terça-feira, 31 de maio de 2016

Dom Quixote - III

Um diálogo entre Shakespeare e Cervantes, de acordo com David Kipen:

So the first one says, "Let's you and me have a drink and invent modern literature."
The second one answers, "OK, but the better writer's buying."
First one says, "How do we know which one of us is better?"
And the second one says, "I've heard the good die young. Whoever dies first is better."

domingo, 29 de maio de 2016

Os cafés e Claudio Magris

Na obra Danúbio, fala dos cafés de Viena, Budapeste ou Lviv como símbolos da Europa. Diz: “Os cafés são a Europa”. O que nos dizem os cafés de hoje sobre a Europa?
Antes de mais, deixe-me dizer que Danúbio é um romance disfarçado, não um livro de História. Não se pode tomar literalmente. Essas afirmações são metáforas, o que significa que são ao mesmo tempo verdades e mentiras. Nessa passagem transparecia um sentimento de decadência fascinante, mas também uma dimensão que não é só de solidão individual, nem do apagamento do indivíduo na multidão. É a relação do individual com a dimensão pública. Os cafés são uma versão moderna da ágora grega. Locais onde se misturam trabalho e lazer, onde nos entregamos a certas rotinas, a certa preguiça, a certa reflexão, e onde podemos ler, discutir, e depois escrever. Isto nem sempre existe nas cidades de hoje, com o ritmo de hoje.

A entrevista completa com Claudio Magris, autor do excelente Danúbio, no Jornal Público, pode ser lida aqui.

domingo, 22 de maio de 2016

Vive la France

Ao contrário do que se diz e escreve, a literatura francesa não está decadente. Trata-se de uma falsa impressão causada pela globalização editorial. É o que diz Alberto Manguel, em artigo no Babelia de ontem, dia 21.

Se antes se lia Camus, Sagan e Céline, agora temos Carrère, Echenoz e - horresco referens, nas palavras do autor, Houellebecq.

Qual sua opinião?

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O negociante de inícios de romance, de Matéi Visniec


 


' Hoje, a mãe morreu'.

Você acha mesmo que uma asserção assim tão simples pode sair da mente de um escritor? Asseguro-lhe que não. Escritor é, por regra, pessoa complicada, dilacerada intimamente, contorcida, cheia de contradições, consumida por ambições, muito pouco generosa, se bem que se inflame com a ideia de humanidade.

Não, lhe asseguro que Albert Camus nunca teria começado o romance O Estrangeiro com essa frase se não a tivéssemos fornecido nós. Aliás, nem sequer teria escrito esse romance num estilo tão simples, tão linear, tão confessional, visando a maior credibilidade, se não lhe tivéssemos oferecido, nós, o ponto de partida, se não tivéssemos aberto, nós, esta miraculosa portinhola.

'Hoje, a mãe morreu'.

Vários foram os clientes dessa organização: Thomas Mann, Kafka, H.G. Wells, Melville... O misterioso negociante, Guy Courtois, membro de uma organização de mais de trezentos anos, está estudando um jovem aspirante a escritor romeno. Precisa saber como irá ajudá-lo. Por outro lado, sua missão não é fácil - afinal, a língua romena jamais fora contemplada com um Nobel de literatura... 

No entanto, essa mesma organização está ameaçada - hoje se escreve em excesso, surgiram máquinas que escrevem romances combinatórios - a era do romance industrial, diz Courtois.


Matéi Visniec (1956) é, antes de romancista, um dramaturgo recém-descoberto no Brasil. Entre a ficção científica - diga-se que a "ação" se passa em 2025 - e o absurdo,  não espere nada parecido com uma narrativa convencional, mas um texto fragmentado e inconcluso, tipicamente pós-moderno. Na tradição de Ionesco, com quem, aliás, costuma ser comparado.

Comecei a destacar no livro vários trechos e me dei conta que, por vezes, grifei páginas quase inteiras. 
 
