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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Memórias de duas jovens esposas, de Balzac

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A ideia de ler toda a Comédia leva invariavelmente a descobrir romances, contos e novelas que costumam ser esquecidos do público - ao menos, o brasileiro - e é justamente o caso destas Memórias de duas jovens esposas. Romance epistolar, acompanha duas amigas dos 17 aos 30 anos, que saem do convento e tomam destinos bem diferentes -  Luísa de Chaulieu passará sua vida à procura de amor; a outra, Renata de Maucombe, procura um marido. Como consta de uma das cartas, uma terá as flores sem os frutos, a outra, os frutos sem ter tido as flores.

Luísa vem de uma das grandes famílias da França, e vai encontrar o que quer duas vezes - dando-se mal em ambas; um professor de espanhol, o duque de Soria, e Maria-Gastão, um artista duro (eles estão sempre por aqui na obra de Balzac... no Chat-qui-pelote, temos Augustine e Theodore de Sommervieux). Tirana, arrasta os dois infelizes.

Renata é mais conformada; dedica-se à família e abandona Paris para a província. São os frutos em flor.

Escreve Renata de l'Estorade:

No dia seguinte ao casamento, o ato terrível, que faz da donzela uma mulher e do enamorado um marido, pode derrubar os andaimes de tuas sutis preocupações. Precisas saber, pois, finalmente, que dois namorados, da mesma forma que duas pessoas casadas, como eu e Luís, vão buscar, sob as alegrias de uma boda, segundo a expressão de Rabelais, "um grande talvez".

Bom, há que se esclarecer que Rabelais se refere à morte...

E é o que inevitavelmente ocorre. Luísa pensar ter uma rival e, quando descobre o que de fato se passa, é demasiado tarde!: empenhou-se em pegar uma tuberculose e acabou morrendo.

O romance é lento  - André Gide o achava confuso e pastoso - mas é sempre um grande retrato da França pós-Napoleão. A aristocracia procurava restaurar seus privilégios, a burguesia procurava uma forma de conciliar os interesses de ambos. O direito civil aparece em toda a Comédia:

O Código Napoleão de 1804 instituiu a igualdade entre herdeiros do mesmo grau. Antes, apenas os filhos homens recebiam o patrimônio.

O pai de Luísa pede-lhe que abra mão de sua parte na herança em favor do irmão, para que este constituísse um morgado, condição para ascender à aristocracia. Para ele, o infame Código Civil do sr. de Bonaparte (...) fará com que metam no convento tantas moças nobres quantas ele fez casarem. E diz à filha:

Sabes, minha filha, quais são os efeitos mais destruidores da Revolução? Jamais os suspeitarias. Ao cortar a cabeça de Luís XVI, a Revolução cortou a cabeça de todos os chefes de família, há somente indivíduos. Ao querer tornar-se uma nação, os franceses renunciaram a ser império. Ao proclamar a igualdade de direitos à sucessão paterna, mataram o espírito de família, criaram o fisco. Prepararam, pois, a fraqueza das superioridades e a força cega da massa, a extinção das artes, o reinado do interesse pessoal e abriram caminho à conquista. Achamo-nos entre dois caminhos: ou constituir o Estado pela família, ou constituí-lo pelo interesse pessoal.

Preste atenção em José Bridau: aqui, o pintor - que é sempre associado a Eugéne Delacroix, muito admirado por Balzac -  testemunha o casamento secreto de Maria Gastão e Luísa, em 1833. Mas ele está em outras partes da Comédia.



domingo, 16 de novembro de 2014

De livros e livros

Sérgio Augusto (sua coluna é imperdível), no Estadão deste sábado:

Os últimos romances com mais de 500 páginas que li de fio a pavio, sem obrigação, foram os de Jonathan Franzen, o taludo 2666 de Roberto Bolaño (que a rigor são cinco romances numa única lombada), e Vício Inerente (Pynchon, cujas 459 páginas o enquadram nessa categoria). Custei um pouco a atravessar os quatro primeiros capítulos de Homem que Amava Cachorros, de Leonardo Padura, por já saber tudo o que gostaria de saber sobre Trotski, via Isaac Deutscher. Apesar de minha obsessão pela 2ª Guerra Mundial, faltou-me coragem para encarar as quase mil páginas de As Benevolentes, de Jonathan Littel. A restrição de uma amiga foi uma desculpa em que me apoiei para deixar O Pintassilgo (792 páginas), de Donna Tartt, na salmoura; prova de que o conselho de Virginia Woolf afinal me entrou por um ouvido e saiu pelo outro. 

O artigo, completo, está aqui.

Não consegui ler 2666 (sim, confesso, podem me mandar para o paredão da Cuba de Padura). Gosto dos romances curtos de Bolaño, mas simplesmente não levei adiante seu grande romance grande. Franzen ainda não me animou. Littel já esteve na minha mão mais de três vezes nas livrarias, mas sempre acabei deixando por lá. Já Padura me agradou muito: em 2014, os tijolos que li foram Homem que Amava Cachorros e As aventuras do bom soldado Svejk, de Hasek. 

