domingo, 28 de outubro de 2012

Dia D (de Drummond)


No próximo dia 31, quando Carlos Drummond de Andrade faria 110 anos, será comemorado, pela primeira vez,  o Dia D. 

O Instituto Moreira Salles não esconde a inspiração em outro dia bem conhecido, o 16 de junho - Bloomsday. 

Conto da Semana, de João Tordo

Pensei, enquanto via as imagens a preto e branco saturadas que apareciam no pequeno ecrã de uma televisão antiga, que a memória sofre distorções incompreensíveis mesmo para aqueles que se consideram sãos (como eu me julgava então) e que essas distorções reforçam apenas o sentimento de que a vida é uma ficção escrita diariamente na qual tudo se torce e retorce de acordo com a vontade de alguém.

O conto da semana é do português João Tordo (1975) - Cidade Líquida. Integra uma série de 31 contos, disponibilizada pelo Diário de Notícias e que pode ser baixada gratuitamente, mediante prévio cadastro.  Se há autores, como o próprio Tordo, que são bem conhecidos por aqui, há outros que podem chegar pela primeira vez ao leitor brasileiro, como Eduardo Madeira. 

João Tordo nos apresenta ao narrador, professor de filosofia - prestes a matar Espinoza e a amaldiçoar Kant - e Roque dos Santos, diretor de cinema que se parece com George Harrison, embora o músico tivesse uma bondade no olhar completamente ausente dos olhos do realizador. E um estranhíssimo encontro com Teresa Worthless no sofá da casa de Roque. Na verdade, é uma continuação de outro conto, Águas Paradas,igualmente passado em Veneza. 



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Badenheim 1939, de Aharon Appelfeld


Badenheim 1939
Aharon Appelfeld
Tradução: Moacir Amâncio
Amarilys, 2012
172 p.

A primavera voltou a Badenheim. Na igreja da aldeia, próximo à cidade, os sinos badalaram. A sombra das árvores retirou-se para a floresta. O sol desfez os restos da escuridão e a luz estendeu-se ao longo da rua principal e, então, de praça em praça. Era um instante de transição. Os veranistas estavam prestes a invadir a cidade. Dois fiscais seguiam pela rua e examinavam os encanamentos. A cidade, que trocara muitos moradores no correr dos anos, mantinha a beleza, uma beleza singela.

Num pequeno balneário judeu na Áustria, o dr. Pappenheim conclui os preparativos para o seu famoso festival de música. Com a chegada dos veranistas e dos músicos, surge o poderoso Departamento Sanitário, a divisão de saúde pública. E todos se vêem presos na cidade. Os correios, os restaurantes, tudo é fechado, e começa a faltar comida. Enquanto isso, surge a ordem de evacuação para a Polônia.

Todos nós sabemos o que significou esse bloqueio. Mas o dr. Pappenheim ficou eufórico:

- Aqui o público formado pelos veranistas é muito simpático. E este ano, por causa do bloqueio, a atmosfera é intimista. Se o maestro nos conceder uma apresentação, será a experiência de nossas vidas.

Todos nós sabemos o que aconteceu com os judeus enviados para a Polônia. Mas o dr. Pappenheim estava bem otimista:

- Ensaiar, meninos, ensaiar - incentivava-os Pappenheim - Em pouco tempo partiremos para a Polônia e vocês não ensaiam? As exigências artísticas na Polônia são muito rigorosas.

Appelfeld não utiliza, em momento algum, as palavras "nazista" ou "campo de concentração". A ideia de negação está em todo lugar. As preocupações são as mais absurdas - perguntam, inclusive, se na Polônia teriam direito à aposentadoria...

Por outro lado - e o mais assustador - lemos o livro em perspectiva. Nós sabemos o que se passou. Mas não um veranista judeu em Badenheim em 1939 - não em toda a sua extensão. Para nós, Pappenheim é como Pangloss, com seu otimismo cego. Mas para aqueles que estavam com ele, talvez apenas otimista. As restrições são impostas com uma aparente naturalidade e relação de causa e consequência que iludem os personagens.