Além do aspirante a escritor romeno M., temos Bernard, um sujeito que o observa, a serviço de Courtois; e temos ainda o Torturador - que nome apropriado para esse ser que nos assombra às noites e invade nossos sonhos - sim, quer meio melhor de conhecer alguém que através dos seus sonhos? - e uma greve de escritores romenos, revoltados pelo fato de a  Academia  não ter, jamais, escolhido um romeno que escrevesse na língua materna como o Nobel. 

Impossível não se lembrar da nossa eterna espera por um Nobel brasileiro - mas os "suicídios literários cometidos na Romênia no fim do segundo decênio do século XXI" e seus efeitos midiáticos me fazem pensar quais seriam nossos nomes a aderir a esse protesto tão intenso...

E a máquina-escritora, tremendamente sedutora. Como Courtois poderia sobreviver nesse novo mundo?


O papel do escritor é debatido, numa era de inícios, de pressa - em que sempre se inicia algo, mas raramente se conclui o que se iniciou. Uma era de inícios, mas sem fins.

Para nossa sorte, a É Realizações está editando toda a obra - em especial, a dramaturgia de Visniec: A história do comunismo contada aos doentes mentais, Máquina Tchekov, O último Godot - a lista é grande. E suas peças começam a ser encenadas por aqui - o que também não é um fato corriqueiro. 

 

Boris Schnaiderman (1917-2016)

 

Nascido na Ucrânia, chegou ao Rio em 1925, era o mais novo dos grandes tradutores que o Brasil "ganhou" com o nazismo e a Segunda Guerra (lembrem-se de Paulo Rónai, Herbert Caro etc). Quando criança, assistiu às gravações d' O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein. E participou como sargento da FEB, entre 1944 e 1945.

Devemos a ele o fim das traduções dos clássicos russos "a partir da versão francesa" , que destruía Dostoievski, Tólstoi, Pasternak, Puschkin, Tchekov... O governo russo reconheceu seu trabalho em 200, outorgando-lhe a Medalha Puschkin. Iniciou o curso de Língua e Literatura Russa na USP, que hoje produz excelentes tradutores - situação privilegiada do Brasil, quem diria...

domingo, 15 de maio de 2016

Memórias Secretas (2015), de Atom Egoyan



Boa parte da crítica torceu o nariz. Chegou a afirmar que se trata de um péssimo filme. Não é, não. O último de Atom Egoyan vale muito a pena. Há alguns problemas e furos no roteiro do estreante Benjamin August - o vendedor da arma que não se importa com o fato de o comprador estar claramente senil e confessar que se esquece das coisas, por exemplo - mas que, honestamente, não comprometem o filme como se tem afirmado por aí.

Zev Guttman (Christopher Plummer) acaba de perder a esposa Ruth. Vive num asilo nos EUA. Seu amigo Max Rosenbaum (Martin Landau), de cadeira de rodas e problemas respiratórios, convence-o a executar a suprema vingança de suas vidas: matar Rudy Kurlander, líder de bloco em Auschwitz e destruidor de suas famílias.

A partir daí, Zev localiza "quatro" Rudys. Evidentemente, vai percebendo que não se trata do Rudy procurado. O primeiro é o papel de ninguém menos que Bruno Ganz. O "terceiro", por exemplo, era um simples cozinheiro do exército alemão. Zev encontra o filho, John Kurlander (Dean Norris), policial. O pai acabara de morrer e possui um cão (pastor alemão) chamado Eva... Quando tudo caminha para a óbvia conclusão de que finalmente o alvo foi encontrado, acontece a primeira reviravolta...

Mas o ápice é, mesmo, o quarto e último Rudy (Jürgen Prochnow). Quem acompanha a carreira de Edoyam sabe que nada em seus filmes é óbvio. E, evidentemente, não há justificativa para contar aqui o desfecho, o que seria odioso... Digamos que Max tem sua vingança completa.

Um artigo sobre Atom Egoyan e o filme pode ser lido aqui. 

