terça-feira, 29 de setembro de 2015

Alberto Savarus, de Balzac



Albert Savarus é um advogado parisiense que acaba parando em Besançon. Balzac explica que "nenhuma cidade oferece resistência mais surda e muda ao progresso". E, pior: 

De Victor Hugo, de Nodier, de Fourier, as glórias da cidade, não se fala, ninguém lhes dá atenção.

Paulo Rónai avisa - Savarus é o próprio Balzac, "basta ler o retrato físico de Alberto, que, no decorrer da novela, aparece com todos os traços, idealizados, do romancista, vestindo-lhe até o famoso robe de chambre"; na novela de Savarus aparecem alguns personagens da Comédia

Uma das grandes famílias de Besançon é a dos Watteville. A mulher do barão é uma jararaca controladora; a filha é Rosália, que logo se apaixona pelo advogado. Aproveita-se do namoro entre os respectivos criados e passa a ler as cartas de Alberto para a Duquesa Argaiolo. Os dois têm um caso. 

Alberto escreve um conto - que nos é "recontado" por Balzac, O ambicioso por amor. Rosália escreve uma carta para a Duquesa, passando-se por Alberto, onde afirma que irá se casar com uma Watteville. Rosália é uma vilã de novela. A Duquesa casa-se com Duque de Rhétoré; Alberto vira monge...

Anos depois, resolve contar seu plano à duquesa; depois, sofre um acidente: o vapor explode e ela perde o braço direito e a perna esquerda; seu rosto apresenta horríveis cicatrizes que a privaram de sua beleza; sua saúde, sujeita a terríveis perturbações, deixa-lhe poucos dias sem sofrimentos. Enfim, ela, hoje, não sai mais da Chartreuse dos Rouxey, onde leva uma vida inteiramente devotada às práticas religiosas.

Final melodramaticamente forçado; esse Alberto Savarus é para aqueles que se dispõem a conhecer a Comédia em sua integralidade. Balzac não desenvolve o advogado Savarus a ponto d torná-lo interessante por este aspecto.




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Circunferência em toda parte e centro em lugar nenhum


INTERNET: Um lugar que, como o Deus dos estudiosos medievais, tem sua circunferência em toda parte e seu centro em lugar nenhum. Como a lua de Ariosto, é um reino onde pode ser encontrado tudo o que esquecemos, e nos alivia da responsabilidade de lembrar de coisas por conta própria. Seus defensores esperam que, eventualmente, a internet vai aliviar-nos de pensar completamente.

(Alberto Manguel para seu Dicionário)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

António Lobo Antunes ataca mais uma vez

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa.

Não sou admirador de Pessoa.

Como assim!?!? O Livro do Desassossego...!

O livro do não se o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterônimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Questiono-m se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.

Se você chegou até aqui e quiser ler a entrevista completa publicada na semana passada no El País, clique aqui.

Obs.: agradecendo a dica do leitor José Alexandre Ramos, segue o link para a entrevista em português,  aqui.





domingo, 20 de setembro de 2015

Mapa mundi

Martin Vargic is a 17-year-old artist from Slovakia who specialises in creating intricate maps drawn from modern data and pop culture.

O mundo literário, na visão de um artista, Martin Vargic, de 17 anos. Ele não esconde sua preferência pela prosa de ficção. A matéria completa, em inglês, aqui.

Vargic told BuzzFeed: “The Map of Literature is a graphical visualization of how the world's literature evolved from the ancient era to the present day.”

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um golpe de mestre, de Reha Çamuroglu

 
Um golpe de sorte
Reha Çamuroglu
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Tradução de Marina Mariz
Sá Editora, São Paulo, 2011, 130p.
 
Sultão Vermelho - era com essas duas palavras que todos os adversários do sultão - gregos, armênios, árabes e os Jovens Turcos - o descreviam. Aos sussurros, eles falavam de seus porões de tortura, dos cadáveres que a maré trazia pela manhã e, com ódio, medo e às vezes com uma inveja que não conseguiam ocultar, eles se queixavam desse homem que comandava o império há trinta anos. Contudo, Anna tinha razão. Todos eles pertenciam à elite. Ou tinham bons negócios que arrecadavam muito dinheiro, ou eram filhos de paxás e nobres. Charles via e sentia claramente que as camadas populares amavam o Sultão Vermelho, enquanto a elite - inclusive nos círculos em torno do monarca - o odiava profundamente.
 
Em muitos casos, a literatura de um país se resume, para o público externo, a um grande nome. O Brasil mesmo, lá fora, foi reduzido a Jorge Amado e, nos últimos anos, suprema decadência, a Paulo Coelho. No caso da Turquia, nos últimos (muitos) anos domina o Nobel Orhan Pamuk.
 
Um golpe de mestre, de Reha Çamuroglu, publicado no Brasil pela Sá Editora, tenta quebrar essa situação (a editora já editou meia dúzia de novos autores turcos).
 
