quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

Já não eram necessários verbos, tudo estava claro entre os dois. O senhor Cortázar entregou o casaco que o fiscal de novo guardou na sua mala.

O mesmo se passou com as calças, a camisa, a carteira; enfim, tudo.

Gonçalo Tavares virou um dos autores mais presentes por aqui. A Última Fiscalização aparece no site da Revista Pessoa.

Aqui, um encontro entre o senhor Cortázar e o fiscal - o inspetor fiscal lá em Portugal. E, de fato, há de se reconhecer que fiscais e advogados não são as categorias mais queridas dos escritores.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ainda o ladino

Será que alguém se interessa por aqui? Acaba de sair no México Por mi boka, de Myriam Moscona e Jacobo Sefamí, com textos da diáspora sefaradí. Versos de Juan Gelman, cantos de Martín Fierro e até o primeiro capítulo de Don Quixote - aliás, Don Kishot de la Mancha, um senyor de akeyos ke tenian una lansa en el raf, un eskudo antiguo, un kavayo viejo i flako, i un perro kasador.


A UNESCO o considera um idioma em vias de extinção, seja pelo extermínio da comunidade sob o nazismo, seja pelo próprio estado de Israel, que decretou como idioma oficial o hebraico, uma língua litúrgica, segundo os autores, e não uma língua viva.




As letras e as chuvas


A literatura brasileira tem um dos seus grandes momentos ao tratar da seca - fiquemos com Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Mas o que dizer da chuva? Ocupa ela algum lugar realmente de destaque nas nossas letras? 

Os ingleses escrevem e escreveram obsessivamente sobre ela. 

Flooding In England

A imagem acima data da enchente de Severn, em 1607. Em artigo que pode ser lido, em inglês, aqui, publicado no The Guardian, Alexandra Harris visita a literatura inglesa debaixo de um imenso guarda-chuvas: de Chaucer a George Szirtes, passando - claro - por Shakespeare.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Conto da semana, de Aleksandr Púchkin

Da sensacional Nova Antologia do Conto Russo, organizada por Bruno Barretto Gomide e editada pela 34, o conto Viagem a Arzrum, de Aleksandr Púchkin (1799-1837), vem a calhar nesta semana de abertura dos jogos olímpicos de inverno em Sochi. 


Parei em uma estalagem e no dia seguinte me dirigi aos célebres banhos de Tiflis. A cidade me pareceu populosa. As construções asiáticas e o bazar me fizeram lembrar de Kichiniov. Pelas ruas estreitas e tortuosas corriam burros carregados de cestas; carroças atreladas a bois obstruíam o caminho. Armênios, georgianos, circassianos e persas se aglomeravam na praça assimétrica; entre eles, jovens funcionários russos passavam em cavalos em Karabakh.

Uma descrição das pessoas e da paisagem da região que era então submetida ao império russo - sim, os problemas no Cáucaso não são recentes, remontando pelo menos à guerra contra os turcos de 1828-1829. O autor, que não foi incorporado ao exército, resolveu assim mesmo conhecer a região, e o conto em questão é uma mistura de diário de viagens (que é bem diferente de turismo) e ficção. Uma viagem não só geográfica como também no tempo: os confins do império, uma visita ao monte Ararat, a um harém...

Os russos sempre tiveram fixação pelo Cáucaso. São acusados de genocídio contra os circassianos. Em 2008 lutaram contra a Geórgia, cujo território hoje é parcialmente controlado por "repúblicas" autónomas somente reconhecidas por Moscou. A escolha de Sochi, cidade localizada na região, foi polêmica e atiçou toda a região.




terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma educação bilíngue hoje - para um novaiorquino

A ideia da necessidade de uma criança americana aprender francês é hoje mais um reflexo do que propriamente uma ação, como tocar música clássica num casamento de pessoas que vivem no pop moderno. O francês na América educada é hoje uma marca social, originária da já longínqua época em que era a língua internacional da Europa. 

O artigo publicado na New Republic defende o ocaso do francês como segunda ou terceira língua do americano. Hoje, o francês é substituído pelo espanhol, e há mais interesse no chinês e no árabe do que no russo e no alemão. E provoca: você quer aprender francês para se comunicar com... quem, exatamente? 

Em inglês, o artigo, curto, pode ser lido, aqui.




Dia 4 na Revista Samizdat

Dia 4 é dia de Revista Samizdat. Este mês, uma tentativa de artigo sobre a recém anunciada biblioteca sem livros em San Antonio, Estados Unidos. O que Poggio Bracciolini tem a ver com isso?

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Conto da Semana, de Bernard Schlink

A semana registrou a morte de Maximillian Schell (1930-2014), o advogado Hans Rolfe da primeira - e disparada, a melhor - versão de O Julgamento de Nuremberg, de 1961, com Spencer Tracey e Burt Lancaster. Ele era o advogado dos magistrados acusados de crimes durante o nazismo. 


O conto A Menina com a Lagartixa, de Bernard Schlink (1944), integra a antologia Escombros e Caprichos: o melhor do conto alemão do Século XX. O autor alemão é jurista e professor universitário (Filosofia do Direito), ingressando na literatura bem mais tarde. Neste conto, a velha questão da responsabilidade pelos crimes nazistas. Tal como no seu livro mais famoso, que não li - mas vi no cinema: O leitor - o fantasma está presente.

