Blogs Favoritos

sábado, 20 de dezembro de 2014

2014

Ano difícil para manter a leitura em nível satisfatório. Mas lá vai:

Ficção: O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, A balada de Adam Henry, de Ian McEwan; a edição brasileira de As aventuras do bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek. No Brasil, gostei muito d'O Professor, de Cristóvão Tezza, ao mesmo tempo que admito algumas lacunas que deverão ser preenchidas em janeiro. E, ainda que no meio do Inferno, Dante é uma viagem inesquecível.

Não ficção: Barbara Reynolds e seu Dante. Também gostei muito do primeiro volume do Getúlio de Lira Netto.

Cinema: fico com O Grande Hotel Budapeste; O Físico decepcionou.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Ele está de volta, de Timur Vermes


Ele está de volta
Timur Vermes - tradução de Petê Rissatti
Intrínseca, 304p.


Eu me lembro do momento em que acordei, devia ser início da tarde. Ao abrir os olhos, vi o céu acima de mim. Estava azul, com poucas nuvens, clima ameno, e logo ficou claro que estava ameno demais para abril. Quase se podia dizer que estava quente. Parecia relativamente calmo, acima de mim não havia nenhuma aeronave inimiga, nem o estouro da artilharia, nenhum ataque nas proximidades, nenhuma sirene de alerta de ataque aéreo. Também observei que não havia chancelaria do Reich ou o bunker do Führer. Virei a cabeça e vi que eu estava deitado no chão de um terreno baldio, cercado pelas paredes de tijolos das casas vizinhas, que tinham sido parcialmente pichadas por pivetes; ver isso me deixou irritado no mesmo instante e decidi, espontaneamente, chamar Dönitz para uma conversa. A primeira coisa que pensei, meio sonolento, foi que Dönitz também devia estar em algum lugar por ali. Mas então, a disciplina e a lógica venceram e logo percebi a peculiaridade da situação: eu não costumava acampar a céu aberto.

Um livro estranho, esse do alemão Timur Vermes. O peço de capa, na Europa, é 19,33 euros.  Tudo uma grande provocação. Uma história narrada por um perturbado Adolf Hitler, que acorda num terreno baldio em Berlim. Procura por soldados nazistas e soviéticos, e logo percebe o que lhe aconteceu: está em 2011, num mundo completamente estranho (ainda bem).

Numa Alemanha que lhe é exótica, acaba confundido com um ator que imita Hitler - à perfeição, as pessoas reconhecem. Participa de um programa de televisão de um comediante turco... e, evidentemente, ninguém imagina que aquela figura é, de fato, o Führer. O sujeito se vê numa Alemanha coalhada de imigrantes muçulmanos - em determinado momento, sobra até para as "amantes brasileiras", quase um item de cesta básica alemã. É evidente que, ao longo da leitura, há diversos momentos hilários.

E esse parece ser, no fundo, o problema. Na história, é óbvio que ninguém sabe que Hitler é Hitler. Mas o leitor sabe. E percebe como as pessoas reagem ao vê-lo e ao ouvi-lo. Ele critica Merkel, a União Europeia; o Partido Verde é visto como uma agremiação perfeitamente compatível com o seu pensamento; os imigrantes foram uma grande sacada - ao invés de matá-los, escravizá-los ou deportá-los, os alemães agora os colocam para trabalhar em atividades periféricas com salários baixos - como ele nunca havia pensado nisso?

A crítica à Alemanha e à Europa modernas feita por Hitler causou grande desconforto e polêmica na Europa, onde o livro de Vermes foi recebido em meio a intensa polêmica. O "comediante Hitler" faz sucesso porque, no fundo, a pacata e civilizada plateia alemã está farta de tudo isso, e é presumível que a esquerda verde odeie autor e obra.

E é esse o ponto que torna o livro mais interessante: será que, hoje, a civilizada sociedade europeia estaria imune a outro Hitler? A resposta do livro é um sonoro não.

Mas o próprio livro é por vezes caricato demais - o pessoal da mídia só quer saber da audiência; os políticos, todos oportunistas. Não espere nada sutil. Por outro lado, hoje perdemos a capacidade de perceber um deboche desacompanhado de "kkk" ou "rsrsrs", e talvez se possa lê-lo como isso - um grande deboche das forças "progressistas" e "europeias".

