segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A Arca na Revista Samizdat


É com muito prazer e orgulho que comunico a todos que a Revista Samizdat, publicação eletrônica já em seu número 35, publica o meu conto A Arca! A revista pode ser lida aqui.


Neste número:



Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Os Vestígios do Dia, Edweine Loureiro

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
A Herança , Raul Brandão

CONTO
Os números de Lucas, Joaquim Bispo
Anandaiê, Cláudio B. Carlos
O Doutor Adevogado, Henry Alfred Bugalho
A Sala Branca, Erik K. Weber
Tem Pagode no Kibbutz?, Edweine Loureiro
Um Baixo Ruído ao Longe, Fernando Domith
A Arca, Fabio Guimarães Bensoussan
Aspirações, Rodrigo Domit
Há Tanto Carro em Budapeste Hoje em Dia, Luís Felipe Sprotte
Terá Sido..., Maria de Fátima Santos
O Cemitério e o Sanfoneiro, Fábio W. Sousa
Da Utilidade dos Crachás, Zulmar Lopes
Trabalhando com o Batedor de Carne, Silvana Michele Ramos
Aquilo, Homero Gomes
O Transportador, Cinthia Kriemler
Um Pierrô Apaixonado, Otávio Martins


TRADUÇÃO
A Feitoria de Farhaj Bill Alí, Roberto Arlt
E que os Eunucos Bufem, Roberto Arlt
Diálogo de Leiteria, Roberto Arlt
Para Falar e Escrever Bem, Joseph Devlin, M.A.

ARTIGO
O Papel das Revistas Literárias para a Descoberta de Novos Autores, Henry Alfred Bugalho
As Mulheres de Amado, Karline da Costa Batista

CRÔNICA
Todos dizem eu te amo, Mariana Collares
Maxaquenina, Japone Arijuane

POESIA
A Autocomimimiseração das pragas urbanas, Volmar Camargo Junior
A Constelação de Leão, Volmar Camargo Junior
E Agora, José?, Tatiana Alves
Palavra de Pandora, Anna Apolinário
Mater Mare, Helena Barbagelata



sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Conto da semana, de Luis Fernando Veríssimo

O conto da semana é de Luis Fernando Veríssimo - O Motel. Está nas Comédias da vida privada (L&PM).


Mirtes não se aguentou e contou para a Lurdes:

- Viram o teu marido entrando num motel.

A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.

- Quando? Onde? Com quem?

- Ontem. No Discretíssimu's.

- Com quem? Com quem?

- Isso eu não sei.

- Mas como?  Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?

- Não sei, Lu.

- O Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.

Quando Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo. E contou por quê.

- Mas que história é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você!

- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir. Discretíssimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.

- Pois então?

- Pois então que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.

- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!

- Mas elas não sabem disso!

- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?

- Vou!

Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou. Estava sombrio.

- Acabo de receber um telefonema - disse. - era o Dico.

- O que ele queria?

- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar. 

- O quê?

- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu's ontem, com um homem.

- O homem era você!

- Eu sei, mas eu não fui identificado.

- Você não disse que era você?

- O que? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?

- E então?

- Desculpes, Lurdes, mas...

- O quê?

- Vou ter que te dar um tiro...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Revista literária Samizdat



Uma grande notícia: fui aceito para participar, como colaborador, da Revista Samizdat
A partir de fevereiro, e todo dia 4, escrevo no site. E, em breve, sairá a edição nº 35 da revista.
Estão todos convidados a visitá-la!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A última experiência surrealista de Lisboa

Na reportagem de Josélia Aguiar, para o Valor Econômico, a mudança da Livraria Poesia Incompleta, de Lisboa para o Rio - mais precisamente, a Lapa. Segundo Mário Guerra, o Changuito, seu proprietário e único funcionário, a burocracia do Brasil, que lembra a de Portugal, seria "uma espécie de Kafka com Monthy Python".


Uma das pouquíssimas do mundo a só vender livros de poesia.

