quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tangerines (2013), de Zaza Urushadze

Tangerines (2013)

Disputou o Oscar de filme estrangeiro e perdeu para Ida. Se você quer um contraponto ao Sniper Americano, é esse o seu filme. Uma atmosfera melancólica envolve esta declaração antibélica, coprodução entre Estônia e Geórgia. Foi rodado na região de Guria, no oeste da Geórgia.

Passado na guerra de 1992 na Abkazia, região que se tornou independente mas que somente é reconhecida pela Rússia, conhecemos a história de Ivo (Lembit Ulfsak, ótimo) e Margus (Elmo Nuganen), estonianos envolvidos na produção de tangerinas. Todos os seus familiares e vizinhos voltaram para a Estônia. Só os dois insistem em ficar numa terra conflagrada. Lembre-se que a história se passa um ano depois do colapso soviético - se hoje não se sabe o que irá acontecer com o leste europeu, naquele tempo, então... Livres da URSS - que fomentou e criou muitas das questões que se arrastam até hoje na região - as diversas nacionalidades começaram a ajustar suas contas.

Uma disputa, nas proximidades da casa de Ivo, entre chechenos separatistas e georgianos, mata quatro dos seis envolvidos. Sobram o mercenário checheno Ahmed (Giorgi Nakashidze) e o georgiano Niko (Misha Meskhi), que são tratados por Ivo - sob a promessa de não se matarem em sua casa. 

A fotografia é desoladora, e passa perfeitamente a ideia de uma terra e um punhado de pessoas em completo abandono. O período de convalescença dos dois guerreiros acaba por abrandar suas idéias mais tribais. Cabe a Ivo esse equilíbrio. E o desfecho irá demonstrar ser este um dos melhores filmes antibélicos dos últimos muitos anos. Simples, acessível e direto, em nenhum momento descamba para pieguice. 

Uma visão do Cáucaso pode ser lida no romance Os jardins e o pandemônio, de David Dephy, que trata da guerra de agosto de 2008 entre Rússia e Geórgia. O pano de fundo não mudou. 





domingo, 22 de fevereiro de 2015

Os filhos do padre (2012), de Vinko Bresan

Não consegui assistir no cinema (passou em BH em 2014 durante algumas semanas) esse ótimo filme croata, que caiu na TV a cabo. Tratando de sexo (sem uma cena sequer de nudez) e religião, Bresan conseguiu fazer uma comédia diferente do que normalmente se espera diante desses temas.



O padre Fabian (Kresimir Mikic) chega a um vilarejo na costa da Dalmácia (sim, a fotografia já vale o filme) para substituir o pároco local, Jakov (Zdenko Botic). Este, no entanto, é extremamente popular e querido (joga futebol com os jovens e bocha com os velhos, e a incompatibilidade de Fabian com a bola não passa despercebida pela Biblioteca). Todos querem se confessar com ele, e Fabian fica de lado. Ele é, acima de tudo, um conservador, que quer ser apenas um padre. E está incomodado com o fato de, na vila, não nascer quase mais ninguém (só se morre...)

Como as filas são muito grandes, Petar (Niksa Butijer), que tem uma loja de tabaco, acaba se confessando com Fabian. É um assassino, diz, pois mata as pessoas antes de elas nascerem - é vendedor, também, de camisinhas.

Padre Fabian tem uma brilhante ideia - furá-las todas. A dupla se une ao esquisitão Marin, farmacêutico ultranacionalista que voltou da guerra meio pancada. Suas tiradas politicamente incorretas são notáveis - fala mal dos sérvios, dos muçulmanos albaneses e de qualquer outro "não-croata"... Ele troca seus anticoncepcionais por vitaminas. E assim povoará o mundo de croatas.

O resultado é uma explosão de nascimentos, o que chama a atenção de todo o mundo - a ilha do amor, dizem uns; o turismo cresce... e a Igreja, muito preocupada, envia um cardeal para a ilha. Acha que a culpa é do padre, mas, se este não estiver envolvido com pedofilia, tudo bem... O diálogo entre padre e cardeal é um dos pontos altos do filme.

O segredo do filme, além da Mikic, é o roteiro. Ágil, só mais para o final fica um pouco mais pesado, mas nem por isso desqualifica o filme como uma boa comédia, que vale a pena ser vista. 






sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Jogo da Imitação (2014), de Morten Tyldum


Oscar combina com Segunda Guerra e Inglaterra. Excelente o filme, com destaque óbvio para Benedict Cumberbatch, no papel de Alan Turing (1912-1954). Um matemático genial que lidera um grupo de nerds dedicados a desvendar o Enigma, código criptografado nazista tido como inquebrável.