No final, o inevitável - imundos vagões de carga se abrem para os passageiros esperando pela "viagem", vozes berrando para que entrem logo de uma vez, as pessoas desaparecendo nos vagões. E um dos melhores encerramentos de romance que li nos últimos tempos. 

Appelfeld não poderia ser mais claro - ainda que o seja de forma tão indireta.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tolstoi lê Tolstoi



Uma raridade, disponível (ao menos por enquanto) no YouTube. Tolstoi lê em russo, inglês, alemão e francês, diretamente de sua propriedade em Yasnaya Polyana, em 31 de outubro de 1909. O som não ajuda muito, mas não deixa de ser interessante.

domingo, 21 de outubro de 2012

A Irmã de Freud, de Goce Smilevski


Mais um romance lido via Kindle, mas que já tem seus direitos vendidos no Brasil, devendo ser lançado por aqui em 2013; segundo o autor, pela Bertrand Brasil. O romance, vencedor do prêmio da União Europeia de 2010, é narrado por Adolfina Freud, uma das irmãs de Sigmund. Nunca li nada sobre psicanálise ou algo semelhante; meu interesse no livro veio de uma amostra - os 14 Pequenos Gustavos, publicada na antologia BEF.


Adolfina tinha um único conforto e alívio durante sua infância - ela que sempre foi rejeitada pela mãe, que lamentava o fato de ela não ter morrido: a companhia de seu irmão Sigmund. Sobre ele, há muita discussão sobre seu caráter: talvez a maior crítica seja justamente o fato de não ter tido perspicácia para perceber o perigo que Hitler representava. Ao menos era o que ele mesmo dizia; que os alemães logo se dariam conta de sua loucura e o defenestrariam da Chancelaria. Ele sempre disse às irmãs que não havia motivo para preocupações, mesmo vivendo em Viena quando da Anexação de 1938.

E, no entanto, obteve vistos extras de saída e partiu para Londres, escolhendo quem o acompanharia (seu médico, seus empregados e a cunhada) e ignorando suas irmãs. Adolfina sentiu isso; ela e as irmãs Paulina, Rosa e Maria, já muito idosas, foram presas fáceis para os nazistas, e acabaram perecendo em campos de concentração. Ele não procurou, em momento algum, obter os tais vistos extras que poderiam tê-las salvado.

Nessa época, já estava ele gravemente doente, com o câncer na boca que o mataria, ainda antes do início da Segunda Guerra. Esse desprezo; essa indiferença em relação ao destino das irmãs ficaria marcado para sempre em Adolfina.

Freud se considerava germânico, e não judeu; Adolfina nos conta que somente a partir da ascensão do nazismo Sigmund passou a se perceber não exatamente como um judeu, mas como alguém dito judeu. Talvez por isso tenha diminuído a importância de Hitler. Lembro-me dos Diários de Victor Klemperer. Ele, que lutou e foi condecorado na Primeira Guerra, nasceu judeu e se converteu ao protestantismo, sempre se considerando alemão - dizia que ao menos isso (sua religião) os nazistas não poderiam decidir. 

Sigmund é a estrela da família, Adolfina é sempre ignorada e passa temporadas no hospício. Dela se sabe tão pouco que Smilevski observou, em nota ao romance - o silêncio em torno de Adolfina é tamanho que eu só pude escrever esse romance através da sua voz. Foi a forma, ao que parece, de sair de uma narrativa biográfica e adentrar, definitivamente, no da ficção histórica.


Vemos as relações de Adolfina com sua família - em especial com Sigmund e a mãe -, seu envolvimento com Rainer, que termina de forma trágica; sua amizade com Klara, irmã de Gustav Klimt; os longos períodos no hospital psiquiátrico. Há discussões sobre o livro Moisés e o Monoteísmo e uma discussão com seu médio, dr. Goethe, que duvida da seriedade das pesquisas de Sigmund.