Oblomov segundo Carpeaux

Gontcharov é, para a literatura universal, o autor de um livro só, do romance Oblomov: um dos maiores livros de todos os tempos. Tem elementos para agradar os grupos mais diferentes de leitores; mas para compreender bem a obra precisa-se de uma qualidade preciosa e rara entre os leitores modernos: de paciência. Porque em Oblomov não se passa nada: ou antes, o que se poderia chamar "ação", nesse romance, só se passa para iluminar a inação do herói, da qual tudo depende. (...) É o romance mais estático da literatura universal; o romance do infinito enfado universal.

História da Literatura Universal, volume III, p. 1796.

E portanto lá vamos nós... iniciando a leitura da tradução feita por Rubens Figueiredo e suas mais de 700 páginas.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Le Requiem de Franz, de Pierre Charras



Chegar a um livro que não foi traduzido para o português não é fácil; se esse livro nem em inglês foi editado, pior ainda. Por uma recomendação de um livreiro português que trabalha na livraria Tschann, em Paris, há alguns anos, cheguei a este livro de Pierre Charras (1945), autor com vasta produção e bastante conhecido na França. É também tradutor do inglês e ator de cinema.

Neste Requiem de Franz, publicado pela Mercure de France e obviamente sem a menor previsão de chegada por aqui, o próprio Schubert nos conta sua breve vida. Após um início que lembra os de Machado de Assis - eis o meu fim. Ninguém jamais pronunciará o nome de Schubert novamente - o compositor fala de sua infância, de sua mãe, de sua obsessão pela música e sua devoção a Mozart e Beethoven (de cujo funeral participou emocionada e ativamente), da sífilis. 


Um romance curto, de 110 páginas, num francês que se mostra agradável a quem ainda está estudando o idioma, e dividido em capítulos curtos - 14, como os movimentos do famoso Requiem - que apresente uma biografia sem pretensões ensaísticas do grande compositor - um monólogo com o leitor - o que em alguns momentos se mostra meio cansativo. Vale mais como uma introdução à vida de Schubert e por algumas passagens - como a do diretor da escola que lhe comunica a morte da mãe e os momentos que se seguiram a este desastre e, principalmente, nos momentos em que Schubert se vê como um compositor menor, de canções populares, e não um "verdadeiro" músico como seus ídolos.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Três rosas e um conhaque para Edgar Allan Poe



Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809. Dele li alguns contos mais famosos e o romance A narrativa de Arthur Gordon Pym, publicada aqui pela Cosac Naify.

Por cerca de 60 anos, desde 1949, um desconhecido ia ao seu túmulo nesta data, deixando três rosas e uma garrafa de conhaque. Mas nos últimos anos, desapareceu, e a tradição parece ter se perdido. Será que alguém irá retomá-la hoje? O próprio Poe faria misérias com um enredo desses...

Conto da semana, de Edwidge Danticat


O conto A aparição, que faz parte da Antologia Pan Americana de Stéphane Chao (Record, 2010), é talvez o primeiro texto da haitiana Edwidge Danticat (1969). Chao a classifica não como haitiana, mas sim uma "exilada linguística". Mudou-se aos 12 anos para Nova York, e recentemente apareceu na TV brasileira, no programa Milênio, entrevistada pelo Jorge Pontual.

- Você já vigiou a fronteira antes - disse doutor Berto - Já fez patrulha lá. E sabe que a maioria dos meus pacientes são haitianos. Cortadores de cana, muitos deles.

- O que você faz por eles?

- Normalmente recebemos dez ou doze para examinar, com doenças digestivas ou malária. Ontem foram cento e dez. Tivemos que estender lençois pelo terreno da clínica e deitá-los ali, para cuidar deles do lado de fora, ao ar livre. Muitos tinham sido feridos a facão. A alguns faltava um membro. Disseram que tinham sofrido uma emboscada à noite, atacados por soldados.

- Isso é ridículo.

- Você não pensaria assim se os tivesse visto. As pessoas não mentem nos seus leitos de morte.

- Essas acusações são um delírio - disse rindo o señor Pico - São um delírio.

