segunda-feira, 23 de março de 2015

Inédito de Antonio Tabucchi

Conto inacabado e inédito de Antonio Tabucchi, publicado no caderno Ipsilon, do jornal Público, de Lisboa.



E finalmente Setembro chegou. Naquela época as aulas acabavam em Julho, o tórrido mês de Agosto era para a villegiatura, o Algarve não existia, quer dizer, existia geograficamente, mas ninguém lá ia, e aliás quem é que podia lá ir?, para lá chegar tinha de se passar o Tejo com o carro no barco, depois percorrer o Alentejo até encontrar uns caminhos perdidos que atravessavam a serra de Monchique, e então é que se chegava às praias do Algarve, lindas, onde não havia nada nem ninguém, uma ou outra aldeia de pescadores, umas cabanas de folhagem, desgarradas naqueles areais, os camponeses vendiam melões, figos e melancias, havia uns hippies vindos de Inglaterra, uns rapagões feios que dormiam em tendas e que giravam para fugir à Guarda Nacional Republicana, procuravam o paradise now e achavam que o tinham encontrado ali, por entre aquelas dunas agrestes. Não me lembro bem se estávamos em 1970 ou 71, mas tanto faz, eram esses anos, quando todos pensavam que o salazarismo não acabaria nunca, que iria durar para sempre.

A íntegra pode ser lida aqui.

sábado, 21 de março de 2015

Austerlitz, de Sebald, no cinema

Aqui no site da Fundação para a Memória da Shoah, um pequeno trecho (menor do que o comercial que o antecede) da adaptação, para o cinema, do livro de W.G.Sebald, Austerlitz. Dirigido por Stan Neumann e com Denis Lavant no papel do estranho personagem principal.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A crise


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Da série "só está começando": Fecha a livraria Status, em Belo Horizonte. Uma lástima. Funcionou por 15 anos... não suportou o aumento de 100% do aluguel. Uma livraria a menos; um imóvel vazio a mais; um projeto de revitalização da Savassi que naufraga mais rápido do que se imaginava.

terça-feira, 17 de março de 2015

A literatura brasileira no exterior

A presença da nossa literatura no exterior é um assunto complicado. Comecei a rever alguns lugares comuns que eu mesmo repetia sem pensar muito. Imagina-se sempre que a culpa é do isolamento da língua portuguesa, da desimportância internacional do Brasil ou mesmo da falta de políticas de incentivo à divulgação dos nossos autores no exterior. São explicações incompletas, embora cada uma tenha algum peso. Quanto ao incentivo, o projeto da Biblioteca Nacional patrocinando traduções de livros já contratados por editores estrangeiras – imitando o que se faz muito em países de Primeiro Mundo – tem sido importante no relativo aumento da nossa presença lá fora. Mas há outras variáveis. O profundo desinteresse do exterior pela nossa literatura pode ter relação simplesmente com algumas especificidades muito fortes da nossa produção, que sente dificuldades de conversar com o resto do mundo. E também, talvez, com alguns aspectos temáticos e estilísticos da linguagem literária brasileira que não encontram ressonância fora daqui. Não sei. É um tema amplo que não tenho muito claro na cabeça. Quero pensar mais e escrever sobre isso.

Cristóvão Tezza, em entrevista ao Homo Literatus.

A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz

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A fantástica vida breve de Oscar Wao
Junot Díaz
Tradução de Flávia Anderson
Record, 336 páginas


Nosso herói não era um daqueles caras dominicanos que vivia na boca do povo - não se tratava de um rebatedor venerado, nem de um bachatero badalado, tampouco de um playboy cheio de mulheres aos pés.

Salvo um curto período no início da vida, o cara sempre se deu mal com as gatas (um lado seu nem um poco dominicano).

Ele tinha 7 anos, na época.

Com mais de cinco anos de atraso, leio A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz, nascido na República Dominicana e hoje vivendo nos Estados Unidos (e escrevendo em inglês). Um exilado linguístico, como o foram Nabokov e Conrad, e como é Hemon.


Junot Diaz

Recentemente, o livro foi eleito o melhor romance deste início de século numa pesquisa organizada pelo site da BBC Internacional. Em 2008, deu o Pulitzer ao autor. De fato, não é pouca coisa. 

No Halloween, Oscar cometeu o erro de se vestir de Doctor Who, fantasia pela qual, aliás, ele morria de amores. Quando o vi passando em Easton, com dois outros babacas do Departamento de Letras, fiquei pasmo ao constatar o quanto ele parecia com aquele gordo gay Oscar Wilde e comentei isso com o mané. Você está igualzinho a ele, o que, na verdade, não foi uma boa para O, porque o Melvin foi logo perguntando, Oscar Wao, quién es Oscar Wao, daí, a gente passou a chamar meu colega de quarto dessa forma.