A história, a esta altura do campeonato - véspera do Oscar - é por todos conhecida. Destaques para Cumberbatch e Keira Knightley. Charles Dance como Denniston também está muito bem, e seu nariz empinado trava um duelo com o gênio de Alan por todo o filme. 

O interesse maior fica na insuperável capacidade de Turing em matemática e criação de antipatias. A confiança de Stewart Menzies no trabalho do gênio se justifica na parte final do filme - e de forma bastante cruel. 

A questão é: a quebra do código não resolveria todos os problemas; pelo contrário: o que fazer com as informações? Os alemães não poderiam desconfiar que seu segredo fora desvendado, ou todo o trabalho teria se tornado inútil. Coube ao comando dos aliados (sim, a esta altura até os soviéticos já sabiam do projeto) "escolher" o que aceitar como baixas de guerra e o que poderia ser evitado com uma justificativa que não levantasse suspeitas entre os alemães.

O trágico destino de Alan, que cometeu suicídio (com o cianureto da primeira cena), é considerado uma das vergonhas do Reino Unido. Completamente destruído pelos remédios a que foi forçado a tomar para evitar uma prisão e efetivar a castração química, era incapaz de segurar uma caneta para resolver palavras cruzadas. Ser o pai dos computadores e herói da Segunda Guerra não lhe rendeu muitos frutos em vida. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O bibliotecário do imperador, de Marco Lucchesi

Resultado de imagem para o bibliotecario do imperador
O bibliotecário do imperador
Marco Lucchesi
Biblioteca Azul, 2013
112p.


Haverá terapia que atenda às necessidades primárias dos colecionadores de livros, dos que se enamoram do objeto, das partes acessórias e acidentais?

O bibliófilo clássico, na estrita acepção da palavra, não passa de um magnífico idiota. As qualidades intelectuais o denunciam e não sei o que mais admirar, se a falsa erudição a que faz jus, se o oportunismo vigilante, que o denuncia, ou se as unhas ousadas e compridas. O bibliófilo é um lascivo por definição. Poderia presidir a melhor biblioteca da Corte ou o mais lúrido bordel, como o da rua Senhor dos Passos, lançando mão da mesma atitude, entre rameiras e leitores: a língua ferina e o caráter simulado.

Os bordéis e as livrarias perdem com tal figura, a quem importa menos o volume que o conjunto, menos a verdade que a aparência.

Marco Lucchesi, tradutor, poeta, ensaísta e romancista - e poliglota (16 línguas!) recupera a história de Inácio Augusto César Raposo, responsável pela biblioteca pessoal de D. Pedro II. A conspiração que instalou a República se apresenta dentro do próprio palácio; as traições, somadas à incompetência de muitos dos auxiliares mais próximos, estão expostas na breve narrativa de Lucchesi. E recupera, ainda, a história do pajem Rafael, que teria caído morto, aos 98 anos, ao saber da queda de seu imperador. 

Um exemplo? O Visconde de Taunay (O Encilhamento) aparece na biblioteca e, monarquista convicto, não se contém:

Melhor não lhe teriam servido, ao moderno Marco Aurélio, em vez daqueles sessenta mul volumes, de que se rodeou, seis mil baionetas, comandadas por um general sincero e fiel?

Ficção e memória se misturam - personagens como Inácio, Floriano Peixoto, Deodoro e Ouro Preto mas também um certo e fictício barão de Jurujuba. E também uma construção um pouco mais complexa - uma multiplicidade de vozes: a do autor, do revisor, do próprio Inácio, através de sua correspondência.

Inconformado e desesperado com os furtos que o acervo ao qual se dedicara, algo que se agravou com o exílio da Família Imperial, Inácio acabou se atirando nos trilhos da estação de São Cristóvão, sendo então estraçalhado pelo trem, em 12 de maio de 1890. Era de uma fidelidade ímpar a Pedro II. 

Um fim muito parecido, em certa medida, com o de Peter Kien (Auto de Fé de Elias Canetti). A dedicação de ambos aos seus monumentos não suporta o esvaziamento, a pilhagem, a desconsideração de um mundo exterior que lhes é absolutamente dispensável e hostil.

