sexta-feira, 27 de junho de 2014

27 de junho - 800 anos de língua portuguesa



Em 27 de junho de 1214 foi escrito o que parece ser o mais antigo documento oficial conhecido em língua portuguesa, o testamento do terceiro rei de Portugal, Dom Afonso II. Francisco José Viegas, Pepetela, Agualusa e Antonio Lobo Antunes são alguns escritores que assinaram o manifesto, que pode ser lido aqui. 



terça-feira, 17 de junho de 2014

O padeiro que fingiu ser rei de Portugal, de Ruth MacKay

No dia 4 de agosto de 1578, sob o causticante sol marroquino, D. Sebastião de Portuga liderou suas tropas para a carnificina. Quando o jovem rei morreu, o mesmo aconteceu com a independência de Portugal (...)

Dezesseis anos depois da batalha, numa cidade da Espanha, surgiu um homem que dizia ser (ou que se pensou ser) Sebastião. Seu nome era Gabriel de Espinosa, Pelo que se pode saber, o inventor desta impostura foi o vigário português de um convento agostiniano para mulheres bem-nascidas, e o objetivo imediato do plano era convencer uma das freiras que, por acaso, era sobrinha de Felipe II, que este homem, ex-soldado e padeiro ocasional (pastelero), era seu primo.


O rei Juan Carlos acaba de abdicar ao trono e, no dia 18, o príncipe das Astúrias se tornará Felipe VI. Há, sim, um movimento republicano forte, mas já há pesquisas indicando que a mudança no trono deu um pouco de gás à monarquia. No caso da Espanha, diga-se, a República durou de 1931 até a morte de Franco, o que não é exatamente um grande atrativo. A imagem de Juan Carlos dominou as televisões de todo o mundo. Não há quem não o conheça, nem quem nunca o tenha visto. É bem possível que, em pouco tempo, a causa monárquica entre novamente em declínio junto à opinião pública. Há questões de unidade territorial, contudo, que podem dar nova dinâmica e nova utilidade aos Bourbons.

Enquanto ainda especulamos sobre como será (será?) o reinado de Felipe VI, vamos dar uma passada na Espanha em seus melhores momentos, sob outro Felipe, o II. É também um período bem negativo para Portugal, com a morte de Sebastião.

Ruth MacKay, em seu O padeiro que fingiu ser rei de Portugal (Rocco, tradução de Talita M. Rodrigues), conta a história do desaparecimento de Sebastião, o jovem rei de Portugal nas areias marroquinas (Alcácer-Quibir). Irresponsavelmente, morreu sem filhos - ao que parece, ele detestava a simples menção aos atos preparatórios. O fato de seu corpo jamais ter sido encontrado levou a uma série de especulações. A primeira parte do livro trata da personalidade de Sebastião. Fica clara a grande irritação existente em Lisboa diante da irresponsabilidade do rei ao partir para a guerra no Marrocos, deixando o trono vazio.

Estamos, afinal, em 1580, e não em 2014. Muito poucos conhecem o soberano pessoalmente ou o viram alguma vez na vida. O fato é que, sem corpo, fica difícil falar em morte - ainda mais quando isso significa o fim da independência de um pequeno país, que se vê novamente tragado para a Espanha.

O livro de Ruth MacKay, da Universidade de Stanford, é fruto de longa pesquisa (há uma série de referências às fontes utilizadas e bons índices onomásticos), através da qual nos são apresentados o Sebastianismo - como marco mental, inclusive, da cultura portuguesa -, a perda da independência portuguesa e os "retornos" de Sebastião - evidentemente, fraudes.

Um destes impostores, o padeiro, foi Gabriel de Espinosa, que apareceu em 1594. Visita um convento espanhol sob a identidade de Sebastião, algo que, presumivelmente, gerou enorme preocupação por parte dos espanhois. Dessa conspiração participam personagens como o frei Miguel, apoiador de outro pretendente, Antonio, prior do Crato, e de Ana de Áustria.

A autora faz um importante destaque. Lembremo-nos, mais uma vez, que estamos no século XVI. O reconhecimento de um rei por marcas físicas se confundia com profecias e outros relatos. MacKay nos apresenta uma série de exemplos, como o do rei Rodrigo. O corpo do último governante visigodo da Espanha, depois de derrotado pelos mouros em 711, jamais fora localizado, dando início a oito séculos de dominação moura. O "retorno" de Sebastião é, para a autora, mais um - talvez o principal, por tudo o que representou no imaginário português - rei oculto em ascenção, num contexto de crenças milenares numa época de tensão política explosiva.

Uma curiosidade: o estudo de MacKay apresenta um painel bastante completo da época dos fatos. São presenças constantes justamente os dois mais brilhantes homens de letras da Península: Camões e Cervantes. E pensar que, com os dois andando e escrevendo, ainda se procurava por Sebastião...

Humildemente, caro leitor, comunico que Svejk chegou ao Brasil!



