quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Conto da semana, de Quim Monzó

O último conto do ano é sobre a criação de um... conto. Quim Monzó (1952) é um dos principais escritores de Barcelona, e escreve em catalão.




Pode ser lido, em português, aqui.

O blog volta dia 4 de janeiro.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Andrés Neuman é o próprio Viajante do Tempo


O Viajante do Tempo
Andrés Neuman
Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro
Alfaguara, 2011
454 p.



Provavelmente encerrei 2013 com um grande livro. Andrés Neuman (1977), argentino que vive em Granada, Espanha, imagina uma cidade, Wandernburgo, situada entre a Prússia e a Saxônia e cujas ruas se movem durante as noites. O livro que acabo de ler foi editado no Brasil em 2011 mas escrito entre 2003 e 2008, ou seja, quando seu autor tinha entre 26 e 31 anos, o que apenas demonstra o meu fracasso...




Numa gélida noite de inverno, Hans chega à cidade, em busca, apenas, de um quarto, para prosseguir sua viagem no dia seguinte. Acaba ficando. Não consegue deixá-la. Conhece o realejeiro e uma série de personagens da sociedade local - sua verdadeira razão acaba sendo Sophie Gottlieb, filha de um sólido comerciante da cidade. 

O romance se passa em meados do século XIX. Neuman consegue, sem forçar a barra ou cair em didatismos estéreis para um livro de ficção, passá-lo em revista: o mundo pós-Napoleão, as questões nacionais (nos salões, Hans discute sobre a proposta de união aduaneira que mais tarde dará origem ao estado alemão), democracia... Os personagens que frequentam esses salões, secundários, merecem atenção, até pelas discussões que travam.

Professor, respondeu Hans olhando para o espelho de esguelha, a Europa jamais poderá se organizar se não houver uma ordem justa em cada país. Que as constituições de nossos invasores sejam as que mais liberdades nos deram não mereceria ao menos uma reflexão?

Para destroçar a Europa, disse Hans pensativo, não precisamos de Napoleão, nos bastamos sozinhos. Estou vindo exatamente de Berlim, senhor, e lhe asseguro que não gosto nada do entusiasmo bélico dos jovens, quem dera nós tivéssemos mais política inglesa e menos polícia prussiana.

E muita - muita - literatura. Hans e Sophie têm juntos um projeto de traduções. O trabalho acaba deixando-os, digamos, extremamente excitados sexualmente. Há tara para tudo. Até para Bocage. Hans domina um monte de línguas.

Temos Quevedo, enumerou Hans, Lope de Vega, San Juan, Garcilaso... e Góngora?, disse Álvaro. Góngora melhor não, respondeu Hans, é intraduzível. Mas, disse Sophie, você não dizia que a poesia sempre pode ser traduzida? Sim, sim, toda, sorriu Hans, menos Góngora. E você pôde lê-lo em espanhol? estranhou Álvaro. Bom, disse Hans, mais ou menos, tenho alguns livros dele no baú. Mas quantos idiomas você sabe?, perguntou Álvaro. Alguns, disse Hans. E como você aprendeu?, perguntou Álvaro. Digamos que viajando, respondeu Hans.

Hans é um grande tradutor. É interessante - não há muitos personagens importantes que sejam tradutores. Ainda por cima um tradutor que se dá bem - vide Sophia. E os personagens têm nomes interessantes: o prefeito Ratztrinker, Gottlieb, o padre Pigherzog... e entre ratos e porcos, uma família Rumenigge.

Cada um dos quatro capítulos se passa em uma estação do ano, e Hans, que pensava em ficar na cidade por uma noite, acaba ficando por um ano. No quinto capítulo, as coisas engrossam para o lado dele. Um mistério é revelado - um misterioso personagem é desmascarado. Aqui dá para sentir outro aspecto do século XIX que irá se desenvolver no seguinte: o antissemitismo.

