quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As causas da guerra, por Lemuel Gulliver

Perguntou-me ele quais eram as Causas ou Motivos usuais que levavam um País a ir à Guerra contra outro. Respondi que eram inumeráveis, porém mencionaria apenas umas poucas entre as mais importantes.

(...)

As diferenças de Opiniões têm custado muitos milhões de Vidas: por exemplo, se a Carne é Pão, ou o Pão é Carne; se o Suco de uma certa Fruta é Sangue ou Vinho; se Assobiar é um Vício ou uma Virtude; se é melhor beijar uma Táboa ou jogá-la no Fogo; qual a melhor Cor para uma Túnica, Preto, Branco ou Vermelho ou Cinza; se ela devia ser longa ou curta, estreita ou larga, suja ou limpa, e muitas outras coisas. E não há Guerras tão furiosas e sangrentas, nem tão duradouras, quanto as que são ocasionadas por Diferenças de Opinião, especialmente quando se trata de coisas sem importância.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Jonathan Swift


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Jonathan Swift - clérigo humanista, fiel-infiel à Igreja da qual era sacerdote - é um dos maiores satíricos da literatura universal, talvez o maior de todos. Gulliver's Travels é o livro mais cruel que existe. As atividades febris e inúteis dos anões de Lilliput ridicularizam a vida parlamentar na Inglaterra do século XVIII e em todos os países e épocas de política constitucional e profissional (...) 

Tampouco são melhores os intelectuais que, no país de Laputa, vegetam como imbecis completos. Na última parte, o elogio dos Houyhnhms, isto é, dos cavalos, mais nobres e mais inteligentes que os homens, é a condenação absoluta do gênero humano in totum. Enfim, o episódio dos Struldbrugs, que devem ao progresso científico a imortalidade da vida, não escapando, porém, às doenças, fraquezas e senilidade da extrema velhice, e que não conseguem morrer, já condena a própria vida.

Carpeaux, História da Literatura Ocidental, v. II, p. 1063

domingo, 21 de agosto de 2016

Olimpíadas das Letras

Orbis terrae compendiosa descriptio


Neste artigo do site do New York Public Library, 188 autores de 188 países que participaram das Olimpíadas do Rio 2016. Da Samoa Americana (se você disser que conhece Caroline Sinavaiana-Gabbard terá de me provar) a Alemanha de Herta Muller. Quantos você já leu?

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O romance inacabado de Sofia Stern, de Ronaldo Wrobel




Mas eu não estava tão surpreso assim. Vovó andava esquisita ultimamente. Confundia nomes, esquecia coisas, deixava a janela aberta, a luz acesa, interrompia frases. Já não atendi ao telefone e expulsava visitas. Às vezes tagarelava em alemão ou contava piadas que não eram de seu feitio. Outro dia conseguira se perder na rua onde morava há setenta anos. No último aniversário, recusara-se a soprar as velas:

- Sofia morreu.

- Você está vivíssima, vovó! Que história é essa? 

Ronaldo (o personagem) é advogado (como o autor) recebe um telefonema da Alemanha, sobre uma certa caixa de joias perdida antes da guerra e que pertenceria a Sofia Stern. Como sua avó. Interessado nas histórias que sempre ouviu, Ronaldo sabe que sua avó não tem a memória de antes. E fica sabendo de sua amizade com uma certa Klara Hansen - que teria morrido em Hamburgo.

Muito bom esse O romance inacabado de Sofia Stern, de Ronaldo Wrobel, fruto de pesquisa histórica e capacidade de contar uma boa história, que foge dos lugares comuns dos romances ambientados na Segunda Guerra e sobre o nazismo - a resistência alemã a Hitler é assunto pouco explorado lá fora e, aqui então, menos ainda. Wrobel recua até 1933, quando se inicia essa amizade - simultaneamente com a catástrofe nazista.

 E, afinal, quem exatamente era sua avó?

Sofia mora, hoje, em Copacabana. Ronaldo, por sua vez, estranha o fato de que pouco se comenta, em sua família, da história da avó. E, evidentemente, há uma razão para esse silêncio, o que só é completamente revelado nas últimas páginas. Outro ponto para o autor, que consegue criar um thriller como não se costuma ver com frequência na literatura brasileira.

Livro que, certamente, convida à leitura de outro do mesmo autor, Traduzindo Hannah, que pretendo ler em breve.