terça-feira, 30 de setembro de 2014

O leitor não conhece o Paraíso

O julgamento unânime dos leitores de todos os séculos concorda em um ponto: que a parte mais "interessante", mais humana, do Cosmo dantesco, é o "Inferno"; e nesta afirmação se esconde um dos julgamentos mais graves que já se pronunciaram contra a humanidade (...) A grande maioria dos leitores da Divina Comédia só conhece o "Inferno"; vence as dificuldades das alusões políticas e históricas, que tornam indispensável o comentário, para compreender os grandes episódios que criaram a glória do poema através dos séculos. Uma compreensão tão fragmentária do "Inferno" não sente escrúpulos, fragmentando o poema inteiro: o "Inferno", sim, seria um reflexo satírico - sátira trágica - do mundo real e por isso acessível à nossa sensibilidade: o "Purgatório" seria, apenas, repetição mais fraca do "Inferno", e o "Paraíso", enfim, uma abstração, teologia escolástica em versos; para a grande maioria dos leitores o "Paraíso" não existe.

Otto Maria Carpeaux, História da Literatura Ocidental, vol, I, p. 257

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Góðan dag!

Se você entendeu o título do post, pertence ao seleto grupo de 66 mil falantes do idioma faroês (?). O artigo publicado no The Guardian da última sexta-feira trata de três idiomas europeus praticamente extintos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Adolfo Bioy Casares 100 anos

O mundo atribui seus infortúnios às conspirações e maquinações de grandes vilões. Entendo que subestimam a estupidez.

Bioy Casares (1914-1999) em Diccionario del argentino exquisito.



Jabuti 2014

Saiu a lista dos finalistas do Jabuti deste ano, que pode ser lida aqui.


Um fato expressivo

Os românticos julgavam a poesia baseando-se no conceito que tinham de poesia realista, a única que consideravam digna de se chamar poesia. Mas não é assim. A poesia não é um fato conteudístico. É um fato expressivo. Os conteúdos em si jamais são belos ou feios. Tornam-se esteticamente válidos só quando são bem expressos. E Dante é um grande mestre da expressão, por isso é um grande poeta. Não há conteúdo para o qual ele não saiba encontrar uma imagem adequada, que o exprima à perfeição.

Carmelo Distante, no prefácio da Divina Comédia da editora 34, tradução de Italo Eugenio Mauro.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce

Efeito, n. O segundo de dois fenômenos que ocorrem sempre juntos e na mesma ordem. Do primeiro, que se chama causa, diz-se que origina o segundo - o que é tão sensato como dizer que, por ter visto um cão perseguindo um coelho, o coelho é a causa do cão.

Dicionário do Diabo. 


Image result for ambrose bierce

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Palavra por palavra


Para quem estiver em Madrid: a exposição Palavra por palavra apresenta 70 bíblias sefarditas e 20 livros com textos bíblicos traduzidos para o ladino. No Circuito de Belas Artes de Madrid, até 26 de outubro. As peças pertencem a Uriel Macías, que reuniu a coleção ao longo de 2 anos. 

Os livros expostos datam de 1553 a 1946 e foram impressos em Amsterdam, Constantinopla, Esmirna, Ferrar, Jerusalém, Liorna, Londres, Pisa, Salônica, Veneza e Viena. Quatro séculos de história entre Europa e Oriente Médio.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sépharade, de Eliette Abécassis

Sépharade
Sépharade
Eliette Abecassis
Albin Michel, 2009

Sépharade estava na minha fila de espera há cinco anos. Não conhecia a autora,Eliette Abécassis (1969), que tinha acabado de lançá-lo em Paris, em 2009. Recomendação do livreiro da Tschann.

