domingo, 25 de novembro de 2012

Diário da Queda, de Michel Laub






É o quinto romance de Michel Laub (1973) - o primeiro que leio. Parece que aos poucos a temática vem chegando à literatura brasileira contemporânea, como fez Tatiana Salem Levy. O primeiro capítulo pode ser lido aqui.

As cerca de 150 páginas do romance, lançado no ano passado, são divididas em capítulos bem curtos, narrados em primeira pessoa, com pontos obviamente autobiográficos - ainda que se trate obviamente de uma obra de ficção. O inominado narrador estudava numa escola judaica nos anos 80 em Porto Alegre; havia um aluno não judeu que procurava se inserir na turma. Seu pai, pobre, organizou sua festa de 13 anos - todos os colegas fizeram ou fariam o Bar-Mitzvá. 

O pai de João resolveu comemorar os treze anos do filho porque a família nunca tinha dado uma festa (...) mas porque João estava numa escola judaica, e na escola judaica todos faziam Bar Mitzvah aos treze, e em todas as festas o aniversariante era jogado treze vezes para cima, uma espécie de rito de iniciação do aniversariante ao mundo adulto, quando ele se tornava o que a expressão que dá nome à cerimônia define como filho do dever, por tudo isso o pai convenceu o filho a receber a classe inteira no salão do edifício onde morava um cunhado.

Os colegas jogaram João treze vezes para o alto, como no Bar-Mitzvá; mas no 13º lance, deixaram que ele se espatifasse  no chão. O narrador se arrepende e se sente culpado. Essa é a queda - ou uma das quedas - do título. A culpa o leva a tornar insuportável sua permanência no colégio judaico, algo que o pai custa a aceitar.

O avô, sobrevivente de Auschwitz, tem um diário. Não o mostrou para ninguém, e quando morreu (suicidou-se) o pai o recuperou. Não há menções específicas ao período no campo de extermínio. E o avô perdeu toda a família lá. O silêncio intriga o narrador, que não consegue se esquecer do livro de Primo Levi (que também se suicidou) - outro sobrevivente - É Isto um homem? Avô e escritor jamais superaram a experiência e tiveram o mesmo fim. Não deixa de ser uma outra queda. Para o neto, é algo óbvio imaginar que meu avô fez o que fez não só por causa de Primo Levi e desses senhores, por ser como Primo Levi e esses senhores, por não ter como escapar de um fim como o deles, mas por um motivo que tinha estreita ligação com o meu pai.

O avô casou-se com uma filha de alemães. Bom, não acho isso tão inverossímel como pareceu para alguns críticos. O pai, com a descoberta do diário do avô, começa a se interessar mais pela religião. Algo que não chegou ao narrador, nem mesmo quando descobre a doença do pai - Alzheimer (sempre um alemão...). E a sua própria vida - casado pela terceira vez, prestes a enfrentar uma terceira separação. 

Tal como o livro de Tatiana, não se trata de um romance sobre o Holocausto ou sobre a Segunda Guerra ou mesmo sobre o nazismo. Trata-se verdadeiramente das reminiscências do narrador, a terceira geração - o narrador fala, em determinado momento, que em poucos anos a palavra Auschwitz não representará nada muito diferente que palavras como Majdanek ou Sobibor. Mas sem qualquer reverência, como habitualmente lemos. E dirigindo-se, ao final, ao que será a quarta geração.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Maria Keil (1914-2012)


Maria Keil (1914-2012) é considerada uma das maiores artistas modernistas de Portugal; morreu um mês antes de viajarmos. Acima, seu autorretrato (1941). E, abaixo, uma de suas obras, que apareceu outro dia no ótimo o silêncio dos livros.

Revista Kalinka - homenagem a Boris Schnaiderman


A Revista Kalinka deste mês traz homenagem a Boris Schnaiderman (1917) o nome da tradução do russo no Brasil. Nascido na Ucrânia, chegou ao Brasil aos oito anos e se naturalizou brasileiro em 1941 - a tempo de integrar a FEB. Você pode ouvir o especial aqui.

