terça-feira, 31 de julho de 2012

Lisboa - Castelo de São Jorge

Até agora não falou o viajante do castelo dito de S. Jorge. Visto cá de baixo a vegetação quase o esconde. Fortaleza de tantas e tão remotas lutas, desde romanos, visigodos e mouros, hoje mais parece um parque. O viajante duvida se o preferiria assim. Tem na memória a grandeza de Marialva e Monsanto, formidáveis ruínas, e aqui, apesar dos restauros, que num princípio reintegrariam a fortaleza na sua recordação castrense, acaba por ter significado maior o pavão branco que se passeia, o cisne que voga no fosso.

O miradouro faz esquecer o castelo. Nem parece que naquela porta morreu entalado Martim Moniz. É sempre assim: sacrifica-se um homem pelo jardim dos outros. Saramago, Viagem a Portugal, p. 364-5.

Saramago fala de Martim Moniz; segundo a lenda, ele se sacrificou, colocando o seu corpo no vão de uma das portas do castelo. Evidentemente, morreu esmagado, mas seu ato permitiu que os portugueses chegassem a tempo e, com a porta aberta, invadissem o castelo. Trata-de de uma antiga fortaleza moura. Quanto aos pavões, também os avistamos. Espertamente, estão sempre próximos ao restaurante. Acabam como uma atração: seja porque uma parte das pessoas gosta de admirá-los, seja porque a outra parte tem verdadeiro pavor de sua presença entre nossos pés, enquanto sentamos para comer e beber algo.


As ruínas do castelo pairam imponentes sobre a cidade; da Praça dos Restauradores é possível admirar as muralhas. Uma caminhada até lá exige pernas e uma coluna vertebral com todos os discos no lugar. E, lá chegando, sobe-se mais um bocado para a construção principal. A vista, como já esperávamos, é incrível; a cidade toda - até Belém - está à disposição. A Praça do Comércio, por exemplo.


Lá foi a recepção real a Vasco da Gama, que acabara de voltar das Índias com um caminho traçado. 



O castelo já foi a residência real. A partir do terremoto de 1755, que o danificou severamente - a rigor, hoje vemos as ruínas do castelo... - entrou em declínio, tendo sido reabilitado há relativamente muito pouco tempo. 

Tomar



Entra em Tomar pelo lado oposto ao Castelo dos Templários, dá, por via do alojamento, as necessárias voltas, e, não havendo hoje tempo para mais, verá a Igreja de São João Baptista e a sinagoga. Saramago, Viagem a Portugal, p. 279.


A primeira sinagoga de Portugal foi construída no século XV e encerrada em 1496, por ordem de Dom Manuel I, que determinou a conversão obrigatória dos judeus. Boa parte partiu para o Mediterrâneo, chegando até a Turquia...



O Convento de Tomar é o pórtico, é o coro manuelino, é a charola, é a grande janela, é o claustro. E é o resto. De tudo, o que mais toca o viajante é a charola, pela antiguidade, decerto, pela exótica forma octogonal, sem dúvida, mas sobretudo porque vê nela uma expressão plástica perfeita do santuário, lugar secreto acessível mas não exposto, ponto central e foco à roda do qual gravitam os fiéis e se dispõem a figurações secundárias. A charola, assim concebida, é, simultaneamente, sol radiante e umbigo do mundo.

Mas é sina dos sóis apagarem-se, e dos umbigos murcharem. O tempo está roendo com os seus invisíveis e duríssimos dentes a charola. Há uma decrepitude geral que tanto exprime velhice como desleixo. Uma das mais preciosas joias artísticas portuguesas está murchando e apagando-se. Ou lhe acodem rapidamente, ou amanhã ouviremos o habitual coro das lamentações tardias. O guia, ouvido o reparo do viajante, sai da sua torre e diz que as feridas das regiões inferiores, esboroamento, tintas arrancadas, são principalmente consequência das muitas cerimônias de casamento que ali se realizam: "Toda a gente quer casar aqui, vêm os convidados, encostam-se às colunas, sobem para as bases delas para verem melhor, e depois divertem-se a arrancar pedacinhos da pintura, se calhar para recordação". O viajante espanta-se, mas tem a sugestão pronta: "É proibir os casamentos". Esta súbita descoberta já o guia a deve ter feito cem mil vezes. Encolhe os ombros e cala-se. Não é fastio que se lhe lê na cara, é desânimo. p. 282.