O diálogo entre o doutor Berto e o senhor Pico - o médico não conseguiu salvar a vida de Victoria, filha de Pico e que não viveu tempo suficiente para ver ou até mesmo sentir a chuva. Pico reclama que a clínica do doutor lhe toma muito tempo. E pior: perde tempo cuidando de haitianos. Estamos, obviamente, na fronteira entre o Haiti e a República Dominicana.

Para Pico, Berto está desperdiçando sua vida; deveria se casar. O médico ainda cuida do gêmeo de Victoria, Rafael. E se dirige à narradora, Amabelle: Você escuta tudo que se diz nesta casa, não é? 

Pico tenta convencê-la a cruzar a fronteira, tenta fazê-la crer que Pico não é, seguramente, seu amigo, e que ele nada poderá fazer para salvá-la. Estão matando haitianos nas estradas, à noite. Eles querem ver todos vocês fora desse lado da ilha.

Amabelle gosta da esposa de Pico e das crianças - agora, apenas Rafael. Mas ao voltar ao seu quarto, recebe uma inesperada visita. 

Danticat relembra um tema pouco conhecido fora do Caribe - o massacre promovido em 1937, sob ordens de Trujillo, de milhares de haitianos que viviam na República Dominicana. Até hoje as tensões estão presentes - mesmo agora, dois anos após o terremoto que destroçou o já destroçado país. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O bom viajante segundo Elias Canetti

O que é a língua? O que ela esconde? O que nos rouba? Ao longo das semanas que permaneci no Marrocos, não tentei aprender nem árabe nem os dialetos bérberes. Não quis perder nada do poder exótico dos seus gritos. Queria ser atingido por seus gritos, tal como eles eram, sem enfraquecê-los devido a um saber artificial e insuficiente. Não havia lido nada sobre o país. Seus costumes me eram tão estranhos quanto seus habitantes. O pouco que se aprende sobre um país e um povo durante uma vida facilmente se esquece nas primeiras horas.

Mas restou-me a palavra Alá e esta eu não pude evitar. Com isso eu estava equipado para a minha experiência mais frequente, mais comovente e duradoura: a dos cegos. Em viagens aceitamos tudo, a indignação fica em casa. Olha-se, escuta-se, encantamo-nos com as coisas mais terríveis, porque são novidades. O bom viajante não tem coração.

Elias Canetti, Vozes de Marrakesh. L&PM, 1987, p. 28. Tradução de Marijane Lisboa

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Conto da semana, de Jorge Luis Borges - Episódio do Inimigo

Voltamos a Borges. Este curto Episódio do Inimigo está no 2º volume das Obras Completas editadas pela Globo. É um bom método para se livrar de inimigos:

Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava na minha casa. Da janela o vi subir penosamente pelo áspero caminho do cerro. Ajudava-se com um bastão, com o torpe bastão em suas velhas mãos não podia ser uma arma, e sim um báculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fraca na porta. Fitei-o, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompido e o tratado de Artemidoro sobre os gregos. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Temi que o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o bastão, que não voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade o imaginara muitas vezes, mas só então notei que se parecia de modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse.

- Pensamos que os anos passam apenas para nós - disse-lhe -, mas passam também para os outros. Aqui nos encontramos, por fim, e o que aconteceu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele desabotoara o casaco. A mão direita estava no bolso do paletó. Assinalava-me algo e senti que era um revólver.

Disse-me então com voz firme:

- Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Agora o tenho a minha mercê e não sou misericordioso.

Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte e só as palavras podiam salvar-me. Atinei a dizer:

- É verdade que há tempos maltratei um menino, mas você já não é aquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos fátua e ridícula que o perdão.

- Justamente porque já não sou aquele menino - replicou-me - tenho de matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você não pode fazer mais nada.

- Posso fazer uma coisa - respondi.

- O quê? - perguntou-me.

- Acordar.

E foi o que fiz.

Os Malaquias, de Andrea del Fuego


 
Os Malaquias
Andrea del Fuego
Língua Geral, 2011
272 p.

Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias. p. 7. Leia, aqui, o primeiro capítulo.