Conto da semana - O Primeiro Impulso

O conto da semana é de um autor anônimo persa e está no volume 5 do Mar de Histórias. Apesar de em princípio ter sido escrito por volta do século XII, há aspectos bem atuais - como por exemplo a pouca cerimônia com que os personagens se dirigem a Deus - alguém lhe diria: Ora, essa é boa!...?



Tooriri era um cidadão rico de Bagdá, universalmente famoso por suas virtudes. Não se limitava a assistir aos pobres a ponto de, em vez de levar uma existência das mais luxuosas, viver apenas confortavelmente; escutava com a mais delicada paciência as queixas de todos os sofredores que o procuravam, consolava‑os com palavras carinhosas e ajudava‑os de todas as maneiras possíveis.

Suportava com resignação as mil e uma pequenas misérias que constituem a maior parte da vida humana. Tolerante em alto grau, não se aborrecia se os outros não lhe partilhavam as opiniões — virtude difícil e rara, pois o desejo secreto de cada homem é que o resto da humanidade lhe seja inferior e, ao mesmo tempo, semelhante.


Casado com uma megera, mantinha‑se‑lhe fiel, perdoava‑lhe o mau gênio, e jamais a fazia sentir que não era nem moça nem bonita. Prosador e poeta, regozijava‑se com o êxito dos rivais e manifestava‑lhes benevolência e amizade em expressões corteses e sinceras.

Numa palavra, sua vida era toda caridade, gentileza, lealdade e altruísmo, e consideravam‑no, ao mesmo tempo, um santo e um perfeito cavalheiro.

Ao seu semblante, porém, faltava a serenidade que por via de regra caracteriza as feições de um santo. Parecia o de uma pessoa agitada por paixões violentas ou roída de secreta angústia. Não raro o viam estacar e baixar os olhos para recobrar o domínio de si mesmo e impedir que lhe adivinhassem os pensamentos. Mas ninguém prestava a isso a menor atenção.


Não longe de Bagdá vivia um eremita por nome Maitreya, autor de numerosos milagres, cuja morada era objeto da veneração de muitos peregrinos. Tendo‑se posto acima das contingências do comum da humanidade, Maitreya conservava‑se em tamanha imobilidade que as andorinhas vinham a construíam ninhos em seus ombros. A barba, espessa como a cauda das vacas sagradas, chegava‑lhe à cintura, e o seu corpo semelhava um tronco de árvore. Vivia assim desde uns noventa anos, pois era este o seu ideal.



Certo dia um peregrino disse na sua presença:


— Tooriri, de tão bom, parece uma encarnação de Ormuzd. Sem dúvida todo o sofrimento desapareceria da face da Terra se um homem destes pudesse fazer tudo quanto quisesse.

Ainda mais rígida se fez a imobilidade de Maitreya. Evidentemente o santo homem entrara em comunicação direta com o próprio Ormuzd. Depois de pensar uns instantes, respondeu ao peregrino:

— Não me é possível alcançar que Ormuzd conceda a Tooriri o poder de realizar todos os seus desejos, pois assim ele se tornaria um deus. No entanto, Ormuzd, em sua bondade, permite que, de amanhã por diante, o primeiro impulso deste santo homem, em todas as circunstâncias de sua vida, se transforme em realidade.

— É quase a mesma coisa! — exclamou o peregrino. — O primeiro impulso de Tooriri, como todos os seus desejos, será generoso e caridoso. Venerável Maitreya, acabais de me anunciar uma nova que há de trazer a ventura a muita gente, e eu vos agradeço.

Se a barba de Maitreya fosse menos impenetrável, poderia o peregrino ter vislumbrado a sombra de um sorriso em seus lábios empedernidos. Mas logo depois ele voltou a abismar‑se nas suas eternas cismas.

Tornou à cidade o peregrino, regozijando‑se de antemão com os muitos atos de caridade em que se havia de patentear no dia seguinte o poder do sábio Tooriri.