José Pacheco Pereira, no Público (Lisboa) deste sábado (Vale a pena ler livros novos?):

Já uma vez coloquei essa pergunta de modo biográfico, dizendo que, por regra, não lia nada que não tivesse aguentado dez, quinze anos, de "necessidade de leitura". Isso provocou reacções muito negativas. Eu, se fosse autor de ficção contemporânea, não acharia graça nenhuma em ser substituído na leitura nem que fosse por Balzac ou Tolstoi. Compreendo bem as reacções, mas elas não iludem o problema: vale a pena ler livros novos de ficção, poesia, teatro etc? Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já tesada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike?  Sim, porque mesmo num cânone muito limitado, e tendo nós que ler outras coisas, sejam manuais escolares, sejam livros técnicos, sejam memórias, sejam livros de actualidade, o tempo não chega. 

O artigo completo está aqui.

O drama existencial de todo leitor. No meu caso, são fases. A cada ano, tento traçar pelo menos um grande livro do cânone. Já houve o ano Guerra e Paz; já passei seis meses lendo José e seus Irmãos (Mann). Este ano o objetivo é pelo menos visitar todos os círculos infernais de Dante.


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sábado, 8 de novembro de 2014

25 anos

A Biblioteca até que tenta, mas não consegue. A culpa, claro, é do bibliotecário. Abaixo, foto do site do The Independent: Berlim ontem à noite, com 8 mil balões recriando o traço do Muro.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Físico

Poster do filme O Físico


Chega aos cinemas brasileiros a adaptação do romance do americano Noah Gordon. Nunca tinha ouvido falar do diretor, Philipp Stölzl. Descobri que foi o diretor de um videoclip do Depeche Mode, Stripped, banido sob a acusação de apologia ao nazismo...

Outro fato curioso: o livro foi um dos mais vendidos, inclusive por estas bandas. E, no entanto, o filme andou pouco por aqui - poucos cinemas e por pouco tempo.


Mas o livro é muito bom - li em 1989 - e o elenco tem Ben Kingsley (Ibn Sina) à frente. E resolvi arriscar.

Há grandes saltos no enredo. No livro, o leitor acompanha, por exemplo, a luta de Rob Cole em aprender a jogar duas, três e quatro bolas para acompanhar o barbeiro (Bader, por Stellan Skarsgard) - no filme, toda a história do Rob ainda criança é suprimida. O mesmo vale para o "treinamento" de um católico de uma obscura ilha do norte para se fazer passar por judeu no centro do mundo, Isfahan.

Mas talvez o mais duro seja centrar o enredo no relacionamento proibido entre Rob e Rebecca. Noah Gordon desenvolve melhor no livro as origens da Medicina e o papel de Avicena (afinal, o nome latinizado de Ibn Sina), além de deixar evidente o relacionamento entre judeus e muçulmanos, que o filme apenas constata.

Bela fotografia. Não chega a decepcionar, mas não vá com muita expectativa, principalmente se você leu o livro. Um outro diretor poderia ter feito um grande filme.



Pequeno Larousse Ilustrado



Tantas cosas ya se han ido
al cielo del olvido,
pero tú sigues siempre a mi lado,
Pequeño Larousse Ilustrado.

Cuántas veces me abriste la puerta
pra ir jugar
en voz baja a una isla desierta
por un mar dibujado en el mar.

Todavía eres el embeleco
de una infancia que tiene tu edad
y palabras, en vez de muñecos,
asesina su curiosidad.

Universo de la miniatura
y aljibe total
donde sigo pescando figuras,
y no temo llegar ao final.

Tú me ayudas con buenos consejos
a hacer versos por casualidad
y me asombras igual que el espejo
con la fábula de la verdad.

María Elena Walsh (1930-2011), Vals del diccionario (Valsa do dicionário)


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Revista Samizdat, nº 42


RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
Kappa, Edweine Loureiro
AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
História de menina e moça, Bernardim Ribeiro
CONTOS
És feliz, Joaquim Bispo
Dúvida, Leandro Luiz
Confissões a Santo Antonio, Claudia Isadora Fernandes de Oliveira
Sem Fim, Yvisson Gomes dos Santos
O espelho, Priscila Queiroz
Introdução ao corpo nu, João Gilberto Engelmann
De se comer com os olhos, Caio Russo
A menina dos amores trancados, Fernando Sousa Leite
O enCanto da sereia da baía, Luísa Fresta
Lucas pensa que não é possível, Anderson F. Freixo
Passos no telhado, Cinthia Kriemler
Buraco negro, Mario Filipe Cavalcanti
Trívia, Chris Sevla
Abate, Guilherme Scalzilli
Segundo, Volmar Camargo Junior
ARTIGO
4 Razões por que todo escritor deveria ir à Feira do livro de Frankfurt pelo menos uma vez na vida, Henry Alfred Bugalho
TEORIA LITERÁRIA
O Túnel de Ernesto Sábato, por ele mesmo, Tatyanny Souza do Nascimento
CRÔNICA
Do atum ao mate, Ana Beatriz Manier
POESIA
Reverberar, Francisco da Silva
Do destino à origem, J. Maffeis
Quatro improvisos, Leonardo Alves
Pueril, Ju Blasina
Consequência, Gilmar Ricarte de Almeida





Dia 4 na Revista Samizdat

O problema de estar avançando em um determinado projeto é que isso te deixa tão concentrado que atrapalha as demais atividades. Neste mês, lanço mão de mais uma tradução, que pode ser lida aqui.