quinta-feira, 28 de março de 2013

Conto da semana, de Gyrdir Elíasson

O conto da semana vem da Best European Fiction deste ano. Gyrdir Elíasson já apareceu por aqui, revisitando o clássico Farenheit 451 de Ray Bradbury.


Desta vez, uma bela e surreal história (A Loja de Música). Todos nos lembramos de autores como Borges, que escreveu contos e "ensaios" sobre livros que jamais existiram fora de sua mente. Elíasson segue esta linha, mas o narrador, que caminhava por uma rua cuja existência até então ignorava, encontra uma curiosa loja - Alladin's Music Store. Uma loja com CDs tão  interessantes como o da 11ª Sinfonia de Beethoven - eu tinha certeza que ele jamais havia composto isso, mas aqui estava, numa bela edição alemã. 

Ou um CD do cantor de blues e guitarrista americano Mississipi John Hurt (que morreu em 1966) cantando Neil Young, algo muito improvável... apesar de saber perfeitamente que ele jamais tocou essas canções, e que Neil Young provavelmente nunca sequer as compôs - pelo menos não que eu soubesse.

É claro que o narrador fica encantado com a loja - lembrei-me da Modern Sound de Copacabana, talvez a maior referência do carioca em música clássica e moderna e que funcionou entre 1966 e 2010, até sucumbir aos downloads. Foi a nossa Tower Records por mais de quarenta anos. Se você não encontrasse o que quisesse por lá, o melhor a fazer era desistir. 


É uma boa loja, diz o narrador (e eu digo: foi uma bela loja aquela de Copacabana). Mas nada compra. A vendedora avisa que não poderá reservar-lhe nenhum título. Conseguirá nosso narrador voltar lá um dia?

O Professor Nabokov

No New York Review of Books, um artigo interessantíssimo. Um professor de literatura que deixa claro, no primeiro dia do curso Literatura europeia no século XIX, que não tem o menor interesse em socializar ou confraternizar com seus alunos - que, aliás, sequer se daria ao trabalho de saber seus nomes - chamava-os pelos seus números.

Quem nos conta essa história, real, é o aluno 121. A única regra do professor: ninguém poderia sair da sala, nem mesmo para ir ao banheiro, sem um atestado médico.

Seu lema: romances são pura invenção, e o romancista tem como único propósito encantar o autor. Assim, prosseguia, ninguém precisa saber nada de nenhum "contexto histórico" do texto... E o foco era Tolstoi, Gogol, Proust, Joyce, Austen, Kafka, Flaubert e Robert Louis Stevenson.


O professor, claro, era Nabokov.

sábado, 23 de março de 2013

O Livro das Minhas Vidas, de Aleksandar Hemon


Presença constante deste blog, Aleksandar Hemon (1964) é o autor deste livro, na verdade uma reunião de ensaios autobiográficos. E é interessante perceber que sua ficção está, em muitos aspectos, inspirada nestes textos. 

A língua inglesa é pródiga em adotar europeus do resto do continente... Nabokov e Conrad são os que me vêm à cabeça. Hemon se junta a eles. É famoso o fato de ele ter aprendido a língua lendo Nabokov. Com um domínio apenas razoável do idioma, estava nos EUA em 1992 quando a situação da Bósnia se agravou - e acabou se radicando em Chicago, onde vive até hoje. Em 1995, escreveu seu primeiro texto em inglês.


Nos ensaios, a chegada de sua irmã mais nova e as mudanças em sua vida; seu refúgio para leituras nas montanhas e seu cão, Mek (que foi com a família para o Canadá), seu talento como jogador de futebol (e a importância disso no universo de imigrantes nos Estados Unidos); o enxadrista; o primeiro casamento (com L.) e o segundo, com a também escritora Teri Boyd. 

 No texto The Book of My Life, Hemon nos conta de um professor, Nikola Koljevic, que o arrebatou desde o início - a turma na faculdade  "desempacotava poemas como presentes de Natal". Quando se formou, ligou para o Professor, agradecendo pelas lições recebidas. E depois o viu no mesmo grupo de Karadzic, preso em Haia por crimes de guerra. Ele era o "sérvio shakespeareano", que dava entrevistas à BBC, num inglês impecável, e tentava convencer os jornalistas que os morteiros sérvios nada mais eram que rituais de comemoração do Natal ortodoxo. Essa figura atormentou Hemon por muitos anos - ele quis "desaprender" ou mesmo "desler" aquilo que Koljevic lhe ensinara... Lembrou-me imediatamente as palavras de outro escritor, Alberto Manguel, que também se viu diante de um estimado professor de literatura que trabalhava para a ditadura argentina da década de 1970.


