sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Madame Bovary, de Gustave Flaubert (II)

Depois do clássico, vale a pena ler A orgia perpétua: Flaubert e Madame Bovary, de Mario Vargas Llosa: um estudo completo da obra, em três aspectos:

- o impacto que o romance lhe causou como leitor - algo que sempre me interessa:

Um punhado de personagens literários marcou minha vida de maneira mais duradoura que boa parte dos seres de carne e osso que conheci (...) Nesse círculo heterogêneo e cosmopolita, bando de fantasmas amigos que se renova segundo as épocas e o humor - hoje eu mencionaria de imediato D'Artagnan, David Copperfield, Jean Valjean, o príncipe Pierre Berzúkhov, Fabrice del Dongo, os terroristas Tchen e o Professor, Lena Grove  o condenado alto - ninguém mais persistente e com quem tenha tido uma relação mais claramente passional que Emma Bovary.

- a análise detalhada da obra, desde sua concepção, sua estrutura, as influências da realidade e dos autores que Flaubert leu durante os anos de construção do seu romance, além, claro, de aspectos da vida do autor até a análise do texto propriamente dito.

- o legado de Madame Bovary.

Escrito em 1974, quando o autor já havia lido Madame Bovary pelo menos seis vezes, nunca iguais (coisa que só quem costuma reler clássicos percebe), trata-se de um grande tributo de Vargas Llosa a seu mestre.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Madame Bovary, de Gustave Flaubert (II)

Duas adaptações de Madame Bovary recentes:


A de Chabrol, com Isabelle Huppert no papel principal. O filme é de 1991.

A de Sophie Barthes, lançada em 2015 na França, com Mia Wasikowska.


domingo, 24 de janeiro de 2016

Madame Bovary, de Gustave Flaubert (I)


Um exemplo dos mais didáticos sobre como literatura não se resume a enredo: um adultério envolvendo personagens provincianos. Ao menos no Brasil, gerações de estudantes de ensino médio são estimuladas a passar ao largo de um dos maiores romances já escritos; a "'maravilha do mundo' entre todos os romances", "o primeiro romance rigorosamente construído como um poema", cuja "releitura e re-releitura sempre fazem descobrir concatenações inesperadas", dizia Carpeaux.

Em Flaubert, o estilo é o grande destaque; o trabalho de ourivesaria na construção das frases, da preocupação em encontrar a palavra correta. Poucas vezes isso será tão evidente como em Madame Bovary e, neste romance, em momentos como o da descrição da exposição agrícola - os anúncios dos prêmios para o progresso - e as conversas entre Emma e Rodolphe, o primeiro de seus amantes (que dela irá se livrar sem maiores arrependimentos). Um falando platitudes sobre a política, o outro, platitudes sobre amor e sedução. O estilo cuidadoso ao extremo também é evidente na preparação do corpo de Emma, já ao final. 

O primeiro personagem a surgir no romance é justamente Charles, ainda criança - cujos traços já antecipam o adulto em que irá se tornar. Um medíocre médico de província, sem qualquer ambição na vida. Emma Bovary começa e termina com Charles. Emma irá eclipsar Charles, é claro, e a história se torna o seu romance e a sua tragédia. Um momento marcante é a conversa do pai com a filha, convencendo Emma a se casar. Essa conversa, capital, é a desgraça da filha, que logo se decepciona com a nova vida e com o marido:

A conversa de Charles era chata como uma calçada de rua e nela as ideias de todo mundo desfilavam em seu costume ordinário, sem excitar emoção, riso ou sonho. Nunca tinha tido a curiosidade, dizia ele, enquanto morava em Rouen, de ir ver no teatro os atores de Paris. Não sabia nem nadar, nem combater, nem atirar com revólver, e não pôde, um dia, explicar-lhe um termo de equitação que ela tinha encontrado num romance.

Emma tem certamente muito de Quixote. Ambos são grandes leitores e têm suas visões de mundo e, consequentemente, suas vidas, desviadas por essas mesmas leituras. Ambos, é verdade, foram avisados e aconselhados a ler menos, ainda que Emma não tenha tido a "ajuda" do cura, que se preocupou em jogar na fogueira obras por demais perigosas para a pouca sanidade de Alonso Quijano.