Um romance que levou cinco anos para ser construído, com erudição de sobra, sem ser afetado. Em alguns momentos, a vida em Wandernburgo e de Gottlieb me lembra um pouco o mundo dos Buddenbrook. Um romance completo, que consegue passar o século XIX em revista, numa narrativa decididamente do século XXI. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Conto da semana, de José Luiz Passos

Nas manhãs de sábado, no final da minha infância, às vezes íamos visitar Laszlo no Poço da Panela, um dos velhos bairros à beira do Capiberibe. Passada uma parreira espalhada por cima da garagem, ele tinha montado uma oficina com torno de cano e tanque de oxidação. Quando a Alemanha arregimentou a Hungria, os soldados de Hitler devem ter percebido sua mão para as máquinas; mantiveram Laszlo junto aos blindados, preso, porém sempre a postos, e como mecânico de tanques durou até 1945 - para então tomar a famosa rota do Brasil.

O conto da semana - Os Outsiders - é do vencedor do Prêmio Portugal Telecom 2013 de melhor romance, e pode ser lido aqui, É o primeiro texto dele que leio.

Laszlo e suas três consoantes, numa terra cheia de tritongos. Além do universo do imigrante, a constatação de que as lembranças de uma criança de dez anos - ou de noventa, claro - podem não ser muito precisas.


Blue Jasmine (2013), de Woody Allen


Blue Jasmine (2013) Poster

Sim, a Biblioteca não perde um Woody Allen, mesmo quando ele não está atuando. Para muitos - não concordo - este é o melhor dos mundos: um filme de, e sem, Woody Allen.



Woody Allen interrompe seu tour europeu - Londres, Barcelona, Paris, Roma - continua devendo um pulo por estas bandas (eu pagaria para fazer uma ponta) e volta para os Estados Unidos, mas agora sem que NY seja sua estrela. Na verdade, a história se passa em San Francisco, com flashbacks novaiorquinos.

 

Novamente, um grande elenco. Cate Blanchett é Jasmine; Alec Baldwin faz o papel de Hal, um milionário picareta, que aplica um grande golpe (lembre-se de 2008). Mas o que incomodou Jasmine não foi isso, mas as puladas de cerca do marido. 

Nova pobre, com a prisão (e suicídio) do marido, Jasmine vai buscar abrigo no outro lado do país, na casa da irmã cafona e pobretona, Ginger (Sally Hawkins). Na única chance que teve de melhorar de vida (o ex-marido ganhou um prêmio) caiu na besteira de entregar o dinheiro a Hal, que o investiria. Perdeu tudo - inclusive o marido - no golpe e na posterior bancarrota.

Mas é evidente que Ginger continua se sentindo inferior. Jasmine, por outro lado, ainda não caiu na real. Anda na California como se ainda desfilasse por Manhattan. O namorado de Ginger lhe é repugnante, e este, por sua vez, não perde a chance de lhe dizer que ela era ou tonta ou cúmplice de Hal. Ela, por sua vez, tem que ralar: trabalha como assistente de um dentista que acaba a assediando; vai a uma festa e conhece um milionário que pretende ingressar na política (ela sabe que não pode abrir o jogo e dizer quem realmente é).

O filme é todo ele Cate Blanchett, que já é favoritíssima ao Oscar de 2014 pelo papel. Blue Jasmine foge das últimas obras de WA por não se tratar de uma comédia - a partir da metade do filme, é mesmo um grande drama.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Renoir (2012), de Gilles Bourdos


Renoir (2012) Poster

Inesperadamente, este filme ficou em cartaz por várias semanas, o que me permitiu assisti-lo. O filme se concentra na relação entre o velho Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet), sua modelo Andrée Heuschling (Christa Theret) e o filho Jean - sim, o cineasta.



Em 1915, Jean volta para a casa do pai, em Cagnes, no sul da França. O pai já está bem debilitado. Jean está se recuperando de um ferimento (ele serve no front - afinal, estamos na Primeira Guerra) e está descobrindo esta nova arte que é o cinema. Andrée, com quem acaba se envolvendo, é grande entusiasta deste novo rumo - na verdade, eles vieram a se casar; ela foi estrela dos primeiros filmes do grande cineasta, sob o nome de Catherine Hessling, até se separar do diretor.

Na primeira cena, ela está chegando à casa do mestre. Tinha apenas 15 anos e disse ter sido indicada pela falecida sra. Renoir; o pintor já está com seus 74 e sofre de artrose. O monte de mulheres que trabalha para Auguste não vai muito com a cara dela - muito jovem, muito bonita e sem um "trabalho". Em pouco tempo chega Jean.

