sexta-feira, 28 de setembro de 2012

14 Pequenos Gustavos, de Goce Smilevski

Image of Goce Smilevski

Goce Smilevski (1975) aparece na BEF 2010 com "Quatorze Pequenos Gustavos". Na verdade, é um trecho de seu romance A Irmã de Freud, que deve aparecer no Brasil em breve, pela Bertrand Brasil. Antes disso, falaremos do livro aqui (via Kindle).

O conto da semana, portanto, não é exatamente um conto, mas pode ser lido como um. Smilevski explora um lado pitoresco e pouco conhecido de Gustav Klimt (1862-1918): o infeliz pintor teve quatorze filhos, com quatorze mulheres diferentes. Smilevski imaginou-os ainda como quatorze Gustavos. Klimt, quando morreu, deixou quatorze pequenos Gustavos

Para Klimt, a cama era um campo de batalha - um lugar onde prazer e raiva tornam-se indistintos:
It was the models who posed for him, the women he met at the receptions held at his patrons' housesm the prematurely aged women who looked ten years older than they actually were and who cleaned his studio, it was these women who gave birth to his children, and all these children were male and they were all called Gustav and they all had different last names: their mother's.

A única mulher que realmente amou, Emilie Flöge, nunca lhe deu um filho. Adolfina, a irmã de Freud, travou contato com a irmã de Klimt, Klara, num hospital psiquiátrico em Viena. Klimt nunca perguntou pelos filhos, que para ele foram apenas os resultados de atos há muito praticados. Era Klara quem andava por Viena, ajudando as mães dos Gustavos - todos os meses, passava em cada uma das casas, com o dinheiro que recebeu do irmão; era ela quem levava ao médico, quando necessário.

Quando o pintor morreu, Klara ficou inerte, muda, deitada sobre a cama sem dizer uma palavra. Quando o Gustavo mais velho soube do seu destino, todos eles foram visitá-la, e foi neste estado em que a encontraram. Smilevski constroi uma narrativa a partir de fatos reais, sem descuidar da ficção, e o trecho que saiu na antologia gera expectativas em relação ao romance.

Colóquio, Revista de Artes e Letras, 1959-1970

A Fundação Calouste Gulbenkian disponibiliza os 60 números de sua revista, publicada entre 1959 e 1970, como você pode ver aqui.

Capa do N.o 1 (Jan)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, de Herta Müller

Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio
Herta Müller
Tradução de Claudia Abeling
Editora Globo Livros (selo Biblioteca Azul)
2012, 248 páginas


Esta foi uma semana "Herta Müller", autora que até o início do mês jamais tinha lido. Este livro reúne diversos artigos, ensaios e discursos - inclusive o que proferiu ao receber o Nobel de 2009. Não se trata, portanto, de um romance, como informam vários sites de compras - e várias livrarias - mas de um livro que me fez lembrar vários outros:

Herta Müller é alemã nascida na Romênia, pertencente à minoria alemã do Banato. Suábios do Banato. A minoria sempre se manteve fiel à tradição alemã e ficou extremamente empolgada com a chegada dos nazistas durante a Segunda Guerra. O pai e o tio da autora, por exemplo, integraram o Exército e a SS. Ela não esconde isso, e deixa claro o seu constrangimento. Evidentemente, este apoio de uma minoria ao invasor do país em que vive teve um preço a ser pago - e aí me lembro do extraordinário Pós Guerra, de Tony Judt, que conta como, nos primeiros anos depois da derrota alemã de 1945, houve uma infinidade de deslocamentos populacionais e grandes massacres de minorias - em muitos casos, com mais mortes do que propriamente durante o conflito.

Outro ponto importante é a descrição do fardo que a polícia secreta representou na vida de todos os romenos e alemães - a Securitate, o regime comunista, Ceausescu. Apesar de não abordar o caso romeno, o livro de Tina Rosenberg, Terra Assombrada, conta uma história que se encaixa com perfeição no contexto: com o fim da Alemanha Oriental muitos alemães foram procurar seus próprios dados nos arquivos da Stasi. A surpresa foi que as informações que os agentes dispunham eram de tal forma detalhadas, precisas e íntimas que logo se percebeu o tamanho do problema: o informante era o próprio cônjuge. Assim, depois da queda do Muro, da reunificação do país e da abertura dos arquivos, houve uma avalanche de pedidos de divórcios - muitas vezes os dois cônjuges espionavam um ao outro. A situação, que pode ser encarada até com certa comicidade, mostra a intensidade do regime.

