sábado, 30 de novembro de 2013

Conto da semana, de Horacio Quiroga

O conto da semana - O travesseiro de penas - pode ser lido, em português, aqui.

Horacio Quiroga (1878-1937) é um dos grandes mestres do conto latino-americano. Neste, Alicia sofre com um casamento que não lhe é muito feliz, por mais que ela e Jordán se amem. Do contrário, poderia ter se salvado se, numa viagem no tempo, tivesse conhecido Thérèse Desqueyreux...

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O conto, de cerca de quatro páginas, integra várias antologias editadas por aqui. A vida de Quiroga foi, do início ao fim, uma desgraça. Seus textos nos levam imediatamente a Poe e a algumas histórias de Maupassant. Borges criticava-o bastante, mas Quiroga bem que daria um excelente personagem para o argentino.

O europeu, segundo Amós Oz

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Hoje, todo mundo é europeu, e quem não é está fazendo fila para ser. Há 80 ou 90 anos, os únicos que eram autênticos europeus na Europa eram os judeus, como os meus pais. Todos o demais eram patriotas búlgaros, patriotas irlandeses, patriotas noruegueses... Os judeus eram europeus devotos. Era poliglotas, adoravam que houvesse histórias diferentes, e os legados literários, e os tesouros artísticos, e sobretudo amavam a música. E amavam as paisagens, os prados e as florestas, as torrentes e os bosques nevados, os estreitos becos das cidades antigas, as universidades e os cafés. Mas a Europa nunca lhes quis. Por serem genuínos europeus, foram tachados de "cosmopolitas", "parasitas", "intelectuais sem raízes".


Tão longo amor tão curta a vida, de Helder Macedo




Tão longo amor tão curta a vida. O título do mais recente romance do português Helder Macedo (1935) e lançado agora pela Rocco é também a última estrofe do soneto Sete anos de pastor Jacob servia, de Camões. Jacob, sabe-se, ficou com as duas irmãs, Raquel e Lea.

Victor Marques da Costa é um diplomata português que está em Londres para uma conferência sobre o Oriente Médio. Sobre uma Líbia sem Kadafi, sobre uma Síria com Bashar, sobre o Irã. Ele aparece, repentinamente, na casa de seu amigo, um conterrâneo, escritor (Macedo?). Aflito, dizendo-se vítima de um sequestro, começa a contar-lhe uma história, tão interessante quanto improvável. O diplomata admira o amigo escritor, que no entanto não tem tanta certeza assim deste apreço.

O escritor então começa a ouvir a história do atormentado amigo, que um dia conheceu uma certa Lenia Nachtigal, quando servia em Berlim Oriental em seus últimos dias. A história que conta é confusa - a jovem, filha de agentes da Stasi, é cantora lírica. Resolve atravessar o Muro e, ao que parece, nunca mais é vista. A partir daí, Victor Marques da Costa está à sua procura; a cada ópera que assiste pensa tê-la finalmente encontrado.

Mas Macedo começa a duvidar desta história. Num momento que lembra Machado de Assis (de quem é admirador confesso), desabafa: "convenhamos que até agora tenho sido um autor disciplinado e comedido, reduzindo ao mínimo minhas intervenções pessoais" - e completa: "Longe de mim ser um daqueles oportunistas pós-modernos que aproveitam os leitores estarem distraídos com a vida dos outros para se meterem logo à frente da narrativa".

O fato de o amigo diplomata estar com a camisa ensanguentada o leva a pensar se não seria ele o autor de algum crime. Um assassino, talvez. Desiste de escrever o romance ao qual vinha se dedicando. Lenia conhece uma outra Lenia, uma brasileira, filha de empresário, uma Lenia Bonamor - "É, no Brasil as vogais se abriram com o calor". Esta, por sua vez, quer encontrar o antigo amante da recém-conhecida.

Macedo então resolve contar a sua versão da história que acaba de ouvir. Torna-se tão personagem quanto o próprio Victor Marques da Costa. A trama vai se enrolando cada vez mais - e os limites entre a realidade e ficção perdem-se por completo.

