sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Exorcizando personagens

Uma vez li que na Mongólia, quando alguém se dispõe a contar uma história, deve cumprir como prólogo um rito mágico para evitar que os fantasmas conjurados pela narração se instalem entre os vivos. Depois o narrador pode contar tranquilamente, sabendo que, ao terminar, seus personagens voltarão à obscuridade da qual saíram. Não sei se tal precaução seria entendida no Ocidente, onde a vaidade do autor quer não apenas que suas criaturas imaginadas ganhem vida entre seu público, como que sejam também imortais e por aqui permaneçam para sempre.

Uma tradução livre de Cuento de la enamorada, o prefácio de Alberto Manguel para o romance El pais imaginado, do argentino Eduardo Berti.


Conto da semana, de Nuno Costa Santos

João tinha tudo a crédito: a relação com os bancos, os amigos, a vida amorosa, a rela­ção com Deus (se existir), com o Diabo (existe, com certeza), consigo próprio (dúvidas). A mulher aborrecia-o, declamando que era isso que o subjugava à obrigação de apenas sobreviver. Habitavam um 1º esquerdo, acima d’As Suas Possibilidades, o café de um prédio apodrecido, e todos os dias passavam ao lado de Uma Grande Carreira, nome da agência de empregos do bairro, motivo pelo qual haviam sido estrelas de uma reporta­gem satírica, emitida no final do noticiário das oito.

Homem escuro como uma moeda gasta e suspenso como a situação económica de um certo lado do planeta, começou a cansar-se de ser escravo de prestações, humores bancários, cobranças pessoais, ressentimentos com juros. No café onde se cumpria um certo país desconfiado de si, comentou consigo durante uns minutos que era altura de organizar a papelada das decisões para por enfim oferecer à vida um sentido que nunca teve.

Assim começa o conto O Fim da Dívida, do português Nuno Costa Santos, da coleção Biblioteca Digital, do jornal Diário de Notícias, que pode ser baixado gratuitamente (mediante cadastro), a partir daqui. 

A crise econômica tem rendido várias narrativas interessantes - aqui mesmo já comentamos Catástrofe, de Lee Rourke. Bem que merece uma antologia...




sábado, 16 de fevereiro de 2013

Conto da semana, de Mike McCormack

Mike McCormack (1965) é o autor do conto da semana, To One Mind, da Best European Fiction 2013. 


Mike McCormack_Peter Kelly_photo

John leva o filho, Jamie, para um evento escolar, mas chega quinze minutos depois do ônibus partir. Desolados, ambos estão em silêncio no carro, voltando para casa. Como bem sabe o narrador - e qualquer pessoa na mesma situação -, um acontecimento desta natureza para um menino de oito anos adquire proporções catastróficas. 

Mas Jamie vai além; ele começa a falar que, no dia em que o pai estiver sentado nas galerias da corte, aguardando a sentença do júri, ele se perguntará o que deu errado. Sem entender nada, o pai acaba aos poucos descobrindo que Jamie já está se vendo como um assassino em potencial. Afinal, segundo ele, são vários os indicativos: ele é filho de pais separados (quando ele tinha apenas três anos de idade). Vem de um lar partido e até agora, aos oito, ainda acorda com a cama molhada...

Além da separação dos pais e do fato de ainda fazer xixi na cama, falta apenas um terceiro elemento para se enquadrar como um autêntico serial killer: sofrer abuso dos pais.

Logo, para completar o meu perfil, eu preciso de uma surra. E é aí que você entra - diz ao pai, absolutamente perturbado com o desembaraço e racionalidade com que o filho fala do assunto - e a capacidade de argumentação, que toda pessoa com filhos sabe o que significa. 

Marco Lucchesi

Minha avó me falava, por exemplo, de Orlando e de seu cavalo Brigliadoro, de Angélica, de Medoro e de Agramante. E, depois, eu os reencontrei, a todos, transformados, no Quixote. Mas a explosão, o terremoto, veio aos meus 12 anos, com Dostoiévski Com Humilhados e ofendidos. No calor do Rio de Janeiro. O Rio pegava fogo e eu ouvia aqueles samovares chilreando em pleno verão. Eu lia em casa, deitado na cama. Sou um homem que está sempre deitado na cama, um homem que já nasceu preguiçoso. Sou muito preguiçoso de postura, talvez dê para se perceber. E eu lia sempre na cama, com muitas lágrimas nos olhos. Chorava, chorava. Lembro de todas as personagens — ou de quase todas. A minha é uma história comum, como muitas outras.

