domingo, 28 de fevereiro de 2016

O Judas de Oz

Uma entrevista com Amós Oz no jornal Público, por ocasião do lançamento, por lá, de Judas, um dos destaques deste blog em 2015. Pode ser lida aqui.

Já lhe chamaram muitas vezes traidor.

Muitas. Tendo a olhar isso como uma honra. Tem acontecido a muito boa gente ao longo da História. Quando me chamam traidor sei que estou em excelente companhia. 

Está a escrever? 

Estou, mas tenho alguma relutância em falar disso. Quando estou “grávido” não gosto de expor a minha gravidez. Não é bom para o bebé.

O seu nome aparece todos os anos como um candidato ao Nobel. Como lida com isso? 

Se morrer sem receber o prémio Nobel não morrerei infeliz. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Umberto Eco (1932-2016)


O nome da rosa deu-lhe reconhecimento internacional. O filme, de 1986, foi dirigido por Jean-Jacques Annaud, e estrelado por Sean Connery.

Dele estou lendo, muito ao poucos, História das terras e lugares lendários. Aqui, a espetacular biblioteca do autor:

Canto II - Paraíso


Leituras e releituras da Comédia de Dante.

O início do Canto II, do Paraíso - aquele que quase ninguém lê pois, como já dizia Carpeaux, os leitores modernos só conhecem o Inferno... Aqui, Dante avisa aos despreparados que não o acompanhem.

Na tradução de Ítalo Eugenio Mauro (Editora 34):

Ó vós que em pequenina barca estais,
e o lenho meu canta e vai, ansiados
de podê-lo escutar, acompanhais,

 voltai aos vossos portos costumados,
não vos meteis no mar em que, presumo,
perdendo-me estaríeis extraviados.

Ninguém singrou esta água que eu assumo;
conduz-me Apolo e Minerva me inspira,
e nove musas indicam-me o rumo. 
   
No original, claro: 

O voi che siete in piccioletta barca,
desiderosi d'ascoltar, seguiti
dietro al mio legno che cantando varca,
  tornate a riveder li vostri liti:
non vi mettete in pelago, ché forse,
perdendo me, rimarreste smarriti.
  L'acqua ch'io prendo già mai non si corse;
Minerva spira, e conducemi Appollo,
e nove Muse mi dimostran l'Orse.


E é em italiano que é cantado no filme A dupla vida de Véronique, de Krzysztof Kieślowski:

 A música, no filme, é de Van Den Budenmayer, "um certo compositor holandês do século XVIII". Na realidade, Zbigniew Preisner, polonês, que compôs músicas para vários filmes, tendo trabalhado com Kieslowski. 

Zbigniew Preisner.JPG

Os dois inventaram esse compositor que, claro, é um personagem como a própria Veronique (Irène Jacob). O filme é um dos grandes momentos do diretor - para mim, o melhor dele.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Stoner, de John Williams




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Resgatado do ostracismo de mais de 50 anos por uma turma da pesada (Julian Barnes e Philip Roth, entre outros), John Williams (1922-1994) e seu Stoner chegaram ao Brasil no ano passado. Publicado em 1965, conta a vida de um professor de literatura da Universidade do Missouri na primeira metade do século XX. Uma vida sem glamour, sem fama ou reconhecimento - como a do próprio autor, diga-se.

William (Bill) Stoner é quase insuportavelmente triste - oriundo de uma família pobre de agricultores, ingressa na Universidade, onde acaba se dedicando à Literatura (para desgosto dos pais, que queriam vê-lo estudando algo ligado à terra), torna-se professor. Foge da convocação para a Primeira Guerra, seu casamento com Edith é um fracasso desastroso. A filha do casal é criada quase que exclusivamente por Bill. 

Tem apenas dois amigos. Um deles morre nos primeiros dias da participação americana na Primeira Guerra. Bill irá se lembrar dele pelo resto da vida; o outro, Finch, acaba prosperando na carreira universitária mas quase já não se lembra do companheiro morto. Já na casa dos quarenta, envolve-se com uma estudante - e a própria Edith irá tripudiar dessa relação...