O enredo se situa na Constantinopla de 1905, sede do moribundo Império Otomano que não duraria mais vinte anos, sob o reinado do sultão Abdulhamid II, o Sultão Vermelho. Um anarquista belga, Charles Jorris, junta-se à resistência armênia para matar o Sultão. Sabe que a polícia está à sua cola, mas as coisas não são assim tão simples... A participação do próprio Sultão é decisiva para o desfecho da trama.
O jovem Sultão, em 1868
 
A História é pano de fundo para uma história de suspense policial, de leitura rápida, inspirada no poeta Tevfik Fikret. O atentado é real; ocorreu, efetivamente, patrocinado pela Federação Revolucionária Armênia, matando 26 pessoas - e sequer ferindo o Sultão que, apesar de extremamente hábil (ao menos no romance) não teve grande sobrevida: foi deposto em 1909 e foi o último a reinar com poderes absolutos.
 
Um livro interessante, mas não espere grandes detalhamentos históricos.
 
Ah, o poema de Tevfik Fikret está no final do livro:
 
Um baque... fumaça...toda uma multidão
Por uma mão, feroz, maligna, rancorosa
Como num festival, levada de roldão
Fazendo chover sangue, ossos, cabeças...
 
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Uma estreia na vida, de Balzac

Oeuvres illustrées de Balzac. Le Médecin de campagne. Adieu. Le Curé de village. La Bourse. Les Chouans. Un drame au bord de la mer. Mémoires de deux jeunes mariées. La Maison du Chat-qui-pelote. Un début dans la vie. Maître Cornélius

Pouquíssimo lembrado, o curto romance Uma estreia na vida merece uma leitura mais cuidadosa. Oscar Husson é um homem comum, manso, sem pretensões, modesto e sempre se mantendo, como o seu governo, num justo meio. Não causa nem inveja nem desdém. É, enfim, o burguês moderno.

Oscar é detestável: pobre com vergonha da mãe, procura fazer carreira, mas tem uma inacreditável habilidade de falar e fazer besteira, que sempre coloca tudo a perder. 

Boa parte da narrativa se passa nos coucous, modalidade de transporte ainda explorada por particulares na França. Balzac, aliás, inicia seu romance falando que isso logo fará parte dos "velhos tempos":

As estradas de ferro, num futuro já agora não muito distante, deverão fazer desaparecer certas indústrias, modificar algumas outras, principalmente as que concernem aos vários modos do transporte em uso nos arredores de Paris. Também, breve, as pessoas e as coisas que forma os elementos desta cena lhe darão o mérito de um trabalho arqueológico.

Pierrotin é um dos transportadores. Faz a rota Paris - Val-d'Oise; o senador, conde de Sérisy, viaja incógnito, desconfiado de seu administrador Moreau. Nessa mesma diligência, Oscar, recomendado pela mãe a Moreau. E, para completar, dois outros viajantes. José Bridau aparece aqui mais uma vez - amigo íntimo de Hipólito Schinner (A bolsa) e e testemunha do casamento de Luísa de Chalieu com Maria-Gastão (Memórias de duas jovens esposas).

Ignorado, por que razão deveria Uma estreia na vida despertar o interesse em pleno século 21?

Em primeiro lugar, a insegurança, a vaidade e a mediocridade de Oscar: cai em desgraça não uma, mas duas vezes. E, além disso, a presença de personagens dúbios: Moreau dilapida seu patrão o conde, mas ajuda sinceramente a sra. Clapard e seu filho Oscar; Desroches, um grande advogado, é implacável com o mesmo Oscar. Como diz Rónai na apresentação, em cada um deles encontraremos essa incoerência orgânica que é a prova mais inequívoca da vida real.

Atenção com Desroches: assim como Oscar na vida, faz sua estréia na Comédia, onde irá aparecer em diversos momentos, como em Coronel Chabert. O mais astuto dos advogados parisienses. A vida nova vida de Oscar no escritório da rua de Béthisy, no antro da chicana,  é descrita por Cardot: 

ele jantará conosco e se alojará na pequena mansarda ao lado do seu quarto; o senhor lhe medirá o tempo necessário para ir daqui à Escola de Direito e de lá voltar, de modo que ele não perca cinco minutos; tratará de fazer com que ele aprenda o Código e se torne forte nas suas aulas, isto é, que quando tiver terminado seus trabalhos no escritório, o senhor lhe dará tratadistas para ler; finalmente, deve ele ficar sob sua imediata direção, e eu olharei por isso.

Oscar, diga-se, dedicava-se bastante aos estudos, lia o Código (o Civil, Napoleão), às vezes ia ao Palácio da Justiça e ajudava o terrível e implacável Godeschal.

Uma segunda ocorrência lhe fechará mais uma vez as portas do sucesso, e Oscar, depois de anos no Exército e até então uma quase nulidade social, acaba como coronel, agora um herói na Argélia.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Dama Dourada (2015): Simon Curtis




A Dama Dourada provavelmente renderá a Helen Mirren mais uma indicação ao Oscar, no papel de Maria Altman, uma senhora judia que consegue escapar de Viena, deixando para trás a família durante o regime nazista.