No caso, o pai do protagonista tinha sido magistrado no passado mas, agora, trabalhava numa firma de seguros. Fica evidente - caiu em desgraça com a queda de Hitler. Um quadro que a família mantém intriga o jovem - principalmente porque seus pais não o autorizam a utilizá-lo num trabalho escolar. É o tesouro da família. A única coisa que restou de um passado glorioso - a queda financeira e social do trio é evidente, a começar pela descrição da nova residência.

Mais tarde, já na universidade, e após morte do pai, acaba descobrindo o que  aconteceu - e a participação de seu pai nisso, anda que haja algumas dúvidas a respeito do grau de responsabilidade. A mãe não ajuda muito - seria ela cúmplice ou vítima? O pai roubou ou recebeu o quadro? Interessante reler este texto que é mais uma novela que propriamente um conto, agora que se aproxima o lançamento de Os caçadores de obras-primas, de George Clooney no Festival de Berlim.

Um professor de Filosofia do Direito que se tornou popular com a literatura. Uma entrevista pode ser lida, em português, aqui.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Revista Samizdat nº 39


AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
Os Nossos Filhos, em Casa, na Rua, no Passeio, no Liceu, no Colégio, Ramalho Ortigão

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Um personagem em busca de seu auto - Tão longo amor, tão curta a vida, de Helder Macedo, Fabio G. Bensoussan

CONTO
Sempre Assim Será, Joaquim Bispo
Os Adúlteros, Henry Alfred Buggalho
Milando, Japone Arijuane
Memória, Ana Beatriz Cabral
Aprendizado, Mario Filipe Cavalcanti
Audácia, Rodrigo Domit
Dona Dora, Zulmar Lopes
Glyn, Volmar Camargo Junior,
Sangue do meu sangue, onde espirras?, Cinthia Krimler
Duas Bandas, Lília Ramadan Veríssimo de Lima
O Quadro, Ana Luiza Drummond
O Bilhetinho, Maria de Fátima Santos
Triagem, Maria Teresa Hellmeiste Fornaciari
Bronca de pai, bronca de filho, Wangle Keindé
Um Escrito atrás do livro de poesias de Álvaro de Campos, Amanda Ariana

TRADUÇÃO
Sobre as Crianças, Gilbran Khalil Gibran

CRÔNICA
Não sei dizer se isso é um ensaio..., Sullen Rodrigues Rubira
Não tenha pressa, Henry Afred Bugalho
Leite Quente, Maria Amélia de Elói

POESIA
O que todos os pais pensam, Volmar Camargo Junio
À Energia ou ao Tempo, Igor Melo de Sousa
Veterano, Edweine Loureiro
philip k. dick entertainment, Jairo Macedo
Dizeres, Marco Gonzaga
Yearning, Sebastião Ribeiro
Walk with me, Adriana Dias Bueno
Uma tinta que pinte de branco as corres vivas dessa saudade, Vander Vieira

O Bom Soldado Svejk (V)

E assim, a Biblioteca se despede temporariamente do Bom Soldado Svejk, com este link para as ilustrações feitas pelo amigo de Hasek, Josef Lada.

O Bom Soldado Svejk (IV)

Švejk, illustration by Josef Lada

O terceiro livro é o último concluído, já que o quarto tem cerca de oitenta páginas (os outros três, aproximadamente 200 cada). Logo no início, um trem carregado de entusiasmados soldados passa pela companhia de Svejk (a 91ª, a mesma na qual serviu o autor); um deles perde o equilíbrio, despenca do vagão e acaba empalado numa alavanca junto aos trilhos...

Como diz Hasek, pessoas estúpidas precisam existir. Se todos fossem inteligentes haveria um excesso de bom senso no mundo, que acabaria enlouquecendo.

A esta altura, já está evidente: do seu jeito, sendo ridicularizado e desprezado, Svejk demonstra toda sua rejeição ao império e ao imperador. Fica claro que não é o idiota que todos vêem. Do seu jeito, obedecendo automática e inquestionavelmente todas as ordens que recebe, Svejk inviabiliza o funcionamento do Exército.

E mais uma série de episódios e situações desfilam pelas páginas - um cadete, Biegler, que literalmente se borra nas calças. Todos pensam se tratar de desinteria - ele apenas bebera e comera demais - até que, indo ao hospital de campanha por ordens do médico, acaba realmente acometido pelo cólera. 

Svejk, como outros poucos personagens da literatura, adquiriu vida própria. Tornou-se o antiherói folclórico; conhecido em toda Europa central e oriental. É interessante comparar Hasek a Kafka - contemporâneos (nasceram em 1883 e morreram com diferença de um ano) e conterrâneos; um escrevendo em tcheco, o outro em alemão; um francamente irônico e debochado, o outro com personagens mais angustiados e soturnos. 

Hasek ataca a idiotice, e se preocupa em esculhambar qualquer tentativa de uma narrativa oficial da guerra - as latrinas unem os seres humanos, diz Svejk: de Francisco José ao mais reles soldado, todos acabam enchendo-as. Uma visão cínica sobre "honra" e "campo de guerra" que não poderia dar em outra coisa - nazistas e comunistas mal podiam suportá-lo. A toada do quarto livro não difere do que se viu até agora mas, decididamente, o primeiro é melhor de todos.

Uma epopéia, como disse Carpeaux. Agora, é esperar pela edição brasileira, pela Alfaguara, que deve sair ainda este ano, dos cem anos do início da Grande Guerra.