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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cervantes, Arrecadador da Fazenda Real

Descobertos em Sevilha documentos que revelam aspectos da vida de Miguel de Cervantes, que viveu na cidade por um período. De acordo com a matéria do El País, o trabalho do romancista era arrecadar trigo e cevada para abastecer a frota de Felipe II, a caminho do Novo Mundo.


O conto do covarde, de Vanessa Gebbie


O conto do covarde
Vanessa Gebbie
Tradução de Sibele Menegazzi
Editora Bertrand Brasil, 2014, 378p.

Meu nome é Ianto Jenkins. Sou um covarde.

São palavras que já ecoaram antes por esta cidade. E hoje serão ditas novamente por Ianto Passchendaele Jenkins, agora miúdo e grisalho, de jaqueta cáqui e boné quase da mesma cor, o mendigo que dorme na varanda da Capela Ebenezer, num banco de pedra, com a mochila como travesseiro e um relógio sem ponteiros caído nas lajotas ao lado de suas botas.

As palavras serão ditas diante da Biblioteca Pública a um menino chamado Laddy Merridew. Serão entreouvidas pela estátua da cidade - um carvoeiro esculpido a parti de um único bloco de granito, com uma pilha de carvão em volta das botas. Página 7.

Há muitos anos atrás, assisti ao filme de John Ford, Como era verde o meu vale, de 1942 (ganhou o Oscar), sobre uma pequena comunidade mineira do interior do País de Gales; daquelas vilas que giravam em torno, exclusivamente, das minas de carvão. Huw Morgan, já com mais de cinquenta anos, se recorda (em flashbacks) de seus pais e seus irmãos, que trabalhavam, com o pai, na mina de carvão. Até que seu proprietário resolve diminuir os salários, é deflagrada uma greve, que acaba por dividir não apenas a família Morgan, mas toda a cidade. 

Lembrei-me imediatamente do filme, à medida em que avançava neste excelente romance de Vanessa Gebbie, recém-lançado, por aqui, pela Bertrand Brasil, na tradução de Sibele Menegazzi. Outra referência que vem à mente - apesar de eu não ter lido mais de um o dois contos - são os Contos de Canterbury, de Chaucer.


Há, sem dúvida, algo de Chaucer, principalmente pela opção da autora em trazer as histórias dos personagens da cidade pela voz do mendigo Ianto Passchendaele Jenkins como O conto do professor de marcenaria, o conto do afinador de piano, o conto do secretário.

Gebbie é renomada contista, além de tutora de escrita. Este que é o seu primeiro romance é também uma história sobre o contar histórias - afinal, Ianto é a memória desta vila, e ao contar as vidas de seus personagens para um menino esquisito como Laddy Merridew, que está morando com sua avó (os pais se separaram), o faz também para um número razoável de moradores, que já não se lembram dos fatos ocorridos à época do fatídico acidente na minas Gentil Clara. De acordo com a própria autora, a cidade fictícia é inspirada em Twynyrodyn.

Outro aspecto que chama a atenção é a estranheza dos nomes dos personagens: Thaddeus Icaro Evans, Jimmy "Meio" Harris, Simon "Tsc-Tsc" Bevan etc. Isso não foge à percepção de Laddy que, cada vez mais curioso, aproxima-se de Ianto, que não se nega a contar-lhe o que aconteceu com os personagens e seus pais e mães.  



A sobreposição de histórias, contadas por Ianto tem, na trama, a função de resgatar a memória de toda a comunidade, e o faz com doses bem temperadas de lamento, luto e humor. À medida em que as histórias avançam, surge a história do próprio contador (o conto do covarde) - e seu "papel" na tragédia da mina Gentil Clara. Ianto é um Homero, não um bardo cego, mas um mendigo desdentado, e acaba narrando o épico da comunidade carvoeira do sul de Gales.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Revista Samizdat 41



Acessível aqui ou aqui. Participo com a tradução de alguns contos curtos do escritor mexicano Roberto Abad

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
A girl is a half-formed thing, de Elimear McBride, a herdeira de Joyce e Beckett, Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
A solidão, António Feliciano de Castilho
Terceiro Serão do Casal, António Feliciano de Castilho
A Romaria, António Feliciano de Castilho
Os Treze Anos, António Feliciano de Castilho

CONTO
O Anjo Purificador, Joaquim Bispo
Caminho pelas ruas..., Rafael F. Carvalho
La Bobera, Emerson Braga
Pitanga, Yvisson Gomes dos Santos
virgem mulher, Vivian de Moraes
Réquiem, Tatiana Alves
To Selfie or Not to Selfie, Julia Antuerpem
Filogênesis, Marcelo Soriano
Um Corte para Hollywood, Bruno Scuissiatto
Acalanto de Passagem, Cinthia Kriemler
Olhares Paralelos, Mario Filipe Cavalcanti
Florentino Barbeiro, Maria de Fátima Santos

