quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ian McEwan sem utopia




 O sr. viveu muito próximo da ameaça do fanatismo religioso quando foi decretada a fatwa contra seu amigo Salman Rushdie (foi condenado à morte pelo aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini), a quem o sr. escondeu durante um tempo em uma casa de Cotswolds. Foi o momento em que o Ocidente se deu conta de que o século XXI não estaria livre dessas ameaças?
R. Nos anos oitenta, para muitos de nós que moramos na Europa pós-cristã, a religião nunca entrava na conversa. Era algo que a gente fazia há 150 anos, antes de Darwin. Mas o que aconteceu com Salman, primeiro, e sobretudo o que veio depois com o 11 de setembro, nos colocou frente a frente com o poder da fé religiosa.
P. O que o sr. pensa quando lê sobre as meninas londrinas que fogem de casa para se unir à jihad?
R. É um mistério total. Uma das noções mais destrutivas da história do pensamento humano é a utopia. A ideia de que é possível formar uma sociedade perfeita, seja nesta vida ou em outra posterior, é muito destrutiva. Porque a consequência é que não importa se você matou um milhão de pessoas no caminho: o objetivo é a perfeição e isso desculpa qualquer crime. É uma fantasia que teve seus equivalentes seculares, no comunismo soviético, por exemplo, e também com os nazistas. A ideia da redenção, uma ideia milenar, sempre exige inimigos.
O restante da entrevista, em português, no El País.

sábado, 21 de novembro de 2015

Fetichismo literário

Pratico o fetichismo literário: adoro visitar as casas, túmulos, bibliotecas dos escritores que admiro, e se além disso pudesse colecionar suas vértebras, como fazem os crentes com os santos, o faria com muito gosto. (Eu lembro que, em Moscou, fui o único, no grupo de convidados, a fazer sem me desesperar a infinita peregrinação tolstoiana, o ínico a farejar com prazer desdde as babuchas e samovares até a última pena de ganso.

Vargas Llosa, A orgia perpétua. Alfaguara.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

70 anos de Nuremberg


O filme é de 1961, mas os julgamentos de Nuremberg tiveram início em 20 de novembro de 1945. 

Key hearings: The Nuremberg trials were a defining moment in international justice that saw the 21 defendants accused of acts such as crimes against peace and humanity, and abuse and murder of prisoners

Churchill era contra - por ele, fuzilava todos em questão de minutos. 

Expôs sua opinião em Yalta, mas Roosevelt achava importante para os americanos levar os criminosos à justiça; Stalin via nos julgamentos uma excelente forma de propaganda do regime.

Para Churchill, era um sinal imperdoável de hipocrisia.

Foi o que revelaram os diários de Guy Liddell, diretor de contra-espionagem do MI5 - que vieram a público em 2012.


Talks: Winston Churchill (left) was said to have been swayed against the idea for summary executions at the Yalta 'Big Three' conference in 1945 by US president Franklin D Roosevelt (centre) and Joseph Stalin (right)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Estudo de mulher, de Balzac



Os principais personagens de toda Comédia estão neste curtíssimo texto: Eugène de Rastignac, que será de fundamental importância em O pai Goriot e o famoso médico, o doutor Horace Bianchon, seu narrador. Até aqui, o primeiro narrador personagem de Balzac. A "ideia" (mais que propriamente um enredo) central - um jovem comete uma grosseria, e tenta se desculpar do ato.

Rastignac escreve uma carta à sua amante, a Sra. de Nucingen (filha de Goriot). Todos sabem dessa ligação - no Baile de Sceaux, já se comentava com bastante ironia... Mas a carta acaba nas mãos da sra. de Listomère, que se faz de surpresa - mas está achando tudo muito bom. Mas leva um balde de água fria:

- Senhor, o silêncio será de sua parte a melhor das escusas. Quanto a mim, prometo-lhe o mais absoluto esquecimento, perdão de que é pouco merecedor.

- Minha senhora - disse Eugênio com vivacidade -, o perdão é inútil quando não há ofensa. A carta - acrescentou em voz baixa - que a senhora recebeu, e que deve ter achado bastante inconveniente, não lhe era destinada.

Eugène é um tapado, e somente irá descobrir a grande besteira.

Eis os erros que cometemos aos vinte e cinco anos. Essa confidência causou uma violenta comoção na sra. de Listomère, mas Eugênio ainda não sabia analisar um rosto de mulher ao olhá-lo apressadamente ou de viés.

Mas ao longo da Comédia, ainda encontraremos Eugène de Rastignac em ocasiões mais favoráveis...

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A sra. Firmiani, de Balzac

Não se sabe exatamente o que Balzac queria com esse A sra. Firmiani. Para Rónai, "um romance não acabado, talvez nem começado". A ação de Otávio de Camps, influenciado pela sra. Firmiani nos é relatada; ficamos sabendo do desfecho, mas isso é o que menos importa.