Ao final, trata de como os alemães reagiram a um ataque físico sofrido pelo narrador:

Também fui apontado não só como combatente da violência, mas várias vezes um defensor dela (cristãos democratas, duas associações de atiradores e um fabricante de armas de fogo) e uma vez vítima da violência contra idosos (Partido da Família). Com especial diletantismo, se destacou uma ligação do Partido Pirata, que acreditou reconhecer no meu comportamento e, especialmente, na minha renúncia a um boletim de ocorrência, um protesto contra o policiamento e um especial distanciamento do Estado e, nessa lógica, eu tinha um "pensamento pirata" completo. 

Vermes é o roteirista da versão cinematográfica que está em andamento. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

domingo, 7 de dezembro de 2014

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan

Meu artigo sobre o livro, publicado ontem no caderno Pensar do jornal Estado de Minas. Para os assinantes, aqui.:


A balada de Ian McEwan

A Balada de Adam Henry
Ian McEwan/Tradução: Jorio Dauster
Companhia das Letras
200 páginas


Nas últimas décadas, quatro amigos passaram a ocupar um lugar de destaque na literatura britânica: Salman Rushdie, Martin Amis, Ian McEwan e Christopher Hitchens. O quarteto se tornou um trio quando, em 2011, Hitchens morreu de câncer no esôfago. Nenhum deles fugia de uma polêmica – aliás, é difícil encontrar, hoje, um grupo de escritores tão dispostos ao debate público. Essa amizade se mostrou sincera e poderosa quando, em 1989, o aiatolá Khomeini condenou Rushdie à morte pelos seus Versos Satânicos – uma amizade que aparece em seu recente Joseph Anton.

Um dos últimos livros de Hitchens foi Deus não é grande, onde critica a fé religiosa e defende a superioridade intelectual e moral do ateu. Reservou um capítulo para defender sua ideia da incompatibilidade da religião com a saúde, destacando a influência perversa exercida pela fé sobre políticas públicas. O livro foi dedicado ao seu grande amigo Ian, “cuja ficção mostra uma extraordinária habilidade em elucidar o divino sem nenhuma concessão ao sobrenatural. Ele sutilmente demonstrou que o natural é maravilhoso o suficiente para qualquer um”. E, para variar, despertou admiração rasgada de seus leitores fieis e ira incontida dos religiosos.

O romance de McEwan (1948), A balada de Adam Henry, que será lançado pela Companhia das Letras este mês, é, em certa medida, uma retribuição ao amigo. Mas, como bons polemistas, uma retribuição não significa uma adesão às cegas.

Fiona Maye é juíza da High Court e está às voltas com sua crise no casamento: beirando os sessenta, seu marido Jack, um belo dia, lhe diz que ambos se transformaram em “irmãos” e que, apesar de ainda amá-la, quer um novo pacto, que lhe permita saciar seu apetite sexual com mulheres mais jovens. Sente-se morto, e necessita de um grande caso.

Fiona consegue, apesar de tudo, tocar sua vida profissional. Juíza de família, é obrigada a decidir casos como o da comunidade haredi (judeus ultra-ortodoxos), que vê toda a vida dentro da prática religiosa. Como um estado laico, como o britânico, lida com a questão? Um membro da comunidade pode impedir sua filha de frequentar a escola? E o bem-estar da criança? O que é representa esse bem-estar? Resume-se a aspectos financeiros ou mesmo de conforto físico?

Ou ainda o caso dos irmãos xifópagos Mateus e Marcos (outra vez a religião!). O coração de Marcos sustentava os gêmeos; o cérebro de Mateus era malformado, incapaz de um desenvolvimento normal; seus pulmões, incapazes de funcionar corretamente. Não viveria mais de seis meses, e quando morresse, tragaria Marcos. O hospital foi à Justiça procurar uma autorização para separá-los, de modo a salvar Marcos e, deliberadamente, sacrificar Mateus. Mas isso seria aceitável? Separá-los mataria um dos irmãos; a inércia, ambos. Fiona desenvolveu a tese de que Mateus, que morreria de uma forma ou de outra, não tinha interesses, ao contrário do irmão. E recorreu a uma teoria do direito inglês, a chamada doutrina da necessidade – através da qual seria possível infringir uma lei criminal para impedir um mal maior. A decisão, contudo, não sairia barato para Fiona, que recebeu cartas ameaçadoras; o Arcebispo de Westminster defendeu a morte de ambos, para não interferir nos “desígnios de Deus”.

