domingo, 30 de março de 2014

E se a Internet desaparecesse?

E se, de repente, do nada, ficássemos todos sem a Internet?

- A Internet virá abaixo e viveremos ondas de pânico, diz Dan Dennett. 

E mais:

Algumas tecnologias nos tornaram dependentes e a internet é o máximo exemplo disso: tudo depende da rede. O que aconteceria se ela caísse? Nos Estados Unidos tudo desabaria em questão de horas. Imagine: acordar e a tevê não funciona. Obviamente não tem sinal de celular. Você não tem coragem de pegar o carro porque não sabe se essa vai ser sua última reserva de gasolina e os únicos que se prepararam para isso são todos esses malucos que constroem bunkers e armazenam armas. Certeza de que queremos que eles seja nossa última esperança?

A matéria completa pode ser lida na edição brasileira do El País, aqui. 


José de la Colina e sua bela adormecida

Esta vem do blog do escritor argentino Eduardo Berti.

José de la Colina é mexicano (nascido na Espanha em 1934). 


O príncipe encantado beijou a bela adormecida, que acordou enquanto ele dormia, e então ela o beijou; ele acordou enquanto ela voltava a dormir, e então...

sexta-feira, 21 de março de 2014

Conto da semana, de Stephen Leacock

Um conto que poderia ter sido contado por um amigo, num café qualquer por aí. Parece que foi ontem - ainda que faça tempo que não falemos em "prestidigitador". Obviamente, tirei do recém-relançado Mar de Histórias - Paulo Rónai & Aurélio. Leacock (1869-1944) nasceu no Canadá e é um dos mestres do conto de humor.

Stephen Leacock.jpg
Stephen Leacock: nunca esculhambe um mágico em público


- Agora, senhoras e senhores - disse o mágico - tendo-lhes mostrado que este pano está absolutamente vazio, passo a retirar dele um aquário de peixes dourados. Pronto!

Em torno dele, a assistência comentava:

- Que maravilha! Como será que ele faz?

Mas o Homem Sabido da cadeira da frente disse, num cochilo audível, às pessoas ao lado:

- Ele o tinha escondido na manga.

Então a assistência fez ao Homem Sabido, com a cabeça, um sinal de concordância inteligente, e disse:

- Claro!

E todos cochicharam pelo salão:

- Ele o tinha escondido na manga.

- Agora, a minha mágica - disse o prestidigitador - são as famosas argolas hindustânicas. Observem que as argolas estão, evidentemente, separadas; um sopro, e ei-las juntas (tlim, tlim, tlim)... Presto!

Houve um murmúrio geral de estupefação, até que se ouviu o Homem Sabido murmurar:

- Ele devia ter outras argolas escondidas na manga.

Outra vez concordaram com a cabeça, e cochicharam:

- As argolas estavam na manga dele.

O semblante do mágico anuviou-se, com um franzir de sobrancelhas.

- Agora - continuou - vou-lhes mostrar uma mágica bem divertida, que me permite retirar de um chapéu qualquer quantidade de ovos. Um dos cavalheiros aqui presentes poderia ter a gentileza de emprestar-me o chapéu? Ah, muito obrigado... Presto!

Extraiu dezessete ovos, e durante trinta e cinco segundos a assistência começou a pensar que ele era maravilhoso. E então o Homem Sabido cochichou pelo banco da frente:

- Ele tem uma galinha escondida na manga.

E todo mundo cochichou adiante a novidade:

- Ele tem uma porção de galinhas escondidas na manga.

A mágica dos ovos foi um desastre.

E o espetáculo continuou mais ou menos assim. Pelos cochichos do Homem Sabido, percebeu-se que o mágico devia ter escondido na manga, além das argolinhas e peixes, diversos baralhos, um pão, um berço de boneca, um porquinho-da-índia vivo, uma moeda de cinquenta centavos e uma cadeira de balanço.

A reputação do mágico descera rapidamente abaixo de zero. Pelo fim da noite, ele reanimou-se para um esforço final:

- Minha senhoras e meus senhores, para terminar, apresentarei uma formosa mágica japonesa, recentemente inventada pelos habitantes de Tipperary. O cavalheiro aí - continuou, dirigindo-se ao Homem Sabido - , o cavalheiro quer ter a bondade de entregar-me o seu relógio de ouro?

O relógio foi-lhe entregue.

