sábado, 25 de abril de 2015

Garcia Lorca e a aberração



Sempre se atribuiu a morte de Garcia Lorca à ditadura, mas o regime franquista nunca se pronunciou oficialmente sobre sua responsabilidade no fuzilamento do poeta. Aqui, a matéria publicada no El País (em espanhol).

Agora, um relatório da própria polícia franquista, datado de julho de 1965, afirma que Garcia Lorca foi fuzilado após sua confissão. Não diz exatamente o que ele confessou, mas o documento define o poeta como socialista, maçom de Alhambra e atribui-lhe "práticas de homossexualismo e aberração". 

Foi uma operação de guerra: as milícias e as guardas de assalto tomaram todas as ruas e telhados próximos à casa dos irmãos Rosales; o regime moveu todo o seu aparato para garantir o sucesso da prisão.

A aberração da Espanha franquista:


Foto

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A segunda pátria, de Miguel Sanches Neto

A segunda pátria
Miguel Sanches Neto
Intrínseca, 280 p.

É o primeiro romance que leio de Miguel Sanches Neto - este que é sua estreia na editora Intrínseca que, aos poucos, vem procurando incrementar seu catálogo de escritores nacionais.

O tema - o nazismo no Brasil na época da Segunda Guerra - é estranhamente negligenciado entre nós. E, evidentemente, o que me atraiu ao livro foi lembrar-me de Complô contra a América, de Philip Roth. A linha do "e se?". E se Roosevelt perdesse a eleição para um simpatizante do nazismo (no caso, Charles Lindbergh)?

E se Getúlio tivesse cedido aos seus impulsos e ficado do lado do Eixo? O que teria acontecido ao país? À população? 

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O grande risco é cair numa história absolutamente inverossímil. Roth em nenhum momento cai nessa armadilha.

Miguel Sanches Neto também sai disso com maestria. E, nesse tipo de livro, quanto mais plausível a história, mais assustadoramente interessante é o enredo.

De fato, Getúlio pendeu por muitos anos entre Aliados e o Eixo. E, seguramente, uma parcela importante da população do Sul do País, abrangendo as colônias alemãs e, em menor escala, italianas, via com esperança o avanço de Hitler. Na época, as teorias de eugenia e purificação de raças eram bastante populares, e não só no sul.

A partir daí, o autor avança no "se": no contexto brasileiro, a grande vítima seria o negro, e não o judeu (lembre-se: estamos falando da região sul, onde o negro era efetivamente uma minoria, além do fato de que, no final da década de 30, a escravidão era algo ainda recente), ainda que não ignore o fato de que os judeus não durariam muito por aquelas bandas. A "solução" política que permitiu esse regime também é apresentada de forma convincente.

Os personagens principais - o negro Adolpho Ventura e a alemã Hertha - também aparecem muito bem, cada qual com aspectos bem trabalhados.

Hertha era tão escorregadia quanto Getúlio, vivendo entre os alemães nazistas (e se prestando ao papel de fêmea da nova raça) e seu vínculo com o Brasil - são igualmente eficientes. 

Ventura, negro afilhado de um alemão, domina o idioma, sente-se conterrâneo de Goethe, mas descobre que nada disso mais importa. De certa forma, lembra um pouco a situação do judeu de nascimento e luterano por opção Victor Klemperer em seu Diário. Em determinado momento, perde até sua tão amada biblioteca (o que um negro faria com tanto livro germânico?)

Dos personagens reais, o mais interessante é o Anjo Negro...

E, tal como Roth, Miguel faz a história retomar seu rumo, acordando do pesadelo, com uma solução igualmente interessante. O importante, claro, é que a História alternativa, depois de se mostrar um verdadeiro desastre, dê lugar à linha do tempo que conhecemos; quase que uma reentrada na atmosfera, procedimento dos mais arriscados nas missões espaciais. 

Mas o pouso de A segunda pátria é seguro. 

Por fim, um diário; não de Ventura, Hertha ou Klemperer, mas do próprio autor, relatando o processo de criação do romance. Vale a pena - inclusive, confirma as referências que fiz ao longo da leitura...







quarta-feira, 15 de abril de 2015

Roth Libertado, de Claudia Roth Pierpoint

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Roth Libertado
Claudia Roth Pierpoint
Tradução de Carlos Afonso Malferrari
Companhia das Letras

Eu não tinha este livro em mente; não tinha nada especial em mente. Eu resenhara um dos livros de Roth para a The New Yorker e acabei me tornando um dos vários leitores a quem ele mostrava seu novo trabalho antes da publicação. (Na primeira vez em que me pediu para ler um manuscrito, eu disse: "Ficaria honrada", ao que ele retrucou: "Nada de ficar honrada, por favor, senão você não vai me ajudar em nada"). Pág. 13.