"Por que a gente tem que ter três, quatro poetas? Três poetas que digam tudo no Brasil? Não temos três poetas. Temos trezentos. É melhor para todo mundo, não é?"

No Paiol Literário, promovido pelo jornal literário Rascunho, da Gazeta do Povo, de Curitiba, uma conversa com o acadêmico Marco Lucchesi, que pode ser lida aqui.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O que lêem os escritores

Essa eu descobri no site do Eduardo Berti. No Sunday Review of Books do New York Times, uma série de perguntas a diversos escritores, editada na seção By the Book.

Qual o seu livro favorito? Qual o seu gênero favorito? Qual o primeiro livro que te fez chorar? Qual livro você indicaria ao Presidente dos Estados Unidos? E por aí vai...

Oblómov, de Ivan Gontcharov




Oblómov
Ivan Gontcharov
Tradução de Rubens Figueiredo
Editora Cosac Naify, 2012
736p.

Ficar deitado não era para Iliá Ilitch nem uma necessidade, como é para um doente ou para alguém que deseja dormir, nem um acaso, como é para alguém que está cansado, nem um prazer, como é para um preguiçoso: tratava-se de um estado normal. Quando estava em casa - e sempre estava em casa -, ele ficava o tempo todo deitado, e sempre no mesmo quarto onde o encontramos e que lhe servia de dormitório, escritório e sala de visitas. Sua casa tinha ainda três quartos, mas Oblómov raramente punha os olhos naqueles cômodos, exceto pela manhã, e nem todos os dias, só quando o criado varria seu quarto, o que ele não fazia diariamente. Naqueles cômodos, a mobília estava coberta por panos e as cortinas ficavam fechadas. p. 19.

Carpeaux avisou tratar-se de um romance que exige enorme paciência do leitor moderno - afinal, nas primeiras 150 páginas, Iliá Ilitch Oblómov sequer se levanta de sua cama, em seu apartamento em São Petersburgo. Não é exatamente fácil atravessar suas mais de 700 páginas, mas ao fim o esforço é recompensado. Um romance em que nada acontece - e acompanhamos justamente o "não acontecimento".

O rico proprietário de terras, nos últimos momentos do regime de servidão na Rússia, tem vários planos para implementar, mas acaba desviado por alguma razão, deixa para depois e permanece deitado... Oblomovismo é um termo que passou a ser adotado na Rússia desde a publicação, em 1859, deste romance. 

Deprimido, cheio de ideias que jamais realiza, absolutamente inerte... oblomovismo não deveria ser um termo restrito a um dicionário russo. 

O livro é dividido em 4 partes; durante a primeira, Oblómov está, como disse, em seu apartamento - e é nesta parte que está o capítulo O sonho de Oblómov, o único, aliás, com título. Lá temos a origem de sua personalidade, durante sua infância. Seu fiel servo Zakhar bem que tenta fazer seu mestre sair de tal letargia, mas evidentemente sem sucesso. 

Os outros personagens são Olga e Stoltz. Este apresenta Olga a Iliá, e os dois se apaixonam. Mas a inação de Oblómov fará com que, ao longo das duas próximas partes, o enlace nunca se concretize. Stoltz, por sua vez, filho de pai alemão e mãe russa, é o oposto de Oblómov - metódico, determinado, ousado. Na quarta e última parte, ele acaba reencontrando Olga numa rua em Paris, e os dois acabam se casando. 

Curiosamente, Oblómov é também puro e honesto. E é isso que confere ao romance e ao personagem um caráter único, que o coloca entre os grandes nomes da literatura, como disse Carpeaux. Na última parte, sabemos a chantagem a que é submetido pelos dois golpistas - Tarantiev e Ivan Matvieievitch, e os esforços sinceros de Stoltz em salvá-lo - tudo em vão. 

E fiquei com vontade de ler o último Vila Matas, Ar de Dylan - até onde sei, o personagem Vilnius Lancastre descobre uma sociedade secreta de clones de Oblómov...