- O cavalheiro me autoriza a colocá-lo neste almofariz e a despedaçá-lo? - perguntou, fulo de raiva.

O Homem Sabido disse que sim com a cabeça e sorriu.

O mágico atirou o relógio no almofariz e agarrou um malho que se achava em cima da mesa.

Ouviu-se um barulho de algo esmagado com violência.

- Ele o escondeu na manga - cochichou o Homem Sabido.

- Agora, cavalheiro - continuou o mágico -, permite-me tomar o seu lenço e esburacá-lo? Obrigado. Vejam, senhoras e senhores, não há engano possível; todos estão vendo os buracos.

O Homem Sabido estava radiante. Desta vez o mistério real da coisa fascinava-o.

- E agora, cavalheiro, quer ter a bondade de retirar seu colarinho de celulóide e permitir-me queimá-lo com a vela? Obrigado, cavalheiro. E permite-me espatifar os seus óculos com o meu martelo? Obrigado.

Por essas alturas, as feições do Homem Sabido estavam tomando uma expressão de perplexidade.

- Não compreendo este negócio - cochichou. - Não consigo entendê-lo nem um pouquinho.

Fez-se grande silêncio no auditório. Então o mágico se empertigou em toda a sua estatura e, com um olhar fulminante para o Homem Sabido, concluiu:

- Senhoras e senhores, queiram observar que, com a permissão deste cavalheiro, quebrei-lhe o relógio, queimei-lhe o colarinho, espatifei-lhe os óculos e dancei-lhe em cima do chapéu. Se ele me permitir ainda pintar-lhe o sobretudo de listras verdes e dar-lhe um nó nos suspensórios, ficarei encantado em poder divertir os meus espectadores, Caso contrário, está terminado o espetáculo.

Envolto numa explosão de música de orquestra, caiu o pano e a assistência dispersou-se, convencida de que há algumas mágicas, pelo menos, que não dependem da manga do mágico.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Dostoievski na BBC

Há tempos a Biblioteca não fala dos "filmes sobre livros". A produção de 2002 da BBC traz a história do atormentado Raskolnikov, filmada na própria São Petersburgo.


Uma adaptação bem aos moldes da BBC: produção impecável, fidelidade à obra, bons atores. São 2 DVDs, com 3 horas de duração. 



A edição da 34 traz a (única?) tradução direta do russo para o português, pelas mãos de Paulo Bezerra. Foi essa edição que li e que me fez perceber a diferença das antigas edições brasileiras, quase sempre feitas a partir de versões francesas. É quase outro livro... e muito melhor.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Reedição do Mar de Histórias

Referência do blog desde sempre, a coleção de contos Mar de Histórias, organizada pelo Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda acaba de ser relançada pela Nova Fronteira. 245 autores, da Antiguidade até a Primeira Guerra. Imperdível.

domingo, 16 de março de 2014

Bentinho e a Criméia

João Batista de Abreu lembrou em artigo no Observatório da Imprensa: Machado de Assis fala da Criméia em Dom Casmurro; Bentinho é pró-russo.


Machado de Assis aos 57 anos.jpg

Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por desfastio. Ao domingo, sobr a tarde, o pai enfiava-lhe uma camisola escura, e trazia-o para o funo da loja, donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi ali que o vi uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não atraía, decerto. Tinha eu de treze para catorze anos. Da segunda vez que o vi ali, como falássemos da guerra da Criméia, que então ardia e andava nos jornais, Manduca disse que os aliados haviam de vencer, e eu respondi que não.

- Pois veremos - tornou ele - Só se a justiça não vencer neste mundo, o que é impossível, e a justiça está com os aliados.

- Não, senhor, a razão é dos russos.

Naturalmente, íamos com o que nos diziam os jornais da cidade, transcrevendo os de fora, mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas ideias. Defendi o direito da Rússia, Manduca fez o mesmo ao dos aliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito, e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados, e da integridade da Turquia, concluindo por esta frase profética:

"Os russos não hão de entrar em Constantinopla".

(Capítulo XC - A Polêmica)

Mais de século se passou; agora não se trata da Turquia, mas da Ucrânia. Mas estamos novamente falando da Criméia, dos cossacos e dos tártaros.

terça-feira, 11 de março de 2014

Juan Pablo Villalobos e o sistema JP para crises de prateleiras

Já Juan Pablo Villalobos transformou a arte de arrumar espaço numa estante em uma ciência exata. O sistema JP para crises de prateleiras. A ser testado, claro.


