sábado, 31 de outubro de 2015

Mencken






ISTO E AQUILO

O principal conhecimento que se adquire lendo livros é o de que poucos livros merecem ser lidos.


O cínico é aquele que, ao sentir cheiro de flores, olha em torno à procura de um caixão.



Nunca superestime a decência da espécie humana.



A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. 



Pode ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano. 



É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele. 



Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria. 



Pelo menos numa coisa homens e mulheres concordam: nenhum deles confia em mulheres. 



De fato, é melhor dar do que receber. Por exemplo: presentes de casamento.



Finalmente passou a ser legal que uma mulher católica recorra à matemática para evitar a gravidez, mas continua sendo-lhe proibido recorrer à física ou à química.

Livro dos Insultos

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As torradas de Proust

O manuscrito de Proust

E as madeleines seriam, afinal, torradas. 

O primeiro dos cadernos, Le manuscrit du pain grillé (“o manuscrito do pão torrado”, em tradução livre), contém a primeira de todas as versões do “episódio da madalena”, datada de 1908 – é a versão da torrada com mel. No segundo caderno, Proust recomeça, dessa vez com um biscotte. No terceiro, intitulado Le manuscrit des Petites Madeleines (“o manuscrito das pequenas madalenas” junta duas vozes: a de Proust e a do seu copista, num diálogo sobre o trabalho da escrita.
"Estes três cadernos inéditos permitem voltar à genealogía literária do momento mais emblemático do universo proustiano", diz a editora em comunicado. No seu site, as Éditons des Saint-Pères explicam também o seu “amor pelos manuscritos, os objectos raros e preciosos” da literatura: “Enquanto o digital avança, nós dedicamo-nos a restaurar a magia da escrita enquanto veículo de um acesso mais intimo e comovente à obra e ao seu autor.”

É o que revela a matéria publicada no Público aqui.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Frick Collection, NY, 2015

© The Frick Collection

Cresci em Nova York, que tem mais Vermeers (oito) do que qualquer outra cidade no mundo. Do que qualquer país (há apenas sete na Holanda). Eu nunca vivi numa cidade sem um Vermeer.

É assim que termina o poema Why I love Vermeer, do americano Lloyd Schwartz. E, assim sendo, seu museu favorito em NY é a Frick Collection, na 5ª Avenida com 70, que possui em seu acervo três Vermeers.


Considerado um dos melhores museus pequenos do mundo, a Frick vale a visita mas, como ocorre na Morgan Library, passa despercebida e esnobada pela turba de turistas. Melhor assim. Além de Vermeer, encontramos Rembrandt, Van Dycks, Goyas. Há uma sala para Fragonard. Os italianos da Renascença, como Giovanni Bellini, são aquisições de sua filha (ele não gostava). Frick apreciava também os ingleses Turner e Constable.



Henry Clay Frick (1849-1919) não era um sujeito fácil. Foi considerado o homem mais odiado da América, devido ao seu notório antissindicalismo e sua participação na repressão a diversas greves (resultando em 10 mortes em 1892). Foi o episódio da aciaria de Carnegie, na cidade de Homestead. Frick era o gerente de sua fábrica. John Micklethwaith e Adrian Wooldridge contam a história em Companhia: breve história de uma idéia revolucionária.

Andrew Carnegie reduziu os salários dos seus empregados, o que, obviamente, resultou em greve. Frick construiu um muro em torno da usina, com arame farpado, holofotes móveis e fendas para 200 rifles. Contratou 30o homens da agência Pinkerton de detetives - que se renderam em uma batalha que já havia resultado em 16 mortes. Mas o governador mandou 8 mil soldados; Frick infiltrou entre os fura-greve negros, rejeitados pelos sindicatos, e a greve foi esmagada.

Mas Frick gostava mesmo era de Vermeer.



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Dante

A obra de Dante tem uma profundidade estética e intelectual que permite encontrar quase qualquer coisa que se possa procurar nela. Também tem uma espécie de perfeição artística, que é algo milagroso. Numa perspectiva intelectual isso pode explicar-se pela grande inteligência e pela grande capacidade de Dante para assimilar os conhecimentos da sua época e os transformar em poesia, encontrando vínculos entre os diferentes temas que aborda. Mas a beleza da Divina Comédia não se pode explicar por razões intelectuais ou técnicas. Tem algo de música, tem algo visual, tem uma beleza conceptual também. Todos esses elementos juntos são, cada um, extraordinários, mas tampouco chegam para explicar o conjunto tão extraordinário da obra. É a obra mais milagrosa da literatura universal.

(Alberto Manguel em entrevista ao Público - Ipsilon - aqui.)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Morgan Library, NY, 2015




Finalmente consegui conhecer a incrível The Morgan Library, em Nova York (Madison com 36), sem dúvida uma das mais bonitas e instigantes que existem. 