No dia seguinte, Tooriri despertou antes da mulher e fitou‑a por um momento. Movida por força misteriosa, ela se levantou, dirigiu‑se à janela, galgou o peitoril a precipitou‑se, rachando a cabeça no pavimento da rua.


Ao sair de casa, aproximou‑se dele um grupo de mendigos a pedir esmola. Não lhes disse nenhuma palavra dura, e automati­camente a sua mão se encaminhou à bolsa; mas, antes de alcançá-­la, todos os mendigos lhe caíram mortos aos pés.

Adiante, encontrou a linda Mandaniki, e ele, o sábio, o virtuoso Tooriri, inclinou‑se diante dela e acompanhou‑a a casa. Ali, a mulher, enquanto lhe contava a história da própria vida e ele a apertava com ternura ao próprio coração, expirou‑lhe nos braços.

Mal deixou a residência de Mandaniki, ficou detido numa encruzilhada por certo número de veículos que obstruíam a passagem, e começou a perder a paciência. Nisto, todos os cocheiros caíram das respectivas boléias e todos os cavalos tiveram os tendões cortados como por invisível foice.

À noite foi ele ao teatro, e pôs‑se a discutir com o erudito Sarvilaka acerca de um verso atribuído por este a Nizami, e que Tooriri julgava escrito por Saadi, o poeta das rosas. De súbito, o letrado deixou‑se cair na sua poltrona e vomitou uma golfada de sangue negro. A comédia representada naquela noite obteve grande êxito, sendo os atores unanimemente aplaudidos. Porém, poucos minutos antes que Tooriri resolvesse aderir ao reconhecimento do mérito do autor, este rendeu a alma ao Criador de maneira total­mente inesperada.


Tooriri voltou para casa horrorizado daquela mortandade geral. Desesperado, incapaz de compreender a razão de tudo aquilo, matou‑se, atravessando o coração com um punhal.


Na mesma noite morreu também o santo eremita Maitreya.

Compareceram os dois ao mesmo tempo perante o sábio Ormuzd. O eremita pensava: "Não me seria nada desagradável assistir ao merecido castigo desse falso santo, cuja virtude foi por tanto tempo admirada pelos persas, mas que, num único dia em que pôde mostrar‑se tal qual era na realidade, se cobriu de inúmeros pecados e crimes".

Porém o sábio Ormuzd falou assim:

— Virtuoso Tooriri, homem realmente generoso e bom, meu leal e fiel servidor, vem, entra na paz eterna.

— Boa bola! — exclamou o eremita.

— Em momento algum de minha vida falei mais sério — replicou Ormuzd. — Tooriri, desejaste o aniquilamento de tua esposa porque não era bondosa e já não tinha beleza; quiseste a morte dos mendigos porque te importunaram, e seu aspecto era hediondo; a de tua amante, porque era uma tola; o fim dos cocheiros e o extermínio dos cavalos, porque te forçaram a esperar quando tinhas pressa; o desaparecimento do letrado Sarvilaka, porque professava opinião diferente da tua; a do autor da comédia, porque obtivera aplausos maiores que os alcançados por ti. Todos esses desejos eram perfeitamente naturais. Os assassínios de que Maitreya te acusa foram, à tua revelia, efeitos do teu primeiro impulso, porquanto ninguém pode conter o seu primeiro impulso e desejo. Um homem odeia inevitavelmente o que o tolhe, e não menos inevitavelmente deseja o aniquilamento da­quilo que odeia. A natureza é egoísta, e o nome do egoísmo é destruição. O mais virtuoso dos homens é, antes de tudo, no íntimo da alma, um patife; e se lhe fosse concedido transformar em realidade o seu primeiro desejo, impulsivo e involuntário, dentro em pouco a Terra se transformaria num deserto, sem nenhum ser humano a habitá‑la. Foi o que eu pretendi mostrar, Tooriri, com o teu exemplo: o homem é julgado pelo seu segundo desejo, pois que este depende da sua vontade. Não fora o dom misterioso que, a teu pesar, tornou o teu último dia tão mortífero, tua vida teria continuado virtuosa e caridosa. O que devo considerar em ti não é a tua natureza, mas a tua vontade, que sempre tendeu para o bem e procurou sempre corrigir a tua natureza e aperfeiçoar a minha obra imperfeita. Eis por que, meu colaborador querido, eu hoje escancaro diante de ti a porta do meu paraíso.

