segunda-feira, 30 de setembro de 2013

São Jerônimo



Hoje é o dia do tradutor, justamente por ser dia de São Jerônimo. Por encomenda do Papa Dâmaso, traduziu a Bíblia do grego para o latim - a Vulgata. A importância do feito, para a difusão do livro e do cristianismo Europa afora dispensa maiores comentários. Virou o padroeiro dos tradutores.

Ele também é considerado o pai da "leitura silenciosa". Santo Agostinho fala da surpresa ao encontrá-lo quieto num canto, olhando atentamente para seu texto, sem emitir um único som. Nesta época, a leitura era um ato eminentemente público. E São Jerônimo a traz para um ambiente privado. É dessa época, também, que começam a surgir símbolos gráficos que ajudam a leitura, o que, de certa maneira, liberta o leitor da voz.

Graças a ele, você pode ler seu bom livro em paz num café, sem ser empesteado por um sujeito ao seu lado lendo em voz alta um Dan Brown da vida... Viva São Jerônimo.

E feliz dia do tradutor.

domingo, 29 de setembro de 2013

Conto da semana, de Semezdin Mehmedinovic

Hoje, ao que parece, era o dia em que eu deveria morrer.




O conto My Heart, do bósnio Semezdin Mehmedinovic (1960) está na edição de 2013 da BEF, mas também apareceu na revista Granta, 120 (Medicine), de 2012. É o conto da semana, numa semana bem estranha...

Aqui, o narrador, um bósnio, Mehmedinovic, de 50 anos, conta sobre seu ataque cardíaco durante o banho, em 2 de novembro de 2010, num texto que quase nos convence como autobiográfico. A trajetória do narrador, inclusive, é a mesma de Mehmedinovic - voou de Zagreb para Phoenix, Arizona, em 1996.

E logo nosso quarto estava cheio de estranhos do serviço de emergência (...) Nunca experimentei assalto tão agressivo à minha privacidade.

Reclama de sua condição assexuada. Ele identificou uma garota do serviço médico, e o que mais o revoltou foi a constatação de que seu corpo era, naquele momento, um objeto sem emanação. Lembra-se imediatamente de Christopher Hitchens. 

E uma outra impressão: os corpos de todas essas pessoas à minha volta eram incomumente grandes, enquanto o meu próprio corpo encolhera.

Os 50 anos do narrador ficam em sua cabeça. Pela primeira vez, percebe a medida do tempo, e começa a divagar sobre sua saúde e envelhecimento, numa narrativa próxima a um fluxo de consciência. 

domingo, 22 de setembro de 2013

O baile de Sceaux, Balzac

Image illustrative de l'article Le Bal de Sceaux

Seguindo a Comédia Humana de Balzac, na edição organizada pelo Paulo Rónai (mas não por ele traduzida; no caso desta novela, por Vidal de Oliveira) e publicada pela Globo, vamos ao Baile de Sceaux.

A novela, passada entre 1815 e 1825, não é daquelas mais lembradas quando se fala em Balzac. Como o próprio Rónai disse, comentando outro texto da Comédia, não se poderia esperar algo diferente de um sujeito que se deu ao despeito de escrever obras-primas como Ilusões Perdidas, Eugène Grandet entre outros.

Pode ser lida de várias formas; como já se disse em diversos lugares, é uma história "edificante", que mostra a punição dada pela vida a Emília que, depois de passar anos rejeitando caprichosamente seus pretendentes, acaba tendo de se casar com o primeiro que lhe aparece. Ela queria a todo custo se casar com um "par" do reino. Estamos num período de restauração da ordem monárquica, e seu pai, o conde de Fontaine, é um fiel servidor da casa dos Bourbons.

Há algo de muito atual e pertinente para o lado de cá do Atlântico:

Tal como essas pessoas generosas que não mandam embora um servidor em tempo de chuva, o sr. de Fontaine contraiu um empréstimo sobre sua propriedade para acompanhar a monarquia em fuga, sem saber se essa cumplicidade de emigração lhe seria mais propícia do que sia dedicação passada. Mas tendo observado que os companheiros de exílio estavam mais nas boas graças dos que os valentes que, outrora, tinham protestado, de armas na mão, contra o estabelecimento da República, talvez esperasse achar, nessa viagem ao estrangeiro, mais proveitos do que num serviço ativo e perigoso no interior.

O pobre pai entrega os pontos: não vai mais procurar marido para a filha.Lava as mãos. Mais tarde, no entanto, percebe que ela está se envolvendo com um misterioso Maximiliano Longueville, que jamais revela sua real situação.

O velho conde de Kergarouet é claro: não o conhece "por parte de Eva, nem por parte de Adão". No entanto, alerta para uma série de qualidades que o tal Maximiliano possui. A soberba de Emília a leva a desprezá-lo - afinal, ela quer o pariato; quer um par do reino.

