terça-feira, 25 de outubro de 2016

Enclausurado, de Ian McEwan

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Um ano com lançamento de Ian McEwan é sempre um bom ano. Enclausurado tem como narrador um feto. 

Se Machado de Assis criou um autor defunto, McEwan tratou de nos apresentar um autor nascituro, ainda inominado.

Poderia perfeitamente se chamar Hamlet, já que McEwan parece trazer para a Londres de hoje a história de Shakespeare. Gertrude (Trudy) e Claude planejam o assassinato do marido/irmão, John Cairncross, para se apoderarem do imóvel da família, uma velha casa em ruínas mas localizada num ponto da cidade que a faz valer alguns milhões.

O Hamlet intra-uterino de McEwan é consciente. É como se, de dentro de sua mãe, dispusesse de uma boa biblioteca ou, vá lá, acesso ao Google: ele reconhece ser um felizardo, já que, de todas as opções possíveis, será um europeu ocidental. Claro, nem tudo é perfeito: não terá os benefícios sociais nem o poderoso fundo soberano de um norueguês, nem nascerá na ensolarada decadência italiana (e sua culinária) ou na França, com seu amor próprio e, principalmente, seu pinot noir. Em vez disso, herdarei um reino em nada unido governado por uma rainha idosa e reverenciada, onde um príncipe que também é um homem de negócios, famoso por suas boas ações, seus elixires (essência de couve-flor para purificar o sangue) e intromissões inconstitucionais, aguarda com impaciência a coroa. Esse será o meu lar, e vai dar para o gasto. Eu poderia ter vindo ao mundo na Coréia do Norte, onde a sucessão também é garantida, mas onde faltam liberdade e alimentos. McEwan continua McEwan.

Esse futuro promissor, no entanto, é abalado com a descoberta da trama de assassinato. Sua própria futura existência se vê ameaçada - afinal, seria ele abortado ou abandonado? A Inglaterra não seria um lugar adequado para essa circunstância...

Um Hamlet que precisa se proteger do pênis do tio - "temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles do meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele, com o creme abundante de sua banalidade". 

Banalidade, aliás, compartilhada entre Claude e Trudy. O pai, por sua vez, é um poeta fracassado e um editor mal-sucedido, que gosta de poesia - o que causa ânsia de vômito em sua esposa e em seu irmão. Nosso heroi conhece os clássicos. Sua mãe, por mais oca, gosta de ouvir podcasts e acaba ouvindo alguns clássicos. 

No final da história, o narrador, tal como seu par shakespeariano, precisa vingar o pai, e o fará. Provavelmente esculhambará com toda a trama planejada pela mãe e o tio. Fará a única coisa ao seu alcance: nascerá.

Uma última observação: nosso experimentadíssimo feto já sabe das coisas: pensa em escrever um ensaio, assim que sair de sua mãe e tiver "condições". Afinal, "o mundo clama por novos empiristas". Uma pérola, não?

Mas ele escuta todas as conversas da mãe, e logo descobre a trama. Sua relação com o tio não poderia ser pior - ele tem de se desviar do pênis de Claude, proteger seu cérebro - "

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Bob Dylan

Estava em Roma na semana passada quando foi anunciado o nome de Bob Dylan para o Nobel de Literatura de 2016, pela Academia Sueca. Não é correto dizer que foi uma grande surpresa pois, afinal, seu nome já apareceu como favorito na lista da Ladbrokes há alguns anos. Desta vez, no entanto, não aparecia entre os 10 mais apostados (ainda que, na madrugada de 12 para 13 de outubro, seu nome tenha despontado para quarto lugar - deve haver algum vazamento nesse negócio).


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Martin Amis, Michael Cunningham e Salman Rushdie foram os primeiros - que eu saiba - a elogiar a decisão. Dylan é um grande músico e, como tal, um grande poeta, dizem. Em Tangled Up in Blue, por exemplo:

Then she opened up a book of poems  
And handed it to me
  Written by an Italian poet
From the thirteenth century

Will Self, por outro lado, disse que Dylan terá a grande chance de imitar Sartre e, felizmente, recusar o prêmio...

O que dizer? Todos os leitores do mundo parecem ter o poder-dever de dar sua opinião sobre o Nobel, de forma que aqui vai a minha.

Primeiro, o desapontamento. Não propriamente por Dylan, mas pelo fato de o prêmio ter sido conferido para um norte-americano. Na geopolítica da Academia, isso significa que provavelmente os EUA não serão agraciados novamente dentro de dez ou quinze anos. Roth tem 83 anos e, seguindo esse roteiro, suas chances de receber o prêmio são bastante reduzidas. O problema não é dele - é da Academia, que perde a chance de dar-se credibilidade. Azar o dela. Roth também não será o único entre os grandes a ficar de fora - Joyce, Calvino, Woolf, Proust, Borges: a lista é imensa.