Caderno de Economia, com Tarantiev

O convidado de hoje para o Caderno de Economia é Tarántiev. Ele e Ivan Matvieievitch são personagens de Oblómov. Nenhum deles vale um rublo, mas é interessante a explicação que o primeiro dá para o segundo a respeito de ações:

- Para nós, russos, uma ideia feito essa não vem, nem passa pela cabeça! Lá nas bandas da Alemanha, eles têm faro para esse tipo de negócio. Vivem arrendando fazendas. Espere só para ver como ele vai acabar torrando o dinheiro todo em ações.

- Que história é essa de ações? Não entendo esse negócio - perguntou Ivan Matviéievitch.

- Uma invenção alemã! - respondeu Tarántiev, com raiva. - Por exemplo, um proprietário de terras inventa de fazer casas à prova de incêndio e resolve construir uma cidade: precisa de dinheiro e aí sai vendendo uns papéis, vamos dizer, por cinquenta rublos, e uma multidão de bobos compra, e depois eles vendem uns para os outros. Ouvem dizer que o empreendimento vai bem, e aí o valor dos papéis aumenta; anda mal, aí tudo vai pelos ares. Você fica com os papéis, mas o dinheiro já não existe. Você pergunta: onde está a cidade? Pegou fogo, respondem, não foi terminada, e o inventor fugiu com o dinheiro que você pagou. É isso que são as ações! O alemão vai arrastar o homem para isso! p. 569-570.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Conto da semana, de Maritta Lintunen

O conto da semana é de Maritta Lintunen. The Canada Goose foi lançado em inglês em 2008, e foi gentilmente enviado ao blog pela autora.


A narradora está com sua estranha tia Alli, que há cinquenta anos tinha conhecido Upi e trocado a Finlândia pelo Canadá. E passou a vida inteira por lá. Alli Karvonen virou Alli Carson. Seu irmão - o pai da narradora - nunca se conformou com isso - achava-a esnobe e americanizada, "sem a humildade apropriada para uma mulher". Morreu sem ver a irmã. A narradora também não se conforma com isso, acha-a uma mulher fria, sem coração.

Por outro lado, vê na tia o seu pai, e não apenas fisicamente. Alli lhe parece distante. Imaginava que, meio século depois, Alli fosse procurar pelo seu passado, por memórias  mas nada disso acontece. E justo quando irá sugerir uma visita ao túmulo do pai descobre que a tia está apenas de passagem, indo para um lugar sobre o qual sequer se deu ao trabalho de informar.

Uma carta irá, no entanto, revelar o segredo por trás de toda essa distância e frieza. Afinal, lê, mesmo o seu lar pode ser um covil de lobos... E agora, outras questões lhe afligem - seu pai foi realmente um bom pai, mas terá sido um bom irmão? As saudades que ele sentia pela irmã eram sinceras?

A narrativa, em onze páginas, conduz o leitor, inicialmente, a reprovar Alli, e subitamente as coisas começam a ficar mais complicadas; o segredo da tia é revelado - e fica a dúvida: quem foi frio com quem? Quem ignorou quem? Afinal, seu pai recebeu toda a herança, como se fosse um filho único... Evidentemente, ela só descobre tudo isso após a morte de Alli, o que, a essa altura, provavelmente significa que suas dúvidas não serão jamais respondidas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O retorno de Ricardo III