Mas o que parece ser o grande momento do livro é justamente o último capítulo, onde Adolfina caminha para a morte. Ela nos relata sua própria morte que, afirma, é esquecimento; o ser humano nada mais é do que lembrança. I was entering into death and I promised myself that death is nothing other than forgetting (...)
I repeated this while I waited for my death * I repeated that death is only forgetting and I repeat what I will forget.
I will forget.

Um grande romance que merece ser lido mesmo por quem não conhece em detalhes a vida de Freud, e que felizmente deve chegar às livrarias brasileiras em breve. Como sempre, fica a promessa de divulgar a edição brasileira, quando for lançada.

sábado, 20 de outubro de 2012

Conto da semana, Poseidon, de Kafka




Poseidon estava sentado à sua mesa de trabalho e fazia contas. A administração de todas contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho infinito. Poderia dispor de quantas forças auxiliares quisera, e com efeito, tinhas muitas, mas como tomava seu emprego muito a sério, verificava novamente todas as contas, e assim as forças auxiliares lhe serviam de pouco. Não se pode dizer que o trabalho lhe era agradável e na verdade o realizava unicamente porque lhe tinha sido imposto; tinha-se ocupado, sim, com frequência, em trabalhos mais alegres, como ele dizia, mas cada vez que se lhe faziam diferentes propostas, revelava-se sempre que, contudo, nada lhes agradava tanto como seu atual emprego. Além do mais era muito difícil encontrar uma outra tarefa para ele. Era impossível designar-lhe um determinado mar; prescindindo de que aqui o trabalho de cálculo não era menor em quantidade, porém em qualidade, o Grande Poseidon não podia ser designado para outro cargo que não comportasse poder. E se se lhe oferecia um emprego fora da água, esta única idéia lhe provocava mal-estar, alterava-se seu divino alento e seu férreo torso oscilava. Além do mais, suas queixas não eram tomadas a sério; quando um poderoso tortura, é preciso ajustar-se a ele aparentemente, mesmo na situação mais desprovida de perspectivas. Ninguém pensava verdadeiramente em separar a Poseidon de seu cargo, já que desde as origens tinha sido destinado a ser deus dos mares e aquilo não podia ser modificado.

O que mais o irritava – e isto era o que mais o indispunha com o cargo – era inteirar-se de que como representavam com o tridente, guiando como um cocheiro, através dos mares. Entretanto, estava sentado aqui, nas profundidades do mar do mundo e fazia contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem da qual além do mais, quase sempre regressava furioso. Daí que mal havia visto os mares, isso acontecia apenas em suas fugitivas ascenções ao Olimpo, e não os teria percorrido jamais verdadeiramente. Gostava de dizer que com isso esperava o fim do mundo, que então teria certamente ainda um momento de calma, durante o qual, justo antes do fim, depois de rever a última conta, poderia fazer ainda um rápido giro.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Conto da semana, de Fred Di Giacomo

O conto da semana vem de um livro que será lançado no dia 25 de outubro pela Editora Patuá  - Canções para ninar adultos, de Fred Di Giacomo. É da mesma editora o livro de contos Mind the Gap, da Vera Helena Saad Rossi. A edição é caprichada, no formato de um compacto de vinil e dividido, como um disco, em dois lados; o Lado A tem clara influência de escritores como Stevenson, Céline, Kafka e Borges; o Lado B, mais "maldito". 

Outro aspecto que chama a atenção: uma sugestão, ao final do livro, de músicas para acompanhar alguns contos - e a expressa recomendação de que as demais histórias sejam lidas em silêncio.

Destacamos, na verdade, dois contos, um de cada lado.

No Lado A, O homem que colecionava dedicatórias, o narrador - Pietro - nos conta de sua peculiar coleção de livros, mais exatamente de dedicatórias em livros. Coleção iniciada com um presente de seu pai, um exemplar de a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com uma dedicatória que dizia: 'para meu filho, Pietro, um livro que marcou minha infância. Um dia você será um homem e então desbravaremos os 7 mares juntos. Com amor, seu pai'.