Talvez um dia faça um ranking dos meus nestas bases. Teria que estabelecer um limite quantitativo; quem não fizesse o mínimo de pontos seria rebaixado para a série B. Mas acho que vai rolar tapetão.

Os livros que não li

Um artigo de Christopher Howse, que pode ser lido, em inglês, aqui, fala da arte de não ler os livros que temos. Segundo o autor, há em média 138 livros por residência (acho este número exageradamente alto até para os ingleses) e pelo menos a metade destes jamais será aberta.

Um artigo meio estranho... 

Ele esculhamba o paperback. É que, para Howse, ninguém tem um livro; somos todos apenas seus guardiões, por algum tempo (algumas décadas, se tanto). Defende que, afinal, o fato de as pessoas não lerem os livros que compram não é tão mal assim - e dá o exemplo do Mein Kampf, que vendeu milhões...

E faz um cálculo: se lermos um livro por semana não chegaremos a 5 mil - não muito.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Os Lemmings e outros, de Fabián Casas


Desde que comecei a publicar, as pessoas me perguntam: "Isto é autobiográfico, não é?" Ou: "O personagem é você, não é?" De modo que vou começar dizendo que tudo o que se vai narrar aqui é absolutamente verídico. Aconteceu realmente como vou contar. 
(conto: Casa com dez pinheiros)

Dizer que Buenos Aires é uma cidade literária é de um irritante lugar-comum. Mas o que dizer de um bairro? Sim, porque, no final das contas, na maioria das vezes os escritores se dedicam a um ou outro bairro. Borges dedica-se a Palermo Viejo, onde viveu quando criança  - e que está presente em A fundação mítica de Buenos Aires e em Evaristo Carriego (o primeiro texto, Palermo de Buenos Aires).

Borges fez parte do chamado Grupo de Florida, que nos anos 20 e 30 do século passado se reunia em torno do Café Tortoni e da Revista Martín Fierro. Estavam antenados nas vanguardas europeias e foram associados às classes mais altas da sociedade argentina. Hoje qualquer turista conhece o Café, a calle Florida, o bairro Palermo.

Mas houve também um outro grupo, de Boedo. Na época, houve alguma rivalidade entre ambos. Ao contrário do Florida, Boedo se reunia nos subúrbios e era mais associado às classes operárias. Roberto Artl era um dos seus expoentes. A literatura tinha um papel na revolução social - a arte comprometida. Você alguma vez visitou o Boedo?

Quase um século depois, o argentino Fabián Casas, nascido em Boedo em 1965, traz seu bairro em uma série de pequenos contos - Os Lemmings e outros (Editora Rocco, 2013, tradução de Jorge Wolff e posfácio de Carlito Azevedo). Mais um autor da série Otra Língua, coordenada por Joca Reiners Terron.


Nos oito contos, Casas cita de Schopenhauer a Darth Vader. E algumas referências como Asterix (Asterix, o zelador) tratam, na verdade, de autores como Sebald (Austerlitz):

Levei-o para casa, emprestado, numa edição espanhola. Comecei a ler e, lá pela página 40, me demoliu. Confesso. Era outro livro de um alemão hiperculto que se encontra com um tal Austerlitz, que é mais culto ainda que ele. Não pode passar uma mosca sem que este Austerlitz a rodeie com todo o pensamento ocidental (...) comecei a escutar uma voz que replicava em minha cabeça: primeiro dizia, claramente, Austerlitz!, Austerlitz!, mas depois ia declinando para Asterix!, Asterix! Asterix, aqui, é na verdade Rodolfo, o zelador...

Muito se tem destacado que as narrativas do livro são reminiscências da infância e da juventude do autor (que já disse ter pouca imaginação e, por isso, recorre às suas experiências - deixando claro que tem pouca memória). O bairro Boedo, o time do San Lorenzo. Isto parece bem evidente.

Mas há algo a mais. Casas parece carregar suas narrativas com uma ironia bastante sutil. Uma prosa extremamente coloquial e de fácil leitura, mas que oferece também uma visão bastante crítica e irônica - afinal, quem você acha que é Pablo Conejo, autor "mexicano, que escreve livros de autoajuda que vendem como coca-cola"?