Herta é, também, Cristina, a inimiga do Estado. Ela conta como o regime procurou fazer com que todos acreditassem que ela era não uma perseguida política, mas uma de suas espiãs e agentes. Era a forma perfeita de desmoralizá-la; uma forma de acabar com sua credibilidade - com resultados e repercussões que ultrapassaram em muito 1989. E uma lista de autores aos quais teve acesso clandestinamente: Soljenitsin, Thomas Bernhard, Handke, Daniil Harms, Klemperer, Canetti e Pastior.

Alguns trechos muito atuais - pois até hoje existem ditaduras de todos os matizes. Algumas duram desde sempre e não param de nos assustar, como a do Irã. Outras, como a da Rússia e a China, vestem-se com roupas civis, liberalizam sua economia - mas os direitos humanos estão longe de se desgrudar do stalinismo ou do maoísmo. E há as semidemocracias do Leste Europeu, que de tanto tirar e por as roupas civis desde 1989 já quase as rasgaram.


E, em qualquer hipótese, sob qualquer circunstância, lembra-nos: “A literatura fala com cada um individualmente – ela é a propriedade privada que permanece na cabeça. Nada mais fala de maneira tão incisiva conosco que um livro. E não espera nada em troca, exceto que pensemos e sintamos” – conclui seu discurso de agradecimento à Academia Sueca. 

Para quem lê em alemão - o que não é o meu caso - algumas curiosidades, como a associação que ela faz entre palavras como lesen (leitura) e leben (vida) e schreien (gritar) e schreiben (escrever). 

E uma situação que ocorreu quando ainda era criança:
 
“Certa vez, na festa da escola, fui escolhida para recitar no palco um poema do partido. Decorei-o durante semanas. Mas, na hora de me apresentar, fui tomada por um pânico de gaguejar e isso significaria envergonhar a escola, o partido, o vilarejo todo, provavelmente a pátria (...) Eu me segurei, não soltei mais o botão e, por desespero, em vez de falar “O partido” como título do poema, falei “A andorinha”.
 
“Fui castigada pela direção do colégio, duas semanas fechada em casa, quer dizer, eu não podia deixar minha casa durante todas as férias de inverno. E é claro que o vizinho soube disso (...) Ele se divertia com a minha reclusão: ‘já que você é tão burra como sua andorinha, podia ter dito logo que a andorinha está voando para fora do partido’.

A questão que atravessa todos esses discursos e ensaios que formam o livro pode ser sintetizada numa pergunta feita pela própria autora, observando refugiados do Kosovo: eles escaparam da guerra em casa, pensei, os pés se ergueram e partiram - mas e a cabeça?
 

domingo, 23 de setembro de 2012

Ojo Seco

Uma boa descoberta, para quem lê em espanhol, é o site Ojoseco,do Chile. Ensaios, crônicas, contos e entrevistas - hoje, com Andrés Neuman.

Lançamento - Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda


Lançamento do livro Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda
Da editora Patuá, parceira do blog. O editor e poeta Eduardo Lacerda lança seu livro de poesia, Outro dia de folia, em dezembro. Mais informações, aqui.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Conto da semana, de Herta Müller

Acidentalmente, uma semana Herta Müller. Aqui, o conto da semana, A canção de marchar, que integra a antologia Escombros e Caprichos - o melhor do conto alemão do século XX, organizada por Marcelo Brakes e editada pela gaúcha L&PM.

Herta Müller


Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí seria o fim, disse papai.

Um dia os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.

Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços, ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.

Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. As mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso , batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: "E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim".

Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.

Na terceira estrofe papai se curvou de dor.

Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.

Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitava sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.

Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.

No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que o marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.

Quando estava anoitecendo, as mulheres levantaram-se e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhavam como se fossem medalhas.

Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.

O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.




terça-feira, 18 de setembro de 2012

Joseph Anton

Salman Rushdie volta a ser lembrado - em meio aos protestos dos muçulmanos pelo recente filmeco no Youtube. A fatwa foi decretada em 1989; em 1998 o Irã desistiu de cumpri-la, mas o atual governo parece ter mudado de ideia. A coincidência é óbvia. Acaba de sair seu livro de memórias, Joseph Anton, um dos nomes que ele se viu forçado a adotar - uma homenagem a Conrad e Tchekov. 

Contos da BBC

A Rádio BBC 4 selecionou os dez contos para a final do seu concurso internacional de contos. Você pode ouvi-los aqui. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Lorde Macaulay e Sócrates




Após a condenação, a corte não tinha de aceitar a punição pedida pelo promotor. O próprio acusado poderia sugerir uma pena mais branda. E os promotores pareciam esperar, ou mesmo desejar, que Sócrates propusesse o banimento, que a corte teria aceitado e, com isso, aliviaria a sua culpa pela morte dele.