Pietro nos fala de sua coleção, sem deixar de dar alguns recados - fala que as pessoas não entendem o que livros de Paulo Coelho fazem na sua coleção (para Paulo Coelho, aliás, dedica um miniconto bem interessante...); fala das obras ruins que possui, e cita um candidato a prefeito derrotado este ano. Será que ele possui um exemplar de Marimbondos de Fogo? Mas uma "autodedicatória" lhe chama a atenção e Pietro passa a procurar a autora.

No Lado B, A dama do fechamento, uma fantástica estagiária do caderno de cultura - uma máquina de provocar taquicardia - devora estagiários, repórteres, editores, faxineiros, mas não consegue conquistar um determinado jornalista, revelado na última linha.

Os contos revelam não apenas um escritor, mas também um leitor atento; a prosa é ágil e bem-humorada e o resultado de tantas citações em nenhum momento fica pesado ou artificial. Definitivamente, vale conferir. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Lamento muito


Para Ai Weiwei o Nobel da Literatura 2012 é um autor alinhado, não independente

Wei Wei, sobre a escolha de Mo Yan, aqui.

Nobel para Mo Yan


E o Nobel foi para Mo Yan (pseudônimo de Guan Moye e que significa "não fale"). Aos 57 anos, ele estava bem cotado na Ladbrokes e outras casas de apostas. Chamam-no de  o "Kafka chinês". Curiosamente, não se trata de um autor proibido pelo governo, tanto que recebeu em 2011 o Prêmio Mao Du, o principal do seu país, e é vice-presidente da Associação de Escritores da China. Em 2009, boicotou a Feira de Frankfurt, que convidou autores banidos pelo regime. 

Curioso para um "não fale"...

Não tem nenhuma obra traduzida por aqui, e confesso que nunca tinha ouvido falar dele antes das tais listas de favoritos para o Nobel. Mas seu romance O Sorgo Vermelho foi ao cinema, pelas mãos de Zhang Yimou, e recebeu o Urso de Berlim de 1988. 

Para a Academia, ele associa imaginação e realidade, perspectiva histórica e social, criando um universo que, pela sua complexidade, lembra escritores como Faulkner e García Márquez.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nobel de Literatura nesta quinta




É quinta-feira. Ano passado, o vencedor (Tranströmer) estava indicado em segundo lugar na casa de apostas Ladbrokes.

Para este ano, e neste exato momento, assim está a lista:

Haruki Murakami, japonês e favoritíssimo nas apostas;
Peter Nadas, húngaro
William Trevor, irlandês e considerado um mestre do conto (e eu não o conheço...)
Mo Yan, pseudônimo de Guan Moye, chinês
Alice Munro, canadense.

Nos últimos dias o poeta sírio Adonis andou perdendo algumas posições. Além de sua obra, pesa a seu favor o fato de a Síria estar no foco das atenções. E o holandês Cees Nooteboom. E os suspeitos de sempre, como Philip Roth...

E então, na quinta-feira, deverá sair a fumaça branca das chaminés da Academia. Alguém arrisca um palpite?


A Dançarina e o Ladrão, de Fernando Trueba


No original, El baile de la Victoria. Dirigido por Fernando Trueba e baseado no romance homônimo de Antonio Skármeta (ambos assinam o roteiro; Skármeta faz uma ponta, como um respeitado crítico de dança). O argentino Ricardo Darín (O Segredo de Seus Olhos) é o famoso arrombador de cofres Nicolás Vergara Grey. Sai da prisão uma anistia geral, quando o regime de Pinochet dá lugar à democracia. Quem também obtém a liberdade, pelas mesmas razões, é Angel Santiago (Abel Ayala). Este quer dar um grande golpe; Grey quer recuperar a família (sem sucesso; a mulher está com outro, um pinochista milionário).



