quinta-feira, 30 de julho de 2015

Mr. Holmes (2015)


Para ficar de olho. Ian McKellen é um idoso Sherlock Holmes, com 93 anos, cansado e com memória fraca. Dirigido por Bill Condon, deve ser lançado em breve, ainda este ano.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um poema ladino

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Un Dia Luvyoso

Una Luvya fuerte kon relampagos kaye,
Yo no veo ningunos kaminar en la kaye,
Un derredor muy asolado, un brusko dia,
Un sielo eskuro, esto sin alegria.

***

Me mankava sus miradas, su fizionomia,
Para mi era mi vida, i la alma mia.
Mi oido en sus pasos, i mis ojos kansos,
Alegrias siento mismo de bruidos falsos.
La luvya kontinua, esto on dezespero
La ora komo kedada, inyervozo de aspero.
De la kaye se siente un gato ke mauya,
No ay otra boz mas k'el bruido de la luva.
Kedi fin la noche triste sin pueder dormirme
Abatido, sin gozo, sin saver onde irme.

Haim Vitali Sadacca (1919), nascido na Turquia, vive no Canadá (Montreal). Escreve em ladino (rashi - alfabeto hebraico).






De filmes e livros

No lugar do mundo literário nova-iorquino, que ele nunca lamentou deixar para trás, havia agora a sala de aula, que Roth sempre adorou. "É o único lugar onde eu podia falar a sério sobre livros", diz hoje, com certa nostalgia. "Em qualquer outro lugar, se você menciona um livro as pessoas começam a falar sobre filmes".

(em Roth Libertado, de Claudia Roth Pierpoint)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Emburrecimento

Consta que Mátyas Rákosi, o ditador comunista do pós-guerra que Stalin apelidou carinhosamente de "Tsar vermelho da Hungria", teria, durante uma reunião do comitê central de seu partido, dado um murro na mesa e berrado: "Camaradas, será que emburrecemos tanto, que já acreditamos em nossos próprios slogans?".

Do texto de Nelson Ascher, A estrela amarela e a vermelha.




Israel e Kafka


Na matéria que saiu no El País (Brasil), o fim de um longo processo judicial. O Tribunal de Tel Aviv determinou que os manuscritos de Kafka devem permanecer com a Biblioteca Nacional de Israel.

O processo envolveu vários personagens: Kafka deixou seu material escrito para Max Brodi, que por sua vez o entregou à sua secretária Esther Hoffe, com a obrigação de que o entregasse a um arquivo público. No entanto, Hoffe descumpriu a vontade do chefe (que por sua vez descumpriu a de Kafka - não era para atear fogo em tudo?) e leiloou os manuscritos e documentos, faturando alguns milhões... Alguns documentos terminaram no Arquivo Alemão de Literatura.

Em 2007, com a morte de Hoffe, iniciou-se a batalha judicial entre suas herdeiras (que receberam os documentos em legado), apoiadas pelo Arquivo Alemão, e a Biblioteca Nacional, apoiada por Israel.

Um processo kafkiano.


terça-feira, 14 de julho de 2015

14 de julho, por Childe Hassam (1859-1935)

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Samba (2014), de Eric Toledano e Olivier Nakache

Conhecido pelo filme Os Intocáveis (dos mesmos diretores) o francês Omar Sy é a principal atração desta história que mostra o mundo da imigração ilegal na França.
 
 
 
No papel de Samba Cissé, conhece uma estressada Alice (Charlotte Gaisnbourg), que trabalha como voluntária numa ONG de auxílio a imigrantes. Para o grande público brasileiro, uma oportunidade de assistir a um filme que não mostra a Paris turística, mas a do submundo da imigração, dos centros de detenção, juizados de instrução, entidades assistenciais e trabalhos degradantes. Os diretores gostam de frisar que não é a França de Amélie Poulain.
 
Nem por isso, o filme é pesado; pelo contrário. Consegue ser leve e divertido, sem prejudicar a história que de leve e divertida não tem nada. Samba ("como a dança") já vive na França há dez anos mas nem por isso conseguiu regularizar sua situação.
 
Ao sair do centro de detenção - livre, mas com uma ordem de deixar o território francês - segue os conselhos do tio e passa a se vestir como um francês, o que significa trocar de roupa, sem se esquecer de um bom par de sapatos de couro e sobretudo, abandonar um anel espalhafatoso carregar um jornal, revista ou livro debaixo do braço e outros estereótipos. Nem por isso deixa de ser observado pelos nacionais, de forma claramente preconceituosa.
 