Sócrates não teve nada disto, como Platão relata. Em vez de pedir clemência, Sócrates exibiu seu incomum talento para irritar. O que nos ajuda a compreender a impaciência em relação ao seu caráter manifestada por argutos historiadores. "Quanto mais eu leio sobre ele", declara lorde Macaulay, "menos eu me surpreendo com o fato de que eles o envenenaram".

Daniel J. Boorstin, Os Investigadores, Civilização Brasileira, 2003, p. 55. Boorstin (1914-2004) foi nomeado Bibliotecário da Biblioteca do Congresso, e autor do excelente Os Descobridores. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Timoféiev, de Leonid Dobytchin


O Conto da Semana é do russo Leonid Dobytchin (1894-1936) e integra o volume Encontros com Lis e outras histórias, da parceira do blog, Editora Kalinka. Autor das primeiras décadas da finada União Soviética, é equiparado a Babel e Kharms. 

Reprovado no exame, Timoféiev nem foi almoçar. Dirigiu-se direto para casa, tirou a jaqueta e deitou-se para dormir. Atarracado, com o rosto cinzento e a barbicha amarela desgrenhada, ele deitou-se de costas e começou a roncar. Sobre sua testa, curvando-se como varas de pescar, pendiam algumas mechas inconsistentes, às quais aderiam os cabelos ralos. A camisa azul de cetim desbotada escapou do cinto, e, entre ela e a calça, apareceu a camisa de baixo, manchada por um percevejo esmagado. Moscas assentavam no seu rosto - ele gemia e as afugentava com a mão, mas não acordava. Só foi acordar de noite, após o pôr-do-sol, com a luz ardendo numa lâmpada, largada num canto qualquer depois de uma noite longa de estudos, e a torneira aberta. Ele saltou da cama e, pondo os pés no chão, começou a esfregar os olhos com o punho da manga esquerda segurando-o com a mão direita. - Preciso pedir um samovar - disse a si mesmo e foi atrás da senhoria. Ela não estava em casa, e ele foi procurá-la no quintal.

Uma lua vermelha, pesada e opaca, como uma meia-lua de marmelada, espiava nos quintais. No poente vermelho, faixas cor de poeira se apagavam, como pó varrido e largado no canto da soleira. Tudo estava em silêncio, e a senhora, sentada num degrau da entrada, envolta num lenço grande, não se mexia, sequer piscava, deleitando-se com a tranquilidade e a quietude. Timoféiev, calado, sentou-se no degrau de cima. Eles ficaram assim, mudos e imóveis, com os olhos fixos no céu. O apito de uma locomotiva soou longe. A senhoria deu um suspiro baixo e sussurrou: - É a finlandesa. - Que finlandesa? - perguntou Timoféiev, susssurrando. - A estrada de ferro finlandesa. Eles se calaram outra vez e ficaram sentados ainda por muito tempo, quietos e retraídos, até ouvirem uma janela abrir e alguém gritar de lá: - Dária Ivánova, onde você está?  Não seria possível um samovar? - Para mim também, por favor - disse Timoféiev, então se levantou e foi para o quarto.

Pensativo, ele engolia o chá e mastigava o pão de farinha fina: algo muito importante, assim lhe parecia, aconteceu naquele instante, enquanto ele estava sentado na escada e olhava o céu toldado, que prometia chuva para amanhã.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O teu rosto será o último, de João Ricardo Pedro


O teu rosto será o último
João Ricardo Pedro
Leya, 2012
208 p.

Diz a orelha da edição portuguesa que, na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. Bota pragmatismo nisso. Desempregado e sem nunca ter escrito nada, iniciou esse romance que levou o Prêmio Leya de 2011 e, de quebra, 100 mil euros.

Num grande romance de estreia, João Ricardo Pedro (1973) traça uma narrativa absolutamente não cronológica, de três gerações de uma mesma família, os Mendes, envolvida com a ditadura de Salazar e a guerra colonial. O ponto de partida é 1974, mas o romance não trata disso.

Augusto, Antonio e Duarte - os três Mendes. O amigo do velho doutor Augusto, Policarpo, que lhe escreveu cartas por toda a vida, era um viajante que caiu no mundo. Parou em Buenos Aires,

Sendo um amante da liberdade, não deixava de ser curioso que Policarpo tivesse acabado por se estabelecer num país sujeito a uma ditadura militar. Nessas cartas de Buenos Aires, cuja primeira datava de agosto de mil novecentos e sessenta e nove, Policarpo não fazia qualquer referência à situação política da Argentina, nem relatava coisas extraordinárias das quais tivesse sido o protagonista. Nem encontros com figuras de dimensão planetária. Eram pequenas histórias. A maior parte delas acerca de clientes do seu hotel: jogadores de futebol coxos, prostitutas sem clientes, toureiros maricas, músicos surdos, banqueiros falidos, pintores daltônicos ...

