quinta-feira, 27 de junho de 2013

Conto da semana, de Artur Azevedo

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E  já que, nos últimos dias, só se fala nele, o conto da semana é em sua homenagem. Aqui, O Plebiscito, de Artur Azevedo (1855-1908), um clássico:

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário-belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio.

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O Senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente, para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O Senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?


— Se soubesse não perguntava.


O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:


— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...

— A senhora o que quer é enfezar-me!

— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

— Proletário, acudiu o Senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: “Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho”.

O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

— Mas se eu sei!

— Pois se sabe, diga!

— Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!


E o Senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.


No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...


A menina toma a palavra:

— Coitado do papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

— Não fosse tolo — observa Dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.


— Sim! sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!


Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:


— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa e vai sentar-se na cadeira de balanço.

— É boa! — brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio; — é muito boa! Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua, num tom profundamente dogmático:

— Plebiscito...

E olha para todos os lados, a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.


— Ah! — suspiram todos, aliviados.


— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...


O conto da semana volta na semana pós-FLIP.


domingo, 23 de junho de 2013

1565 - Enquanto o Brasil nascia, de Pedro Doria


1565: enquanto o Brasil nascia
Pedro Doria
Editora Nova Fronteira
280 p.


Por que o Rio de Janeiro foi fundado? Como se desenvolveu? 

A ideia de Pedro Doria é que Rio e São Paulo, por mais diferentes que pareçam, devem sua existência uma à outra. Trata-se de uma história do "Brasil sul", aquele abaixo de Salvador. 

O Rio foi comandado pela família Sá: Mem, Estácio, Salvador, Martim e Salvador (o moço); quatro gerações de uma mesma família. E Pedro Doria enxerga nesse início de vida muito do que viria a caracterizar a cidade - para o bem e para o mal. A Casa de Pedra - Cari Oca, ou Casa de Branco, como chamavam os índios, no Flamengo (na verdade, a vilazinha Henriville, fundada pelos franceses). Da mesma forma, lemos sobre a mudança da cidade, da Urca (Vila Velha, entre o Cara de Cão e o Pão de Açúcar) para a Nova, no Morro do Castelo - aquele que séculos mais tarde seria posto abaixo.


Por que morro do Castelo? E o que tem a ver com isso a primeira mulher de Salvador, Inês de Sousa? 

Uma série de personagens desfilam nestas páginas: Manuel da Nóbrega (para Doria, o patrono político do Rio), os Sá, João Ramalho, Villegagnon, Hans Staden, Antonio Salema... Ou o artilheiro João Pereira de Sousa, por estas bandas fugindo de dívidas e recrutado por Estácio, e que ocupava o posto no canhão - daí o nome do local onde servia: Botafogo.

Doria diz que seu trabalho é de jornalista - aliás, o livro é de leitura extremamente leve e agradável, com boa indicação bibliográfica - e que não traz nenhuma novidade ou teoria própria. Mas o leitor certamente irá descobrir uma história há muito soterrada da cidade.

P.S.: nestes tempos agitados, um fato curioso: a revolta carioca conhecida como Bernarda. Não uma revolução separatista - em 1660, o governo falido, epidemias que eliminaram boa parte da mão de obra, navios atrasados, comércio estagnado - e eis que a solução encontrada foi a criação de um imposto predial de emergência... deu no que deu - e surge o líder Jerônimo Barbalho Bezerra, filho de um heroi da resistência contra os holandeses na Bahia. Após muita confusão, o movimento foi contido, e o Jerônimo, obviamente, termina sem sua cabeça, executado no largo do Polé (Praça XV). Um precursor de Tiradentes...




sábado, 22 de junho de 2013

Palavras Palavras Palavras, de David Dephy



"E Jasão é abandonado sozinho e eu parto...mas..."

"Mas... o quê?"

"Aqui o livro chega ao fim e eu me liberto. Porque não estou escrita no livro desse grego estúpido. Eu sou personagem de outro livro - os mitos...

Do reino de Aegis, retorno com meus filhos aos mitos, à minha realidade, onde sou feliz..."

"Grego estúpido?"

"Sim, ele é estúpido, porque chama os grandes cólquidas, no reino do sol brilhante, de bárbaros"

"E o que devemos fazer com esse livro que leva teu nome na capa?"