Segundo, uma tentação milenarista: estamos caminhando para o fim de uma civilização livreira. Por mais que se leia bastante, lê-se cada vez menos literatura. O fenômeno não é brasileiro (por aqui nunca se leu muito mesmo), mas universal. Nos EUA, na Espanha, França e Itália é fácil encontrar análises que mostram que, a cada ano, as pessoas lêem menos, as vendas diminuem, e os clássicos vão sendo deixados de lado. Nas universidades americanas, os cursos relacionados às Artes são frequentados, cada vez mais, por asiáticos, e menos pelos wasps.  O que leva uma civilização a seu término, nas palavras do Kenneth Clark - Civilization - é a exaustão. Ela simplesmente se cansa de defender seus valores fundamentais.

Tendo a embarcar nessa onda pessimista, mas temo estar  tomado por um daqueles pânicos milenaristas - o mundo está acabando, como se diz, pelo menos, desde o ano 1000.

Mas há, de fato, algo de errado. Não por Dylan (de quem, aliás, não sou fã). Mas pelo fato de, novamente, não se premiar um romancista, um poeta ou mesmo um dramaturgo. Se é certo que grandes obras literárias estarem presentes em textos jornalísticos (a bielorussa Svetlana Aleksievitch, vencedora em 2015), sou conservador o suficiente para defender a teoria do "cada macaco no seu galho" com relação à música ou à canção. 

Sim, é possível defender que, no início, de Homero até os trovadores medievais, essa distinção nunca foi muito evidente. Isso é verdade. Mas, pessoalmente, continuo incomodado com a escolha deste ano.
Um dos melhores livros que li este ano foi O negociante de inícios de romance, do romeno Matéi Visniec. Lembro-me da carta de despedida de um professor de romeno aposentado, fervoroso amante dos livros que, aos 67 anos, não suportou a Academia Sueca. Uma onda de suicídios literários cometidos na Romênia no fim do segundo decênio do século XXI. A razão? O fato de a Academia jamais ter escolhido um escritor de língua romena. Imagino que essa epidemia ficcional seria agravada em 2016.

Estava em Roma no dia 13. Curiosamente, nesse mesmo dia faleceu o Nobel de 1997, também à época uma opção da Academia bastante criticada - o italiano Dario Fo. Não deixa de ser irônico.

Como também não deixa de ser irônico o fato de, ao menos até este momento, manhã do dia 18 de outubro, Dylan ainda não ter dado as caras - ele sabe da premiação? O que ele está fazendo? Ele irá a Estocolmo?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Bellow e Roth

Às vésperas do anúncio do Nobel de Literatura de 2016, um excelente texto de Isabel Lucas, no caderno Ipsilon, que pode ser lido aqui.

Um trecho: 

Philip Roth e Saul Bellow conheceram-se em Chicago em 1956. Roth era estudante na Universidade de Chicago, e Bellow "um dos seus entusiasmos literários", como o definiu em Os Factos. Foi em Chicago que leu Augie March e viu um exemplo do génio de Bellow, para ele “o grande libertador do tradicional confinamento da literatura judaica”, lê-se em
Roth Unbound. Entre outras coisas, foi também evidente que “a experiência judaica podia ser parte da literatura americana”. Zachary Leader, autor da biografia The Life of Saul Bellow, cuja primeira parte foi publicada em 2015 (sem tradução em Portugal), referiu agora ao PÚBLICO que para Bellow era claro que como escritor “estava em melhor posição enquanto judeu na América do que um judeu na Europa”. Porquê esta afirmação? “Apesar dos alertas e das suspeitas em relação aos judeus na América, a sua identidade americana era aceite, coisa que ele não acreditava ser possível nos países europeus. E insistia em dizer-se americano tanto quanto era judeu. Não era, no entanto, um judeu praticante, apesar de ter crescido numa família de judeus ortodoxos, mas acreditava ser crucial para os judeus transportarem a sua história e os seus valores que via como capazes de contrariar o niilismo predominante na Ocidente.” Leader justifica também assim a fixação de Bellow com a questão da identidade, o “tema-chave” de toda a sua literatura, e que Roth também sempre privilegiou. Para o biógrafo, a faceta judaica de Bellow “teve um papel determinante no modo como defendeu o Estado de Israel — um defensor da paz imediata — que via como a única forma de os judeus acabarem com o que ele chamava de ‘curso do Holocausto, o suplantar da vitimização’.”

Philip Roth estava entre os judeus americanos que pensavam desse modo, mas o percurso de um e de outro na História da afirmação judaica na América foi diferente. Roth pertencia à terceira geração de imigrantes na América. Bellow nasceu no Canadá, filho de imigrantes russos, e chegou a Chicago aos nove anos. A família instalou-se no West Side, junto ao Humboldt Park, uma zona tradicionalmente habitada pela classe média baixa — agora com maior procura pelos estratos mais elevados — e de grande diversidade étnica desde a fundação de Chicago. Judeus vindos da Europa, polacos, alemães, italianos e mais recentemente sul-americanos do México e de Porto Rico, e uma vasta comunidade afro-americana. É esse o núcleo social e geográfico da literatura de Bellow e o coração de Augie March.