Outro livro que fiquei devendo em 2012, este que recebeu o Prêmio Saramago de 2011. Confesso que não conhecia a autora, Andrea del Fuego (1975), até o anúncio da premiação. 



Nico, de olhos azuis; Antônio, miúdo, e Júlia, barriguda. Os três irmãos que vivem em Serra Morena - são os Malaquias do romance. Com exceção deles, os habitantes eram pardos como mamíferos silvestres. Com a morte dos pais, "de raio", os três órfãos são separados: Nico, o mais velho, vai trabalhar numa fazenda (a fazenda Rio Claro), de Geraldo; os outros dois são levados por freiras francesas - Júlia será adotada; Antônio, no entanto, é anão.

O romance mostra o momento de transição entre um país rural e outro urbano. Geraldo e Nico são forçados a se mudar, com a chegada do progresso e a construção de uma hidrelétrica, que inundará todo o povoado.

Andrea del Fuego homenageia sua família - Nico é seu avô; os pais realmente morreram eletrocutados e Antônio sofria de nanismo. E a partir daí parte para a ficção pura - como, por exemplo, o fim reservado a Nico e a Geraldina Passos (mãe do fazendeiro Geraldo).

No capítulo 63, um grande momento, que mostra a felicidade da escolha das palavras pela autora - Geraldo, de carne já líquida dentro do caixão, tinha o corpo concorrido por colônias de bactérias. Debaixo da terra a nutrição se fazendo à exaustão dos ossos, que, pudessem, morariam em outra câmara escura, com menos acontecimentos. Do próprio corpo é que saíam as colônias famintas, De dentro para fora, o final de Geraldo. Esse, aliás, é o grande trunfo do livro - a cuidadosa, quase um trabalho de ourives, na escolha das palavras certas, das associações de imagens e ideias. Ao mesmo tempo, uma linguagem seca e dura. Uma combinação difícil. Um livro para ser lido com calma.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Júlio Verne acerta mais uma

A lula gigante (sem ironias, por favor) ataca novamente. Depois de ser vista atacando o Nautilus, eis que ela é filmada, a cerca de mil quilômetros ao sul de Tóquio. Agora só falta mesmo a viagem ao centro da Terra...


"No", de Pablo Larraín




O filme No, do chileno Pablo Larraín (Chile, 1976), em cartaz (ao menos aqui, em Belo Horizonte) neste início de ano, merece ser visto com atenção. Com a participação do mexicano Gael Garcia Bernal no papel de René Saavedra, um publicitário de respeito, o filme mostra a campanha do plebiscito que determinou, em 1988, o fim do regime de Pinochet. A princípio reticente, acaba entrando na campanha, enquanto seu chefe adere ao Sim.

O filme é baseado em romance de António Skármeta. Larraín consegue escapar com facilidade de um previsível panfleto partidário. Ele próprio já disse em entrevistas ter crescido entre os prováveis optantes do Sim (pró-regime), uma vez ser filho de senador "da direita", só tendo consciência do que acontecia por volta dos seus 15 ou 16 anos.

No foi selecionado para representar o Chile no Oscar de 2013, uma ideia fixa de nós brasileiros. Fez muito sucesso entre a crítica americana e, parece, em Cannes, o que pode ser um indicador favorável. O filme merece. Com imagens da época, acabamos entrando nos bastidores da campanha do Não (que acabou vencendo) e também do Sim.

Vale a pena prestar atenção na falta de humor do grupo do Não, que René tenta com sucesso mudar: para ele, era necessário colocar um pouco de leveza e humor na campanha, algo que o pessoal da esquerda via como desrespeitoso. 

Mas há algo estranho - o filme começa com René apresentando um trabalho para um grupo de empresários; um comercial de refrigerantes. No final, uma campanha para o lançamento de um programa de televisão. Em ambos os casos, o mesmo discurso sem sentido - "o Chile está olhando para frente"... "as pessoas estão preparadas para novas coisas" e tal. Bom, em momento algum da história René é apresentado como um idealista ou um opositor ao regime. Ele é o primeiro a dizer, em uma reunião da oposição, que a campanha proposta é horrorosa. Contra hinos patrióticos ou esquerdistas, ele propõe jingles. E sempre mantendo uma distância  - há apenas um marejar de olhos ao final, quando atravessa a multidão em êxtase pela vitória da oposição. Talvez para ele se tratasse apenas disso - mais um produto a ser vendido.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Expurgo, de Sofi Oksanen

Expurgo
Sofi Oksanen
Record, 2012
Tradução: Julián Fuks
346 p.

