quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ilustrando Conrad

Uma iniciativa muito bacana que poderia inspirar o pessoal por aqui. A The Folio Society abriu uma competição de ilustrações para uma nova edição de No coração das trevas, de Joseph Conrad. 

Magdalena Szymaniec's digital work is inspired by traditional media including watercolour painting and printmaking.

A ilustração acima é de Magdalena Szymaniec. Ela é uma das concorrentes. Outros artistas podem ser vistos na matéria publicada no The Guardian

Bibliotaxi em Belo Horizonte

Nessa bem-vinda iniciativa da Livraria Saraiva e da Easy Taxi, sua chance de ler Guerra e Paz enquanto se desloca (sic) por Belo Horizonte.



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Adeus, Camaradas!, de Andrei Nekrasov



No começo do ano, foi exibido no canal Curta! 

Agora saiu o DVD. São 6 episódios, que também podem ser assistidos pelo YouTube.


Com entrevistas de personagens do primeiro e segundo escalões do mundo soviético e do leste europeu, bem como depoimentos de trabalhadores, além de filmes e cenas inéditas ou pouco conhecidas pelos não iniciados, o documentário aborda o período entre 1974 e 1991. 

Nekrasov viveu essa época. Ele acreditou naquilo. O documentário pode ser visto como uma longa discussão entre ele e sua filha, Tatiana, que nasceu nos anos 80 na Alemanha e não consegue imaginar como tanta gente aceitava a dominação do império soviético. 

Desnecessário dizer que muitos no Brasil torceram o nariz para o documentário. Já vi gente se dizendo irritada com a postura de Tatiana - quero crer que acharam sua participação tão boa que se esqueceram que se trata de uma produção... A relação entre ambos - o pouco contato nos anos 80, com o pai querendo "dar uma chance" ao regime. Nekrasov reconhece que o sistema era insuportável e inviável. O ponto dele é outro: como alguém que nasceu sob o regime, tinha uma visão diferente - a união dos povos, a construção de uma superpotência. E Tatiana contrapõe: mas não se esqueça de Stalin, dos gulags etc.

No mais, alguns aspectos interessantes: os soviéticos sabiam já em meados dos anos 70 que o inimigo a ser combatido não era o capitalismo americano, mas o jihadismo em suas fronteiras. Andropov sabia disso. E as republicas daquela região já estavam a postos de se trucidarem, o que foi escancarado depois de 1991. Yeltsin está lá, assim como Sakharov, Soljenitzin, Gorbachev, Ceausescu, Havel... E o filme mostra as diferentes  visões sobre Gorbachev - a de herói do ocidente, traidor na URSS, libertador da Europa Oriental e monstro para uma ou outra república, como na Lituânia.

Está no YouTube. Não há mais desculpa para não assisti-lo.




Barrinha de cereais

Uma crônica de Bernardo Carvalho, Rio-São Paulo

Para acompanhar seu lanche, estaremos servindo refrigerantes (marcas de refrigerantes) e sucos (marca de suco) de laranja e maracujá diet. O suco (marca de suco) patrocina o projeto (nome do projeto), que vem descobrindo e formando jovens atletas em comunidades carentes por todo o Brasil. Nós, da (companhia aérea), também acreditamos num país melhor e por isso pedimos que os passageiros contribuam com o que puderem para a campanha (nome da campanha) de auxílio às crianças deficientes. Os envelopes para as contribuições podem ser encontrados no bolso da poltrona à sua frente. Basta colocar sua contribuição no envelope e entregá-lo fechado, na saída, a um dos nossos comissários.




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Götz and Meyer, David Albahari

Götz e Meyer
David Albahari





David Albahari (1948) nasceu na Sérvia e vive no Canadá. O The Guardian já o chamou de "Kafka sérvio". Outros o associam a Sebald, pela sua obsessão com a história e a memória, e a Thomas Bernhard, pela opção pela narrativa em um longo parágrafo; para Manguel, é um merecedor do Nobel de Literatura. Não faltam bons motivos para conhecê-lo. A Amazon adivinhou isso, e me "sugeriu" o autor há alguns meses. E eis que, à falta de uma edição brasileira, recorro mais uma vez ao Kindle.