Augusto Duarte foi médico por quarenta anos e ofereceu seu olho de vidro a Celestino; Antonio foi às colônias; Duarte vive em Queluz. Duarte é o fio condutor da história e o seu protagonista. Pianista excepcional que abdica de seu talento, para tristeza de sua mãe e dos seus professores. Um mistério para todos - todos que nunca conheceram ou ouviram falar de Joseph Castorp.

Pode-se dizer que se trata de um romance em contos. Os capítulos assim se parecem, mas não se deve esquecer: estamos diante de uma narrativa única; é preciso avançar para descobrir a teia que se forma, a história dos Mendes. Tudo faz sentido, mas alguma coisa se perde pelo caminho - como, por exemplo, o motivo pelo qual Celestino perdeu o olho.

O capítulo mais comentado - e não estranhem se um dia ele aparecer numa antologia de prosa - é o "minha mãe e o fim da União Soviética" (p. 129). Frases muito curtas. Repetições. Para quem se acostumou a associar a prosa portuguesa à de Saramago, algo totalmente diferente:

Sentaram-se em frente da televisão. O filho a torcer pela Holanda. Ela a torcer pela União Soviética. O marido a torcer para que alguém se aleijasse, para que houvesse invasão de campo, para que viessem os tanques de Moscovo, para que fossem a penaltis e falhassem todos para sempre, o resto da eternidade e a marcarem penaltis e a falharem, ao fim de não sei quantas hora, as pessoas a abandonarem o Estádio Olímpico de Munique, as televisões  a interromperem as transmissões em direto, e os jogadores, abandonados no relvado, a falharem penaltis. (...) Setenta anos de socialismo científico, de ditadura do proletariado, de democracia avançada e nem a merda de um campeonato da Europa, admitiu ela. 

Sim, o fim da União Soviética é sacramentado pelo gol de Van Basten na final da Euro 1988. Estranho, aliás, como os brasileiros usam pouco o futebol na ficção. Um romance que passa pelo futebol, mas também por Bruegel, por Mozart, Beethoven e Bach. O ponto alto do livro, aliás, é quando surge o quadro de uma mulher de lenço azul na cabeça, que só tinha uma perna e caminhava com a ajuda de duas muletas. 

O livro está saindo no Brasil, pela Leya daqui, na coleção Novíssimos. Vale conferir. 




terça-feira, 11 de setembro de 2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Conto da semana, de Thomas Bernhard

No tribunal distrital de Wels, uma senhora com quarenta e oito condenações anteriores, que o juiz, logo na abertura deste seu mais recente julgamento, como relata o jornal local, caracterizou como ladra anciã e bem conhecida da justiça e cuja presente acusação se devia ao furto de um monóculo inteiramente inútil para ela, roubado havia pouco de uma falecida frequentadora da ópera, a qual já não conseguia andar fazia muitos anos, não ia mais à ópera e, por essa mesma razão, não apenas nunca mais utilizara o monóculo mas também o esquecera por completo, como se verificou ao longo do julgamento – essa senhora, pois, logrou ter sua pena de apenas três meses de prisão aumentada mediante um safanão que desferiu no juiz tão logo proferida a sentença. Esperava conseguir no mínimo nove meses de prisão, porque não suportava mais viver em liberdade, alegou ela

Aumento. Tradução de Sérgio Tellaroli. Integra O Imitador de Vozes, Companhia das Letras.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O chapéu de Vermeer, de Timothy Brook


O chapéu de Vermeer
Timothy Brook
Record, 2012
Tradução: Maria Beatriz de Medina
278 p.


O que um pintor conhecido pelos belos quadros reproduzindo os interiores dos lares e das famílias holandesas tem a nos dizer a respeito da primeira onda da globalização, no século XVII? E sobre a China da dinastia Ming? O canadense Timothy Brook é professor de História da China na Universidade de Oxford escreve um livro de história, um livro sobre a expansão europeia e a busca (sim, desde o século XVI) pelo eldorado chinês. E usa como fio condutor de seu trabalho cinco quadros de Vermeer, um de van der Burch, outro de Leonaert Bramer e um prato do Museu Lambert van Meerten, em Delft.


