sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Doutor Fausto, de Thomas Mann

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É o primeiro posto deste blog sobre Thomas Mann. Dele já li Os Buddenbrook, As confissões do impostor Felix Krull, Morte em Veneza e José e seus Irmãos. Mann não é um escritor "fácil", e nesta visita ao mito do Fausto, o leitor encontrará longas discussões sobre arte, teologia, teoria musical, filosofia, entre outros aspectos. Mas isso não deve intimidá-lo; pelo contrário: à medida em que se avança, a narrativa vai se tornando mais dinâmica - como nos demais romances do autor. 

A ideia de Fausto já havia sido objeto do romance Mephisto, de Klaus Mann, seu irmão. Publicado em 1936, já sob o regime nazista e antes do início da Segunda Guerra, tinha como foco o ator de teatro Hendrik Höfgen, baseado em seu ex-genro Gustav Gründgens. O nazismo é parte integrante do enredo deste romance, do qual me lembro mais da adaptação ao cinema por István Szábo, com o grande Klaus Maria Brandauer no papel-título, do que do livro propriamente dito.

Thomas, na verdade, é um ex-nacionalista convertido (apoiou o kaiser na Primeira Guerra e brigou com Klaus, que se alinhou à França) e, anos depois do irmão, escreve sobre a vida de sua genial criação, o compositor Adrian Leverkhün, narrada pelo seu amigo Serenus Zeitblom. Zeitblom escreve já numa Alemanha destroçada e invadida por ingleses, americanos e soviéticos. A cada capítulo, o narrador amaldiçoa o destino escolhido pelos seus compatriotas, ao mesmo tempo em que se recorda da vida do amigo.

Há, como tão ao gosto de Thomas Mann, um "episódio italiano", justamente quando Ele se apresenta e firma o pacto com Adrian. O Diabo já conhece muito bem seu cliente, e não joga para perder. Pede-lhe a alma em troca de glória por vinte e quatro anos. A "conversa", narrada pelo próprio Adrian, é o ponto alto da história. O Diabo impõe-lhe uma condição - jamais poderá amar alguém - e de novo aquela história da relação entre o Artista e a Solidão aparece. Essa, digamos, cláusula, será devidamente exigida pelo Tinhoso, já no final da história, em outro grande momento do romance - Nepomuk recebe todo o amor e carinho de Adrian, no entanto...

A edição da Companhia das Letras tem a tradução de Herbert Caro, um dos grandes nomes da cultura européia que vieram ao Brasil entre os anos 30 e 40, juntamente com Paulo Rónai, Carpeaux, entre outros. Sim, o Brasil deu essa sorte. Minha próxima aventura será a tentativa de ler a sua versão de A Montanha Mágica, também pela Cia. das Letras (minha antiga edição portuguesa não me foi muito atrativa).

Carpeaux: no seu romance épico Doktor Faustus, a carreira artística do grande compositor Leverkuehn coincide com a história política da Alemanha durante os últimos decênios: os dois grandes temas, a política e a música, estão ligados através de uma nova técnica novelística na qual 'tudo alude a tudo': tudo é realidade e tudo é símbolo; um fato real de significação simbólica, a tentação da Alemanha e do artista pelo Demônio, dá à obra a dimensão metafísica e transcedental. O estilo é, outra vez, complexo à maneira do estilo da velhice de Goethe, mas iluminado por todas as luzes da ironia.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch

Comecei a ler O fim do homem soviético, da jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch ganhadora do Nobel de Literatura de 2015, nos últimos dias de 2016, coincidentemente após ler uma reportagem sobre um reality da TV russa em que os participantes poderão ir às últimas consequências: estuprar, matar, ser devorados por lobos famintos - uma versão real de um filme de bastante sucesso nos últimos anos.

Formado por depoimentos e entrevistas, estamos diante de um imenso mosaico, tão diverso quanto o próprio país que busca retratar. Idosos, stalinistas, jovens executivos, ex-prisioneiros saudosos do Socialismo, jovens que se adaptaram aos novos tempos, jovens que se desgraçaram (ainda mais) com o capitalismo, russos, asiáticos, caucasianos...

Gorbachev é visto ou como um traidor ou como um fraco. Mesmo os que o apoiaram e realmente queriam se livrar dos comunistas votam pela última opção. Yeltsin não é visto com olhos mais simpáticos, até porque foi sob seu governo (ou desgoverno, dependendo da avaliação) que o dinheiro que comprava um carro dava para comprar um pãozinho. E Pútin é aquele que poderia trazer de volta um passado glorioso.

A primeira coisa a chamar a atenção: como lêem os russos - e como liam os soviéticos. O que, claro, não os tornou sábios ou mais eficientes ou felizes, mas não deixa de ser impressionante. O sujeito não tinha nada, morava mal, comia pouco, congelava no inverno - mas tinha uma prateleira com Tólstoi, Dostoievski e outros não suprimidos pelo regime (e, por vezes, um dos proscritos através de samizdat.

Os relatos e depoimentos das vidas e desgraças dos entrevistados não devem causar surpresa a ninguém que conheça um mínimo da história da antiga União Soviética e do stalinismo (Soljenitzine, Chálamov etc), mas é evidente em muitas vozes uma nostalgia - até na desgraça. O entrevistado nasceu soviético, acreditava no Comunismo, foi preso e deportado, odiava o Stalin, mas... não tem lugar no mundo que surgiu após 1991. Talvez um paralelo interessante seja comparar essa mudança com o fim da civilização dos Habsburgos ou dos otomanos, no final da Primeira Guerra, ou com o fim da vida judaica do leste europeu com o nazismo. Em um dos meus documentários favoritos - Adeus, Camaradas, de Nekrasov, o diretor tenta explicar à filha como eles conseguiam acreditar - sinceramente - no regime.

Mas talvez o mais impressionante sejam os relatos do período pós-1991: jovens suicidas, a guerra na Chechênia e no Cáucaso, com destaque à questão de Nagorno-Karabach, entre Armênia e Azerbaijão, pessoas das antigas repúblicas soviéticas que se viam, agora, estrangeiras e indesejáveis. E os detestáveis novos-ricos (novos-bilionários, melhor seria). 

Numa das entrevistas, a revelação da existência de agências de turismo com pacotes, digamos, exóticos: uma competição entre casais (ela de prostituta, ele de cafetão; quem conseguir mais dinheiro nas ruas vence o jogo), uma caça ao mendigo (que recebe uma grana considerável: se sobreviver, "é o destino, fica com o dinheiro", enquanto os participantes se esforçam para matá-lo e, assim, ganhar a competição).

Talvez por isso, como afirma a autora:

Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin. Metade dos jovens de dezenove a trinta anos considera Stálin 'um grande político'. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas do que Hitler, um novo culto a Stálin?! (...) Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da 'mão de ferro', do 'caminho peculiar da Rússia'... Restituíram o hino soviético, existe um Komsomol, só que ele se chama Náchi, existe um partido no poder, que copia o partido comunista. O presidente tem o mesmo poder que o secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a Igreja ortodoxa...

O tal reality da TV russa é tão novidade na vida dos russos de hoje como o culto a Stálin.