Flaubert escreveu em 1857; menos de meio século mais tarde, Tchekov criaria Macha, uma das Três Irmãs, casada com Kulygin aos 18. A mediocridade do marido a leva ao desespero. A vida na província não é para nenhuma delas.

Além de Rodolphe, há Léon, o segundo amante, estudante de direito em Paris (como Flaubert). Há indícios de que Charles seja, de fato, um retardado - como quando ele encontra a suposta professora de piano de Emma, que jamais ouvira falar da aluna... 

Homais, no entanto, é um personagem mais interessante que os amantes. Farmacêutico da província, fala e escreve artigos para o jornal da província (absolutamente irrelevante); é um amontoado de clichês e incoerências - admira Voltaire e é supersticioso em relação à morte, por exemplo. É o representante do espírito da nova classe ascendente, que Flaubert tanto detesta.

Flaubert descreve o trágico fim de uma devedora de título de crédito - as notas promissórias que assina geram uma dívida monstruosa e impagável. Lheureux, seu credor, é implacável. Mestre Hareng, o oficial de justiça, entra em sua casa para fazer a penhora dos seus bens. Seu fim está selado.

Curiosamente, após a morte de Charles, o destino de sua filha, Berthe, é apresentado em meia linha: a pobre criança vai para uma tia, que se encarregou dela: Ela é pobre e a manda, a fim de ganha a vida, para uma fábrica de fios de algodão". 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Sleep Winter, de Nuri Bilge Ceylan (2014)


Um ator se afasta da profissão e se refugia no comando do hotel da família, numa cidade do interior turco, perdida no meio da Capadócia. Sua carreira não foi o que ele esperava. Escreve para um jornal de alcance também relativo (e, portanto, é menos lido do que gostaria). Este é Aydin (Haluk Bilginer, um dos atores mais conhecidos do país), o Tio Vânia do diretor turco Ceylan. 

As tomadas longas, os longos silêncios, entrecortados pelos diálogos tensos de Aydin com sua mulher mais jovem, a infeliz Nihal (Melisa Sözen), que se lança em projetos filantrópicos e está pensando seriamente em abandonar o marido, e a irmã separada Necla (Demet Akbağ), duas infelizes naquele fim de mundo. Aydin também está bem enrolado com seus inquilinos que lhe devem dinheiro mas não respeito, Ismail e seu filho.

Winter Sleep Cannes 2014

São mais de 3 horas de filme, propositalmente lento. Talvez demais para a maioria das pessoas hoje. Mas vale, e muito, a pena. Há momentos de puro teatro tchekoviano e outros de cinema com fotografia apurada.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Puhdistus (Expurgo), de Antii Jokinen (2012)

Puhdistus (2012) Poster


Completamente ignorado no Brasil, o filme de Antii Jokinen é a adaptação do romance de Sofi Oksanen, Expurgo. E, no entanto, surpresa, está perdido na grade de opções da TV a cabo. Vai entender...

Bastante fiel ao livro, algo não tão comum assim, Jokinen traz a história de Zara, que na busca por um emprego acaba se tornando uma escrava branca de um grupo de mafiosos. Agredida e violentada - o filme, aliás, é extremamente violento - consegue fugir e aparece no quintal da casa da velha Aliide (Laura Birn está ótima como a Aliide dos anos 40; Liisi Tandefelt é a velha).

Há uma desconfiança inicial mútua, mas ambas sofreram abusos semelhantes - há uma ligação pessoal entre as duas que se revela ao longo do livro/filme. Uma traição que mudou o destino de ambas (o que ocorreu nos anos 40 atingiu a jovem Zara do século XXI). 