Na companhia de Paulo Alcobia Neves, exploramos o templo. Conhecedor de heráldica e da história de Portugal, sobretudo da região, Paulo nos conduz aos diversos ambientes, e é impossível deixar de destacar a charola. O Convento foi construído pelos cavaleiros templários, que depois da extinção da ordem passaram a se chamar de cavaleiros da Ordem de Cristo.


Paulo nos conta que Umberto Eco andou por lá, e desses passeios saiu o romance O Pêndulo de Foucault, que está na minha estante à espera de ânimo para ser lido. E conta também histórias do local que entretêm as crianças. Histórias como a do filho que, herdando a propriedade do pai, fez questão de esconder - felizmente sem sucesso - alguns detalhes da construção. 


A atmosfera do Convento é diferente da dos outros templos que visitamos, em relação aos quais quase se pode dizer não ser muito visitada. Encontramos poucos visitantes, à exceção de alguns frades franceses, o que contribuiu para aumentar a atmosfera de mistério do local.


E terminamos o dia conhecendo a esposa e a filha mais nova de Paulo, com a certeza de que voltaremos a visitá-los.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ferreira do Zêzere

Estivemos em uma cidade não visitada pelo viajante Saramago: Ferreira do Zêzere, a minutos de Tomar. 

Paulo Alcobia Neves, primo de minha esposa, nos guiou pela pequena vila, de cerca de 2 mil habitantes, bem próxima a Tomar, onde vive. Paulo conhece a vila como poucos; conta-nos cada detalhe de sua história e das pessoas que hoje dão nome às suas ruas. Está, no momento, dedicado à restauração desta capela, de Nossa Senhora da Penha de França:



Almoçamos com Paulo na Quinta dos Valadas, em companhia de seu proprietário, o comendador Sérgio Melo, sua família e seus amigos. Antes do almoço, Ana Isabel Melo nos levou a uma visita pela propriedade.



Para as crianças, foi uma surpresa ver os animais lá criados, de javalis a raposas, passando por avestruzes - que enlouquecem com relógios, câmeras fotográficas, celulares e qualquer coisa que lhes apareça pela frente.

E partimos, à tarde, para Tomar. 


domingo, 29 de julho de 2012

Santarém



Santarém é uma cidade singular. Com gente na rua ou toda metida em casa, dá sempre a mesma impressão de encerramento. Entre a parte antiga e os núcleos urbanos mais recentes  não parece haver comunicação: está cada qual no lugar onde foi posto e sempre de costas voltadas. O viajante reconhece uma vez mais que se tratará de uma visão subjectiva, mas os factos não desmentem, ou melhor, confirma-o a ausência deles: em Santarém nada pode acontecer, seria outro palácio da Bela Adormecida se soubéssemos onde encontrar a bela.

Tem, porém, a cidade as Portas do Sol para desafogar ao longe. Teria, acrescenta duvidosamente o viajante. É que o esplendoroso panorama, a grande vista sobre o rio e os campos de Almeirim e Alpiarça, ainda mais acentuam a sensação de isolamento, de distância, quase de ausência que em Santarém se experimenta. Saramago, Viagem a Portugal, p. 306.

Passamos pela cidade onde se encontra, em repouso, o nosso prezado Álvares Cabral. 




A sua igreja, infelizmente, estava fechada ao público (desde algum tempo, toda segunda, como toda igreja, e também na terça, quando lá estávamos). Uma pena. De qualquer forma, em frente vimos sua estátua.






No Parque Portas do Sol tivemos a oportunidade de avistar, ao fundo do vale, o imponente Tejo.








E de lá seguimos para Tomar.

sábado, 28 de julho de 2012

Palácio de Queluz


Está na sala de D. Quixote, onde se diz que nasceu e morreu D. Pedro IV. Não é este princípio e este fim que comovem o viajante: não faltava mais nada que lacrimejar por coisas tão comuns. O que em verdade o perturba é a incongruência destas cenas da vida  do pobre fidalgo manchego, zelador de honra e justiça, louco apaixonado, inventor de gigantes, posto em tal lugar, neste Palácio de Queluz que leu o rocaille à portuguesa e o neoclássico à francesa, e mais errou do que acertou. Há grandes abusos. O desgraçado Quixote, que comia pouco por necessidade e vocação e castidades forçadas padecia mais do que a conta, foi à força metido numa corte com uma rainha que não queria saber de continências e um rei que as fazia muito ao faisão e ao chispe. Se é verdade que nasceu aqui D. Pedro, se nele houve, a par de interesses familiares e dinásticos que convinha assegurar, real amor da liberdade, então D. Quixote de la Mancha fez quanto pôde para vingar-se da afronta de o pintarem nestas paredes. Saramago, Viagem a Portugal, p. 354.