Pai e filho não são inimigos, mas também não são lá muito próximos. O pintor dedica todos os seus minutos à arte, nela vivendo como que em um mundo à parte (viver pintando em Provence... não dá para exigir nada diferente) - ele praticamente abandona o filho mais novo, que no início do filme mais parece um agregado de uma história do Machado de Assis. O relacionamento entre os três - não, o pintor não dá em cima de Dedée - é o grande tema do filme. 

É a passagem do bastão da arte de Auguste para Jean. É a continuidade dos Renoir como grande e indispensável referência nas artes visuais.

No final, é dito que ambos (Jean e Dedée) morreram em 1979 - ele, consagrado mundialmente; ela, esquecida...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Conto da Semana, de Elvis Hadzic

O conto da semana vem da Best European Fiction (BEF 2014). Elvis Hadzic (1971) é o autor de O Curioso Caso de Benjamin Zec. Bósnio, vive hoje em Salt Lake City - curiosamente, num movimento similar a Hemon e Mehmedinovic.

Benjamin não gostava de ciências na escola. Disse ao professor que, na verdade, Newton não estava deitado embaixo da famosa árvore, mas em atividade mais, digamos, escatológica, e descobriu a verdadeira força da gravidade. Afinal, maçãs não ficam caindo das árvores por aí... Não gostava de ciências, mas adorava ler. A par disso, era um garoto normal. Queria ser um ator, queria ser um ator na Broadway.

Até decidir se tornar uma joaninha.

No momento em que capturou uma, e a colocou na palma de sua mão, algo violentamente acertou-lhe a nuca. E então Benjamin Zec nunca mais foi visto.

Por onde andava? Ninguém nunca soube; tornou-se uma lenda. Muitos diziam que estava nos Estados Unidos. Sim, ele estava lá, nos palcos da Broadway, aclamado pelas massas. Ele olhava as fotografias na parede do camarim. E aos poucos percebeu que não envelhecia. Como Dorian Gray. Decidiu ler a história de Wilde e, toda vez que o fazia, lia a primeira página, ficava inconsciente e... acordava novamente no palco. Voltava da peça, lia Dorian Gray, adormecia e... acordava no palco. Como um LP com defeito.

Até que um dia acorda não mais no palco, mas num campo aberto, sob o sol do verão. 

Bom, o desfecho do conto conduz rapidamente ao evento traumático para toda a Europa - Srebrenica. E aqui, a força da ficção: de uma forma lúdica, poética e sem citar o nome da cidade ou o evento uma única vez, Hadzic escreve em memória das mais de 8 mil vítimas do maior massacre europeu depois de 1945.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ian Buruma e o Ano Zero


O que mais impressionava os visitantes alguns meses depois da guerra era o estranho silêncio.

Oficialmente, a Segunda Guerra acabou em maio de 1945. Mas para muitos, em muitos países, vencedores e vencidos, foi o começo de um novo inferno. Tropas russas massacraram alemães; em Berlim, estupraram as mulheres que viam pela frente; os judeus libertos eram extremamente indesejados e, muitas vezes, culpados pelas desgraças vividas e assassinados; acertos de contas entre ocupados e alemães, e uma infinidade de outros massacres. Como dizia o alto-falante em Berlim nesta época: "Soldado, você está na Alemanha. Vingue-se dos hitleristas!"

As mulheres, por sua vez,  saíam com os libertadores num, digamos, ritmo e intensidade que chocaram os demais conterrâneos. Os homens sentiam-se humilhados pelos soldados americanos e canadenses. Houve também fome - generalizada.

Milhões de alemães étnicos estavam espalhados pelo leste europeu há gerações, e agora viram-se obrigados a retornar ao seu destroçado país. Nem todos conseguiram - muitos foram massacrados nas primeiras horas do pós-guerra. Judeus que voltavam para suas cidades descobriam que suas residências estavam ocupadas por famílias que não estavam dispostas em abandonar as novas moradias. Mesmo na Holanda. Não podiam reclamar - deviam ser discretos e gratos.

Não que tais fatos sejam exatamente novidades. Tony Judt, por exemplo, em seu monumental Pós-Guerra, já tinha tratado destes acertos. Mas este 1945: Ano Zero é centrado neste pós-guerra imediato, e não se resume ao europeu - a Ásia, em torno do derrotado Japão, também tem destaque.