De quebra, conseguimos ver o último dia da exposição comemorativa dos 150 anos da edição de Alice no País das Maravilhas - não se esqueçam: Monteiro Lobato foi o primeiro a traduzi-la para o Brasil - e outra, sobre Ernest Hemingway entre guerras. 

E a Morgan é, além de tudo, uma demonstração da combinação de uma arquitetura do século XIX e do início do XX (o prédio da biblioteca é de 1902-1906) com o que de mais moderno existe em arquitetura - o anexo é assinado por Renzo Piano.

Piano foi contratado em 2000 para criar um espaço que integrasse a residência do banqueiro Pierpont Morgan (do séc. XIX), a biblioteca e um anexo, criado nos anos 20, com o crescimento da coleção. O resultado é este aqui:




O espaço se tornou público a partir de 1924, e é ponto de romaria para qualquer bibliófilo.

Nas prateleiras, obras completas de Dickens, Balzac, entre outros. 

Para melhorar, ainda é praticamente intocada pela turba de turistas que assola a cidade, o que permite uma visita tranquila e, eventualmente, uma conversa com o pessoal que trabalha por lá - o que nos rendeu algumas histórias, como a passagem secreta que Morgan usava para subir pelos três andares de seu salão principal. Isso torna a visita interessante até para quem, em princípio, torceria o nariz para a idéia de conhecer uma biblioteca.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Um texto de Svetlana Alexievich

O site (fundamental) Words Without Borders publicou em abril de 2005 The wondrous deer of the eternal hunt (em inglês), sobre a viúva de um sobrevivente de um campo de trabalho stalinista.


Inédita nessas bandas, provavelmente não por muito tempo. O fim do homem soviético foi publicado este ano pela editora Porto, de Portugal.

Não a conheço. Mas fiquei curioso. Abstraindo as injustiças com Roth e, em menor escala, outros ficcionistas, é interessante conhecer novos nomes (para nosso universo paralelo no Brasil). Além disso, há jornalismo e jornalismo, e muitos mereceriam o prêmio - Mencken, John Reed, John Hershey e companhia. Será o caso?


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A literatura europeia do século XX



Basicamente, é isso.

(Trampantojo, por Max. El País do dia 2/10)

Uma dupla família, de Balzac


Image illustrative de l'article Une double famille
Neste Uma dupla família Balzac usa o que hoje chamamos de flashbacks: a narrativa se inicia com o rico Roger e a jovem operária Carolina Crochard. Terão dois filhos. Na segunda parte, M. de Ganville, advogado promissor, convidado para o tribunal (desde o século 19 parece melhor ser um "magistrado do ministério público" do que um simples advogado), casa-se, por interesse, com a jovem e bela Angélica Bontemps.  E logo percebemos que estamos o tempo todo a falar de Roger Granville - a tal dupla família do título. 

Angélica mostra-se fria, austera, uma verdadeira beata, o que torna a vida de Roger insuportável:

Uma manhã, o pobre Granville notou, com tristeza e dor, todos os sintomas da carolice em sua casa. Encontram-se pelo mundo certas sociedades nas quais existem os mesmos efeitos  sem que sejam produzidos pelas mesmas causas. O tédio traça em torno dessas casas infelizes um círculo de ferro que encerra o horror do deserto e o infinito do vácuo. Um lar não é então um túmulo, mas coisa pior, um convento.

Ele irá se dedicar a Carolina, que se tornará mãe de seus filhos e o fará um homem feliz.
A família é o grande tema da época e, por isso mesmo, Balzac, no início do século XIX, não pode deixar essa família clandestina terminar bem.

Em 1822, o padre Fontanon conta a Angélica que Roger possui uma segunda família e a esposa oficial consegue flagrar o casal; em 1833, Roger conta a Horácio Bianchon que Carolina o trocou por Solvet - e se perdeu, indo à ruína financeira e moral - seu filho Carlos Crochard é preso por roubo - e tentou se safar alegando ser o filho de Granville.

Somos efetivamente um país do início do século XIX. Faltam apenas 200 anos para chegarmos ao século XXI.

Muitos criticam a opção de Balzac por este final "moralista", mas deve-se dar um desconto à época.

Neste texto Balzac apresenta seus temas mais caros: a mãe manipuladora, a oposição entre os pobres e os ricos de Paris (e seus respectivos interesses), o dinheiro. Atenção a Horácio Bianchon: o médico estará presente em Pai Goriot e em inúmeros outros romances, como Ilusões Perdidas. O próprio Roger Ganville volta em O esplendor e as misérias das cortesãs, César Birotteau e Primo Pons.