Dois outros personagens acrescentam um tom de leveza: a birutinha estagiária Manu (Izia Higelin) e o impagável "brasileiro" Wilson (sim, assim é fácil conquistar mulheres)...
 
 

domingo, 12 de julho de 2015

A Física da Melancolia, de Georgi Gospodinov




Os leitores da Biblioteca já conhecem Georgi Gospodinov (1968) do conto And all turned Moon

Agora, ainda inédito no Brasil, concluo o surpreendente romance The Physics of Sorrow, sensação na Bulgária, onde o livro se esgotou em um dia. E pensar que tudo começou quando a The Economist publicou uma matéria esculhambando o país (e a Romênia) como o pior membro da União Européia - e, de quebra, atribuindo à Bulgária o título de "o país mais infeliz do mundo". Não à toa, em determinado momento, o narrador fala da palavra "sorrow" (na verdade, quem faz isso é o tradutor: não se esqueça que li a tradução para o inglês de um texto búlgaro..) e da portuguesa "saudade" e da turca "hüzün".

Nasci no final de agosto de 1913 como um ser humano do sexo masculino. Não sei a data exata. Esperaram por mim por dias para ver se eu sobreviveria e então me levaram para o registro. É o que eles faziam com todos (...)

Nasci duas horas antes do amanhecer como uma mosca de fruta. Vou morrer nessa noite logo após o por do sol.

Nasci em 1º de janeiro de 1968, como um ser humano do sexo masculino. Lembro-me de todo 1968 em detalhes, do começo ao fim. Não me lembro de nada do ano em que estamos agora. Não sei sequer seu número.

(...)

Ainda não nasci. Estou a caminho. Tenho menos sete meses de idade. Não sei contar esse número negativo no útero. Sou grande como uma azeitona, pesando um grama e meio. Eles ainda não sabem meu sexo. Minha cauda está desaparecendo gradativamente. O animal dentro de mim está indo embora,  junto com sua cauda. Parece que fui escolhido para ser humano. Aqui dentro é escuro e acolhedor, eu estou ligado a algo que se move.

Nasci em 6 de setembro de 1944.

O avô nasceu em 1913; o autor, em 1968. O narrador é toda a família. Para contar a história de sua família, ele se apresenta como alguém capaz de caminhar pelos labirintos das memórias dos outros - mais do que isso: ele pode atuar por eles, assumindo suas identidades, como o fez com seu avô e seu pai. O narrador Georgi Gospodinov se lembra do próprio nascimento, sofre de uma "síndrome somático-empática obsessiva", que o leva à memória de tudo à sua volta - de familiares e vizinhos até animais. 

O dom desaparece à medida que Georgi cresce, de forma que nosso personagem começa a colecionar histórias alheias - de uma forma igualmente obsessiva que o leva a sofrer de um complexo de Noé - atribuindo-se uma missão de salvar essas mesmas histórias do apocalipse.

Um romance fragmentado, com o narrador às voltas com viagens físicas e metafísicas: com o dom de mergulhar na mente de pessoas para observar suas memórias; que é o minotauro;  que vive no subterrâneo somente saindo à noite para recolher objetos; que viaja pelo mundo comprando histórias e contando-as para nós.

O minotauro. Uma criatura que, ao contrário do que sempre ouvimos, é uma vítima, não um vilão. Um ser incompreendido, abandonado e desprezado, assim como Georgi Gospodinov narrador, que o defende - ao longo dos anos, fui apenas colhendo novas evidências, conta-nos o narrador Georgi -  e faz uma associação interessante entre este mito e outro, o de Sherazade.

A física da melancolia parte do mito em seu aspecto mais peculiar: o labirinto. Não apenas como ideia, mas como algo realmente físico: entre as inúmeras listas apresentadas, vemos coisas com formato labiríntico - o cérebro, o intestino, o DNA

Um romance tipicamente pós-moderno, sem uma narrativa linear, mas composto de fragmentos, personagens erráticos, e não exatamente um enredo claramente delineado, exatamente como o labirinto.

Gospodinov - o autor - sabe do que fala. Ele é atacado com frequência por nacionalistas, sendo inclusive ameaçado de morte, sempre após a estrondosa recepção de seus trabalhos entre o grande público.

Um trecho, da edição americana, pode ser lido aqui.

The Physics of Sorrow

É torcer para que alguma editora brasileira se anime (o romance já está traduzido para o inglês, francês, alemão e italiano).