- Então eles mataram o nosso Ferdinand - disse a empregada ao senhor Svejk, que abandonara havia alguns anos o serviço militar por ter sido declarado definitivamente idiota por uma junta médica do exército e vivia da venda de cães, monstruosos vira-latas para os quais inventava falsas genealogias.

Afora esta ocupação, sofria de reumatismo e, naquele exato momento, estava massageando os joelhos com uma pomada de cânfora.

- De qual Ferdinand está falando, senhora Mullerová? - perguntou Svejk, sem parar de massagear os joelhos. - Eu conheço dois Ferdinands. Um é o criado do farmacêutico Prusa, aquele que bebeu certa vez, por engano, um frasco de brilhantina, e também conheço um tal de Ferdinand Kokoska, que recolhe cocô de cachorro. Não temos motivos para se lamentar por nenhum dos dois.

- Meu caro senhor, estou me referindo ao arquiduque Ferdinand, o de Konopiste, aquele homem gordo e piedoso.

Como antecipamos, chegou a edição brasileira. As ilustrações de Lada se resumem à capa. A tradução, diretamente do tcheco, é de Luís Carlos Cabral. Não percam. É o que de melhor irá aparecer no mercado brasileiro nos cem anos da Primeira Guerra.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

John Banville recebe o Asturias

O escritor irlandês John Banville recebeu o 34º Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014. Superou nomes como Ian McEwan e Murakami.


A prosa de John Banville abre-se em deslumbrantes espaços líricos através de referências culturais onde os mitos clássicos são revitalizados e a beleza anda junto com a ironia. Ao mesmo tempo, mostra uma análise intensa de complexos seres humanos que nos prendem em sua descida à escuridão da vilania ou em sua fraternidade existencial. Cada criação sua atrai e deleita pela maestria no desenvolvimento da trama e no domínio dos registros e matizes expressivos, e por sua reflexão sobre os segredos do coração humano.

Curiosamente, com a abdicação de Juan Carlos, sobe ao trono o atual Príncipe, Felipe VI. E quem entregará, então, o prêmio? Em princípio, sua filha, Leonor, de oito anos...


Dia 4 na Revista Samizdat

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Professor, de Cristóvão Tezza

O Professor
Cristóvão Tezza
Ed. Record, 2014, 240 p.

Cristóvão Tezza (1954) reconhece: a literatura brasileira não existe fora do Brasil, exceto em alguns nichos acadêmicos. Não temos nenhuma imagem literária forte que, de algum modo, nos revele (Folha de S. Paulo). Dele li o justamente celebrado O filho eterno, há alguns anos. Ele já esteve na Flip, em 2009.

Heliseu da Motta e Silva é um eminente professor de filologia românica, disciplina considerada pelos seus colegas e alunos um fóssil. Bom, Tezza é professor de Linguística. Heliseu, aos 70 anos, está para ser homenageado na universidade, e as 240 páginas são a recapitulação nostálgica de sua vida. Conhecemos seus sucessos acadêmicos e seus fracassos pessoais - as duas mulheres, Mônica (morreu - acidente, suicídio?) e Therèze, e Eduardo, o filho homossexual que o despreza. 

Muitos apontam um romance com traços autobiográficos, coisa que o autor nega. Outros, proustiano. Bom, do ponto de vista de Heliseu, sem dúvida. Proust conta como a mãe o fazia dormir, com paciência, todas as noites; Heliseu também precisava da mãe, e Eduardo, de Mônica... As lembranças do Professor acabam por atravessar a história do Brasil: a ditadura e a redemocratização, o desastre econômico a partir de Sarney, os fora Collor e FHC, as greves de professores... sobra até para a Dilma, cujas opções o filólogo não perdoa:

ela, uma presidenta, que nome horroroso, alguém que só pela barbárie lexical que escolheu para ser, pela dissonância riscante do presidenta, um som que dói no ouvido, alguém sem sensibilidade para a sonoridade da própria língua que fala, presa na arrogância travada pelo seu idioleto, só por isso testemunhava o seu curto limite, um bloco de anacolutos, e no entanto haveria de ser, milagrosa, anos depois, à cabeça do pior governo brasileiro dos últimos 30 anos...

Heliseu tem seus herois - coisa de filólogo: Duarte Nunes de Leão, Gomes Eannes de Azurara. Milagre um sujeito desses fazer sucesso com Therèze, com um acento mesmo. E Heliseu faz algumas considerações que me lembraram o romance de Helder Macedo - Tão longo amor tão curta a vida: o "triunfo da doçura das vogais sobre a brutalidade das consoantes, que foi a deriva lusitana". Suas conversas com a francesa são muito interessantes - chegaram até a Monteiro Lobato, que entendia que a França estava se perdendo e afundando em uma série de acentos, ao contrário do mundo anglo-saxão.

A prosa é refinada; Tezza alterna primeira e terceira pessoas de uma forma natural e fluida, sem comprometer, em momento algum, o texto, entre pensamentos, memórias, e um notável desconforto em dividir o espaço de sua casa, naquela manhã, com Dona Diva, que lá chegou para lhe preparar o café da manhã deste grande dia.