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domingo, 1 de março de 2015

Joaquim Manuel de Macedo faz um passeio pelo Rio de Janeiro

Óleo de Antônio Firmino Monteiro (1855-1888)

Sou agora obrigado a dar um salto enorme, um salto do ano de 1808 e da época do reino do Brasil, da que me ocupava estudando o palácio imperial, para dois séculos e mais alguns lustros antes. Assim é preciso fazer, visto que me comprometi a dar a história antiga da casa que foi convento dos carmelitas. Irei referir de envolta com alguns fatos registrados nas crônicas do tempo uma ou duas tradições populares. Colhi os primeiros nos livros e memórias que consultei, e as segundas contou-mas um padre velho que morreu há dez anos. Daqueles não é lícito duvidar; a estas pode negar-se crédito sem receio de molestar o padre, que já não tem que ver com as cousas deste mundo. Sem mais preâmbulos. O famoso Mem de Sá acabava apenas de lançar os fundamentos da esperançosa Sebastianópolis: seu sobrinho Salvador Correia de Sá tecia ainda no alto do morro do Castelo os primeiros fios daquele ninho de águia que foi o berço da atual capital do Império. A cidade nascente, modesto grupo de palhoças e casinhas humildes, não tinha ainda descido a banhar seus pés de princesa nas mansas ondas do formoso golfo que do seu trono da colina dominava; a povoação começava apenas, e já aqui e ali surgiam e se mostravam no vale algumas piedosas ermidas que a devoção erguera de improviso. Cada uma delas era tão simples como a oração que sai da alma de um menino e sobe ao céu nas asas do anjo da inocência; e eram todas flores divinas abertas no seio daquele novo paraíso que se mostrara aos olhos dos portugueses.

A mão

A MÃO

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta 
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puft.


Wislawa Szymborska. A tradução é de Teresa Swiatkiewicz, para o excelente Poesia & Lda.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tangerines (2013), de Zaza Urushadze

Tangerines (2013)

Disputou o Oscar de filme estrangeiro e perdeu para Ida. Se você quer um contraponto ao Sniper Americano, é esse o seu filme. Uma atmosfera melancólica envolve esta declaração antibélica, coprodução entre Estônia e Geórgia. Foi rodado na região de Guria, no oeste da Geórgia.

Passado na guerra de 1992 na Abkazia, região que se tornou independente mas que somente é reconhecida pela Rússia, conhecemos a história de Ivo (Lembit Ulfsak, ótimo) e Margus (Elmo Nuganen), estonianos envolvidos na produção de tangerinas. Todos os seus familiares e vizinhos voltaram para a Estônia. Só os dois insistem em ficar numa terra conflagrada. Lembre-se que a história se passa um ano depois do colapso soviético - se hoje não se sabe o que irá acontecer com o leste europeu, naquele tempo, então... Livres da URSS - que fomentou e criou muitas das questões que se arrastam até hoje na região - as diversas nacionalidades começaram a ajustar suas contas.

Uma disputa, nas proximidades da casa de Ivo, entre chechenos separatistas e georgianos, mata quatro dos seis envolvidos. Sobram o mercenário checheno Ahmed (Giorgi Nakashidze) e o georgiano Niko (Misha Meskhi), que são tratados por Ivo - sob a promessa de não se matarem em sua casa. 

A fotografia é desoladora, e passa perfeitamente a ideia de uma terra e um punhado de pessoas em completo abandono. O período de convalescença dos dois guerreiros acaba por abrandar suas idéias mais tribais. Cabe a Ivo esse equilíbrio. E o desfecho irá demonstrar ser este um dos melhores filmes antibélicos dos últimos muitos anos. Simples, acessível e direto, em nenhum momento descamba para pieguice. 

Uma visão do Cáucaso pode ser lida no romance Os jardins e o pandemônio, de David Dephy, que trata da guerra de agosto de 2008 entre Rússia e Geórgia. O pano de fundo não mudou. 





domingo, 22 de fevereiro de 2015

Os filhos do padre (2012), de Vinko Bresan

Não consegui assistir no cinema (passou em BH em 2014 durante algumas semanas) esse ótimo filme croata, que caiu na TV a cabo. Tratando de sexo (sem uma cena sequer de nudez) e religião, Bresan conseguiu fazer uma comédia diferente do que normalmente se espera diante desses temas.



O padre Fabian (Kresimir Mikic) chega a um vilarejo na costa da Dalmácia (sim, a fotografia já vale o filme) para substituir o pároco local, Jakov (Zdenko Botic). Este, no entanto, é extremamente popular e querido (joga futebol com os jovens e bocha com os velhos, e a incompatibilidade de Fabian com a bola não passa despercebida pela Biblioteca). Todos querem se confessar com ele, e Fabian fica de lado. Ele é, acima de tudo, um conservador, que quer ser apenas um padre. E está incomodado com o fato de, na vila, não nascer quase mais ninguém (só se morre...)

Como as filas são muito grandes, Petar (Niksa Butijer), que tem uma loja de tabaco, acaba se confessando com Fabian. É um assassino, diz, pois mata as pessoas antes de elas nascerem - é vendedor, também, de camisinhas.

Padre Fabian tem uma brilhante ideia - furá-las todas. A dupla se une ao esquisitão Marin, farmacêutico ultranacionalista que voltou da guerra meio pancada. Suas tiradas politicamente incorretas são notáveis - fala mal dos sérvios, dos muçulmanos albaneses e de qualquer outro "não-croata"... Ele troca seus anticoncepcionais por vitaminas. E assim povoará o mundo de croatas.