Há duas questões principais - a história de Adèle Bloch-Hauer, sua tia, modelo de Klimt para seu quadro a dama dourada e do quadro, que foi levado da casa dos pais de Maria pelos nazistas; e a batalha judicial que ocorreu a partir de 1999.

Quanto à primeira, vem-me imediatamente o livro de Edmund de Waal, A Lebre com Olhos de Âmbar, que comentamos por aqui. Como no livro, o filme mostra de forma bem evidente que os austríacos não foram exatamente vítimas, mas ativos participantes do regime nazista. A história de Maria Altmann tem ainda um ingrediente especial: ocorreu no momento em que o então presidente da Áustria, Kurt Waldheim, eleito após uma passagem como secretário-geral da ONU, é reconhecido como capitão do Exército com passagem bastante ativa na então Iugoslávia. Nesse momento, houve uma discussão mais intensa na sociedade a respeito do real papel do país no nazismo.

Em outro livro, A irmã de Freud, de Goce Smilevski, Adolfina, uma das irmã de Sigmund, trava amizade com Klara, irmã de Gustav Klimt.

Os dois livros dão uma grande e ampla visão da sociedade austríaca dos anos 30/40. E, não se pode deixar de notar, como, nos anos 80/90 muitos austríacos foram francamente crueis com a velha judia que voltou depois de décadas para recuperar um quadro que vale uma fortuna.

Quanto à batalha jurídica, temos um jovem e medíocre (caminhando para o fracasso) advogado, neto de Schoenberg, que conhece Maria. Acaba de ser contratado por um grande escritório de advocacia.

A princípio cético com relação a qualquer possibilidade de reaver para sua cliente o quadro de Adéle, acaba se envolvendo com a causa (um advogado que não é vilão) e consegue um reconhecimento, pela Suprema Corte, da possibilidade de recorrer à Justiça dos EUA. 

Apesar disso, a palavra final é da mediação, em Viena. O papel do governo austríaco, sempre negando o fato de o quadro ter sido, literalmente, levado da casa dos Altmann, é vergonhoso. Para piorar, o quadro, nas palavras do personagem do ótimo Daniel Brühl (o único verdadeiro aliado da dupla em Viena), é a "Monalisa austríaca".


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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Apostas para o Nobel 2015

O blog mantém a tradição, e desde 2011 acompanha o Labbokes, site de apostas - qualquer aposta. 

Modiano não estava entre os 10 primeiros em 2014, mas Alice Munro era a 6ª em 2013 e Mo Yan, o 4º em 2012 mais ou menos no início de setembro.

Portanto, há uma chance razoável do Nobel de Literatura ser um dos seguintes:

1. Svetlana Aleksijevitj, nascida na Ucrânia mas bielorrussa (a última ditadura escancarada da Europa)
2. Murakami (sempre ele; nunca me animou)
3. Ngugi Wa Thiong'o (o impronunciável queniano vem frequentando a lista nos últimos anos, esteve em Paraty; ligado aos movimentos anticolonialistas)
4. Philip Roth (era o 9º em 2014)
5. Joyce Carol Oates (ou JCO, como é conhecida a americana; nunca li nada dela)
6. Adonis (poeta sírio e que, por isso mesmo, tem grande chance. Considerado um grande renovador da poesia árabe)
7. Ismail Kadaré (albanês, Dossiê H é incrível; li também Crônica da Pedra, igualmente muito bom)
8. Jon Fosse (norueguês)
9. Ko Un (coreano)
10. Peter Handke (austríaco)

E, em 11º, Amós Oz, israelense que consegue irritar esquerdas e direitas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Homem Irracional (2015), de Woody Allen






O último filme de Woody Allen tem algo de irônico: o Homem irracional é justamente um professor universitário de filosofia cético e depressivo - Abe (Joaquin Phoenix). Suas aulas são recheadas de Kant, Sartre, Kierkegaad e, claro, para segurar o rojão, doses cavalares de whisky. A aluna Jill (Emma Stone), apesar de estar namorando um outro estudante, fica imediatamente atraída pelo professor, que se mostra resistente às investidas.

O momento chave está num restaurante, quando Abe e Jill escutam uma pobre mãe aflita com a possibilidade de perder a guarda do filho para o ex-marido. A culpa seria do detestável juiz Spangler (Tom Kemp). Um sujeito capaz de estragar o mundo à sua volta. 

A irracionalidade surge quando ele se atribui a missão de um Raskolnikov, fazendo justiça com as próprias mãos. Ao decidir por essa trilha, encontra uma razão de viver e seu mundo passa a ser colorido: finalmente se entrega a Jill , passa a ver graça nas coisas, volta à vida social, enfim, acha-se útil novamente.

O desfecho é próprio do diretor. E, aqui, o que vem imediatamente à lembrança é Match Point. Um plano aparentemente perfeito começa a fazer água por detalhes e revelações. Não se trata de uma comédia - nada dostoievskiano pode ser uma comédia.