Um escritor comum desperdiçaria Edith como uma megera, mas John Williams, na simplicidade e elegância de sua prosa, torna-a um personagem mais complexo do que se espera.

Em meio a tudo isso, busca dedicar-se à Literatura. É uma paixão inesperada e desesperada. Afinal, ele entrou na Universidade para estudar Agricultura. E, pela Literatura, suporta tudo, desde Edith até mesmo Hollis Lomax, diretor do departamento de Inglês e o grande vilão do romance, enquanto a vida lhe escorre por entre os dedos.

Stoner é um anti-heroi, o oposto ao ideal do sonho americano: não luta na guerra, não luta contra a hierarquia universitária, não luta nem pela mulher que amava (ele abandona sua amante ao saber que o escândalo poderia levá-lo a sair da Universidade que tanto amava). Aparentemente, Coleman Silk (Roth) e David Lurie (Coetzee) têm algo de Stoner no choque com a estrutura universitária, mas o  professor da Universidade do Missouri adota uma postura bastante diferente - há em Bill Stoner uma resignação elegante. Ele é seguro de si - não se arrepende; pelo contrário, tem a certeza absoluta de ter agido da forma correta por toda a sua vida.

Um livro surpreendente (meio século esquecido!) e, certamente, um dos melhores lançamentos dos últimos anos.

No Brasil, foi publicado pela Radio Londres, na tradução de Marcos Maffei. Diante das severas críticas à edição fui direto ao texto original mas, ao que parece, a editora lançou uma segunda edição inteiramente revisada.





O Leitor, de Wallace Stevens


Um artigo de Antonio Muñoz Molina sobre sua leitura de Montaigne no Babelia. As primeiras linhas:

A punto de salir de viaje, compruebo que llevo conmigo, entre las cosas necesarias que no pueden olvidárseme, mi libro de Montaigne. Es el segundo tomo de la edición de bolsillo de Folio, espléndidamente editada y anota­da por Emmanuel Naya, Delphine Reguig-Naya y Alexandre Tarrête. Está muy moldeado por el trato con las manos y con los bolsillos de chaquetones y abrigos, y por las muchas idas y venidas en las que me ha acompañado. Es la segunda vez que lo leo en el plazo de unos meses. Empecé, uno poco por azar, una lectura seguida de los Ensayos al cabo de una temporada de inmersión en el Quijote, y en torno a él en otras obras de Cervantes, biografías y estudios. Ir de Cervantes a Montaigne fue quizás una deriva natural de lector, la intuición confirmada de ciertas afinidades, dos almas templadas en tiempos de furibundas explosiones de fanatismos religiosos, dos viajeros por Italia, dos herederos de la corta era de apertura mental del humanismo de la primera parte del siglo XVI.

Lá pelas tantas, o autor cita Wallace Stevens (189-1955), poeta americano que escreveu que um leitor se torna naquilo que lê. 

Paulo Henriques Britto, em artigo na Piauí, diz que ele não viajou para a Europa, ia com frequência para a Florida para pescar e beber (a mulher não o deixava beber em casa), e teria levado uma surra de Hemingway.


Ei-lo:

The Reader

All night I sat reading a book,
Sat reading as if in a book
Of sombre pages.

It was autumn and falling stars
Covered the shrivelled forms
Crouched in the moonlight.

No lamp was burning as I read,
A voice was mumbling, “Everything
Falls back to coldness,

Even the musky muscadines,
The melons, the vermilion pears
Of the leafless garden”.

The sombre pages bore no print
Except the trace of burning stars
In the frosty heaven.






sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Os 100 melhores romances da língua inglesa (para Robert McCrum)

Read on

A lista, em ordem cronológica, saiu no The Guardian. 

O primeiro é The Pilgrim's Progress, de John Bunyan (1678). Comecei a ler Gulliver, que, obviamente, está presente em qualquer lista decente.