No Palácio de Queluz encerramos a jornada iniciada em Sintra. Os próprios portugueses o comparam a Versalhes.





O tal quarto de D. Quixote está, de fato, lá. Olhando-se para o teto, admirando as representações de passagens do livro de Cervantes, tem-se a impressão de que se trata de um aposento circular; no entanto, é quadrado como todos os outros. Trata-se de uma ilusão de ótica que os paineis no teto causam ao visitante.

Nos jardins, uma boa forma de se passar o final da tarde. Crianças em colônia de férias estão por lá, e nos lembramos que elas são bagunceiras em todas as latitudes e continentes. O pobre do monitor tenta por ordem, mas é inútil. 


Cascais e Estoril

Estas terras marginais são predilectas do turismo. O viajante não é turista, é viajante. Há grande diferença. Viajar é descobrir, o resto é simples encontrar. Por isso se há-de compreender que passe sem particulares demoras por estas amenas praias, e se nas ondas pacatas do Estoril decidir dar breve mergulho, fique este sem menção. Saramago, Viagem a Portugal, p. 352.

Como o ilustre viajante, apenas passamos pelas duas cidades. Nada contra o turismo; foi uma questão de tempo. O amanhecer enevoado nos inibiu de pensar em praia. Há diversos hoteis, de todos os tipos e para todos os tipos - aí incluindo os bolsos, que nunca deverão ser muito desguarnecidos. A cidade é mesmo cara mas merece uma tarde tranquila. Não mais que isso. 

Em Estoril, a grande atração é o cassino. E seguimos em frente, rumo ao Palácio Nacional de Queluz.

Sintra



A estrada, sinuosa, estreitíssima, vai contornando a serra como um abraço. Abóbadas de verdura protegem-na do Sol, separam o viajante ciosamente da paisagem circundante. Não se reclamem horizontes largos quando o horizonte próximo for uma cortina cintilante de troncos e folhagens, um jogo infinito de verdes e de luz. Seteais aparece insolitamente com o seu grande terreiro relvado, afinal pouco mais do que um miradouro para a planície e um cenográfico ponto de vista para o Palácio da Pena, lá no alto.

Explicar o Palácio da Pena é aventura em que o viajante não se meterá. Já não é pequeno trabalho vê-lo, aguentar o choque dessa confusão de estilos, passar em dez passos do gótico para o manuelino, do mudéjar para o neoclássico, e de tudo isto para intervenções com poucos pés e nenhuma cabeça. Mas o que não se pode negar é que, visto de longe, o palácio apresenta uma aparência de unidade arquitectónica invulgar, que provavelmente lhe virá muito mais da sua perfeita integração na paisagem do que da relação das suas próprias massas entre si. Saramago, Viagem a Portugal, p. 346.


Neste dia pegamos um forte nevoeiro. Não estávamos com o senhor Bernardino. Chegamos à base do palácio para pegar um bonde que nos leva diretamente para lá. 


Perde-se a vista que se tem lá de cima, que dizem ser muito bonita, mas ganha-se em atmosfera; a subida da serra adquire novos contornos, e é fácil imaginar como deve ter sido "fácil" construir o palácio naquela época, em cima de um penhasco. 



A cidade de Sintra é muito simpática; merecia um pouco mais de tempo. Abaixo, a Torre do Relógio. Acabávamos de sair d' A Piriquita, onde comemos o que achamos ser o melhor doce português, o Travesseiro de Sintra. E partimos em direção ao cabo da Roca, Cascais e Estoril.


Óbidos

Mas Óbidos merece todos os mais louvores. É bem possível que a vila tenha um modo de viver um pouco artificial. Sendo lugar obrigatório de passagem e permanência de visitantes, toda ela se compôs para tirar, não um retrato, mas muitos, com a preocupação de em todos ficar favorecida. Óbidos é um pouco a menina de tempo antigo que foi ao baile e espera que a venham buscar para dançar. Vemo-la muito composta na sua cadeirinha, não mexe uma pestana e está raladíssima porque não sabe se o caracol da testa se desmanchou com o calor. Mas, enfim, a menina é mesmo formosa, não há que negar. Saramago, Viagem a Portugal, p. 330.