O livro ainda não foi publicado no Brasil. Foi lançado recentemente, e soube dele pelo Manhattan Connection de algumas semanas atrás. Facilidades do Kindle.  

Buruma nasceu bem depois do fim da guerra e viveu na Holanda e no Japão, onde estudou História, literatura chinesa e cinema japonês. Isso explica muito do livro, evidentemente. Seu pai voltou da Alemanha para casa, na Holanda, sem saber o que, quem e como encontraria sua vida passada, em Utrecht. Ele era estudante de direito em 1941, foi feito prisioneiro alemão e sobreviveu ao bombardeio de Berlim, aos confrontos rua-a-rua e conseguiu voltar para casa.

Um dos capítulos mais interessantes é o que trata da reeducação dos povos derrotados. A desnazificação na Alemanha - mas os professores eram todos crias do regime. Ainda havia uma sensação de que o regime fora positivo nos anos de paz. No Japão, tudo foi diferente; o japonês não viu nenhuma vantagem no militarismo recém-derrotado. Talvez por isso mesmo a influência cultura americana tenha sido tão intensa.

No final, o relato da construção da ideia europeia, desde as primeiras reuniões ainda em 1942, e também das Nações Unidas. Um relato, apesar de tudo, bem otimista: os grandes legados da reconstrução do mundo a partir de 1945 teriam sido os direitos humanos e a construção do Estado do bem-estar social. 

Mas, no fundo, parece que basta uma crise econômica mais grave para a ideia da União Europeia ser posta em xeque, os neonazistas ressurgirem em vários países (Hungria e Grécia em destaque óbvio), sem falar das guerras dos bálcãs. Parece, mesmo, que nunca se aprende nada... George Steiner diz que havia, em 1914, uma certa "nostalgia da catástrofe", já que havia se passado muitos anos desde a última grande conflagração continental - Napoleão. Talvez seja isso mesmo - de tempos em tempos, precisemos quebrar tudo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Conto da semana, de Cíntia Moscovich


- Judia suja.

Eu, que nunca havia experimentado a sério ser quem era - porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos -, passei, de uma hora a outra, a ser judia e a ser também suja - o ódio na boca de Paula fazia com que as duas palavras se equivalessem. Fiquei ali, parada, paradinha, olhando para a menina, que, subitamente, se tornara dona de uma voz tão impositiva que se assemelhava à verdade. Sem sabermos, ela ou eu, obedeciam-se as velhas tradições - era um conhecimento com que os ruins já nascem. O ódio cintilando a ponto de zunir no miolo dos olhos negros, Paula repetiu a ofensa, arrastando-a escandida:

- ju- di- a- su-ja.

Então em mim, pela primeira vez, se abriu uma violenta ferida de sangue, uma hemorragia de raiva e dor grande demais para o espírito de uma menina. E a criança que eu era arranjou ainda ânimo de fazer a pose da insolência, as duas mãos na cintura, e arranjou ainda instinto para retrucar:

- E você é uma bocó. E uma burra.

Pronto, eu, como ela, também obedecia a antigas tradições - pela minha lei de talião, ser bocó e ainda burra era pior do que ser suja.

A vencedora do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2013 na categoria Contos, Cíntia Moscovich, é a autora do conto da semana, O telhado e o violinista. Integra o livro O reino das cebolas, de 1996.

O conto se inicia com o embate da narradora com Paula. Ela e Paula. Em casa, descobre que sua família também tem uma relação semelhante; no caso, sua avó e os cossacos. A narradora, mais tarde, interrompe uma cerimônia do Yom Kippur para salvar uma galinha, que chocou um ovo.

A galinha é adotada e ganha um nome, Hortênsia. O pinto também vira gente - Fúlvio. E logo em seguida, um acontecimento a marcará (e a sua família) - novamente, envolvendo Paula.

Cintia Moscovich é uma das autoras a manter uma linha importante na literatura brasileira, que vai de Samuel Rawet a Moacyr Scliar, e que inclui Tatiana Levy Salem e Michel Laub, entre outros. Mas, para além dessa referência, há o tema da maldade infantil. Sim, as adoráveis crianças sabem ser crueis como poucos - como autores como Saki deixaram muito claro em seus contos.