— Essa é boa! — exclamou Maitreya. — Que fareis, então, por mim? Que recompensa me reservastes?

— A mesma — replicou Ormuzd —, embora só a tenhas merecido imperfeitamente. Foste um santo, mas, se em tudo deixaste de ser humano, humano foste no teu orgulho. Conseguiste a supressão do primeiro impulso; mas, se todos os homens fossem viver como tu, a humanidade desapareceria da face da Terra ainda mais depressa do que se cada homem possuísse o poder maravilhoso que por um dia infligi a este meu fiel servo. Ora, a mim me convém que a humanidade continue, porque isto me diverte e porque o espetáculo que me oferece chega a ser, às vezes, sublime. O teu esforço, mísero asceta, não era de todo desprovido de certa espécie de beleza, e por isso te perdôo o teu erro crasso. Numa palavra: a Tooriri abro as portas do Paraíso e o acolho em meu seio, porque sou justo; a ti, Maitreya, permito que entres, porque sou generoso.

— Mas... — disse Maitreya.

E Ormuzd, erguendo o austero semblante:

— Tenho dito.

Joseph Anton, de Salman Rushdie

Joseph Anton - Memórias
Salman Rushdie
Tradução: Donaldson M. Garschagen e José Rubens Siqueira
Companhia das Letras
614 p.

O primeiro presente que recebera do pai, um presente semelhante a uma mensagem numa cápsula do tempo, que ele não compreendeu até virar adulto, foi o nome da família. 'Rushdie' foi uma invenção de Anis. O nome do pai dele fora bem imponente, Khwaja Muhammad Din Khaliqi Dehlavi, um belo nome da Delhi Antiga que caía como uma luva naquele cavalheiro da velha guarda que nos fitava fixamente da única fotografia dele que sobrevivera, aquele industrial bem-sucedido e ensaísta nas horas vagas que morava num haveli caindo aos pedaços no famoso e antigo mulhala, ou bairro, de Ballimaran, um labirinto de vielas sinuosas na área do mercado de Chandni Chowk, onde vivera Ghalib, o grande poeta de língua parsi e urdu. Muhammad Din Khaliqi morreu jovem, deixando ao filho uma fortuna (que ele dilapidaria) e um nome pesado demais para se carregar no mundo moderno. Anis adotou um novo nome, 'Rushdie', devido à sua admiração por Ibn Rushd, conhecido no Ocidente como Averróis, o filósofo árabe-espanhol de Córdoba, do século XII, que veio a tornar-se cádi, ou juiz, em Sevilha,tradutor e aclamado comentarista das obras de Aristóteles. O filho de Anis usou o nome durante duas décadas antes de compreender que inteiramente destituído de fé religiosa, o escolhera por respeitar Ibn Rushd, que assumira, em sua época, a vanguarda da crítica racionalista ao literalismo islâmico. E outros vinte anos transcorreram antes que a batalha com relação a Os Versos Satânicos produzisse um eco, no século XX, daquela crítica de oitocentos anos. página 28-29.

As memórias de Salman Rushdie, narradas em terceira pessoa. Nesse que foi o primeiro livro que li dele até hoje, descobri algumas coisas: não sabia que ele já tinha uma carreira literária bem consolidada; seu romance Os Filhos da Meia Noite já havia lhe rendido o prestigioso Man Booker Prize de 1981. Ele já conhecia todo o ambiente literário londrino - e ao longo do livro, irá elogiar os que o ajudaram e esculhambar os que o atacaram. Ele é grato a Norman Mailler, Nadine Gordimer, Edward Said, Ishiguro, McEwan e Grahan Greene, por exemplo. Martin Amis e Christopher Hitchens lutaram publica e abertamente por ele. Ele, que foi convidado para subir ao palco com o U2!