TRADUÇÃO
Uma Casa Assombrada, Virginia Woolf
Segunda ou Terça-Feira, Virginia Woolf
Azul e Verde, Virginia Woolf
A Primeira Vez, Roberto Abad

CRÔNICA
Odeio Futebol, Henry Alfred Bugalho
Entrando numa fria, Mario Luis Grangeia
Ama, do Verbo Amar, Ana Paula Costa
Um amor possível, Cecília Maria de Luca

POESIA
Inexplicável, Edweine Loureiro
Porto, Leonardo Alves
Permanência Perene em Estado de Ser-em-si, Igor Melo de Sousa
Infiltração, Priscila Rôde
Monogamia Nômade, Maria Giulia Pinheiro
Floriano, Daniela Zappi
ovc, xx, xy, Volmar Camargo Junior
Nodo, Ju Blasina
Luz na Rua, André Foltran


domingo, 27 de julho de 2014

Grande Hotel Budapeste (2014), de Wes Anderson


Finalmente, consegui assistir ao Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Uma mistura de ambientação histórica e mágica, numa hipotética república da Mitteleuropa - Zubrowka. Ralph Fiennes é o grande destaque, como o M. Gustave - famoso concièrge do então não menos famoso hotel. Estamos em algum momento dos anos 30 (ainda que algumas cenas me pareçam ainda anteriores, ou contemporâneas à Primeira Guerra, especialmente as do trem).

Junto com Zero Moustafa (Anthony Quinonez), o lobby boy, o concièrge, conquistador de senhoras ricas e, preferencialmente, com mais de setenta anos, procura uma valiosa pintura da Renascença que recebeu de herança de uma dessas velhas, Madame Celine Villeneuve Desgoffe und Taxi, que acaba de bater as botas - Tilda Swinton, como sempre, fazendo (muito bem, diga-se) personagens esquisitos. Seu filho, Dmitri (Brody), claro, não irá se conformar com a opção da mãe. Junta-se aos nazistas (é impossível não associar as flâmulas com o ZZ dentro do hotel com as SS), o que somente irá piorar a situação da dupla.

Num elenco recheado de grandes atores (Bill Murray, Adrian Brody, Edward Norton, Willem Dafoe - um assassino à moda Gestapo -, Jude Law, Jeff Goldblum e Mathieu Almaric, para ficar nos principais personagens, todos, sem exceção, excêntricos), o filme homenageia Stefan Zweig. O mundo que eu vi é a grande fonte (mas não a única) do filme.

The Society of the Crossed Keys

Numa das últimas cenas, já nos anos 80, Jude Law (o escritor, também representado por Tom Wilkinson) pergunta ao já idoso Zero Mustafa, atual dono do hotel em descarada decadência -se Gustave não pertencia a um mundo que já não existia. 

Nada lembra mais Zweig, ele mesmo um fantasma que andava por aqui no Brasil, sobrevivente de um mundo que já havia desaparecido algumas décadas antes do suicídio em Petrópolis (mais exatamente em 1918, com o fim do Império Austro-Húngaro). 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Leituras de verão

No verão, somos mais indulgentes, menos atentos e, enquanto no inverno seríamos implacáveis com um livro que começa com "Jacques Saunière, o famoso restaurador, caminhava com dificuldade pelos corredores do Museu do Louvre", abobados pelo calor e contentes, continuamos lendo, letárgicos demais para nos fixarmos nos assombrosos erros gramaticais e nas imbecilidades da história.

Este ano, o clima até está ajudando. Mas, de um modo geral, este artigo do Alberto Manguel não vale muito para estas bandas tropicais: afinal, lemos de forma diferente no inverno e no verão? Não nos sobra muito, principalmente com um verão, na prática, de mais de seis meses e de mais de 35 graus.

Manguel faz umas observações interessantes - Crime e Castigo, por exemplo, se passa no calor insuportável de uma tarde de julho; Hans Castorp chega a Davos, na Montanha Mágica, também no verão.

Mas para nós, ao menos, devemos evitar os verões. E viva Carrier!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Alguns barbarismos

Do livro Barbarismos, de Andrés Neuman. Algumas são ótimas:

Bandeira: farrapo de baixo custo e alto preço.

Santo: indivíduo tocado por um dom divino de eleger seus biógrafos.

Urna: 1. recipiente que contém os restos de um indivíduo. 2. nas eleições, idem.

Xenófobo: indivíduo que despreza seus próprios antepassados.