Angel conhece Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer), uma mulher estranha e muda. Viu seus pais serem presos pela polícia de Pinochet e desaparecerem para sempre, e desde então nunca mais falou. Vive com a professora de balé interpretada pela brasileira Márcia Haydée e sonha com a elitizada Academia de Dança de Santiago.

Santiago tenta convencer Grey a participar do golpe - o cofre de um general que enriqueceu ilicitamente sob o regime militar, algo que obviamente torna a dupla quase que em herois. Depois de muito relutar, ele acaba cedendo, depois de conhecer Victoria.

As cenas mais interessantes são as de Santiago e Victoria andando a cavalo no meio de Santiago entupida de gente, algo que dá um certo tom de fábula. Outras cenas plasticamente muito belas - mas para ver na tela grande do cinema - são as da fuga pelos Andes, em direção à Argentina. Comédia, drama, tudo bem ponderado e conduzido por Trueba.

Victoria apresenta uma coreografia baseada no "Soneto da Morte", de Gabriela Mistral. É um tributo as pais desaparecidos. 

Do nicho gelado em que os homens te puseram,
abaixarei-te à terra humilde e ensolarada.
(...)

E temos Darín cantando El día que me quieras. Não me lembro se o filme passou por aqui (Belo Horizonte); acredito que não... De qualquer forma, uma boa opção para a locadora.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As Pontes de Konigsberg, de David Toscana

David Toscana
As Pontes de Königsberg
Tradução: Michelle Strzoda
Casa da Palavra, 2012
250 p.

O mexicano David Toscana já teve outros romances publicados por aqui, mas este é o meu primeiro contato.

O título remete a um antigo problema, que foi solucionado por Leonhard Euler, em 1736: seria possível atravessar as sete pontes da cidade de Königsberg (atual Kaliningrado) sem repetir nenhuma? Euler demonstrou que isso é impossível. 


Os personagens de Toscana viajam no tempo e no espaço - sem sair de Monterrey, Floro, Blasco, o "polaco" (três bêbados) , Gortari e Andrea (uma professora) vão à cidade alemã, durante o cerco soviético durante a Segunda Guerra. Mas, paralelamente a isso, Gortari nos conta o desaparecimento de seis meninas - uma delas a sua irmã - que saem da escola e nunca mais são vistas, em 1945.

Para Gortari, Konigsberg surge com o desafio proposto por Andrea na escola - o mesmo problema que foi desvendado por Euler. E sobre as pontes, Gortari põe-se a pensar:

Pontes centenárias. Indestrutíveis.
Sua história devia ser muito distinta da de nossa ponte, a San Luisito, que desmoronava a cada temporada de furacões e que precisava ser reconstruída vezes seguidas.
Até que se decidisse não voltar a erguê-la.
Então também teríamos a charada da ponte de Monterrey. Como atravessar uma ponte que não existe sobre um rio inexistente?

Sobre esta única ponte de Monterrey, Gortari e Andrea se encontrarão, cada vez como se estivessem em uma das pontes de Königsberg. E Toscana não se furta a ironizar a mania dos soviéticos de trocarem os nomes de cidades pelos de seus líderes - Lenin, Stalin e Kalin - afinal, Gortari nos conta a história já nos anos 60/70.

Outra conexão está entre as meninas desaparecidas no México e a onda de estupros que assolou Königsberg - e cada cidade alemã invadida pelos soviéticos. A irmã desparecida permanece como um fantasma na casa; toda noite, a família faz reverência ao seu lugar vazio na mesa de jantar, e Gortari sempre se despede da irmã ao se deitar. Os parentes das vítimas jamais desistiram de encontrá-las, ainda que o jornal da cidade, que teve grande importância em localizar outras tantas pessoas, já tenha desistido, tornando cada vez mais raras e sintéticas as notas e anúncios de "procura-se".