E Balzac sempre tem uma palavra carinhosa para falar do meio jurídico:

O jovem de Granville deitou-se, pois, formulando mil projetos cada qual mais belo Poderosamente protegido pelo arquichanceler, pelo grande juiz e por seu tio materno, um dos redatores do Código, ia estrear-se num posto cobiçado, ante a primeira corte do Império, e via-se membro do ministério público, onde Napoleão costumava escolher os altos funcionários da sua política.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Mencken e o Filósofo

O FILÓSOFO

Não há registro na história humana de um filósofo feliz: só existem nos contos da Carochinha. Na vida real, muitos cometeram suicídio; outros mandaram seus filhos porta afora e surraram suas mulheres. Não admira. Se você quiser descobrir como um filósofo se sente quando se empenha na prática de sua profissão, dê um pulo ao zoológico mais próximo e observe um chimpanzé na sua chatíssima e infindável tarefa de catar pulgas. Ambos - o filósofo e o chimpanzé - sofrem como o diabo, mas nenhum dos dois consegue ganhar.

O Livro dos Insultos

Elias na Corvus Review

Acaba de sair a edição da Corvus Review, com meu conto Elias. De Ruse, passando pelo Rio e chegando a Milwaukee.

O número 3 (Falls) pode ser lido aqui.




Já posso dizer que sou um autor traduzido...


A Vendetta, de Balzac

— Ah! Vocês não são mais corsos — exclamou Bartolomeu, numa manifestação de desespero. — Adeus. Em outros tempos eu os protegi — acrescentou em tom de censura. — Sem mim tua mãe não teria chegado a Marselha — disse ainda, dirigindo-se a Napoleão, que permanecia pensativo, o cotovelo apoiado sobre o pano da chaminé. 

— Em consciência, Bartolomeu — respondeu Bonaparte —, não te posso acobertar com minha proteção. Tornei-me o chefe de uma grande nação, sou o chefe da República e devo fazer cumprir as leis. 

— Ah!, ah! — fez Bartolomeu. 

— Mas posso fechar os olhos — continuou Bonaparte. — O preconceito da vendeta impedirá por muito tempo o reinado da lei na Córsega — acrescentou, falando consigo mesmo. — É preciso contudo destruí-lo a qualquer preço


A Comédia prossegue.  Em 1800, uma família de refugiados abandona a Córsega e chega a Paris. Bartolomeo di Piombo, sua esposa e sua filha deixam para trás a violenta ilha -  as famílias Piombo e Porta se chacinam mutuamente: Bartolomeo perde um filho e mata uma criança Porta. 

Mas, em Paris, se apresenta a Napoleão ainda quando o futuro imperador era um dos cônsules, apenas quatro anos antes de se tornar Imperador. 

Não devemos nos esquecer que Balzac escreve um perfil de Napoleão apenas quinze anos depois do último desastre, que o levou para Santa Helena. Trata-se de um grande homem, sincero (e corso), que procura garantir a segurança de Bartolomeo e sua família na França, mas alerta o conterrâneo: aqui na França ninguém faz justiça pelas próprias mãos. Alerta-o que qualquer desrespeito a essa regra básica iria  custar-lhe a amizade e a proteção


(Furne, 1846)



Balzac deixa claro: Napoleão quer realmente acabar com o antigo sistema de castas e privilégios aristocráticos e nepotistas. Mas também está a um passo de capturar para si todo o poder e também ficar acima de tudo e de todos. Bartolomeo poderia ser um personagem raso ou apenas caricato, mas não é: suas virtudes e defeitos estão sob a lente do narrador. É um personagem fascinante: orgulhoso, inteligente, fiel e carinhoso, mas (do nosso ponto de vista) cruel e intransigente, preso à Córsega (que, como percebemos, é mencionada ao longo do texto, mas não é o palco da história), torna sua esposa uma prisioneira de suas vontades e convicções - aos leitores mais ativistas, vale lembrar que o romance data de 1830.

Há um salto temporal: estabelecida a família em Paris, passam-se quinze anos.

Napoleão está definitivamente derrotado. E, como em qualquer ligar do mundo, os bonapartistas são perseguidos e a aristocracia retoma seus postos e poder.

A filha de Bartolomeo - Ginevra - estuda no ateliê do mestre Servin (sempre há pintores na França da Comédia). A mais bela, talentosa - e a mais pobre. Lá, como hoje, isso é um problema quando se está no meio da alta sociedade. Nesta segunda parte da história, o protagonismo deixa Bartolomeo e chega à sua filha. 

Ginevra encontra um jovem, escondido no ateliê de Servin. Luigi esconde-se da onda aristocrata e da reação. O inevitável acontece: forma-se um casal... Mas Balzac não deixa a coisa morrer aí - o que tornaria A Vendetta uma novela descartável.

Há, claro, a história de amor - e nos lembramos imediatamente de Romeo e Julieta, uma história entre o amor pela família e o amor "pessoal". Mas a questão é outra, e Ginevra goza anos de felicidade impossível. E a tragédia não está na vendetta corsa, mas justamente na incapacidade em se abandonar seu propósito. O erro e a tragédia são resultado da desobediência ao conselho dado por Napoleão.

Como Balzac é um curso de Direito à parte, temos nesta novela os "atos respeitosos" - ato judiciário através do qual o filho maior intima os pais para obter o consentimento ao seu casamento, para que não o realize sem o consentimento deles.