Jokinen fez uma adaptação realista ao extremo do romance que rendeu a Oksanen o Femina de 2010. Um pedaço importante da história da Estonia, entre a ocupação soviética até o presente (devastada igualmente pelos russos, agora através da máfia), das traições, das famílias destruídas e expurgos (a Sibéria estava ali para os inimigos do povo). Aliás, Sofi (1977) diz que, quando criança, ninguém falava em deportação - as pessoas simplesmente tinham "ido para a Sibéria).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Rembrandt, de Alexander Korda (1936)


Rembrandt (1936)

Falando em Rembrandt, este filme de Alexander Korda - nascido na Hungria com o nome Sándor Lászlo Kellner - de 1936 é considerado um dos melhores já feitos sobre a vida do holandês. Mesmo hoje, passados 80 anos, permanece 

Padura: Porque Rembrandt chorou na tarde de 1656 quando, vencido pelas pressões dos credores, teve de declarar falência e abandonar a sua querida casa no número 4 da Jodenbreestraat, enquanto membros do Tribunal de Insolvências Patrimoniais faziam o inventário de todos os seus pertences, obras, lembranças, objetos, acumulados durante anos, para serem liquidados em leilão público.

Charles Laughton teve aqui uma de suas mais destacadas interpretações. Rembrandt está com seu filho Titus, sua última mulher, Hendrickje Stoffels (interpretada por Elsa Lanchester, mulher de Laughton) e seu amigo, o ex-rabino Menasseh ben Israel. Saskia morre logo no início, o que faz com que o pouco ajuizado financeiramente Rembrandt perca suas últimas posses. 

A necessidade o leva a pintar o famoso Ronda Noturna. No filme, quando o quadro é apresentado, todos se põem a rir, achando a obra ridícula. Os homens da milícia do Capitão Cocq, incluindo o próprio, se recusam a pagar pelo trabalho.

Simon Schama diz que isso nunca aconteceu, mas reconhece que, à época do filme, essa era a opinião dominante. Cocq, na verdade, adquiriu duas cópias.

Mas não importa. No todo, é um filme dominado pela grande atuação de Laughton, além de contar com uma fotografia que pode surpreender.


Na última cena, o artista, em seus últimos dias, está se autorretratando:




E o quadro, de 1669 (ano de sua morte):


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Laughton dá a Rembrandt uma melancolia especial; no final, o pintor está só (Titus morre antes do pai, ainda que isso não apareça no filme). Só com os seu pincéis. O resto é apenas vaidade.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Hereges, de Leonardo Padura



Leonardo Padura realizou outra grande e detalhada pesquisa histórica para nos lembrar da história do S.S Saint Louis. O navio zarpou de Hamburgo, em 1939, com mais de 900 judeus desesperados por um abrigo que lhes permitisse escapar do já conhecido destino reservado aos judeus pelos alemães.


Herejes

Cuba já possuia uma comunidade judaica importante. Na década de 20, parte significativa dos judeus de Kirklareli, no finado Império Otomano, passaram por lá - muitos ficaram, outros partiram para os Estados Unidos e até para cá..., mas isso é assunto para outro momento.

O fato é que, por pressão americana (os EUA só entrariam na guerra no final de 1941), Cuba foi forçada a negar o asilo, ao cobrar dos refugiados tamanha soma de dinheiro que, na prática, fez com que o navio retornasse para Hamburgo da forma como veio. Desesperados, os passageiros saltavam ao mar. O navio também foi expulso dos EUA e do Canadá. Escrito antes do estouro da crise de refugiados de 2015, é impossível lê-lo, hoje, sem traçar algum paralelo com a situação atualmente vivida pelos sírios em direção à Europa.

Mas, em 1939, ao menos uma pessoa conseguiu desembarcar do Saint Louis.

Daniel Kaminsky era então um garoto. Como conseguiu isso? O tio Joseph, que já aguardava os Kaminsky em Havana, tinha algo a oferecer. Algo que estava com a família há geraçõs. A chave está numa imagem de Cristo, atribuída a Rembrandt, e que foi utilizada como moeda nas docas de Havana. A corrupção imperava na Cuba daqueles anos. Padura é uma figura peculiar na Cuba castrista: claramente não alinhado ao regime, é por ele tolerado com liberdade. Não se furta a tratar da corrupção de seu país, bem como a decadência pós-URSS. Ao mesmo tempo, mostra um povo capaz de viver como se estivesse sempre em uma festa, apesar da situação política e econômica caótica.