Essa é a última história que podemos contar sobre o Holocausto com sobreviventes e perpetradores do genocídio ainda vivos. Daqui a uns cinco anos, quando todos estiverem mortos, “Memórias secretas” se tornará um filme de época — analisa Egoyan, que se inspirou no roteiro do estreante Benjamin August. — É contada sem recursos de flashbacks. Então, não há momentos de reconstrução, a não ser na memória dos personagens. A trama sobre o Holocausto é incomum, por ser contada no nosso tempo, com efeitos residuais no presente.

 

sábado, 14 de maio de 2016

Dom Quixote - II

Resultado de imagem para cura barbeiro quixote biblioteca


 Mas que livro é esse que está junto dele?
– A Galatea, de Miguel de Cervantes – disse o barbeiro.

A destruição da biblioteca de Dom Quixote é encarada pelos seus autores como uma boa ação em prol da saúde mental do leitor. É um dos momentos capitais da história e também um dos mais divertidos.

Novamente Cervantes aparece não como o autor, mas um personagem.

O barbeiro e o cura, ao decidirem quem iria ao fogo e quem seria salvo, destacam "um livro que propõe algo e não conclui nada". E esperam pela segunda parte - que jamais seria publicada. Apesar disso, e com Amadís de Gaula (o melhor livro sobre cavalaria, disse o barbeiro)o clássico catalão  Tirant lo blanc,  Galatea, de Cervantes, é salvo -  Cervantes , afinal, é grande amigo do cura.

Todo o resto apenas levou o fidalgo à loucura e, portanto, deveria ser eliminado

Massimo Bontempelli (1879-1960) criou o barão Raimundo della Valle, que  dedicou sua curta existência a "colecionar coleções". O barão não teve a "sorte" de Dom Quixote, que tinha o cura e o barbeiro para eliminar de sua biblioteca os livros considerados "perigosos" à sua sanidade mental. E sua mania por coleções termina por matá-lo.

Machado de Assis foi tremendamente influenciado por Cervantes - seja na forma como se dirige ao leitor, diretamente, seja na falta de confiança que esse mesmo narrador nos passa. E algumas associações são frequentes. Como Simão Bacamarte, de O alienista - que vê loucura em cada comportamento humano, de modo que irá acabar internando toda a cidade.  

Faltou-lhe também um personagem para eliminar sua "biblioteca de malucos".
 

terça-feira, 10 de maio de 2016

Dom Quixote I



Comprei essa edição numa livraria de Brasília, no distante 2005, ano do 400º aniversário da publicação da Primeira Parte. Resolvi ler agora, no ano do 400º aniversário da morte física de Cervantes. Uma edição com direito a glossário, uma infinidade de notas explicativas e vários estudos - incluindo um artigo de Vargas Llosa. 

Agora saíram diversas edições brasileiras. A Companhias das Letras, a 34 e, agora, uma da Nova Fronteira (com direito às ilustrações de Gustave Doré).

Um livro sobre a própria literatura.

Já no prólogo, Cervantes se diz não o pai da história que conta, mas seu padrasto. 

Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de don Quijote, no quiero irme con la corriente del uso, ni suplicarte casi con las lágrimas en los ojos, como otros hacen, lector carísimo, que perdones o disimules las faltas que en este mi hijo vieres.

E, no episódio do vizscaíno (basco), Cervantes interrompe a história para, no capítulo seguinte, admitir que encontrou um morisco que se rachava de rir com um livro, A história de Dom Quixote de la Mancha, escrito por um certo Cid Hamete Benengeli, historiador árabe - e acaba convidando o sujeito para sua casa.

Alberto Manguel, sobre o episódio:

O que aconteceu aqui? Contra a censura oficial, contra as pressões da Inquisição e as leis de pureza de sangue, a presença das culturas banidas é reconhecida como viva e frutífera no romance de Cervantes. Com um golpe de prestidigitação, Cervantes consegue apresentar seu livro como obra de um autor exótico, outrora espanhol, agora mouro exilado e rejeitado. Dúzias de traduções seguiram-se ao sucesso do romance na Espanha, e Dom Quixote logo se tornou um dos livros mais populares do mundo, de modo que o que viria a ser a obra-prima emblemática da Espanha foi lido mundo afora como uma criação supostamente árabe, "invenção" de um povo condenado a viver fora dos muros da Espanha.