O resultado é uma explosão de nascimentos, o que chama a atenção de todo o mundo - a ilha do amor, dizem uns; o turismo cresce... e a Igreja, muito preocupada, envia um cardeal para a ilha. Acha que a culpa é do padre, mas, se este não estiver envolvido com pedofilia, tudo bem... O diálogo entre padre e cardeal é um dos pontos altos do filme.

O segredo do filme, além da Mikic, é o roteiro. Ágil, só mais para o final fica um pouco mais pesado, mas nem por isso desqualifica o filme como uma boa comédia, que vale a pena ser vista. 






sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Jogo da Imitação (2014), de Morten Tyldum


Oscar combina com Segunda Guerra e Inglaterra. Excelente o filme, com destaque óbvio para Benedict Cumberbatch, no papel de Alan Turing (1912-1954). Um matemático genial que lidera um grupo de nerds dedicados a desvendar o Enigma, código criptografado nazista tido como inquebrável.

A história, a esta altura do campeonato - véspera do Oscar - é por todos conhecida. Destaques para Cumberbatch e Keira Knightley. Charles Dance como Denniston também está muito bem, e seu nariz empinado trava um duelo com o gênio de Alan por todo o filme. 

O interesse maior fica na insuperável capacidade de Turing em matemática e criação de antipatias. A confiança de Stewart Menzies no trabalho do gênio se justifica na parte final do filme - e de forma bastante cruel. 

A questão é: a quebra do código não resolveria todos os problemas; pelo contrário: o que fazer com as informações? Os alemães não poderiam desconfiar que seu segredo fora desvendado, ou todo o trabalho teria se tornado inútil. Coube ao comando dos aliados (sim, a esta altura até os soviéticos já sabiam do projeto) "escolher" o que aceitar como baixas de guerra e o que poderia ser evitado com uma justificativa que não levantasse suspeitas entre os alemães.

O trágico destino de Alan, que cometeu suicídio (com o cianureto da primeira cena), é considerado uma das vergonhas do Reino Unido. Completamente destruído pelos remédios a que foi forçado a tomar para evitar uma prisão e efetivar a castração química, era incapaz de segurar uma caneta para resolver palavras cruzadas. Ser o pai dos computadores e herói da Segunda Guerra não lhe rendeu muitos frutos em vida. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O bibliotecário do imperador, de Marco Lucchesi

Resultado de imagem para o bibliotecario do imperador
O bibliotecário do imperador
Marco Lucchesi
Biblioteca Azul, 2013
112p.


Haverá terapia que atenda às necessidades primárias dos colecionadores de livros, dos que se enamoram do objeto, das partes acessórias e acidentais?

O bibliófilo clássico, na estrita acepção da palavra, não passa de um magnífico idiota. As qualidades intelectuais o denunciam e não sei o que mais admirar, se a falsa erudição a que faz jus, se o oportunismo vigilante, que o denuncia, ou se as unhas ousadas e compridas. O bibliófilo é um lascivo por definição. Poderia presidir a melhor biblioteca da Corte ou o mais lúrido bordel, como o da rua Senhor dos Passos, lançando mão da mesma atitude, entre rameiras e leitores: a língua ferina e o caráter simulado.

Os bordéis e as livrarias perdem com tal figura, a quem importa menos o volume que o conjunto, menos a verdade que a aparência.

Marco Lucchesi, tradutor, poeta, ensaísta e romancista - e poliglota (16 línguas!) recupera a história de Inácio Augusto César Raposo, responsável pela biblioteca pessoal de D. Pedro II. A conspiração que instalou a República se apresenta dentro do próprio palácio; as traições, somadas à incompetência de muitos dos auxiliares mais próximos, estão expostas na breve narrativa de Lucchesi. E recupera, ainda, a história do pajem Rafael, que teria caído morto, aos 98 anos, ao saber da queda de seu imperador. 

Um exemplo? O Visconde de Taunay (O Encilhamento) aparece na biblioteca e, monarquista convicto, não se contém:

Melhor não lhe teriam servido, ao moderno Marco Aurélio, em vez daqueles sessenta mul volumes, de que se rodeou, seis mil baionetas, comandadas por um general sincero e fiel?

Ficção e memória se misturam - personagens como Inácio, Floriano Peixoto, Deodoro e Ouro Preto mas também um certo e fictício barão de Jurujuba. E também uma construção um pouco mais complexa - uma multiplicidade de vozes: a do autor, do revisor, do próprio Inácio, através de sua correspondência.

Inconformado e desesperado com os furtos que o acervo ao qual se dedicara, algo que se agravou com o exílio da Família Imperial, Inácio acabou se atirando nos trilhos da estação de São Cristóvão, sendo então estraçalhado pelo trem, em 12 de maio de 1890. Era de uma fidelidade ímpar a Pedro II. 

Um fim muito parecido, em certa medida, com o de Peter Kien (Auto de Fé de Elias Canetti). A dedicação de ambos aos seus monumentos não suporta o esvaziamento, a pilhagem, a desconsideração de um mundo exterior que lhes é absolutamente dispensável e hostil.

Tal como em O Dom do Crime, aqui Lucchesi constrói uma trama refinada na medida exata, resgatando episódios da história brasileira e da cidade.