Toscana já disse que as Canções das Crianças Mortas, de Mahler, foram sua inspiração, além do fato de ambas as cidades significarem "monte do rei". 


sábado, 6 de outubro de 2012

XXXI Concurso de Microcontos da Universidade de Sorocaba

O microconto 4 de Junho de 1989 recebeu menção honrosa no concurso organizado pela Universidade de Sorocaba. A comissão julgadora foi composta por Bianca Nóbrega Silva, Daniela Aparecida Vendramini Zanella, Maria Angélica Lauretti Carneiro, Marcelo de Barros Ramalho e Márcio José Pereira Camargo. Veja aqui.

Conto da semana, de Miroslav Penkov



Miroslav Penkov (1982) acaba de receber o BBC International Short Story Award de 2012, com East of the West. O conto dá o título de uma coletânea com mais sete histórias do jovem autor búlgaro, e é o conto da semana.

Precisei de 30 anos e da perda daqueles que amei para finalmente chegar em Belgrado. Agora estou caminhando do lado de fora do apartamento da minha prima, com flores em uma mão e uma barra de chocolate na outra, ensaiando minha pergunta a ela. Agora mesmo um taxista sérvio cuspiu em mim e perdi tempo para tirar a mancha da minha camisa. Contei até onze. Vera, repito mais uma vez na minha cabeça, você casa comigo? (tradução livre).


Penkov inspirou-se num artigo de jornal sobre duas vilas na fronteira entre a Bulgária e a Sérvia, onde a cada cinco anos a população se reunia, com a autorização de ambos os governos, porque 70 anos antes formavam uma única cidade, búlgara. 
No conto, o narrador - Vladislav - se encontra, a cada cinco anos, com sua prima Vera – por quem é apaixonado – que mora do outro lado do rio. Eles se encontram clandestinamente, nadando no meio do rio; ao fundo jaz uma antiga igreja. A irmã de Vladislav, Elitsa, sonha em fugir para o Ocidente, a respeito do que, aliás, sabe muitas coisas. Ela quer fugir e viver em Munique, com seu namorado Boban, que também pertence à outra margem. 

Sobre sua mãe: professora na escola local, o que lhe causa problemas - não pode chamá-la de mãe durante as aulas, e ela ainda por cima sempre sabe se ele fez ou não o dever de casa. Por outro lado, consegue as questões das provas, e as vende aos colegas...

A história segue o rio - ele é um personagem tão importante quanto Vlad ou Vera. O comunismo acaba, Vera deixa o país, casa-se e tem um filho; o marido morre no Kosovo (já estamos na década de 90); ela escreve para Vladislav, quase que implorando pela sua visita. Ele agora está sozinho - a irmã foi assassinada pelos guardas da fronteira e os pais já morreram... 

Uma coisa boa sobre nossos países é que se você não pode comprar algo com dinheiro, pode comprá-lo por muito dinheiro, constata, após subornar os guardas da fronteira. E a narrativa retorna ao ponto de partida, mas o que acontece quando ele finalmente encontra Vera não pode ser dito, mas lido. É esperar para ver se ele é traduzido por aqui. É possível acompanhar, em inglês, a entrevista em que Penkov fala do conto, aqui.




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Como Marco Polo

Philippe Valéry (1964) é um sujeito corajoso - e sortudo. Abandonou um emprego em uma multinacional americana, depois de ter passado pela embaixada francesa no Japão, para se dedicar a um sonho: refazer, mais de 700 anos depois, o percurso de Marco Polo pela rota da seda. O resultado está no livro Par les sentiers de la soie: a pied jusqu'en Chine, editado na França pela Transboreal (2003) e que aguarda tradução por aqui. Li como exercício de francês. 

<i>Valéry, Philippe</i><br>Par les sentiers de la soie. A pied jusqu'en Chine

O percurso levou dois anos e 10.000 km; de Marselha a Kashgar (China), passou por Veneza, Istambul, Geórgia, Uzbequistão... o mesmo percurso de Marco Polo e por onde passaram Alexandre o Grande e Gengis Khan. Uma condição: o percurso teria de ser feito à pé, tal como no "projeto inicial". O difícil foi explicar isso, de forma convincente, para os diversos guardas de fronteira. É bem verdade que ele iniciou a aventura em 1997, antes, portanto, do 11 de Setembro. Mas passou pelo Afeganistão já (ainda) em plena guerra entre a Aliança do Norte e os Talibãs.