Balzac descreve uns tipos por aí que, descobrimos, estão entre nós até hoje:

O Observador - fala como um profeta. Temos de aceitar suas palavras, suas anedotas, suas citações como verdade, sob pena de passarmos por um homem sem instrução e sem meios. 

O Contraditor - essa espécie de gente faz a errata de todas as memórias, retifica todos os fatos, aposta sempre cem contra um, tem certeza de tudo.

Os Plantadores - gente habituada a se dar conta de tudo e a fazer negócios como os camponeses.

Tudo isso na rue du Bac, onde a sra. Firmiani tinha seu palacete. Hoje:

Rue du Bac, Paris

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sergio Augusto e os 100 anos da Metamorfose

Antes de submeter A Metamorfose à apreciação de uma revista editada por Robert Musil, Kafka a leu para um grupo de amigos. Todos riram à beça. Como não rir de uma insólita tragicomédia como a vivida por Gregor Samsa?

Como sempre, um texto imperdível de Sergio Augusto, sobre o centenário da Metamorfose, de Kafka, que pode ser lido aqui. Um dos meus favoritos.

Sergio Augusto lembra do desprezo que a esquerda lhe conferiu - satanizado na Rússia e no leste europeu, sem espaço numa sociedade na construção do socialismo...

Mas ainda prefiro O Processo.



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sábado, 7 de novembro de 2015

A paz conjugal, de Balzac

Image illustrative de l'article La Paix du ménage


A aventura narrada nesta cena passou-se em fins de novembro de 1809, momento em que o fugaz império de Napoleão atingia o apogeu de seu esplendor. As fanfarras da vitória de Wagram ecoavam ainda no coração da monarquia austríaca.

Não se engane. Balzac não deixa isso passar em vão:

Naquele tempo os corações eram nômades como os regimentos. De um primeiro a um quinto boletim do Grande Exército, uma mulher podia ser sucessivamente amante, esposa, mãe e viúva. Seria a perspectiva de uma viuvez próxima, de uma dotação ou a esperança de usar um nome destinado à história que tornaram os militares tão sedutores para as mulheres?

Neste pequeno texto, Balzac nos coloca dentro de um dos grandes bailes do Império e nos apresenta ao conde de Soulanges, cortejando (oh, adorável século XIX) a Mme. Vaudremont que, por sua vez, parece mais afeiçoada a Marcial. Este, por sua vez, não tira os olhos de uma desconhecida mulher de azul. Aposta com o coronel Montcornet que conseguiria tirar a enigmática dama para dançar. 

Seu êxito, no entanto, traz algumas consequências: a mulher pede-lhe o anel que o coronel trazia em seu dedo, no que foi atendida. Mas quem é a mulher?

- Marcial - disse severamente a condessa - é a sra. de Soulanges, e seu marido lhe faria saltar os miolos, se é que o senhor ainda os tem.

A mulher é a condessa de Soulanges - seu marido roubara-lhe aquela mesma joia e a entregou à Mme. Vaudremont - que o deu a Marcial. A Marcial a mulher responde - os diamantes me pertencem! para o espanto do já desolado par.

Por trás de tudo e todos, a ardilosa Mme. de Lansac.

Ao encontrar o marido, a condessa de Soulanges - que descobrimos chamar-se Hortênsia - comenta o fato de haver achado o diamante, "que tu me dizias perdido"... 

Não acredito que Nelson Rodrigues não tenha lido esta A paz conjugal.

Um dos menores - e certamente dos melhores - trabalhos de Balzac até agora, já ao final do segundo volume da edição organizada pelo Paulo Rónai.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Novo livro de Padura

Daniel Kaminsky levaria vários anos para se habituar ao barulho esfuziante de uma cidade que se levantava sob a mais indisfarçada algaravia. Havia descoberto logo que ali tudo se tratava e se resolvia aos gritos, tudo rangia por causa da ferrugem e da umidade, os carros avançavam entre as explosões e o ronco dos motores ou os longos bramidos das buzinas, os cães latiam com ou sem motivo e os galos cantavam até a meia-noite, enquanto cada vendedor anunciava sua presença com um apito, um sino, uma corneta, um assovio, uma matraca, uma flauta de bambu, uma quadrinhabem rimada ou um simples berro. Ele tinha encalhado numa cidade na qual, ainda por cima, toda noite, às nove em ponto, retumbava um canhonaço sem que houvesse guerra declarada nem muralhas para fechar, e onde sempre, sempre, em épocas de bonança e em momentos de aperto, alguém escutava música, e cantava

Aqui, trecho do novo romance de Leonardo Padura, Hereges, que acaba de ser lançado no Brasil.