Acaba se casando com o tio, o tal conde Kergarouet, com seus setenta e tantos anos de idade e que recebe um vice-almirantado. Vira condessa, como sempre sonhou. E, anos depois, recebe a visita de um visconde de Longueville - a morte do pai e a do irmão, vítima este último da inclemência do clima de Petersburgo, haviam colocado sobre a cabeça de Maximiliano as plumas hereditárias do chapéu do pariato. Sua fortuna igualava seus conhecimentos e seus méritos. Justamente, na véspera, sua moça e ardorosa eloquência tinha esclarecido a assembleia. Naquele momento ele surgira ante os olhos da triste condessa, livre e aureolado, com todos os dons que ela sonhara para o seu ídolo.

Para além desta historinha, há um interessante panorama da França à época da Restauração; todos queriam, no final das contas, um bom título de nobreza (e pensar que, menos de vinte anos antes, boa parte dos seus detentores perderam a cabeça nas guilhotinas...).

Conto da semana, de Varlam Chalámov

Por pouco a semana não acaba sem seu conto...


Varlam Chalámov (1907-1982) passou 22 anos em um gulag. Desta experiência pavorosa surgiram os Contos de Kolimá, publicados inicialmente como samizdat na Europa ocidental. Morreu cego e surdo, num hospital psiquiátrico, onde foi internado contra a sua vontade.

O conto da semana - Xerez - integra a Nova Antologia do Conto Russo, da editora 34. Foi traduzido diretamente do russo por Nivaldo dos Santos.

Mas se, como era evidente, não lhe caberia ser eterno numa imagem humana, como unidade física, ao menos ele mereceria a eternidade artística. Chamaram-no de primeiro poeta russo do século XX, e ele sempre achou que realmente o era. Acreditava na eternidade de seus versos. Não teve seguidores, mas acaso os poetas os suportam? 

Sim, o conto é uma homenagem ao poeta Ossip Mandelstam (1891-1938), preso na década de 30 nos expurgos stalinistas, morto em um gulag e reabilitado em 1956. No conto, os últimos instantes do poeta, algo que não presenciou.


Na narrativa, o poeta adquire forças no momento de sua morte; forças que vêem dos seus poemas.

Agora estava tão visível, tão sensivelmente claro, que a inspiração é que era a vida; diante da morte foi-lhe permitido saber que a vida era inspiração, precisamente a inspiração.

E ele se alegrou por lhe ser permitido saber essa derradeira verdade.

Profeticamente, a descrição da morte de Mandelstam é praticamente a mesma que poderia ser feita da do próprio Chalámov.

Ao anoitecer, ele morreu.

Mas deram baixa dois dias depois. Seus engenhosos vizinhos conseguiram, durante a distribuição de pães, receber por dois dias a cota do defunto; e este erguia a mão como uma marionete. Portanto, ele morreu antes da data de sua morte, um detalhe bem importante para seus futuros biógrafos.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As apostas para o Nobel de Literatura 2013

Ladbrokes colocou Mo Yan em 4º lugar nas apostas para o Nobel. Para 2013, até agora, os principais "candidatos" são Murakami (ele já estava em primeiro no ano passado), Joyce Carol Oates, Peter Nadas (húngaro que também estava entre os favoritos), Ko Un e Assia Djebar (argelina, de quem nunca ouvi falar). Alice Munro está em sexto. Adonis e o eterno Philip Roth vêm em seguida.

A julgar pelos últimos anos, o laureado será um dos nomes acima. 

Ferreira Gullar é o único brasileiro na lista (101.00 para cada 1 apostado).

Europa: Mil anos em três minutos


Dá para imaginar o que ainda vem por aí?

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Crítica da falta de razão impura - Kant na fila para comprar cerveja

Inacreditável. De acordo com a notícia, que pode ser lida, em inglês, aquidois russos, na cidade de Rostov, estavam numa fila para comprar cerveja quando começaram a discutir sobre Kant. A discussão foi ficando cada vez mais quente, e terminou com um dos jovens atirando, com uma arma não letal, no outro.


kant


Isto parece ter saído de um filme do Monty Python. Aliás, daria um conto dos bons...

sábado, 14 de setembro de 2013

Conto da semana, de Lasha Bugadze

O conto da semana é do georgiano Lasha Bugadze (1977)




Incluído por Hemon na edição 2013 da BEF, o autor traz uma história curiosa sobre um escritor que recebe um telefonema de uma leitora. Uma adolescente. Ela diz admirar seus livros, o que o deixa evidentemente satisfeito. Mas o real objetivo do telefonema é conseguir encontrar com Bakar Tukhareli, algo que não seria tão insólito não fosse o distinto um dos personagens de seu romance Os Pecados do Lobo.

Inicialmente, ele realmente acredita tratar-se de uma piada. Mas aos poucos percebe que não será fácil livrar-se deste inconveniente.

Juro pela minha própria vida que Bakar Tukhareli não é uma pessoa real.

Não há nada pior que um leitor cego pela fé.

Imagina que ninguém acreditará no seu relato. Num programa de rádio, o escritor conta esta história - isso só poderia acontecer se ela jamais tivesse lido um livro. E a discussão prossegue - não seria, no fundo, esta jovem a leitora ideal? Talvez seja assim que as pessoas leiam pela primeira vez; um leitor virgem, e nós aqui, na rádio, desfiando nossa erudição inútil, nosso ceticismo, presumindo que ela tenha algum problema psiquiátrico...