Por outro lado, desanca John Berger, o arcebispo anglicano de Canterbury, Road Dahl e John Le Carré, todos justificando a fatwa. Nenhuma simpatia por Thatcher, ao contrário de Major e Blair.

Life on the run: Indian-born author Salman Rushdie adopted the alias Joseph Anton - merging forenames of authors Conrad and Chekhov - after a fatwa was issued against him

Joseph Anton foi o pseudônimo em homenagem a Conrad e Tchekov, e venceu outras tentativas como Vladimir Joyce e Franz Sterne.

Seu inferno começou em 14 de fevereiro de 1989, quando Khomeini emitiu a fatwa que mudou sua vida e a de muitos outros. No livro, Rushdie nos conta dos problemas com suas ex-mulheres, com os agentes de segurança, editores que na hora H temeram repercussões negativas e lhe fecharam as portas, suspendendo contatos e contratos. Passou a ser sistematicamente recusado pelas companhias aéreas.

Os tais versos: ele aprendeu quando estudava História em Cambridge, em 1966. O Profeta recebeu versos do Demônio, desmentidos pelo Arcanjo... por que, então, tomou-os por verdadeiros e não os excluiu do Corão? Esse é o tema central do seu romance mais famoso.

Um dado impressionante: ele escapou, mas o tradutor japonês foi assassinado e o italiano, quase. O tradutor turco sofreu um atentado que matou mais de 30; o norueguês sofreu um ataque - e disse a Rushdie o quanto se orgulhava de estar associado ao livro.

Rushdie reconhece, não esconde nem procura justificar suas ingratidões - por exemplo, com Liz Calder, por aqui conhecida como a grande idealizadora da Flip - e suas atitudes mesquinhas, que não são poucas. Méritos para ele, mas nem por isso se deixa de criticá-lo. E algo que - até onde vi - não vem sendo tão comentado nas resenhas: sua relação com Zafar, o filho que, conforme ele mesmo reconhece, não conseguiu ter uma infância normal por causa do pai. A pessoa com quem ele mais se preocupou durante todo o período.

Por fim, não deixe de ler as "cartas" que ele escreveu para diversas personalidades - sobra até para Robinson Crusoé...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda

No próximo dia 6 de dezembro Eduardo Lacerda lança o livro Outro dia de folia, pela Editora Patuá (da qual é co-editor). 



A última ceia

Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas)./

Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo

domingo, 18 de novembro de 2012

Nobel de 2012 em Português

Por alguma razão desconhecida, o post sobre as edições em português do Mo Yan, Nobel deste ano, sumiu...
Basicamente: a Cosac Naify está com os direitos para o Brasil e caça um tradutor de chinês. Em Portugal, a nova editora Divina Comédia lança Mudanças. E a Ulisseia relança Peito Grande, Ancas Largas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Conto da semana, de Dragan Radulovic

O conto da semana comemora, ainda, o lançamento da edição de 2013 do Best European Fiction, organizada pelo Aleksandar Hemon. Mais de trinta países e autores, a maioria desconhecida por aqui e mesmo fora de seus países mas, de vez em quando, conseguimos alguma tradução para o Brasil...

O conto da semana - O Rosto - se passa na cidade de Budva, a "capital do turismo" de Montenegro, onde vive o autor, Dragan Radulovic (1969).



Uma história de horror. O narrador adora o inverno, quando os homens de Budva pescam, jogam cartas e trabalham em suas casas, discutem política, seduzem as esposas dos outros e se preocupam em também não ser traídos. A  capital do turismo só vive mesmo no inverno. No inverno todos tem uma voz e o direito de criar uma esfera de participação na vida pública.



Em dezembro o narrador se encontra no restaurante underground mais famoso da cidade, a Tulipa Melancólica. E é interessante como ele ridiculariza a high society -  o que se aplica tanto aqui quanto em Montenegro...

Como o Tulipa só preparava esse prato uma vez por ano, era uma questão de prestígio para o povo de Budva ser visto no restaurante nessa ocasião. Todas as mesas estavam ocupadas naquela noite. Vi inúmeros rostos familiares - o creme da classe política, empresarial e cultural; havia ainda outras pessoas que eu não conhecia (...) - como sempre, vou traduzindo livremente.