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O julgamento de Viviane Amsalen (2014), de Ronit e Shlomi Elkabetz




Ainda sem previsão para o Brasil, certamente ficará poucas semanas em cartaz, ou ficará restrito a festivais de cinema israelense.

Os irmãos Ronit (que faz Viviane; ela atuou em outro filme muito bom, A Banda, de Eran Kolirin) e Shlomi Elkabetz trazem a história de uma mulher que procura, desesperadamente, se separar do marido Elisha (Simon Abkarian, francês de origem armenia). 

Em Israel, não há casamento ou divórcio civis, e tudo é resolvido na esfera religiosa. Todo o filme (cerca de 1 hora e 5o minutos) se passa dentro de um tribunal rabínico e a primeira coisa a chamar a atenção é a demora: como são lentos os processos! Nada a dever a tribunais não religiosos de outras bandas. 

Elisha conta com Shimon, seu irmão. Carmel ben Tovi é o advogado boa-pinta, com cara de argentino, que irá defender Viviane. Entre os juízes, destaque para Salmion, que conduz o julgamento. 

É inegável que tudo conspira a favor do marido - ele não é um vilão caricato: não é mau, não trai, não é violento. Simplesmente não quer o divórcio, não comparece às audiências e somente após inúmeras tentativas (e meses) é finalmente conduzido ao tribunal. Intransigente, mas nada além de intransigente. E aí os Elkabetz fogem da solução fácil de criar um monstro para concentrar toda a raiva do espectador.

As testemunhas: uma Bensoussan (!) meio liberal e independente; um Azulay que vê coisas (Viviane é "vista" com um homem num café de shopping). 

O filme explora a condição de uma democracia ocidental ao mesmo tempo, e em diversos aspectos, tradicional e religiosa.

É curioso como, a despeito de tudo, o tribunal, inicialmente francamente favorável ao marido, começa a se sentir incomodado (ainda que em momento algum seja simpático a Viviane); e como, mesmo assim, quando todos pensamos estar diante do desfecho, alguma coisa acontece - e os rabinos ficam absolutamente sem ação.



O Julgamento de Viviane Amsalem (2014)

É inescapável: pensamos n'O Processo de Kafka. O ambiente do tribunal é opressor, burocrático, desesperador. A reação de Viviane a cada adiamento, a cada decisão do tribunal, procastinando a causa (o que pode ser mais simples que um divórcio?). 


terça-feira, 7 de julho de 2015

Cala a boca, Philip!, (2014) de Alex Ross Perry


Nos cinemas, sem que os jornais se dêem conta, um grande filme para os leitores de Philip Roth. O resultado é bem melhor, por exemplo, da adaptação d'A marca humana, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman.

Se lembrarmos de Claudia Roth Pierpoint, o principal personagem dos livros de Philip Roth é Philip Roth. É praticamente impossível ver Jason Schwartzman no papel de um escritor egocêntrico e detestável - chamado Philip Lewis Friedman - sem se lembrar do grande escritor de Nova Jersey. Rubens Ewald Filho (que não gostou do filme) considera-o um dos personagens mais insuportáveis e detestáveis da história do cinema - no que estamos de acordo.

Na lista dos 35 melhores com menos de 35" (que Philip Roth esculhambaria), mas com uma tremenda dificuldade em aceitar a recepção ao seu segundo romance, o Philip da história não se empolga com nada, acha-se o maior escritor vivo, sabota e trata mal o editor (isso para não falar dos empregados da editora) e somente se entusiasma com um convite feito por um velho e recluso escritor a quem admira, Zuckerman (não o Nathan, mas um "Ike"), interpretado por Jonathan Pryce.

Um personagem feminino se destaca: a fotógrafa Ashley (Elisabeth Moss, excelente), namorada de Philip, tratada por ele com todo desprezo; ambos vivem juntos até o escritor receber um convite para trabalhar na universidade por alguns meses, o que irá, evidentemente, desestabilizar o casal já em avançado grau de degradação. O convite para morar com Zuckerman é apenas a pá de cal. O velho escritor também é um cara complicado: abandonou a mulher, se envolve com várias, vive com uma filha ressentida e tal. 

O filme lembra muito as produções de Woody Allen - o narrador, a fotografia, a agitação da câmera.

Não se trata, a rigor, da adaptação de um romance em especial, mas vários grandes livros do mestre estão aqui. Uma adaptação, digamos, do conjunto da obra, ou de parte dela. Altamente recomendado para rothianos.