No conjunto, um autor que está em casa nas duas cidades - Sarajevo e Chicago (para quem, aliás, escreveu suas "20 razões" para não abandoná-la). E que, mesmo não sendo propriamente um americano, é seguramente um dos maiores autores vivos nos Estados Unidos. Seus livros estão sendo publicados no Brasil pela Rocco, mas até onde sei não há previsão para o lançamento desta sua estreia na não-ficção.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Conto da semana, de Migo Rollz

O site da Words Without Borders organiza anualmente, sempre em fevereiro, uma edição dedicada à Graphic Novel, gênero ao qual nunca dei muita atenção. No entanto, esta história do autor egípcio Migo Rollz vale uma parada... A expectativa do encontro entre o personagem principal e seu amigo de escola Tariq, que se mudou, há 30 anos, para o Canadá e agora retorna ao Egito. Ele mal consegue conter sua ansiedade para o seu filho. No entanto...

The Last of the Bunch

Livro digital e bibliotecas públicas


O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões do seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

(...)

Fala-se do desaparecimento do livro. Creio que isto é impossível. Dir-se-á: que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco? A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido; um disco é ouvido, também, para o esquecimento, é algo mecânico e, portanto, fútil. O livro é lido para ficar na memória.

Jorge Luis Borges (quem mais?) - Obras Completas, volume IV, Editora Globo, 1999.

quinta-feira, 21 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

Livros da Rafa - A mina de ouro




Li esse livro há (bem) mais de trinta anos, e foi com muita alegria que descobri que ele ainda faz muito sucesso... Já que nas últimas semanas não estou conseguindo ler como gostaria, eis que Rafaela faz as honras da casa:  

O livro "A mina de ouro" nos conta a história de seis crianças e um cachorrinho chamado Samba que vão fazer um piquenique. Elas encontram uma escada antiga e resolvem subi-la. E esta escada acaba sendo uma aventura inesquecível,ao levá-los para uma gruta.

A leitura deste livro é ótima pois as crianças descobrem que a riqueza não e tudo na vida. Recomendo este livro.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Conto da semana, de Leonid Dobytchin

O conto da semana pode ser lido na última edição da Revista Kalinka. É A Despedida, do russo Leonid Dobytchin (1894-1936), da chamada geração de 1920 (ao lado de Daniil Harms, por exemplo):




O inverno estava terminando. Às seis horas, já estava claro. Ao abrir os olhos, Kunst viu as rachaduras do teto, que formavam uma saia e pés tortos em sapatos com duas orelhinhas. Do outro lado da parede, a acompanhante de enfermos já arrastava seus sapatos sem calcanhares e acordava o ferido. A senhora bateu à porta e trouxe a chaleira. - Que indecência - disse ela e apontou a parede com a cabeça. Então se calou para tentar ouvir e riu. Kunst enrubesceu. (...)

Na história, são citados ou lidos três jornais - um liberal, um bolchevique e outro conservador.  Uma boa amostra da situação - todos foram fechados em 1917... Os contos do autor não contêm propriamente uma ação; seriam mais cenas da vida cotidiana. Nesta Despedida, os funcionários recebem bonificações (artigos de alimentação) e, dois dias depois, descobrem que as bonificações serão descontadas...

Dobytchin faz parte de um grupo de autores que somente vem sendo (re)descoberto nos últimos 20 anos. Foi um "Inimigo da Pátria", e desapareceu para sempre no dia seguinte desta imputação.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera


Barba ensopada de sangue
Daniel Galera
Companhia das Letras, 2012
424p.

Cadê a caminhonete?

Vendi.

Por que tem um revólver na mesinha?

É uma pistola.

Por que tem uma pistola na mesinha?


O ruído de uma moto passando na estrada é acompanhado pelos latidos do Bagre, roucos como berros de um fumante inveterado. O pai franze a testa. Não atura esse vira-lata insolente e barulhento e o mantém somente por senso de responsabilidade. Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo, disse-lhe uma vez quando ainda era criança e a família completa vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê-lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito, dizia o pai. A tosse seca do Bagre devia ser aturada, portanto. É o que fazem agora os dois, o pai e Beta, a velha pastora australiana deitada a seu lado, uma cadela de fato admirável, inteligente e circunspecta, forte e parruda como um javali.

Como vai a vida, filho?

E esse revólver? Pistola.

Tu parece cansado.
p. 13-14.