A única razão para Roth não ser presença constante nesta Biblioteca é o fato de ter se aposentado em 2010, após Nemesis. A cada ano manifesto minha torcida pelo seu nome para o Nobel (que não repetirei este ano, pois sei que sou pé-frio). Li muita coisa que ele escreveu, e ainda não me aventurei em outros, alguns muito importantes.

A biografia de Claudia Roth (sem parentesco) Pierpoint é uma excelente oportunidade de ver a carreira do maior escritor vivo em perspectiva. Cobrindo todos os seus trabalhos - desde Adeus, Columbus (1959), e contextualizando-os com seus momentos de vida, a autora acaba elaborando um ensaio poderoso em que, apesar da proximidade com o biografado, não se furta a expor as críticas feitas à obra e, principalmente, ao próprio autor. E não foram poucas.

É perigoso dar à luz um escritor - Roth gosta de citar Czeslaw Milosz, afirmando que "quando nasce um escritor em uma família, a família está acabada" -e, às vezes, é perigoso até ser amigo de um (basta ver as histórias que Henry James e Edith Warthon escreveram um sobre o outro.


Pierpoint revolve o primeiro casamento, nos anos 50, com uma mulher mentalmente desequilibrada. Roth, diga-se, teve inúmeros casos - até Jackie Kennedy (Nixon se incomodava com isso). 

Isso, claro, gerou alguns escândalos. Claire Bloom, por exemplo, ao se separar do escritor, lançou um livro de memórias que definitivamente consolidou uma percepção não muito favorável da pessoa de Roth no grande público. Pode explicar, por exemplo, a recusa da Academia em conceder-lhe o Nobel. Em tempos politicamente corretos, não parece muito provável a premiação de um americano acusado de misoginia... e no entanto, é difícil encontrar outro nome que tenha escrito na quantidade, regularidade e qualidade de Roth.

A sequência de mulheres, a análise de cada um de seus romances e seu "período tcheco", fundamental para entender Nathan Zuvkerman: tudo foi tratado pela biógrafa.

Pierpoint deixa claras suas preferências: O escritor fantasma, afirma, se equipara ao Gatsby; Teatro de Sabbath é o ponto culminante de sua trajetória:

É possível que desde Proust nenhum outro autor tenha chegado tão perto de capturar o tempo.

Em compensação, ficou bastante decepcionada com Casei com um comunista (eu gostei!).

A longtime contributor and staff writer for The New Yorker, Claudia Roth Pierpont is the author of Passionate Minds: Women Rewriting the World, a collection of essays on women writers.

Um guia para os já iniciados na obra de Roth e, certamente, uma referência sobre o autor. 

Obs.: de todos que li, fico com Operação Shylock e A Marca Humana. Da última fase, Homem Comum.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Library Hotel

Mias de 6 mil livros ficam espalhados pelo Library Hotel (Foto: Library Hotel/Divulgação)

A Biblioteca abre um caderno de viagens: da próxima vez que for a Nova York, nossa dica é o Library Hotel. Na reportagem publicada no Globo, descobre-se que cada um dos dez andares é dedicado a um tema - arte, linguagem etc - e cada quarto, um tópico na categoria, seguindo a classificação corrente entre as bibliotecas, o sistema decimal Dewey. 

Mas deve haver briga para ficar em um andar e não em outro...

À noite, drinks com nomes ligados à literatura. Fica perto da Biblioteca Pública de NY.


Bárbara Heliodora (1923-2015)

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Heliodora Carneiro de Mendonça, verdadeiro nome da famosa e polêmica Bárbara Heliodora, crítica teatral temida e a maior especialista em Shakespeare no Brasil, morreu hoje, no Rio.

Para a BRAVO!, ela disse: Por outro lado, basta o rótulo "sou brasileiro e experimental". E não tem nada de experimental. Muitas vezes se trata só de incompetentes. Muitos teatros no Rio estão ocupados por coisas ruins, mas que sempre conseguem pautas e têm verbas do Estado. Acho que seria preciso avaliá-las e criticá-las, no sentido de análise, e dizer: "Olha aqui, tem alguém para orientar e estimular". O elogio ao ruim é um desserviço. Porque se você não diz que é ruim, ele vai continuar sendo, crente que é ótimo.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Ian Buruma no Brasil


Saiu a edição brasileira de 1945 - Ano Zero, de Ian Buruma, que já comentamos aqui. Pela Companhia das Letras, na tradução de Paulo Geiger. Um trecho pode ser lido aqui.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Anne Frank


O Diário de Anne Frank já foi adaptado diversas vezes ao cinema. Agora, o diretor israelense Ari Folman prepara sua versão, numa animação com técnica stop motion - como em Valsa para Bashir. A conferir.