Lá ele se encontra com Gonzales. 

Gonzales estava em uma cadeira de rodas - segundo ele próprio, um centauro moderno. O narrador quer saber da morte de Geiger. Gonzales não é um sujeito fácil, pelo contrário, nota-se uma certa reserva e prevenção por parte do narrador. A morte de Geiger ocorreu em uma estranha noite.

O conto lembra histórias de horror das antigas - e boas. Lembra-me aquelas narrativas à moda do século XIX. Gonzales conta que naquela noite fatídica os amigos- ele, Geiger e Kefir -  discutiam sobre o mal. Geiger: o mal é fascinante e sedutor, divertido; é muito mais interessante que o bem, que pode ser banal a ponto de te deixar enjoado. Geiger estava escrevendo um livro. Kefir começou a discutir, de forma áspera, sobre o assunto. Gonzales assiste a tudo - como um espectador, o que talvez seja importante no final. 

A questão: estariam os três sozinhos naquele ambiente? Onde quer que haja pessoas, "eles" estão presentes. Kefir: isso significa que não estamos sozinhos aqui nesta noite?

Há um corte de luz; quando a luz começa a voltar do lado de fora, os três percebem uma presença, no meio do quarto - de fato, eu vi apenas seu rosto, olhos e mandíbulas, que exalavam um sorriso sem cor (...) um rosto que parecia feito de carne cozida; Kefir pega uma arma e dispara contra a coisa.

Cada um dos três amigos tem um destino trágico e misterioso; Gonzales, no entanto, é o único que sobreviveu. O que estaria por trás disso? - é o que pergunta o narrador. Não há nada por trás. Tudo está na superfície, apenas ocorre que alguns lugares são terrivelmente profundos, e se você olhar bem para eles, pensa que vê algo.

Há algo no conto que me lembra não apenas os clássicos do século XIX mas também alguma coisa de Jorge Luis Borges e seus contos fantásticos.

sábado, 10 de novembro de 2012

Conto da semana, de Afonso Cruz



As grades parecem seguras, pintadas de azul, que vai bem com o céu. Mas tenho de reclamar. Onde é que está o meu marido? À minha frente surge um anjo, todo vestido de branco. Quase que ergo a mão para lhe tocar a face, tão jovem, tão bonita, tão cheia de luz. Em vez disso, sai-me uma pergunta seca: onde é que está o meu marido? O anjo fica sem saber o que dizer. Digo-lhe que não me interessa que possam ter achado que o meu marido não era uma boa pessoa, que ele não era pessoa de vir para o Céu. A verdade é que se eu vou para o Paraíso, se o mereço, tenho de ter o meu marido comigo. Que raio de coisa é esta em que passamos a eternidade separados das pessoas que amamos? O anjo diz para me acalmar, mas eu não posso aceitar uma coisa destas. Têm muita luz, mas esquecem-se de quem amamos! O meu marido podia ser mau, mas se amamos pessoas assim o que é que devemos fazer? Viver eternamente sem elas? Que porcaria de paraíso é este? O anjo encolhe os ombros. Nunca pensei que os anjos os encolhessem, aliás, nunca pensei que tivessem ombros.

O conto da semana - A Queda de um Anjo - é do português Afonso Cruz (1971) e está na Biblioteca Digital do Jornal Diário de Notícias (acessível gratuitamente mediante registro, aqui).

Uma mulher de 80 anos morre, vai para o Paraíso mas descobre que o marido pegou o elevador para baixo. E faz questão de encontrá-lo, mesmo que para isso, ela mesma tenha que abandonar o Paraíso... Através da narrativa, ela vai atravessando os círculos, sempre em direção ao Inferno.

É claro que no Paraíso tentarão dissuadi-la, mas ela é irredutível. Ela sente um comichão nas costas. Que o mundo fosse imperfeito, vá lá, mas um paraíso nestas condições era inaceitável. E faz algo pior que Orfeu: para os gregos, ele desceu ao Hades para buscar Eurídice (e com ela sair de lá); aqui, a destemida narradora simplesmente pede para entrar; é como se alguém pedisse para entrar na Coreia do Norte para por lá ficar.