Na única paisagem ao ar livre que produziu, Vista de Delft, vemos o porto fluvial e os escritórios e armazéns da VOC, a mitológica Companhia das Índias Orientais, a primeira grande sociedade anônima, fundada em 1602 e extinta em 1800. Para Proust, era o quadro mais belo do mundo.


Oficial e Moça sorridente - este é o quadro em que vemos o chapéu de Vermeer do título. Um chapéu feito de pele de castor, o que nos remete à América do Norte e as expedições de Samuel Champlain pelo Canadá, na tentativa de dominar os rios e as rotas comerciais. Os europeus farão alianças com tribos, em geral pretendendo evitar que os Mohawks atrapalhem o comércio da pele de castor. Mas, na verdade, o interesse principal era chegar à China - desde Cartier os europeus tentavam atravessar os rios e lagos canadenses para chegar à sua meca. O comércio funcionava porque os europeus achavam que estavam passando os nativos para trás - mas estes pensavam exatamente o mesmo. Todos achavam que lucravam...


Em Leitora à janela somos levados a prestar atenção à fruteira. A moça lê uma carta que pode ter vindo das Índias Orientais holandesas. O Tratado de Tordesilhas levou outros países à pirataria. Aqui, Brook nos leva à figura de Hugo Grotius; o jovem advogado de Delft foi contratado pela VOC para justificar a ideia de que a captura de um navio - no caso, o Santa Catarina de Portugal, não configuraria pirataria, mas um legítimo ato de defesa. O argumento mais ousado: todos os povos têm o direito de comerciar. Foi a primeira formulação de algo que até hoje está em vigor. Ora, se o comércio era livre, Portugal e Espanha não poderiam abolir esse direito, e o fato de um povo não se converter ao cristianismo não justificaria uma guerra contra ele.

Talvez os capítulos mais interessantes sejam o quinto - Escola do Fumo - e o sexto - Pesando a Prata. No primeiro, Brook mostra como o fumo conquistou o mundo, desde Colombo. E conta curiosidades como esta:

A expressão mais comum na época para designar o hábito de fumar era chi yan "comer fumaça". O problema era que a expressão chi yan tinha o mesmo som da expressão 'comer a capital'. Yan era fumaça, mas, escrito com um caractere diferente, era o antigo nome da região de Beijing. Comer Beijing era exatamente o que os guerreiros manchus e rebeldes camponeses ameaçavam fazer naquele exato momento.

Logo, fumar ou comercializar o fumo virou crime; a pena, a decapitação. Brook mostra como o fumo começou visto como um ato saudável - até recomendado para aliviar dor de dente, mordida de cobra, convulsões, frio, fome e... asma! E como esse hábito passou pelas transformações - se todos fumavam, os ricos tinham de fazê-lo de forma diferente, que evidenciasse sua alta classe, além de uma verdade que não mudou 400 anos depois:

E quando os fumantes pagam quantias enormes para comprar alguma coisa, os Estados começam a cobrar tributos enormes quando essa coisa atravessa a fronteira.


No segundo, sobre a prata: Vermeer viveu no apogeu deste metal. São moedas de prata que pesa a moça do quadro - de época em que a moeda valia o que pesava, e não o valor nela gravado. Provavelmente, a prata era de Potosí. Brook nos mostra como a VOC atuou no comércio do metal no mercado asiático. Manila era o ponto de encontro entre europeus e chineses. Numa passagem curiosa, percebemos a falta que o conhecimento dos clássicos pode fazer:

O primeiro comandante espanhol a chegar a Manila convenceu Soliman a lhe conceder terras na ilha. Usou um antigo ardil, emprestado da Eneida, de pedir um pedaço de terra do tamanho do couro de um boi. Como conta indignado um escritor chinês (...) os francos cortaram o couro de boi em fatias e uniram-nas pelas pontas até um comprimento de 12 quilômetros, que usaram para marcar o terreno e depois insistiram com o rajá para que cumprisse a promessa (...) a expressão 'perder o país por um couro de boi' entrou no léxico chinês.

Virgilio deve ter sentido orgulho... Timothy Brook apresenta, assim, como que conversando com o leitor, as conexões da história. A partir de Vermeer somos apresentados às transformações que o mundo sofria no século XVII, sua atmosfera social, cultural e econômica.  Um livro recomendado para quem gosta de Vermeer, mas sobretudo para quem também se interessa pela história.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Setembro e as apostas para o Nobel

Já correm soltas as apostas para o Nobel. Dizem que esta casa costuma chegar sempre perto. Haruki Murakami é o favorito; Ferreira Gullar paga 100 por 1.