Victor Marques da Costa busca incessantemente um autor - que finalmente encontra, como também encontram as duas Lenias e Otto, o funcionário da embaixada portuguesa na Alemanha Oriental. Como em Pirandello, quatro personagens em busca de um autor.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Hã? - Uma teoria

"Hã?" e as suas congêneres são tão excepcionais na sua uniformidade que os cientistas quiseram mostrar que são palavras "a sério" - e não apenas "ruídos" inatos, tais como os espirros ou o choro.

Uma Teoria Geral da Indagação. De acordo com a matéria, foi o que restou da época em que construíamos Babel...


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Conto da semana, de Rui Manuel Amaral

Considero uma humilhação pessoal descobrir um escritor português numa antologia americana. Foi o caso com Rui Manuel Amaral (1973), que é o representante de Portugal na Best European Fiction de 2014 - agora editada por John Banville, em substituição a Aleksandar Hemon. 


O autor português já lançou dois volumes, Caravana e Doutor Avalanche. Alguns deles me lembram os textos de Daniil Harms.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Irmã de Freud, de Goce Smilevski, no Brasil

Finalmente, A irmã de Freud, de Goce Smilevski, que já apareceu no blog (aqui), chega pela Bertrand Brasil. 



O primeiro capítulo está disponível aqui.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Conto da semana, de David Albahari

Um conto muito curto e que lembra Borges, e que foi publicado originalmente na Revista Blesok.:

At night, as the shadows grow, so does the boy's fear, rising regardless of the voice coming from under the bed, repeating over and over: don't be afraid, little boy, you're not alone, you're not alone, not at all.

David Albahari (1948) é um dos maiores escritores sérvios da atualidade. De origem judaica, vive no Canadá.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Escritores portugueses e o mercado no Brasil

Um interessante artigo sobre as expectativas e a realidade dos escritores e editores portugueses que vieram para o Brasil. Prestígio que os escritores portugueses suscitam no Brasil é superior à venda de seus livros.

Bárbara Bulhosa, portuguesa que, em 2012, fundou a editora Tinta da China Brasil, diz que a literatura nacional não merece tratamento de preferência: “Há interesse por bons escritores que escrevam em português, não necessariamente pela literatura portuguesa. Se a Dulce Maria Cardoso fosse angolana ou espanhola tinha recebido a mesma atenção quando esteve no Brasil”.
O livro O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, editado pela Tinta da China Brasil em 2012, foi elogiado pela crítica e a visita da autora, convidada para a Feira Literária Internacional de Paraty, mereceu destaque em vários jornais. “Em Portugal, O Retorno vendeu dezoito mil exemplares”, diz Bárbara, “no Brasil vendeu dois mil”. Se os números são excelentes para a realidade portuguesa, não estão nada mal para o Brasil, ainda mais se considerarmos que alguns autores brasileiros, mesmo conhecidos, não esgotam tiragens de três mil exemplares.
Você pode ler a íntegra da matéria aqui.
Portugal é um país pequeno e em grave crise. Nós somos imensos e, de acordo com o que se diz, estamos "bombando" por aí. E, no entanto, comemora-se (merecidamente, diga-se) a venda de dois mil exemplares como um grande feito...

sábado, 9 de novembro de 2013

Conto da semana, de Franz Kafka




Prova de que até meios insuficientes - infantis mesmo podem servir à salvação:


Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente - e desde sempre - todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses, porém, não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.

As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante - que tudo arrasta consigo - não há na terra o que resista.

E, de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses - que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes - as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses, no entanto - se é que se pode exprimir assim - não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.

Mas elas - mais belas do que nunca - esticaram o corpo e se contorceram, deixando o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.

De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, u ma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo.  Talvez ele tivesse realmente percebido - embora isso não possa ser captado pela razão humana - que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito.

O Silêncio das sereias. A tradução é de Modesto Carone.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Asco, de Horacio Castellanos Moya

Asco
Horácio Castellanos Moya
Tradução: Antônio Xerxenesky
Editora Rocco

Talvez a maioria não tenha percebido, mas Moya já havia sido publicado por aqui. É ele o autor do conto Sozinhos no universo inteiro, na Antologia Pan-Americana. Asco - ou melhor: Asco: Thomas Bernhard em San Salvador - é uma novela de leitura rápida. Na verdade, um exercício literário: o próprio autor estava escrevendo à moda de Bernhard (se é que isso é possível). 