Mas, na Havana atual, Mario Conde, ex-policial, livreiro e eventualmente detetive, é procurado por Elias, filho de Daniel. Quer saber o que exatamente aconteceu naquele episódio - afinal, os pais e irmãos de Daniel voltaram para a Alemanha e morreram nos campos. O que, exatamente, não funcionou naquele dia?

Mas o grande momento do livro não é o século XX, e sim, o XVII. 

O mistério em torno da tela de Rembrandt remete à Amsterdam de 1645-1647, a situação dos judeus e também a relativamente pouco explorada situação interna da comunidade. Havia um judeu trabalhando com o Mestre. E talvez o maior momento da pesquisa seja justamente a última parte, com a carta descrevendo o progrom da Polônia, também no século XVII.

O post deve parar por aqui - afinal, trata-se de um romance histórico mas, também, policial. Padura fecha muito bem as três histórias que compõem Hereges: do Saint Louis de 1939, passando por Amsterdam de 1645 e Cuba de 2007, passando por refugiados judeus em Cuba e refugiados cubanos em Miami e pela Cracóvia de 1648.

Mas, atente aos hereges: Daniel é um herege, ao abandonar a fé judaica para se tornar um cubano típico - ele faz um esforço deliberado e consciente nesse sentido; o judeu que trabalha para Rembrandt, pintando e desenhando figuras humanas de forma clandestina em Amsterdam é um herege, assim como Judy, jovem cubana privilegiada que se torna emo - sua história toma a terceira parte do livro, mas é justamente a que menos funciona em toda a narrativa. Os hereges estão aí em busca de liberdade. Na entrevista para O Globo:

Decidi resgatá-lo para uma história que deveria abarcar a relação das pessoas com as ortodoxias que nos rodeiam e a busca pela liberdade. Primeiro, a história de um adolescente judeu que chega a Cuba vindo da Europa e começa a assumir o modo de vida da ilha até se converter em um cubano. Depois, a história dos judeus sefaradis na época de Rembrandt e a da jovem que pertence a uma tribo urbana no presente cubano. 

Padura se mostra, como em O homem que amava os cachorros, um grande e detalhista pesquisador - além de excelente romancista.

Primo Levi

Portrait de l'ecrivain italien Primo Levi en 1980. ©Marcello Mencarini/Leemage/AFP ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***


Matéria publicada na Folha sobre Primo Levi, o grande escritor o Holocausto. A Biblioteca Nacional promoverá, nos dias 27 a 29 de janeiro, evento para celebrar a obra do italiano - no 71º aniversário da libertação de Auschwitz. É isto um homem? foi recusado por diversas editoras - que afirmavam que o tema não despertaria o menor interesse no público. 

O artigo também trata do mistério envolvendo sua morte, aparentemente suicídio. Há quem defenda a ideia de acidente. O fato é que ele foi encontrado morto após cair do terceiro andar do edifício em Turim onde viveu a maior parte da vida. Eternas discussões sobre seu estado de saúde, sua eventual depressão - que era anterior à guerra - e seus projetos para o futuro.

Mas o que não se pode negar é a importância de sua obra. Ninguém chegou perto de Levi na tradução em palavras da experiência dos campos, em livros profundamente autobiográficos. Ao lado da obra-prima É isto um homem? , A Trégua também é de leitura obrigatória para entendê-lo.

Os inacabados

Na semana em que o autor da série Game of Thrones anunciou não ter conseguido acabar o último livro da série, o jornal Observador, de Lisboa, traz matéria sobre as grandes obras inacabadas de grandes escritores. 

Kafka e América, Flaubert e Bouvard e Pécuchet, Saramago, Joyce, Twain e tantos outros estão na fotogaleria. Hasek também morreu ditando seu o bom soldado Svejk.

A matéria pode ser lida aqui.