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O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch

Comecei a ler O fim do homem soviético, da jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch ganhadora do Nobel de Literatura de 2015, nos últimos dias de 2016, coincidentemente após ler uma reportagem sobre um reality da TV russa em que os participantes poderão ir às últimas consequências: estuprar, matar, ser devorados por lobos famintos - uma versão real de um filme de bastante sucesso nos últimos anos.

Formado por depoimentos e entrevistas, estamos diante de um imenso mosaico, tão diverso quanto o próprio país que busca retratar. Idosos, stalinistas, jovens executivos, ex-prisioneiros saudosos do Socialismo, jovens que se adaptaram aos novos tempos, jovens que se desgraçaram (ainda mais) com o capitalismo, russos, asiáticos, caucasianos...

Gorbachev é visto ou como um traidor ou como um fraco. Mesmo os que o apoiaram e realmente queriam se livrar dos comunistas votam pela última opção. Yeltsin não é visto com olhos mais simpáticos, até porque foi sob seu governo (ou desgoverno, dependendo da avaliação) que o dinheiro que comprava um carro dava para comprar um pãozinho. E Pútin é aquele que poderia trazer de volta um passado glorioso.

A primeira coisa a chamar a atenção: como lêem os russos - e como liam os soviéticos. O que, claro, não os tornou sábios ou mais eficientes ou felizes, mas não deixa de ser impressionante. O sujeito não tinha nada, morava mal, comia pouco, congelava no inverno - mas tinha uma prateleira com Tólstoi, Dostoievski e outros não suprimidos pelo regime (e, por vezes, um dos proscritos através de samizdat.

Os relatos e depoimentos das vidas e desgraças dos entrevistados não devem causar surpresa a ninguém que conheça um mínimo da história da antiga União Soviética e do stalinismo (Soljenitzine, Chálamov etc), mas é evidente em muitas vozes uma nostalgia - até na desgraça. O entrevistado nasceu soviético, acreditava no Comunismo, foi preso e deportado, odiava o Stalin, mas... não tem lugar no mundo que surgiu após 1991. Talvez um paralelo interessante seja comparar essa mudança com o fim da civilização dos Habsburgos ou dos otomanos, no final da Primeira Guerra, ou com o fim da vida judaica do leste europeu com o nazismo. Em um dos meus documentários favoritos - Adeus, Camaradas, de Nekrasov, o diretor tenta explicar à filha como eles conseguiam acreditar - sinceramente - no regime.

Mas talvez o mais impressionante sejam os relatos do período pós-1991: jovens suicidas, a guerra na Chechênia e no Cáucaso, com destaque à questão de Nagorno-Karabach, entre Armênia e Azerbaijão, pessoas das antigas repúblicas soviéticas que se viam, agora, estrangeiras e indesejáveis. E os detestáveis novos-ricos (novos-bilionários, melhor seria). 

Numa das entrevistas, a revelação da existência de agências de turismo com pacotes, digamos, exóticos: uma competição entre casais (ela de prostituta, ele de cafetão; quem conseguir mais dinheiro nas ruas vence o jogo), uma caça ao mendigo (que recebe uma grana considerável: se sobreviver, "é o destino, fica com o dinheiro", enquanto os participantes se esforçam para matá-lo e, assim, ganhar a competição).

Talvez por isso, como afirma a autora:

Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin. Metade dos jovens de dezenove a trinta anos considera Stálin 'um grande político'. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas do que Hitler, um novo culto a Stálin?! (...) Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da 'mão de ferro', do 'caminho peculiar da Rússia'... Restituíram o hino soviético, existe um Komsomol, só que ele se chama Náchi, existe um partido no poder, que copia o partido comunista. O presidente tem o mesmo poder que o secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a Igreja ortodoxa...

O tal reality da TV russa é tão novidade na vida dos russos de hoje como o culto a Stálin.



Comentários

  1. Pretendo ler em breve, fiquei muito impressionado com os dois livros de Svetlana que já haviam sido lançados em 2016 pela Companhia das Letras. Fica mais fácil entender os motivos dela ter sido agraciada com um Nobel.

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    1. Alexandre, eu ainda não li os outros, mas agora fiquei realmente interessado na obra dela. Acho que você vai gostar deste. Abraço

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