Oscar não é lá muito sortudo: imensamente gordo, nerd, desajeitado, vivendo em outro planeta - um ser absolutamente repulsivo para as garotas. Díaz elabora uma narrativa repleta de elementos, digamos, populares (RPG, quadrinhos, Marvel) mas não é necessário entender o idioma para apreciar o romance; não é preciso ser nerd ou viver no mundo de Tolkien. Pelo contrário; a história é (bastante) mais profunda. 

Esses dominicanos, que não se encaixam perfeitamente no mundo norte-americano mas que também não se imaginam retornando ao seu país, mostram uma face mais amarga da imigração. A desilusão com isso já aparece, por exemplo, no ótimo Projeto Lázaro, de outro exilado - Aleksandar Hemon. Ambos desmistificam a imagem do imigrante.

Díaz vai e volta no tempo,passando por várias gerações, e assim ficamos conhecendo a família de dominicanos que acabou em Nova Jersey. Acaba trazendo à luz o período da ditadura de Rafael Trujillo, um dos mais destacados e violentos ditadores latino-americanos (com algo de norte-coreano: todos os pontos de referência do país tiveram o nome trocado para homenagear-se - e Santo Domingo, por exemplo, virou Cidade Trujillo). E algo que os brasileiros ignoram - o massacre de haitianos promovido pela vizinha RD; episódio até hoje não superado. Aqui no blog mesmo, já falamos de Edwige Danticat - que traz a visão do outro lado da Ilha Hispaniola.

Isso por meio de notas de rodapé que Díaz usa sem dó mas que nem por isso tornam a leitura desagradável. Didático, sim, mas sem didatismo. 




domingo, 15 de março de 2015

Dante por Manguel




Mi primer recorrido por la Comedia fue de sorpresa, regocijo, aturdimiento. Yo, que no soy creyente, sentí (como siento cada vez que la releo, un canto por día, desde aquella primera vez), que ese Infierno, ese Purgatorio, ese Paraíso, son reales, que el asombrado peregrino y las sombras de Virgilio y de Stacio, y la mirada y la sonrisa de la fría Beatriz son reales, obligándome a creer, absolutamente, en su existencia poética, y definiendo no solo el viaje de Dante sino el mío en este mundo. Cada vez que vuelvo a encontrarme con Dante en la selva oscura y cada vez que comparto con él la última visión "que por el universo se deshoja", tengo la impresión de recorrer un libro nuevo, nunca antes abierto. Eso es, quizá, porque aquella primera vez sentí que la literatura de Dante me estaba revelando el universo entero y todos sus secretos, cuando en verdad me estaba prometiendo una revelación que ni siquiera los ángeles pueden concedernos por completo, y gracias a lo cual seguimos (y seguiremos) releyendo.

El País, agosto de 2011

Não me leve ao pé da letra

Obrigado, Deus, pois quando te dei meu coração
foi apenas metaforicamente,
do contrário, estaria morta agora.

Ioana-Raluca Raducanu

domingo, 1 de março de 2015

Joaquim Manuel de Macedo faz um passeio pelo Rio de Janeiro

Óleo de Antônio Firmino Monteiro (1855-1888)

Sou agora obrigado a dar um salto enorme, um salto do ano de 1808 e da época do reino do Brasil, da que me ocupava estudando o palácio imperial, para dois séculos e mais alguns lustros antes. Assim é preciso fazer, visto que me comprometi a dar a história antiga da casa que foi convento dos carmelitas. Irei referir de envolta com alguns fatos registrados nas crônicas do tempo uma ou duas tradições populares. Colhi os primeiros nos livros e memórias que consultei, e as segundas contou-mas um padre velho que morreu há dez anos. Daqueles não é lícito duvidar; a estas pode negar-se crédito sem receio de molestar o padre, que já não tem que ver com as cousas deste mundo. Sem mais preâmbulos. O famoso Mem de Sá acabava apenas de lançar os fundamentos da esperançosa Sebastianópolis: seu sobrinho Salvador Correia de Sá tecia ainda no alto do morro do Castelo os primeiros fios daquele ninho de águia que foi o berço da atual capital do Império. A cidade nascente, modesto grupo de palhoças e casinhas humildes, não tinha ainda descido a banhar seus pés de princesa nas mansas ondas do formoso golfo que do seu trono da colina dominava; a povoação começava apenas, e já aqui e ali surgiam e se mostravam no vale algumas piedosas ermidas que a devoção erguera de improviso. Cada uma delas era tão simples como a oração que sai da alma de um menino e sobe ao céu nas asas do anjo da inocência; e eram todas flores divinas abertas no seio daquele novo paraíso que se mostrara aos olhos dos portugueses.

A mão

A MÃO

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta 
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puft.


Wislawa Szymborska. A tradução é de Teresa Swiatkiewicz, para o excelente Poesia & Lda.