Mas logo descobri ter sido ela a co-roteirista (junto com o diretor) do celebrado Kadosh, de Amos Gitai. Sua família é profundamente religiosa; seu pai, Armand Abécassis, é conhecido pensador do judaísmo.


alt=Description de cette image, également commentée ci-après


Lembro imediatamente de Tatiana Levy Salem e seu A chave de casa. Tatiana é mais ousada e inovadora na forma; Abécassis é mais convencional - o enredo é relativamente simples - e não muito animador:

Esther, judia marroquina nascida em Strasburgo (como a autora), está para se casar com Charles. Seus pais não aprovam a ideia. As famílias são sefarditas do Marrocos, que sempre abrigou uma importante comunidade judaica. Aos poucos, somos apresentados aos membros das famílias Pinto e Tolédano, reunidos em Tel-Aviv para o evento. Lá, os conflitos afloram. De fato, em princípio, parece mais um novelão. O "segredo dos sefardis" deve ser revelado a Esther no dia do seu casamento, mas ao que parece é roubado dias antes. O acusado inicialmente é Charles... As famílias tiveram seus problemas no passado não muito remoto, e uma grande surpresa é revelada ao final.

Mas o leitor avança, fácil, na obra.

Esther é marcada pelas duas culturas - alsaciana e sefardita. Parece levar o mundo (pelo menos o mundo sefardita) nas costas. A questão das identidades múltiplas: é a tônica do livro; é o seu mote. Numa tradução por minha conta:

Todos nós temos identidades múltiplas.

Todos vimos de um país, uma cidade, ou de uma rua que nos define e nos marca para sempre. Somos originários de uma cultura ancestral que nos aprisiona ao mesmo tempo que nos fecunda. Na vida, representamos os papeis que mudam em função da situação e do interlocutor, do lugar e do momento: existimos, múltiplos de nós mesmos, ignorando a origem dessas identidades que surgem independentemente de nós, e que determinam nossas ações, pensamentos e sentimentos.

Em outro momento:

Esther acreditava ser francesa, alsaciana, judia, marroquina, e não sabia que era espanhola. Pensava que era espanhola e era árabe, acreditava ser árabe e era bérbere, acreditava ser bérbere e era fenícia, e assim por diante, desde o início, o começo e até o fim dos tempos.

Um contraponto interessante se dá entre Esther e sua irmã Myryam, que se casou com um canadense, virou budista e, evidentemente, não dá a mínima para a origem familiar. 

O maior mérito da obra é apresentar, ao longo do romance, a história dos judeus sefarditas, desde os fenícios, a chegada dos judeus à Espanha (e a expulsão em 1492), as perseguições, a diáspora, os marranos, a Inquisição... Montaigne e Spinoza aparecem por lá, bem como Maimonides e Canetti. Também consegue retratar a vida e a importância de Toledo como grande centro da civilização. 

Muitos momentos interessantes - em especial para o leitor conhecedor dessa cultura - como a Aliança Israelita Universal e a relação entre os judeus e o rei do Marrocos - inclusive depois de 1948, quando há um claro desconforto e sentimento de ingratidão com a partida de levas de judeus para Israel.

Outro ponto de destaque (um dos melhores): deixa evidente os conflitos entre sefarditas e asquenazes (inclusive dentro de Israel, que lhes teria reservado as piores terras). Mentalidades diferentes; estes racionais, aqueles, passionais ao extremo. Em determinado momento, Esther se dá conta que a psicanálise jamais poderia ter sido criada no meio sefardita...

A autora consegue fazer isso sem transformar seu livro em um documentário - utiliza-se, com muita habilidade, dos diálogos entre os parentes, em especial os mais velhos. Consegue fugir do didatismo que acaba atrapalhando a ficção. Erudição na medida.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Carlos Monsivais

Algumas pérolas do escritor mexicano Carlos Monsivais (1938-2010). A tradução é minha; a fonte, aqui.

Percebe, Jorge, que dizem que esta casa que alugamos é assombrada por um fantasma que volta a cada ano, nesta data, à meia-noite, para um sacrifício humano?... Jorge! Jorge!

