quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ilusões Perdidas, de Balzac

Balzac, Stendhal e Flaubert dominaram o romance francês no século XIX.

Se você nunca leu nada de Balzac, arrisque-se com Ilusões Perdidas, um livro gigantesco, se considerarmos que as quase 800 páginas (estou novamente na coleção organizada por Paulo Rónai, agora na tradução de Ernesto Pelanda e Mario Quintana) da história têm uma "segunda parte", as mais de 600 de Esplendores e misérias das cortesãs. Se você pensa em ser um escritor, ou já o é, além de uma aula de como construir tramas, como expor suas ideias e, principalmente, como criar personagens, irá se deparar com uma visão bastante cruel e precisa do meio literário e jornalístico:

A vida literária tem também seus bastidores. Os êxitos roubados ou merecidos, eis o que a plateia aplaude; os meios, sempre repugnantes, os comparsas degradantes, a claque e os encarregados da maquinaria, eis o que os cenários escondem. 

Não é difícil perceber que o jornalismo e os jornais não são levados em muito alta consideração por Balzac. Ele, por sua vez, escreveu este romance às voltas de dívidas (uma constante em sua vida, diga-se)

Balzac inicia o romance com a vida na pacata Angoulême. Lucien de Rubempré é um personagem como pouquíssimos: um alpinista social (abandona o Chardon paterno de um simples boticário para o aristocrático "de Rubempré") que tenta conquistar Paris; um sonhador que anseia pelo sucesso como poeta. David Séchard é seu grande amigo e toca a tipografia do velho pai, além de se casar com Eve, irmã de Lucien, talvez seja o maior personagem criado por Balzac. Um talento provinciano tragado pelas intrigas da capital. 

Lucien de Rubempré é talvez o personagem mais conhecido de Balzac, entre as centenas que ele criou e que aparecem em diversas obras da Comédia Humana. Somos apresentados a ele, um personagem leitor. Passa horas na biblioteca, lendo poesia e prosa - incluindo Walter Scott, então na moda. Quer compensar sua origem humilde. A senhora de Bargeton lhe abre as portas da aristocracia da província, e ele, por sua vez, apesar de rejeitado pelos demais, consegue engrenar uma relação com sua amante que o permite se mudar para Paris.

A segunda parte é a maior e mais importante: é aqui que se inicia a aproximação de Lucien com a senhora de Bargeton em Paris, mas ele acaba por ela rechaçado. Faltam-lhe refinamento e riqueza para ser aceito pela sociedade - e a senhora de Bargeton é constantemente alertada dessa questão pelos seus próprios amigos e admiradores; mas Lucien acredita em seu próprio talento. Coralie, uma atriz de 19 anos, é sua amante. 

Balzac merece ser lido pelos advogados. Aqui, como em Madame Bovary de Flaubert, surge um personagem fundamental para o desfecho da história: a nota promissória. Lucien consegue de David algumas, para se sustentar em Paris - chega, inclusive, a falsificar a assinatura do amigo e cunhado. 

É a ruína (de ambos).

A terceira parte mostra um arrasado Lucien de volta a Angoulême, ao mesmo tempo em que a tipografia de David, endividado até o pescoço, está arruinada. Apesar de ter desenvolvido um papel de melhor qualidade e mais barato, foi sabotado por seu empregado, Cérizet. No final, consegue um acordo, salva-se e vai viver, com Eva, no campo. Mas para Lucien, a situação é bastante complicada: decidido ao suicídio, acaba encontrando um obscuro padre espanhol.

O que acontece a partir daí? É hora de encarar as 600 páginas de Esplendores e misérias das cortesãs, volume 9 da coleção. A propósito, é o último editado pela Globo. Há anos esperamos os demais volumes (são 17 ao todo). O que terá acontecido com o projeto, em meio a todas as crises dos últimos tempos?

Balzac é uma forma de entender o século XIX: o espírito industrial, o crescente poder comercial da burguesia, a aristocracia ainda sonhando com a volta do Antigo Regime, os provincianos chegando a Paris com suas ilusões, as frustrações da vida, arte e literatura, jornalismo, advocacia... E Ilusões Perdidas um dos grandes romances da história.

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