Tal como em O Dom do Crime, aqui Lucchesi constrói uma trama refinada na medida exata, resgatando episódios da história brasileira e da cidade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A Bolsa, de Balzac

Image illustrative de l'article La Bourse
O pintor Schinner
(Georges Cain)


Este A Bolsa não é das mais interessantes d'A Comédia Humana. Hipólito Schinner é um famoso pintor que sofre um acidente em seu ateliê. Ao recobrar os sentidos, descobre que foi socorrido por Adelaide de Leseigneur e sua mãe, a baronesa de Rouville. Em retribuição, faz-lhes uma visita - a longa descrição do apartamento das duas é típica de Balzac:

Aquela peça servia de museu para certas coisas que não se encontram senão nessas espécies de lares anfíbios, objetos sem nome, que participam ao mesmo tempo do luxo e da miséria.

Hipólito descobre que as duas sofrem com a morte do pai/marido, o sr. de Rouville, comandante de um navio que morreu em combate com os ingleses. O crescente interesse do pintor por Adelaide sofre alguns contratempos; o principal deles é a grande desconfiança que todos têm em relação ao que fazem para se sustentar as duas mulheres:

- Alto lá! É uma rapariguinha que vou ver todos os dias na igreja de l'Assomption e a quem faço a corte. Mas, meu caro, todos nós a conhecemos. A mãe dela é uma baronesa. Tu acreditas em baronesas que moram num quarto andar? Brrr! Ah! Meu caro, és um homem da idade de ouro! Todos os dias, nesta alameda, nós vemos a velha mãe, mas a aparência, o porte dela, diz tudo. Como! Não adivinhaste o que ela é pelo modo como segura a bolsa?

Sim, claro, é exatamente isso que pensam que elas fazem. Mas Hipólito não se convence - pior, na verdade, se convence, mas acredita poder "salvá-la". O final deste conto, traduzido também por Vidal de Oliveira, é, contudo, artificialmente bom demais, ao menos para o leitor do século XXI. 

Sim, isso não pode ser imputado como uma falha de um autor do século XIX, mas de fato o conto não é o melhor texto para ingressar no mundo de Balzac. Vejamos o que nos aguarda em Modesta Mignon. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dora Bruner, de Patrick Modiano

A Rocco relança alguns romances do Nobel de 2014, Patrick Modiano (1945). Para muitos, esse Dora Bruder, originalmente escrito em 1997, sua obra-prima.





Li Dora Bruder, numa edição francesa de bolso (Gallimard). No final da década de 80, examinando um exemplar do jornal Paris-Soir de dezembro de 1941, Modiano depara-se com um aviso dos pais de Dora, à sua procura. Indicam o endereço no Boulevard Ornano, perto da Porte de Clignancourt.

O narrador conhece o bairro; nele passou parte da juventude. É isso que o leva a indagar: o que se passou com a menina? Como vivia uma família judia sem recursos na Paris ocupada? 




Dora Bruder entre seus pais

O que temos em Dora Bruder é uma história a partir de quase nada. Neste sentido, as semelhanças com Gotz e Meyer, de David Albahari, são facilmente percebidas. Mas Albahari parte com mais convicção para a ficção. 

Modiano investiga o episódio. Tenta rastrear Dora e descobrir o que ocorreu naquele período - ela abandona o colégio de freiras e termina capturada pela polícia colaboracionista.  Modiano sempre fez questão de expor de forma clara a conduta moral dos franceses sob domínio nazista, e não é nada daquilo que por muito tempo se pensou. Ocupação e colaboração. 

Aquilo que não consegue descobrir, imagina, mas sem tentar inventar uma história. Tanto Dora quanto seu pai foram internados no campo de Drancy, antes de serem deportados para Auschwitz.

Modiano faz diversos paralelos entre a adolescência de Dora e a sua própria. Esse é o ponto. Assim, o livro não é apenas sobre Dora, mas também sobre o autor: se Dora foi, para a polícia francesa e para os alemães, um número, um arquivo perdido na burocracia, Modiano traz à tona uma pessoa, uma menina de quinze anos, de 1,55m e rosto oval, em fuga, perdida numa cidade de que não mais fazia parte.