Não dá para ter certeza de que sua viagem foi mais simples e segura que a de Polo. Ele atravessou os Bálcãs quando a guerra no Kosovo estava no auge e entrou nas antigas repúblicas soviéticas recém-libertas do comunismo - e não teve a sorte de receber do imperador uma autorização, como conseguiu Marco Polo:


Kublai Khan entregando uma placa de ouro a Marco Polo, autorizando sua viagem

Valery atravessa os países sem escapar de uma ou outra noite numa delegacia ou posto de fronteira. Por outro lado, sempre encontra cidadãos dispostos a ajudar e a oferecer um teto. Na década de 90, é curioso saber que, para muitos, o maior temor noturno é a presença de lobos. É também uma viagem no tempo. 


Os capítulos mais interessantes são os sobre o Afeganistão (ele esteve com Massoud, que foi assassinado meses antes do 11 de Setembro) e o Turcomenistão, onde um ditador, Niyaziv, que governou de 1990 a 2006 e que dão o seu nome para tudo, é presidente vitalício. Valéry é irônico em relação a algumas curiosidades - Niyazov é o Grande Pai dos Turcomenos e está em cédulas de dinheiro, garrafas de vodca, ruas e avenidas. Na Georgia, esteve em Tibilisi e viu de perto os conflitos com as minorias pró-Rússia ao norte. 

No Irã, sua condição de estrangeiro ocidental rendeu-lhe alguns pequenos problemas e constrangimentos - como no Afeganistão. A única, digamos, decepção, é em relação ao muito pouco que é dito justamente sobre a China, o destino final. Outro aspecto estranho foi o fato de que, a despeito dos dois anos de viagem, a narrativa ser um tanto impessoal demais. Isto faz com que o livro, que tinha tudo para ser extraordinário, seja "apenas" bom.

Na Ásia Central, encontra povos descendentes de Gengis Khan - motivo de profundo e incontido orgulho por parte destas populações - e um modo de vida que parece não ter mudado muito nestes últimos séculos, sobretudo quando parte para os vilarejos do interior. As paisagens naturais estão praticamente todas lá, intocadas, mas a ênfase está mesmo nas pessoas, que compartilham com um estrangeiro meio maluco - quem sairia de Marselha à China à pé? - segredos da vida nos países menos conhecidos dos ocidentais. Há, sim, uma conexão com o mundo moderno - o futebol (afinal, em 1998 a França ganhou a Copa, e os muçulmanos não se cansaram de dizer que foi graças a eles que o país conquistou seu primeiro grande título. A edição é ricamente ilustrada com fotos que o autor tirou ao longo dos dois anos.

Eu, que não sou tão corajoso assim, me lembro de uma empresa de viagens exóticas que oferecia um roteiro semelhante - partindo da Ásia Central. Depois de 2001, obviamente, este pacote saiu de circulação...

Bookoffice

bookoffice

Um site para acompanhar a literatura portuguesa contemporânea. Vale acompanhar, aqui. 

Eric Hobsbawm, 1917-2012


Morreu Eric Hobsbawm. Lido em todo o mundo, inclusive no Brasil. Aqui,uma entrevista para o Estado de S. Paulo. Ele reclamava que as pessoas, hoje, viviam algo como a eternização do presente - as coisas são como são e jamais mudarão, o que, obviamente, é algo irreal. Para Santo Agostinho, uma forma de inferno. Li A Era dos Extremos e Sobre História. Fez parte de uma geração de comunistas britânicos. Criticou violentamente os trabalhistas britânicos e, com especial empenho, Tony Blair. Entre seus desafetos, Tony Judt, autor do incrível Pós-Guerra, e que esculachou o comunismo de seu ex-amigo, que teria "romantizado bandidos rústicos".