Aliide ajeitou a cortina, aproveitando para abri-la. O jardim chuvoso ressentia seu tom cinzento, os troncos das bétulas agitavam-se encharcados, as folhas se deixavam alisar pela chuva, a grama alta oscilava, gotas caíam da ponta das folhas. E havia algo por baixo. Um vulto. Aliide se retraiu, abrigando-se atrás da cortina. Voltou a olhar para fora, desfez o laço da cortina para que não pudesse ser vista do jardim e prendeu a respiração. Seu olhar desviou das manchas de mosca no vidro e focou no gramado em frente à bétula que fora fendida por um raio. p. 11.

A finlandesa Sofi Oksanen (1977) lembra, fisicamente, Amy Winehouse. Este seu romace recebeu diversos prêmios literários na Europa; já havia sido editado na França, nos EUA, e no ano passado, no Brasil. Um belo romance para abrir o ano. O tema central é a ocupação soviética da Estônia ao longo do último século. Inicialmente, Aliide, uma velha e solitária senhora, encontra em seu jardim uma jovem misteriosa, Zara, aparentemente por acaso.

À medida em que o romance se desenvolve, ficamos sabendo que Zara, nascida em Vladivostok, está fugindo da máfia russa de prostituição. Como tantas jovens soviéticas e do leste europeu, buscou sucesso no ocidente, e terminou escravizada em Berlim. 

A autora se utiliza de capítulos curtos para nos contar a história da idosa Aliide e de Zara, na década de 90, e dos terríveis anos 30 a 50, vividos por Aliide. Mais adiante, descobriremos o que une Aliide a Zara - um passado terrível e um presente não menos pavoroso e violento.

A jovem Aliide queria se casar com Hans Pekk, que no entanto opta pela sua irmã, Ingel. Termina com Martin, um comunista "de carteirinha", mas que, por um mistério (revelado ao final) não progride na carreira - nunca é chamado à capital, Talin. 

Quando Hans, Ingel e Linda (a filha do casal) são condenados à deportação para a Sibéria, Aliide é posta à prova. Aqui está o segredo que atormenta Aliide, e que a assombrará pelo resto de sua vida. Não vale a pena adiantar o que ocorreu...


Um grande achado da escritora foi conseguir o ponto exato, sendo clara para quem não conhece a história da Estônia, e que ao mesmo tempo não recorre a expedientes didáticos que em determinadas situações (e através de determinadas mãos) tornam o texto enfadonho. Não há qualquer resquício de ensaio.

O texto foi escrito originalmente para o teatro, para depois ser "transformado" em romance. Em 2012 foi adaptado à ópera.

Photo: And definitely one of the highlights: the opera Purge having its premiere at the Finnish National Opera. Johanna Rusanen-Kartano and her unforgettable performance!

Oslon kansallisooppera muuten vaikuttui esityksestä sen verran, että tilasi säveltäjä Jüri Reinvereltä uuden oopperan, Peer Gyntin. Kantaesitys 2014. Rohkea veto Oslolta. Harva kansallinen instituutio tilaa ulkomaalaiselta taiteilijalta uuden version kansalliseepoksen asemaan kohonneesta stoorista.

E ganhou versão cinematográfica, que concorrerá ao Oscar de 2013. Aqui, o trailer. Com sorte, quem sabe aparece por essas bandas...


A autora, em entrevistas, tem pontuado que hoje, cerca de 20 anos após o fim do império soviético, ainda não se fez um necessário exorcismo do período. O exemplo que ela dá é o fato de Putin ser ex-agente da KGB (e ninguém aceitaria um alemão ex-agente da Gestapo na presidência).

Um livro que tem que ser lido; uma boa estreia para 2013.