David Albahari auf dem Blauen Sofa 2.jpg



Götz e Meyer. Uma vez que nunca os tenha visto, posso apenas imaginá-los.

Este romance é, na realidade, um longo parágrafo, de cerca de 180 páginas, é narrado por um professor de literatura, celibatário e obsessivo, que busca reconstruir a árvore genealógica de sua família, morta em um campo de concentração, o que o leva ao museu judaico de Belgrado. Logo descobre documentos que o levam à dupla Götz e Meyer, que dirigia o caminhão Saurer, onde sua família foi colocada para morrer por asfixia pelo monóxido de carbono e, em seguida, desovados em covas coletivas. Os judeus entravam no caminhão pensando que seriam levados para outro campo, talvez melhor (Romênia ou Polônia, quem sabe...).

Afinal, quem foram Götz e Meyer? O que faziam? O que pensavam? Sim, eram simples motoristas da SS, ainda que usassem o uniforme. Sabiam de tudo o que acontecia. Talvez não dessem a mínima.  De qualquer forma, seu objetivo é conhecê-los, de alguma forma. Sem muito sucesso, e como dito na primeira frase do livro, põe-se a imaginá-los, e o faz de um modo ao mesmo tempo angustiado e levemente irônico. Logo descobre seus nomes: Wilhelm Gotz e Erwin Meyer. Às crianças que eles embarcavam, Götz, ou talvez Meyer (são centenas de "dúvidas" do narrador) distribuíam chocolates. Morriam minutos depois. A descrição de Albahari é mesmo documental. Acurada, sem se esquivar dos detalhes mais crueis. Um romance que mais se parece um livro de não-ficção - essa é apenas uma forma de ver este livro.

Para realmente compreender as pessoas reais como meus parentes, tenho primeiro de entender pessoas irreais como Götz e Meyer.

Não há conforto na morte, disse a mulher que encontrei no Museu Histórico Judaico, especialmente, naquela morte que outra pessoa escolhe para você. Eu não pensava neles. Eu gritei, para mim mesmo, porque essas pequenas consolações são a única arma com a qual posso suportar a falta de sentido e o vazio horrível dos rostos de Götz e Meyer.

Mas Albahari vai além do romance-documentário; além da investigação dos fatos e procedimentos adotados pelos alemães em 1941-1942,  e além da reconstrução das vítimas anônimas e dos carrascos, o autor trata da própria gênese do livro e a evidente dificuldade em desenvolvê-lo. E aqui, atenção: enquanto o anônimo narrador nasceu em 1940 (e sobreviveu escondido pela mãe, que também escapou), Albahari é de 1948, ou seja, nasceu após o término do conflito e da ocupação alemã. Para uma obra que joga com a memória, trata-se de um detalhe não deve passar em branco. Talvez aí o livro lembre (embora em um tom completamente diferente) o recente livro de Laurent Binet (HHhH). É possível escrevê-lo? Para quê (ou quem)? 

Mas há, ainda, uma terceira "frente" em Götz e Meyer. Há uma crítica aos alunos. Há, por parte do professor, um grande projeto pedagógico que, por sua vez, parece lhe causar uma imensa frustração. Seus alunos teriam interesse no tema? Como eles se comportariam? Nesses tempos esquisitos do século XXI, o professor resolve levá-los para o campo de concentração. Propõe-lhes um exercício: devem se imaginar como um de seus parentes. Uma estudante diz categoricamente que não deveria ir ao campo se não permitissem que ela levasse... seu animal de estimação! Afinal, isso seria desumano! Outro afirma que ir para o campo teria sido a "grande aventura de uma vida". 