"Guarda-o e lê o quanto quiseres. É uma mentira. Os deuses não me sacrificaram e não me apagaram dos mitos. Que eu sofra a cada abertura do livro, não importa. Fecharei o livro e tudo voltará ao seu devido lugar. Não existe mãe alguma que sacrificaria seu filho, mesmo que estivesse amargurada por seu marido ou fado. Ainda mais sendo ela a herdeira do sol, Rainha Medeia". 

Os interessantes diálogos de David Dephy com diversos personagens, de Santiago (Hemingway) a Medeia, acabam de sair pela editora Lumme.  Já falamos dele aqui. Recomendo.

domingo, 16 de junho de 2013

Conto da semana, de Miroslav Penkov

O autor do conto da semana já andou por aqui. Da mesma coletânea East of the West, este Comprando Lenin é bem curioso; o início pode ser lido, em inglês, aqui.

Não se trata de uma narrativa autobiográfica, como Penkov já disse. O narrador está a caminho dos Estados Unidos. O avô, velho comunista, está inconformado com a "traição" do neto, recém-admitido na Universidade do Arkansas. Foram os comunistas que o salvaram da fome na Bulgária em 1944. 

O choque cultural é imediato. Logo no caminho entre o aeroporto e o alojamento, uma estudante dá as boas vindas e uma bíblia ao narrador. Este pergunta do que se trata - estes são os atos do nosso Salvador. E ele pergunta - Oh, as obras completas de Lenin - qual volume?

Penkov conta, então, sobre a adaptação ao novo país e ao novo idioma. É interessante notar que este conto foi escrito originalmente em inglês, e não em búlgaro. E, para quem se interessa por psicologia, a surpresa do narrador ao se deparar com o inconsciente coletivo de Jung.

Ele e o avô mantêm contato, apesar da distância. A avó morre - como o viúvo fala, perdeu tudo o que um homem poderia perder: a mulher que ama e o amor de sua vida - o Partido. O avô reclama da distância. Para ele, a queda do regime matou a mulher.

A vila em que vive perde todos os seus habitantes com menos de 60 anos, que partem para as cidades, em busca de emprego. Secretamente, os remanescentes - o avô, entre eles - resolvem refundar o comunismo; a vila passa a se chamar Leningrado e o avô, eleito secretário-geral do partido. Evidentemente, isso só existe na cabeça senil dos ainda habitantes deste fim do mundo.

Procuram, então, recuperar monumentos recém-demolidos. E o neto, buscando fazer as  pazes com o avô, de quem realmente sente muita falta, resolve comprar, para aquele asilo de loucos, o corpo de Lenin, "em excelentes condições; vem com um caixão refrigerado que funciona tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Compre agora". 

Ele comprou o corpo de Lenin via eBay... Mas não acreditou, realmente, nisso. Pelo objeto e pelo preço - 5 dólares - seria uma fraude como outras tantas na internet.

Na parte final, o reencontro entre ambos. Uma revelação do avô sobre o tal cerco em 1944; a confissão do neto sobre sua infelicidade na América e... surpresa: um caminhão efetivamente entrega para a aldeia Lenin em pessoa!





quinta-feira, 13 de junho de 2013

Despachando a biblioteca?

Os Infinitos, de John Banville

Os Infinitos
John Banville
Tradução de Maria Helena Rouanet
Nova Fronteira, 2011
276 p.


De todas as coisas que criamos para reconfortá-los, a aurora é uma das que deram mais certo. Quando a escuridão se dissipa no ar como poeira fina e a luz vai se espalhando lentamente a partir do Leste, todos os humanos, a não ser os mais infelizes, se reanimam. Essa ínfima ressurreição diária é um espetáculo que nós, imortais, adoramos. Muitas vezes nos reunimos na borda das nuvens e ficamos olhando para eles, para os nossos pequeninos, vendo-os despertar para saudar o novo dia.

John Banville estará na FLIP; dividirá mesa com Lydia Davis. Ainda não li seu romance mais conhecido, O Mar, que lhe rendeu o Booker Prize; este Os Infinitos é minha primeira incursão banvilliana.

