom
Ensaio (da edição da Companhia das Letras/Penguim
Contos da Cantuária

Dá angústia ver que no século XXI as palavras de um escritor do século XV seriam consideradas excessivamente irônicas por muitos.