sábado, 19 de dezembro de 2015

Alberto Manguel, diretor da Biblioteca Nacional

Atualmente em Nova York, onde está lecionando um semestre em Princeton e em Columbia sobre Borges (2016 é o 30º ano de sua morte), Alberto Manguel é o novo diretor da Biblioteca Nacional argentina. Borges esteve à frente da instituição de 1955 a 1973.



2015

A esta altura, já dá para entrar na onda das intermináveis listas de fim de ano.

Ano dedicado principalmente aos clássicos - o segundo volume da Comédia Humana de Balzac e o Purgatório e o Paraíso de Dante. E descobri que, quando se escreve (ficção) não se consegue ler tanto. Difícil é saber se vale a pena... Mas, em resumo, os destaques do ano:


Ficção: Amos Oz (Judas) e Gospodinov (The Physics of Sorrow, ainda inédito no Brasil). E, com atraso de mais de década, o excelente Desonra do sul-africano Coetzee. Manuel Mira e o romance El olivo que no ardió en Salónica estão à espera de uma editora brasileira.

Brasil: Alberto Mussa e a história do Rio em A primeira história do mundo. Também gostei do pesadelo imaginado por Miguel Sanches Neto - A segunda pátria.

Biografias: a do Philip Roth, escrita pela Claudia Pierpoint Roth (sem parentesco com o biografado).


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A lição, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov


Um filme muito bom que você provavelmente não viu, mas que já está disponível - até! - na TV a cabo. Uma professora dura, esposa de um fracassado alcoólatra, mãe de uma menininha, filha de um pai que vive com uma mulher bem mais nova...

A rigorosa professora Nade trabalha numa escola tentando fazer com que seus desanimados e perdidos alunos aprendam inglês, e se mostra implacável com uma situação de furto em sala de aula. Mas ela é professora, ganha mal (acham que isso não acontece na Europa?) e faz bicos com traduções.

Uma sucessão de desgraças surge a partir daí, num filme que não tem qualquer preocupação com fotografia ou trilha sonora - e que talvez, por isso mesmo, passe uma incômoda sensação de realismo. Não há dramalhão, mas uma angustiante luta de uma mulher para salvar a própria casa das besteiras do marido irresponsável.

A questão, a partir daí, é: como fica a rígida professora, cheia de princípios, diante desse caos que a atinge? O desfecho da história é de certa forma surpreendente neste sentido.

O brasileiro vai se identificar com uma pessoa apanhada por uma burocracia atrasada, um poder público corrupto (o comissário de polícia trabalha para o agiota que a explora - e que propõe que Nade se prostitua para pagar sua dívida), funcionários de banco capazes de levar qualquer sujeito à beira da psicopatia e empresas que fecham de uma hora para outra deixando os funcionários à deriva.

A Bulgária é um dos países europeus mais desconhecidos dos brasileiros, apesar dos esforços expedicionários de Campos de Carvalho - bom, o pai da Dilma era búlgaro... - que ignoram sua literatura e seu cinema. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Woody Allen aos 80


Em 1º de dezembro de 1935, nasceu Allan Stewart Königsberg. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Manhattan, A Era do Rádio, Todos dizem eu te amo, Match Point, Desconstruindo Harry, Meia-noite em Paris...

A falsa amante, de Balzac

As famílias ricas vivem atualmente entre o perigo de arruinar os filhos se os têm em grande número, e o de se extinguirem se se limitarem a um ou dois - singular resultado do Código Civil, que Napoleão não previu.

Balzac era conservador; hoje seria chamado de reacionário. No caso - o Código Napoleão acabou com os privilégios da primogenitura, resquício medieval capaz de preservar o poder e a riqueza da aristocracia. Não é a primeira vez que vemos sua repulsa ao novo regime de forma tão clara.

Oeuvres illustrées de Balzac. Ursule Mirouët. La Fausse maîtresse. Les Célibataires : Pierrette, Le Curé de Tours, Un ménage de garçon. L'Illustre Gaudissart. La Muse du département. La Paix du ménage. Une passion dans le désert. Physiologie du mariage. Autre étude de femme


Clementina du Rouvre é casada com o rico imigrante polonês Adam Mitgislas Laginski, que além de rico é incrivelmente feio - há duas espécies de poloneses, como há duas espécies de ingleses. Quando uma inglesa não é muito bela, é horrivelmente feia, e o conde Adão pertence à segunda categoria. 

Tadeu Paz é o amigo também polonês de Adam, a quem deve favores e evita qualquer envolvimento com a assanhada Clementina. A ponto de inventar uma "amante", uma atriz de circo, Málaga (mania de colocar Espanha ou Itália como ambientes selvagens). Passa a financiar Málaga para dar credibilidade ao seu intento. Clementina se sente extremamente ofendida por ser desprezada em detrimento a um ser tão, digamos, inferior - ser este que, por outro lado, não entende exatamente o que está acontecendo, uma vez que Tadeu não tem, de fato, nenhum interesse nela.

Tadeu escreve para Clementina dizendo partir para a Rússia, e lhe revela toda a verdade - ele sempre esteve de olho na mulher do amigo. Clementina descobre então que toda a história da amante era falsa - e nós ficamos sabendo que Tadeu sempre esteve em Paris - Condessa, ir ao Cáucaso para me fazer matar e levar comigo seu desprezo, é demasiado - escreve-lhe na carta.

Paulo Rónai fala, na introdução ao conto, que a figura de Tadeu se baseou no conde Tadeu Wylezynski, primo de Eveline Hanska e que, por não poder se casar com ela, "tê-la-ia adorado à distância silenciosamente, não só depois de casada, como também após o começo do idílio com Balzac". Mas como personagem, Tadeu é por demais virtuoso para um leitor do século XXI...