É o primeiro livro que leio de Daniel Galera (1979). Nele, um professor de natação, com um problema neurológico que o impede de lembrar de rostos, parte para Garopaba, após o suicídio do pai. Leva consigo - na verdade, atende a um último pedido - Beta. Procura pistas de seu avô Gaudério que, segundo as histórias que seu pai lhe contava, fora assassinado durante um blecaute ocorrido em meio a uma festa, naquele mesmo balneário. Para uns, foi enterrado como indigente, mas outros juram ter visto o corpo lançado ao mar.

O pai se despede do filho; avisa que irá cometer suicídio. Este é, diga-se, um (talvez "o") ponto alto do livro, logo no seu início. A partir daí, o narrador parte para Garopaba e começa a  procurar por pessoas que possam ter conhecido Gaudério.

Sua semelhança física com o avô lhe rende problemas que já o levam a perceber a dificuldade em conseguir extrair qualquer informação - fica evidente que Gaudério não era muito querido na região, e é exatamente o que está acontecendo com ele próprio. Mas essa investigação não é a de um detetive, um profissional. Na verdade, o filho se impõe um exílio; deixa sua barba crescer enquanto dá aulas para seus alunos - evidentemente, não consegue reconhecê-los. E é interessante ver como Galera faz de Beta uma personagem à altura do próprio protagonista...

O único senão fica na opção em colocar como notas de rodapé cartas e mensagens de personagens secundários; fica um pouco estranho. 

Karim Aïnouz já é o cineasta a cargo da adaptação do romance às telas; as filmagens devem começar ainda em 2013.

sábado, 9 de março de 2013

Conto da semana, de Tania Malyarchuk

Este é o segundo conto de Tania Malyarchuk (1983) - no ano passado, li O Demônio da Fome. Desta vez, o conto da semana foi gentilmente enviado pela própria autora - Canis Lupus Familiaris. Em inglês, pode ser lido aqui. 

Sim, este é o nome científico do nosso cão. Dois personagens: a funcionária da autoridade habitacional local e  você, leitor, que tenta resolver um problema: o elevador do seu prédio não funciona já há mais de três meses. E você mora no nono andar. 

E você então se dirigie à funcionária do escritório nº 17, a sra. Elvira Volodymyrivna. Sugestivamente, como ficamos sabendo, às vezes ela coloca os óculos, "para ver você melhor"... 

Mas você está irritado com a burocracia de sua cidade - e o despeito de Elvira, que te ordena esperar do lado de fora (ainda que não haja ninguém no escritório ou mesmo à sua espera). Seu único alento (lembre-se: a autora, e consequentemente você, está na Ucrânia) é que talvez, dentro de vinte anos, vocês serão admitidos na União Europeia...

Burocracia por burocracia, descobre-se como Brasil e Ucrânia podem ser semelhantes... mas  depois de ouvir sua reclamação, Elvira te devolve uma pergunta que irá deixá-lo atordoado.  e o que você fez nesses três meses? E a explicação do título está certamente nesta mudança que você irá sofrer a partir daí.

Outro aspecto interessante é a inacessibilidade de Elvira - todos a respeitam e por isso mesmo a evitam; somente os desavisados ou quem realmente não a conhece se dá ao trabalho de procurar tão distinta senhora. E Tania Malyarchuk mantém a boa e velha tradição dos autores do leste europeu em contar, num texto simples e direto, situações cotidianas do cidadão diante da autoridade pública.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Grandes leitores - Capitão Nemo



- Parabéns, capitão. Deve haver aqui no mínimo seis mil volumes.

- O senhor está enganado, professor. Existem doze mil. O mundo acabou para mim no dia em que submergi com o Nautilus! Nesse dia comprei os últimos livros e as últimas revistas. Não é preciso dizer que tudo está à sua disposição.

Aproximei-me das estantes, depois de haver agradecido com um gesto a cortesia do capitão. Na biblioteca havia muitos livros científicos, de moral e de literatura, escritos em todos os idiomas.

Constavam na biblioteca tudo o que o homem produziu de mais belo em matéria de história, poesia, romance e ciência, de Homero a Victor Hugo, de Xenofonte a Michelet, de Rabelais a Madame Sand.

Alberto Manguel, sobre a biblioteca de Nemo: em primeiro lugar, não há livros de economia política, posto que nenhuma teoria nesse campo satisfaz seu exigente leitor; em segundo lugar, a classificação dos livros é arbitrária, misturando temas e idiomas sem nenhuma ordem lógica, como se o Capitão lesse aquilo que sua mão encontra por obra do acaso; em terceiro lugar, não há livros novos nas estantes. Esses 12 mil livros "são os únicos vínculos que me unem à terra", confessa o Capitão.