O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão por este sol de York, e todas as nuvens que ameaçavam a nossa casa estão enterradas no mais interno fundo do oceano. Agora as nossas frontes estão coroadas de palmas gloriosas. As nossas armas rompidas suspensas como troféus, os nossos feros alarmes mudaram-se em encontros aprazíveis, as nossas hórridas marchas em compassos deleitosos, a guerra de rosto sombrio amaciou a sua fronte enrugada. E agora, em vez de montar cavalos armados para amedrontar as almas dos temíveis adversários, pula como um potro nos aposentos de uma dama ao som lascivo e ameno do alaúde. Mas eu, que não fui moldado para jogas nem brincos amorosos, nem feito para cortejar um espelho enamorado. Eu, que rudemente sou marcado, e que não tenho a majestade do amor para me pavonear diante de uma musa furtiva e viciosa, eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra da natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes de tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me ladram quando passo, coxeando, perto deles. Pois eu, neste ocioso e mole tempo de paz, não tenho outro deleite para passar o tempo afora a espiar a minha sombra ao sol e cantar a minha própria deformidade. E assim, já que não posso ser amante que goze estes dias de práticas suaves, estou decidido a ser ruim vilão e odiar os prazeres vazios destes dias. Armei conjuras, tramas perigosas, por entre sonhos, acusações e ébrias profecias, para lançar o meu irmão Clarence e o Rei um contra o outro, num ódio mortífero, e se o Rei Eduardo for tão verdadeiro e justo quanto eu sou sutil, falso e traiçoeiro, será Clarence hoje mesmo encarcerado devido a uma profecia que diz será um "gê" o assassino dos herdeiros de Eduardo. Mergulhai, pensamentos, fundo, fundo na minha alma. Ali vem Clarence.

Esse é o início da peça de Shakespeare. A tradução é de Carlos A. Nunes.

O rei, quem diria, estava debaixo de um estacionamento em Leicester. E fica a sugestão do que acho ser a melhor adaptação do texto para o cinema; a história transportada para os anos 30, e todos sabemos a associação que é feita com  Ricardo. Com Sir Ian McKellen, lançado em 1995:


sábado, 2 de fevereiro de 2013

James Joyce, 2 de fevereiro de 1882

E James Joyce, que faria aniversário hoje, me perguntando: quando você vai ler Ulysses? E minha edição, da Companhia das Letras, está aqui olhando para mim...

Editora Patuá, 2 anos

Aniversário, também, da editora parceira do blog, a Patuá, que há 2 anos vem se dedicando à nova literatura brasileira. Dia 21 de fevereiro, em São Paulo.

Photo: A Editora Patuá comemora 02 anos! Venha participar de nossa festa!

Em 02 anos de atividades já publicamos mais de 70 autores, além de planejarmos chegar a 150 autores publicados até o fim de 2013. 

Também fomos contemplados com o ProAC - Prêmio de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, com o prêmio será possível a edição de 12 livros de 12 autores inéditos totalizando uma tiragem de 18 mil exemplares, dos quais 20% serão distribuídos gratuitamente para as Bibliotecas Públicas do Estado.

Nós agradecemos a todos os autores, parceiros e amigos que nos acompanharam até aqui.

Agora é só comemorar!

The New York Review of Books, 50 anos

Em 1º de fevereiro de 1963, saiu o primeiro número do The New York Review of Books. E, no Globo de hoje, um artigo sobre o seu mitológico editor, Robert B. Silvers, hoje com 83 anos.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Conto da semana, de Bernard Comment

Bernard Comment (1960) é o autor do conto da semana, Um filho, que integra a edição de 2013 da BEF. O suíço traduziu para o francês diversas obras de Antonio Tabucchi. 


Neste conto, somos apresentados ao narrador, que está às voltas com o funeral de seu pai, de quem nunca foi próximo, pelo contrário: ao longo da narrativa, há um permanente estranhamento em relação a tudo que lhe diga respeito. Não são agradáveis as lembranças de sua infância. - a vontade de sua mãe em ter um filho (ele) acabou por matá-la ainda muito jovem - poucos meses depois, estava grávida. Seu presente, seu destino.

O narrador, por exemplo, quer ler jornal - a parte de esportes, de política - mas acha que irá pegar mal estar no funeral com um jornal no bolso. Por alguma razão, me lembrou o estrangeiro de Camus...

As páginas são repletas desses pensamentos - a "ação" do conto - mas há também a intervenção do tabelião, que está lá para organizar tudo, inclusive a distribuição dos bens. O agente entrega ao narrador a chave da casa de seu pai.

E é o tabelião quem irá telefonar com uma notícia: o pai havia feito testes - você era muito pequeno, foi quando você ainda vivia com ele, e esses testes, como poderei dizer, mudam completamente as coisas.

De alguma forma, começamos a pensar que a notícia servirá ao menos para ajudar a explicar essa distância entre o narrador e o seu pai, e eis que o mesmo tabelião conta-lhe algo que muda novamente a história... e Comment trabalha muito bem com essa surpresa.