Por outro lado, Cid Hamete, árabe, teria sido inimigo de um heroi cristão como Quixote, e devemos nos perguntar se não teria manipulado a história que estamos lendo. Tanto Cid Hamete como o tradutor comentam ou alteram a obra; os textos são manipuláveis. E sabemos que Cervantes não é um narrador tão confiável assim. 

Quem leu as Mil e uma noites já percebeu isso. São romances contidos em romances, que por sua vez são contados em outras histórias. Dom Quixote também é assim: histórias dentro de histórias.




segunda-feira, 9 de maio de 2016

História secreta de Costaguana, de Juan Gabriel Vásquez




O leitor de Joseph Conrad não leva mais de cinco segundos para associar este  História secreta de Costaguana, do colombiano Juan Gabriel Vásquez (1973), a Nostromo. 


Aparentemente, trata-se de um romance histórico, sobre a construção do Canal do Panamá e a independência da província da Colômbia. Mas esse é apenas um aspecto da obra - e não é o mais importante. Sim, há a reconstrução de todo um período; Vásquez se refere ironicamente àquela Mierda de lugar. E, muitas vezes, há um excesso de informações históricas que atrapalha a leitura.

Mas há algo que escapa desse rótulo. Sim, a narrativa é sobre a história a Colômbia, mas é também sobre a relação entre o homem e a História. E aqui o romance cresce.

José Altamirano, o narrador, acredita cegamente no progresso. Durante a construção do canal, e a despeito dos terremotos, das chuvas, das febres, das guerras e dos mosquitos, que teimam em deter o avanço da humanidade -  segue otimista. Um autêntico positivista. Cortar o continente era o sonho de seu pai, Miguel Altamirano, um liberal radical. A Colômbia é pródiga em guerras civis, que se iniciaram com sua própria independência - liberais e conservadores foram se derrubando ao longo dos séculos, e o país, mesmo hoje, ainda não se encontra plenamente pacificado.

Altamirano nos escreve - e conversa conosco, nós que integramos o Jurado. O narrador tem consciência de que está nos contando sua história, e é bastante zeloso de sua missão. E há algo quixotesco.

Joseph Conrad. Altamirano, ao longo de sua narrativa, menciona-o por diversas vezes. Após a independência do Panamá, encontra-se com o escritor em Londres. Irá contar tudo. 

No entanto, tal como Cervantes, que interrompe a narrativa ao encontrar um sujeito que, às gargalhadas, lia um livro sobre Dom Quixote (e descobre que seu autor é Cid Hamate Benengeli...), Altamirano se dá conta que a história que narrou - e que tolamente diz ser a sua história - está contada num livro chamado Nostromo, escrito por um certo Joseph Conrad. 

Mas não exatamente. É o ponto alto do romance. O que é isso, pergunta José a Joseph?

- Isto, querido senhor, é um romance.

- Não é minha história. Não é a história de meu país.

- Claro que não - disse Conrad. - É a história de meu país. É a história de Costaguana.

Altamirano não se contém. Você, Joseph Conrad, me roubou. Ao que Conrad responde - você realmente acredita que sua vida patética aparece neste livro?  

Sim, Conrad passa pelas mais de 250 páginas deste livro como um espectro. Irá se materializar nas últimas páginas. Não li Nostromo, mas a leitura deste A história secreta de Costaguana altera, definitivamente, minha ordem de prioridades. Preciso ler Nostromo.



Uma última observação: Vásquez esteve por aqui, na FLIP, em 2010. Não sabia. Na verdade, até ler este livro, não tinha noção de sua existência - uma falha. E não sabia que o livro já foi editado no Brasil pela LPM. Acabei lendo o texto original, em espanhol.