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Adam (Adão?) Godley (God?), famoso matemático, está moribundo em sua cama, depois de ter sofrido um derrame. Á sua volta, o filho (também Adam) com sua mulher, Helen; a filha mais nova Petra e seu namorado, Roddy Wagstaff; a esposa Ursula. Petra idolatra o pai; Roddy está com Petra porque, no fundo, quer escrever a biografia do grande matemático.

Pois sou Hermes, filho do velho Zeus e de Maia, a ninfa das cavernas.

Não diga!, dizem vocês.

Compreendo o seu ceticismo. Por que, em tempos como os de hoje, os deuses voltariam a circular entre os homens? Acontece que nunca nos afastamos - vocês simplesmente deixaram de nos parecer divertidos.

Quem nos conta a história é  o deus mensageiro. É ele quem nos conta os detalhes das vidas dos humanos, enquanto seu pai - Zeus, ora - visita Helen no corpo de Adam filho. Hermes deve ter tido um trabalho daqueles, pois teve que atrasar a aurora em uma hora. Aparece também um sujeito com pés de bode. É Pan, que salvo engano meu, é filho de Hermes (mas que não o trata como filho, em momento algum, aqui no romance).

Por que os deuses estão tão interessados neste Adão? Não fica muito claro. Talvez pelo fato de ele ter provado a existência de múltiplos universos, em constante colisão; uma série infinita de mundos.

O mais interessante, aqui, não é propriamente o enredo. A grande sacada está nos narradores - Hermes e Adam pai. Banville mostra ser um grande prosador, e são diversos os grandes momentos de seu texto. Adam, mesmo em coma, está bem informado a respeito do que o cerca e o que o espera. 

A partir do último terço do romance, alguma coisa se perde e a leitura fica um pouco cansativa - mas o leitor é recompensado com o interessante desfecho.

Banville, que é sempre lembrado para o Nobel, disse em entrevista ao jornal O Globo do dia 11 deste mês: os gregos antigos eram gênios extraordinários, que inventaram um sistema que colocava na conta dos deuses tudo o que acontecia com a gente. Tudo mesmo, qualquer fenômeno, era influência dos deuses. Não importa se era racional, mas era uma visão poética da realidade. Hoje, nós vivemos num mundo que separa completamente o paraíso do inferno. É um desastre.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Rindfleischetikettierungsueberwachungsaufgabenuebertragungsgesetz

Essa é para você que achava o máximo, quando criança, falar "inconstitucionalissimamente".

Esta semana, saiu na BBC que isto, uma lei de um estado alemão, e que significa mais ou menos "lei que delega o monitoramento de rotulação de carne " - mas conhecida pelo adorável acrônimo RkReUAUG, foi definitivamente afastada em virtude de mudanças na regulação da União Europeia sobre monitoramento do gado.

Então voltamos à famosa cidade do País de Gales:



Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch station

Dizem que lá ninguém conhece o Twitter.


Conto da semana, de Gonçalo Tavares


O homem mal-educado

O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.

Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.

No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.

Todos aguardavam.

A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.

O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.

Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram.

Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Dia 4 na Revista Samizdat

Hoje é dia 4.

Uma conexão barroca

Falávamos então do espantoso parentesco entre a sua América Latina e a minha pequena Europa Central, as duas partes do mundo igualmente marcadas pela memória histórica do barroco que torna um escritor hipersensível à sedução da imaginação fantástica, feérica, onírica, E o outro ponto comum: nossas duas partes do mundo desempenharam um papel decisivo na evolução do romance do século XX, do romance moderno, digamos, pós-proustiano: de início, durante os anos 1910, 1920, 1930, graças à plêiade de grandes romancistas da minha parte da Europa: Kafka, Musil, Broch, Gombrowicz (...) depois, durante os anos 1950, 1960, 1970, graças a uma outra grande plêiade que, em sua parte do mundo, continuava a transformar a estética do romance: Juan Rulfo, Carpentier, Sabato, depois você e seus amigos...

Milan Kundera - O Arquirromance, carta aberta pelo aniversário de Carlos Fuentes. In: Um Encontro: ensaios, traduzido por Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Companhia das Letras, 2013

Semifinalistas do Portugal Telecom 2013