Dos mais recentes, achei curioso o fato de Ian McEwan não aparecer com Reparação. Banville também não aparece. Roth está representado por Complexo de Portnoy, que ainda não li. 


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Civilização, de Kenneth Clark


 
 
Civilização é algo mais do que energia, vontade e poder criativo; algo que os normandos não possuíam, mas que, mesmo na sua época, estava reaparecendo na Europa Ocidental. Como defini-la? Em poucas palavras: um sentido de permanência. Os nômades e invasores viviam num fluxo contínuo. Não sentiam necessidade de ver além do próximo fim de inverno, ou da próxima viagem ou da próxima batalha. Por isso não construíram casas de pedra nem escreveram livros. Dos livros de pedra construídos nos séculos posteriores ao Mausoléu de Teodorico, um dos únicos a sobreviver foi o Batistério de Poitiers. É muito primitivo. Os construtores tentaram usar elementos de arquitetura romana, capitéis, frontões, pilares, mas esqueceram suas intenções primeiras. Mas, pelo menos, esta construção precária se conservou. Não é apenas uma tenda. Acho que o homem civilizado precisa sentir que ele tem uma lugar no tempo e no espaço e que tem um futuro e um passado.
 
O livro é, praticamente, a série produzida pela BBC de mesmo nome, apresentada pelo autor (1913-1983). Cada capítulo corresponde a um dos episódios e, se você buscar no Youtube, estará acompanhando exatamente o conteúdo do livro.
 
Ler Civilização em 2016 teve, em mim, um efeito dúbio.
 
Por um lado, é notável ver como Kenneth Clark resume o que efetivamente vale a pena da civilização ocidental. Uma pequena história do ocidente através de sua arte - arquitetura e pintura em destaque, mas também a música e algo de literatura.
 
Há passagens memoráveis, como ao tratar da importância de Carlos Magno na formação da "civilização ocidental" e da Europa como as conhecemos. O texto é simples, direto. Clark acredita no poder do indivíduo - e deixa claro ao cuidar de Giotto, Dante, São Francisco de Assis, Vermeer, Rembrandt..., ao mesmo tempo em que afirma que a civilização ocidental como um produto da Igreja.
 
É a defesa de uma tradição. É um livro absolutamente cativante e fundamental.
 
Mas o primeiro e o último capítulos, justamente quando o autor apresenta seu conceito de civilização e, depois, quando expõe sua opinião sobre o que vem por aí, são angustiantes.
 
Clark diz que as civilizações acabam devido à exaustão. E é possível mesmo que por exaustão ele inclua uma certa capitulação. No mundinho politicamente correto (que é altamente seletivo, no sentido em que se escolhe as "minorias" certas a serem protegidas) vale de tudo. Até mesmo deturpar a história.
 
Clark se diz otimista. A série é de 1969. As civilizações são frágeis, diz, e podem ser destruídas. Mas ele acreditava que americanos e soviéticos não fossem se destruir.
 
Mas estamos em 2016. Eu sou pessimista.
 
Veja o episódio recente, em que o governo italiano cobriu as estátuas nuas renascentistas para a visita do presidente iraniano. Alega respeito mas, na verdade, há uma capitulação. A civilização acaba quando se tem vergonha de defendê-la.
 
Sob o pretexto de tolerância, desiste-se de ser o que é. Isto é hastear bandeira branca, talvez por complexo de culpa, demagogia ou fraqueza.
 
A propósito: Clark delimita sua civilização à ocidental, reconhecendo não ser a única existente, mas sim, a única que conhece.
 
Há um movimento em curso que busca retirar do currículo escolar estudo dos gregos e romanos, bem como a maior parte da história europeia. Mas não se pode entender o Brasil sem Portugal, o final da Idade Média, Reforma e contra-Reforma e tal...
 
Para o americano e o europeu, de um modo geral, o Brasil não faz parte do Ocidente. Muitos brasileiros pensam assim - e há os que trabalham firmemente para isso.
 
Mas então... somos o quê?