Você deveria escrever um romance sobre isso, diz o apresentador do programa.

Um conto, prefere o autor. E então ele imagina o final de sua história:

O escritor vê a garota mais uma vez, mas ela não o vê. E eis que, próximo a ela, está sentado Bakar, o Ladrão...

Daniil Harms no Brasil

A Editora Kalinka publica pela primeira vez no Brasil um volume dedicado a Daniil Harms (1905-1942). A tradução é direta do russo.

 Aqui, uma entrevista com a editora e uma das tradutoras Daniela Mountian,





Vidas Provisórias, de Edney Silvestre



Vidas Provisórias
Edney Silvestre
Editora Intrínseca, 2013
240 p.

Depois de dois romances pela Record, Edney Silvestre lança este terceiro pela editora Intrínseca. Abaixo, o booktrailer:



- Quando chegar a Santiago você se vira, com seus amigos comunistas que fugiram para o Chile. Vai dar aula, vai cantar nas esquinas, pede uma pensão de exilado, se vira, Neguinho. E foda-se.

Enfiou o capuz de novo na cabeça do irmão.

Paulo ouviu seus passos saindo da sala, a porta se abrindo e batendo.

Seria a última vez que veria seu irmão, pensava.

Estava enganado.

Paulo é um dos meninos de Se eu fechar os olhos agora; adulto nos anos 70, acaba preso, torturado e finalmente exilado. Mora na Suécia, onde conhece Anna, da Anistia Internacional, mas continua assombrado pelo que viveu no Brasil. Acaba casando e tendo dois filhos, Edward e Joseph. 

Num corte de décadas, a outra personagem é Bárbara - que apareceu em A felicidade é fácil. Exilada, também, mas de outra natureza - está nos Estados Unidos, depois das trapalhadas do governo Collor e da violência que assolava (assola) o país. Ela entra como uma argentina, Bárbara Jannuzzi (sim, nos anos 1990 ficávamos com inveja dos argentinos e seu dolarizado país). Acha que vai estudar; acaba virando faxineira, convivendo com prostitutas brasileiras. E nunca aprende o inglês.

O livro de Paulo e o livro de Bárbara. Os relatos vão se alternando, com uma criativa solução gráfica adotada pela editora. O ritmo, como nos outros livros do autor, é sempre acelerado; Também como nas outras ocasiões, Edney Silvestre usa momentos históricos como pano de fundo; seus capítulos são sempre curtos.. No caso de Bárbara, há ainda Silvio, sujeito que vai definhando devido à AIDS. Ele também está nos Estados Unidos.

A provisoriedade está nesta vida de imigrante - Bárbara é ilegal e, como sempre, não tem coragem de ir à rua, sempre pensando no serviço de imigração. Paulo é exilado - e, para piorar, seu irmão é agente da repressão - sempre temendo um retrocesso. Também tem vários nomes - Nelson, não o almirante, insiste, mas o cantor.

Há a saudade do Brasil - o que obviamente inclui o "sanduíche de lombo com abacaxi do Cervantes, de madrugada, na rua Prado Júnior, em Copacabana, no meio das putas, dos boêmios e dos cineastas"...

As duas histórias irão se encontrar ao final, momentos depois dos ataques ao WTC. Esperamos que seja a indicação de um próximo romance.




quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sobre o romance brasileiro

Na coluna do Luís Antonio Giron, uma severa crítica ao romance e - principalmente - aos romancistas brasileiros, com potencial para muita polêmica. Você pode ler aqui.


sábado, 7 de setembro de 2013

Conto da semana, de Edgard Telles Ribeiro

O conto da semana é do escritor e diplomata brasileiro Edgard Telles Ribeiro (1944), que foi publicado na edição de setembro da Words Without Borders e pode ser lido aqui.


Señor Capitán trata de um relato feito por um advogado ao narrador. Ele conta uma história que vivenciou no início de sua carreira de criminalista. Estava numa visita à prisão central quando ouve um grito de uma cela próxima - mataram um dos detentos, que era traficante de imigrantes na rota para a Flórida.

O advogado a meu lado encolhe silenciosamente os ombros. Com o gesto parece dizer: Certas histórias não cabem em palavras. Ainda assim, faz um esforço. Para tornar sua narrativa mais aceitável, afrouxa o nó da gravata e passa a falar devagar, sincero e cansado. Conversamos há algum tempo no bar do hotel. Balançando o copo de conhaque entre os dedos abertos, dispõe-se a contar um episódio vivido em tempos passados, quando ainda morava na República Dominicana, sua terra natal.

Um sujeito cruel ao extremo. Uma morte igualmente brutal. Um sujeito assombrado por um ato cometido no passado - nada muito diferente do que costumava fazer de forma bastante profissional. Diz à menina: Perdóname niña...

E ela responde: Señor Capitán!