Mas vamos ao caso Adam Henry, filho de Kevin e Naomi: uma criança, para a lei. Adam tinha dezessete anos. Possui uma inteligência notável: é, a rigor, um adulto com pleno discernimento de sua real situação. A opção pelo título na tradução brasileira esconde o original – The Children Act, algo como A Lei da Criança. A questão – já vivida por juízes brasileiros: internado num hospital, sofrendo de leucemia, necessita urgentemente de transfusão de sangue para sobreviver. Mas ele, tal como seus pais, é Testemunha de Jeová, que proibe o procedimento.

Os jornais estão nervosos, prontos para a cobertura e aguardando a decisão de Fiona. Os sites já divulgaram fotos do jovem com seus pais. Somos apresentados aos advogados do hospital e da família, desenvolvendo suas teses. Fiona busca equilibrar interesses e ideias, razão e fé.

McEwan nos oferece um belo apanhado do sistema judiciário inglês, do sistema do common law, baseado em casos concretos e precedentes judiciais, e lida com grandes questões do direito deste início do século XXI. Um trabalho a ser dissecado nas nossas faculdades de direito, que andam histericamente presas à dogmática jurídica e a tecnicismos que nos fazem esquecer o que Lord Justice Ward, citado no livro, nos adverte: o dever do juiz é aplicar os relevantes princípios do direito ao caso que lhe é posto – um caso que é único.

Fiona (ou McEwan?) não se furta às perguntas e comentários que poderiam ter sido feitos por Hitchens: a proibição da transfusão pelas Testemunhas de Jeová, evidentemente, não estava no Gêneses, mas data de 1945 – o que você acha da ideia de o destino da vida de seu filho ser decidido por um comitê no Brooklyn? – indaga Fiona aos pais de Adam.

O que deve prevalecer? A vontade do paciente (menor, mas às portas da maioridade) e sua família? O direito à religião? Ou, pelo contrário, o direito à vida teria um caráter absoluto? Essa discussão não nos é estranha. Recentemente, o STJ analisou um caso ocorrido no Rio de Janeiro, onde, há mais de vinte anos, uma adolescente de treze anos morreu exatamente nestas circunstâncias; os pais impediram a transfusão, o que foi acatado pelos médicos. O STJ isentou os pais de culpa, mas responsabilizou os médicos, por infração ao Código de Ética Médica.

Não tenho interesse em comentar o caso; estamos comentando um romance, e não a postura do tribunal brasileiro. Adianto que Fiona julga o caso em favor do hospital. O que acontece a partir daí, é claro, deve ser descoberto pelo leitor. Fiona acaba manifestando sentimentos contraditórios em relação a Adam, que pouco tempo depois de salvo atinge a maioridade.

Mas o que posso adiantar é: McEwan não é um autor previsível. Em uma entrevista à New Republic, em 2008, ele se declarou um ateu que jamais se preocupou em esconder seu posicionamento, ao mesmo tempo em que afirmou não ser um “ateu ativista”. E mais: a religião jamais será erradicada, e a simples ideia de que isso possa acontecer é simplesmente terrível.

A balada de Adam Henry pode não ser o livro de McEwan – particularmente, acredito que O Inocente, Reparação (por muitos, considerado o seu melhor) e Serena são superiores como obras literárias – os dois primeiros, inclusive, renderam belas adaptações cinematográficas - mas é um grande romance, fruto de um escritor que domina a técnica de narração como poucos e, além disso, sempre tem algo a dizer.

sábado, 6 de dezembro de 2014

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Sérgio Augusto


A turma da New Yorker é indispensável. Idem, a maioria dos colaboradores da New York Review of Books. Assino uma porção de publicações, a maioria online, atualmente, de modo que seria fastidioso listar quem sigo, já segui e deixei de seguir. Já li com assiduidade Paul Krugman, mas economia não é minha praia. Da prata da casa, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Renato Janine Ribeiro, Milton Hatoum, Fernando Calazans e Lúcia Guimarães são os primeiros nomes que me ocorrem, e desde já peço desculpas aos que mereciam ter sido lembrados mas não foram - vistam a carapuça da vaidade.

Uma bela entrevista com Sérgio Augusto, que pode ser lida aqui.

Parabéns ao jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.