Publicado em 1997, é uma prova de que, ao contrário do que se costuma apregoar, os latino-americanos não têm um humor dos melhores. Não por parte de Horacio Castellanos Moya (1957), claro, mas da sociedade. Após a publicação da novela, o autor passou a sofrer ameaças de morte. Um exercício, uma brincadeira, que foi levada demasiadamente à sério pelos seus compatriotas. Uma pena. Mas talvez - e apenas talvez - isso signifique que o autor tenha sido lido pelos seus compatriotas, o que surpreenderia Vega...

Edgardo Vega, o Bernhard salvadorenho, está de volta ao país. Veio do Canadá, onde vive, para o funeral da mãe, e se encontra com Moya. O texto é um imenso parágrafo de noventa e tantas páginas, um monólogo do qual ninguém escapa: dos irmãos maristas (Vega estudou no colégio por onze anos) à culinária. Afinal, ser salvadorenho, afirma, é um azar inescapável, e a solução foi ir para o Canadá. Sobra também para a cerveja, o irmão (e a cunhada e os sobrinhos que não desgrudam da televisão), dos militares, da universidade...

Esta é uma cultura ágrafa, Moya, uma cultura que rejeita a palavra escrita, uma cultura sem nenhuma vocação para o registro e a memória histórica, sem nenhuma percepção do passado, uma 'cultura de mosca', seu único horizonte é o presente, o imediato, uma cultura com a memória de uma mosca que colide a cada dois segundos contra o mesmo vidro porque dois segundos depois já se esqueceu da existência do vidro, uma cultura miserável.

Muitas das críticas - demolidoras - poderiam ser feitas a outros países, inclusive este aqui... Não é à toa que, em meio às ameaças que recebeu, Moya foi convidado a adaptar a novela a diversos outros países. 



Meu nome é Thomas Bernhard, me disse Vega, um nome que peguei emprestado de um escritor austríaco que admiro e que, com certeza, nem você nem os outros imitadores dessa infame província conhecem.

Só duas pessoas escapam da fúria bernhardista: Moya e Tchaikovsky - Vega adora seu Concerto em Si Bemol menor para piano e orquestra.



sábado, 2 de novembro de 2013

Rónai na USP

A biblioteca de Paulo Rónai vai para São Paulo, como você pode ler aqui. Ela já tinha adquirido a Brasiliana de José Mindlin.


Conto da semana, de Eduardo Berti

O argentino Eduardo Berti (1964) diz que a diferença entre o conto e o romance está mais no foco do que propriamente a extensão do relato. "Há pouco li uma definição de Edith Wharton que gostei. Dizia que a situação é a preocupação principal do conto, enquanto na novela ela é o personagem". Aqui, uma interessante matéria sobre o autor. Nela, Berti afirma que uma característica da literatura latino-americana é a impossibilidade de classificação - romance, crônica, conto ou ensaio? - para desespero das editoras.

Berti já publicou romances e alguns volumes de contos. No Brasil, abre a Antologia Pan-Americana, publicada pela editora Record e organizada por Stéphane Chao com A Cópia. 

Tinha comprado um óleo em um leilão. Era a cópia de uma pintura feita por um artista chamado H. Linden. O próprio Linden estava no leilão, sentado em silêncio a um lado do estrado do leiloeiro. Era um homem comprido, um pouco encurvado, com um lenço vermelho ao redor do pescoço saindo de uma camisa branca, desbotada. A cada reprodução que leiloavam, Linden fazia um gesto, e dois assistentes iam em busca da obra original, para que os interessados comprovassem a mestria dos copistas. Como se isso não bastasse, Linden aprovava indo com o olhar do original à cópia, e voltando ao original.

A história prossegue com a feliz compradora do quadro de Linden voltando para casa, pegando ônibus, chuva, frio... para um rápido desfecho - já em casa, depois de todos os percalços pelos quais passou o quadro, descobre uma mensagem na secretária eletrônica, de H. Linden em pessoa...