*

E havia o menino de nove anos que matou os pais e pediu clemência ao juiz por ser órfão.

*

E tirando isso, sra. Lincoln, gostou da peça?

Apostas para o Nobel 2014

Já virou tradição do blog colar do site Ladbrokes as cotações - inglês faz aposta para tudo - para o Nobel. Em 2012, Mo Yan estava em 4º; ano passado, Alice Munro aparecia em 6º.

Portanto, lá vai a lista - o nome a ser anunciado no dia 5 de outubro pode estar aqui:

1) Murakami (sempre ele, sempre em primeiro. Mas nunca me animou...)
2) Ngugi Wa Thiog'o (de quem, fiquem tranquilos, jamais ouvi falar. Queniano, 76 anos, ex-preso político, "adotado" pela Anistia Internacional e autor de vasta obra. Vive nos EUA)
3) Assia Djebar (estava na lista de 2013)
4) Svetlana Aleksijevitj (ver observação do nº 2. Bielorrussa nascida na Ucrânia. Começou no jornalismo; escreveu sobre a guerra do Afeganistão - a soviética, de 1979 - Chernobyl, a queda da URSS. Ou seja, tem pinta de vencedora)
5) Joyce Carol Oates (em 2º no ano passado)
6) Jon Fosse, romancista e dramaturgo norueguês.
7) Adonis
8) Kundera
9) Philip Roth (será?)
10) Peter Nadas (merece atenção. Estou criando coragem para ler seu Histórias Paralelas, tijolo de 1000 páginas. Ele conta com a antipatia oficial do regime de ultra-direita da Hungria, o que pode motivar a Academia).

Parei de torcer pelo Roth. Acho que sou pé frio. Quem sabe assim ele ganha?



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Um idiota absoluto

Os médicos forenses abaixo assinados baseiam o presente diagnóstico, referente à estupidez absoluta e ao cretinismo inato de Josef Svejk, que compareceu diante da junta médica forense, no fato e que o sujeito se expressa com frases como "Longa vida ao nosso imperador Franz Joseph I", afirmação que, por si só, é suficiente para demonstrar que seu estado mental é o de um idiota absoluto. Devido a isso, a comissão propõe o seguinte: 1. A suspensão das investigações contra Josef Svejk e 2. Sua transferência para uma clínica psiquiátrica a m de que este seja submetido à observação e se determine até que ponto seu estado mental é perigoso para as pessoas de seu entorno.

As aventuras do bom soldado Svejk, Hasek, Alfaguara, p. 38.

Nem os médicos forenses acreditavam no patrão.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Eça de Queiroz no cinema

Semana de adaptações - e para justificar o mote do blog. Além de Roth, Eça de Queiroz tem uma adaptação de seu Os Maias. Dirigido por João Botelho, a produção portuguesa estreia, aquém-mar, dia 11 de setembro.



Philip Roth no cinema

Philip Roth, eterno candidato ao Nobel e um dos (ou "o") maiores escritores vivos, se "aposentou", mas sua obra continua rendendo. No Festival de Toronto, foi lançada a adaptação de um de seus últimos romances, "A Humilhação" (The Humbling), com Al Pacino no papel de Simon Axler. 





Ao que tudo indica, pela crítica, desta vez Roth tem uma adaptação à altura. Apesar do elenco (Anthony Hopkins, Nicole Kidman), Revelações de Robert Benton (adaptação de A Marca Humana) deixou a desejar. Mas ainda sonho em ver Operação Shylock nas telas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Anna Karenina lido ao vivo

Se você fala russo, pode participar do projeto "Karenina. Publicação ao vivo". De 3 a 4 de outubro, mais de 700 pessoas realizarão a leitura, ao vivo, do romance de Tolstoi. Grupos de diversos países participarão da iniciativa, que poderá ser acompanhada pelo Google+ e YouTube. Mais detalhes, aqui.