E a viagem continua até o primeiro círculo, a chegada, quando algo lhe acontece - ela irá adorar. Ainda que, no Inferno, ficamos sabendo, há um intenso ruído de automóveis. O trânsito anda mesmo infernal.

Ao final do conto, um PS do autor - que nos apresenta exatamente a origem da ideia do conto e uma tragédia familiar. 



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Jacques Barzun, 1907-2012


Por um acaso, descobri hoje que Jacques Barzun morreu no final de outubro, aos 104 anos. Autor de várias obras, entre elas um livro de mais de 800 páginas - Da Alvorada à Decadência. Escreveu-o aos 92 anos (segundo ele, devido à sua crônica insônia). A ideia, basicamente, de que a civilização ocidental está em franca decadência, rendeu bastante polêmica. 

Ele já havia criticado, por exemplo, o currículo universitário americano, como um "bazar", dada a miscelânea de estudos. Era considerado um renascentista; lia e escrevia sobre assuntos variados como baseball e Byron - atacava o que chamava de "gangrena da especialização". Para muitos, era descendente direto de Macaulay e Gibbon.

Que eu saiba, o livro está esgotado no Brasil. Estou à sua procura.

sábado, 3 de novembro de 2012

Em dezembro, A Cadeira, de David Dephy

No dia 12 de dezembro, às 20 horas, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000), a editora Lumme lança o plaquete com a minha tradução do conto A Cadeira, de David Dephy - de quem já falamos aqui. 

Estaremos lá, é claro, e desde já convidamos a todos.

Conto da semana, de Tania Malyarchuk


Zoran Zivkovic

O conto da semana vem do site World Literature Today. É da escritora ucraniana Tania Malyarchuk (1983) - O Demônio da Fome.

A narradora vive ouvindo as histórias contadas por sua avó, com quem tem uma relação não muito comum. A avó passou fome; na verdade, estava sempre com fome, não amava ninguém, nem mesmo a neta. 

As histórias de sua avó tinham um efeito estranho sobre a narradora que, como a autora, tem hoje 30 anos: impedia que ela vivesse as suas próprias. Ela via o mundo pelas histórias que ouvia, e logo percebeu a necessidade de se livrar dessa influência. Para a avó, que não acreditava em alma ou espírito, sua imortalidade estava garantida com as histórias que contava para a neta. Se Sherazade contava as histórias para escapar da morte, a avó contava-as para se tornar imortal, mas sabendo que isso acabaria com a vida da neta...

Ela fugiu da avó, mas não de sua influência. Ela continua sem ter as suas próprias histórias. Escapou tarde demais, reconhece. As histórias que conta para todos não são as suas, mas as que ouviu por toda a vida. Conta-as de forma não intencional; algo a move para isso, mas ela não sabe exatamente a razão. Por isso, ela implora: Ouça-me! Preste atenção em mim! E começa então a contar uma história... adivinhe quem é o seu personagem?

Mark Boog

Do Poesia Ilimitada, um poema do holandês Mark Boog (1970). A tradução é de Maria Leonor Raven-Gomes.

TEMPO

Não conseguimos enxergar onde estamos, mas sobre
esse assunto lemos livros - helicópteros que não levantam voo.

Podemos modificar o tempo: por palavras, em nada, no presente,
nas nossas cabeças. Tempo, leitor, é teoria que nos suporta.

Desapareceram palavras onde nós estávamos, brancas figuras
humanas na fita preta da máquina de escrever. Marcados,
continuamos.

Rastejando pelos montes do tempo que nos impedem a vista,
enferrujando nos sifões do tempo: sumiram-se palavras!

A fita, a paisagem, a máquina: desfiguramo-las.
Resta-nos o prazer da serrazina, o descanso do marcado a ferro

e a monumental  fuga em metáforas, em lúcida incompreensão.