Em 1965, eu não sabia nada de Dora Bruder. Mas hoje, depois de passados trinta anos, acho que essas longas esperas nos cafés do boulevard Ornano, certos itinerários, sempre os mesmos -  subia a rua MontCenis, para chegar aos hotéis da Butte Montmartre: o Roma, o Alsina ou o Terrass, na rua Caulaincourt -, e as impressões fugidias que guardei: uma noite de primavera, quando se ouviam as vozes entre as árvores da praça de Clignancourt, e no inverno novamente, a descida para Simplon e o boulevard Ornano, tudo isso não aconteceu somente por acaso. Talvez, mesmo que não tivesse ainda consciência do fato, eu já estivesse na pista de Dora Bruder e seus pais. Eles já estavam lá, em filigrana.





terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Judas, de Amós Oz


Judas
Amós Oz
Tradução: Paulo Geiger
Companhia das Letras, 362p.



Amós Oz (1939) é um daqueles autores candidatos quase que vitalícios ao Nobel, que teima em ignorá-lo. Azar da Academia. Oz, crítico ferrenho do atual governo israelense e ídolo da esquerda, lida há tempos com essa sua peculiar condição. É odiado pela direita, que o enxerga como um traidor da causa israelense, ao defender a coexistência de dois estados. Adorado pela esquerda, não o é sem polêmicas, principalmente por ter apoiado algumas operações militares recentes.

Os traidores são os que mais amam, são aqueles que estão à frente do seu tempo

Shmuel Asch, depois de ser abandonado pela noiva, ver os pais falirem e, em consequência, perder a oportunidade de prosseguir seus estudos, acaba trabalhando como interlocutor de um idoso, Guershom Wald, que vive com uma misteriosa mulher, Atalia Abravanel, sua nora. Ela foi casada com Misha Wald, que foi cruelmente morto pelos árabes na guerra de 1948. O pai de Atalia, Shatiel, foi um sionista à sua maneira: defendia uma nação, mas não um Estado (era contra todos eles); um território a ser ocupado por judeus e árabes, sob mandato internacional. Logicamente, logo é expulso do movimento.

Shmuel estuda a figura de Jesus sob o ponto de vista dos judeus. Não se convence da narrativa oficial a respeito de Judas: por que um sujeito rico (o único apóstolo realmente abastado) se venderia por trinta moedas? Por que alguém pagaria pelo beijo em Jesus, que era uma figura conhecida e pública - e que nunca se escondeu de ninguém? E teoriza que ele, Judas, seria seu mais fiel seguidor; o único a morrer com Cristo e a realmente acreditar que ele não morreria na cruz (pelo contrário, estaria forçando-o a se revelar perante o mundo). 

Logo, se Cristo não pensava em fundar o cristianismo (nasceu e morreu judeu) e os demais apóstolos - segundo o raciocínio da trama - não acreditavam tanto assim no seu líder, Judas teria sido o primeiro verdadeiro cristão. Um dos grandes momentos do romance é o capítulo 47 - Oz transforma Judas no narrador:

Mas eu ignorei a maldição da figueira. Eu insisti em levá-lo até Jerusalém. E agora já anoitece e já chegam o Shabat e a festa de Pessach. Não para mim. O mundo está vazio. Uma última e opaca luz acaricia o topo das colinas e essa luz não é diferente da luz vespertina que vimos ontem e anteontem. O vento que sopra do mar também se parece em tudo com o vento que ontem soprou sobre nós. O mundo inteiro está vazio. Talvez eu ainda pudesse me virar e voltar agora à estalagem, voltar para a serva grávida e feia com o rosto coberto de marcas de varíola, dar-lhe minha proteção, ser um pai para a criança em seu ventre e ficar com ela e com a criança até meus últimos dias de vida. Adotar o cão vagabundo. Mas a estalagem já está fechada e escura e lá não há vivalma. A primeira estrela surge no céu que escurece e eu lhe digo num murmúrio "estrela, não acredite". Mais adiante, numa curva do caminho, aquela figueira morta está me aguardando. Eu examino cuidadosamente galho por galho, encontro o galho certo e amarro nele a corda.

Logo, os traidores seriam, na verdade, os mais fieis às causas. O próprio Oz afirmou isso em diversas entrevistas, como para o Estadão (aqui). E Shatiel Abravanel é o fantasma que assombra aquela casa onde habitam Atalia, Guershom e, por um período, Shmuel. É ele o traidor da nova pátria. Essa convivência com fantasmas é o ponto. Wald e Atalia vivem num universo à parte, presos no tempo e na história, e Shmuel é tragado para dentro desse ambiente.

Oz também é visto como um traidor da pátria, pela sua posição política. E, em De amor e trevas, fala de como renegou o pai, intelectual europeu, para viver como motorista de trator num kibutz socialista. Outro traidor.