Talvez esse seja o elemento mais assustador deste excelente romance de Albahari.






quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cervantes, Arrecadador da Fazenda Real

Descobertos em Sevilha documentos que revelam aspectos da vida de Miguel de Cervantes, que viveu na cidade por um período. De acordo com a matéria do El País, o trabalho do romancista era arrecadar trigo e cevada para abastecer a frota de Felipe II, a caminho do Novo Mundo.


O conto do covarde, de Vanessa Gebbie


O conto do covarde
Vanessa Gebbie
Tradução de Sibele Menegazzi
Editora Bertrand Brasil, 2014, 378p.

Meu nome é Ianto Jenkins. Sou um covarde.

São palavras que já ecoaram antes por esta cidade. E hoje serão ditas novamente por Ianto Passchendaele Jenkins, agora miúdo e grisalho, de jaqueta cáqui e boné quase da mesma cor, o mendigo que dorme na varanda da Capela Ebenezer, num banco de pedra, com a mochila como travesseiro e um relógio sem ponteiros caído nas lajotas ao lado de suas botas.

As palavras serão ditas diante da Biblioteca Pública a um menino chamado Laddy Merridew. Serão entreouvidas pela estátua da cidade - um carvoeiro esculpido a parti de um único bloco de granito, com uma pilha de carvão em volta das botas. Página 7.

Há muitos anos atrás, assisti ao filme de John Ford, Como era verde o meu vale, de 1942 (ganhou o Oscar), sobre uma pequena comunidade mineira do interior do País de Gales; daquelas vilas que giravam em torno, exclusivamente, das minas de carvão. Huw Morgan, já com mais de cinquenta anos, se recorda (em flashbacks) de seus pais e seus irmãos, que trabalhavam, com o pai, na mina de carvão. Até que seu proprietário resolve diminuir os salários, é deflagrada uma greve, que acaba por dividir não apenas a família Morgan, mas toda a cidade. 

Lembrei-me imediatamente do filme, à medida em que avançava neste excelente romance de Vanessa Gebbie, recém-lançado, por aqui, pela Bertrand Brasil, na tradução de Sibele Menegazzi. Outra referência que vem à mente - apesar de eu não ter lido mais de um o dois contos - são os Contos de Canterbury, de Chaucer.


Há, sem dúvida, algo de Chaucer, principalmente pela opção da autora em trazer as histórias dos personagens da cidade pela voz do mendigo Ianto Passchendaele Jenkins como O conto do professor de marcenaria, o conto do afinador de piano, o conto do secretário.

Gebbie é renomada contista, além de tutora de escrita. Este que é o seu primeiro romance é também uma história sobre o contar histórias - afinal, Ianto é a memória desta vila, e ao contar as vidas de seus personagens para um menino esquisito como Laddy Merridew, que está morando com sua avó (os pais se separaram), o faz também para um número razoável de moradores, que já não se lembram dos fatos ocorridos à época do fatídico acidente na minas Gentil Clara. De acordo com a própria autora, a cidade fictícia é inspirada em Twynyrodyn.

Outro aspecto que chama a atenção é a estranheza dos nomes dos personagens: Thaddeus Icaro Evans, Jimmy "Meio" Harris, Simon "Tsc-Tsc" Bevan etc. Isso não foge à percepção de Laddy que, cada vez mais curioso, aproxima-se de Ianto, que não se nega a contar-lhe o que aconteceu com os personagens e seus pais e mães.  



A sobreposição de histórias, contadas por Ianto tem, na trama, a função de resgatar a memória de toda a comunidade, e o faz com doses bem temperadas de lamento, luto e humor. À medida em que as histórias avançam, surge a história do próprio contador (o conto do covarde) - e seu "papel" na tragédia da mina Gentil Clara. Ianto é um Homero, não um bardo cego, mas um mendigo desdentado, e acaba narrando o épico da comunidade carvoeira do sul de Gales.