No caminho para Óbidos, passamos por Caldas da Rainha, e o senhor Bernardino conta que a rainha estava por aquelas bandas quando se sentiu muito mal. Toda a comitiva parou, preocupada; um pastor disse aos guardas que havia um lugar, malcheiroso, que fazia muito bem às suas cabras. O guarda prendeu o sujeito, que teria comparado Vossa Alteza com uma cabra. No meio dessa confusão, a rainha interveio, e pediu explicações. As explicações foram dadas, a rainha foi até a tal fonte, e do pastor nunca mais se teve notícias. As águas, sulfurosas, curaram o mal-estar real, e naquele local foi fundada a cidade de Caldas da Rainha. A partir daí, foi construído o aqueduto, que abasteceu Óbidos por muitos séculos.

A mesma rainha adorava Óbidos, e queria fazê-la capital. O rei, que não aguentava mais a insistência da esposa, deu-lhe a cidade de presente. Bons tempos em que os reis faziam o que bem lhes dava na telha, e quem dele discordasse perdia a cabeça, sem maiores questões jurídicas e processuais...

O ponto alto do dia foi chegar a Óbidos, por volta das 16 horas, uma antes do início do Mercado Medieval. Por um lado, deu vida à cidade, agitadíssima. Por outro, tirou, ao menos naquela visita, um ar que encontramos em Ávila, na Espanha, há mais de dez anos - quando ultrapassamos seus portões, parecia realmente que tínhamos voltados uns dez séculos...

Para as crianças, um grande barato. Camelos, mercadores, tudo para recriar, com o maior detalhamento possível, uma feira medieval. Pena que tínhamos de sair relativamente cedo; o evento ia até a noite, com direito a competições medievais e ceias. Passei por uma tenda que assava coelhos inteiros, o que me aumentou o apetite - e embrulhou o estômago da turma. 






A cidade está muito bem conservada, e como sempre ressai a preocupação europeia em permitir o crescimento destes lugares extramuros, mantendo-se ao máximo o núcleo original. Cresce-se com preservação. 


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Nazaré


Que veio o viajante fazer à Nazaré? Que faz em todas as povoações e lugares onde entra? Já se sangrou em saúde, já declarou que viajar não é isto, mas sim estar e ficar, e não pode estar sempre a dizê-lo. Porém, aqui terá de retornar a ladainha para que lhe seja garantida a absolvição: devia estar e ficar para ver os pescadores irem ao mar e do mar voltarem, oxalá que todos; devia saber a cor e o bater das ondas; devia puxar os barcos; devia gritar com quem gritasse e chorar com quem chorasse; devia pesar o peixe e o salário, o morrer e o viver. Seria nazareno, depois de ter sido poveiro e vareiro. Saramago, Viagem a Portugal, p. 296.


Esperava pouco de Nazaré e, talvez por isso mesmo, tenha sido surpreendido. De Batalha, esperava algo magnífico - como de fato é o Mosteiro. De Nazaré, não sabia o que esperar, e pensei inicialmente em um ponto de apoio para um passeio de dez horas num carro. Observou o senhor Bernardino as mulheres de preto - que perderam filho ou marido para o mar - e as mulheres de sete saias. Até hoje é possível vê-las; são mais idosas, estão sempre com as tais sete saias sobrepostas e que terminam ainda acima dos joelhos. De Nazaré Alta, a paisagem é exuberante, e podemos notar ainda a parte baixa, de praia, com seu casario bem conservado e harmônico.






Na parte baixa, as ruas perpendiculares à praia, para que os gritos de socorro dos pescadores pudessem -  e possam - ser escutados por toda a vila, o que se perderia com a abertura de grandes avenidas paralelas à orla, nos conta o senhor Bernardino. E de lá partimos para Óbidos.

Alcobaça



O que de notável a fachada do mosteiro tem, é a perfeita integração dos seus diferentes estilos, tanto mais que o barroco com que culmina não faz qualquer esforço para se aproximar do gótico do portal. É verdade que este é diminuido na sua possibilidade de competição com os restantes elementos da fachada pelo facto de ter as arquivoltas lisas, sem decoração, e estar ladeado por pilastras brancas. O conjunto, portanto, apresenta uma organização e uma movimentação barroca que as duas janelas manuelinas que enquadram a rosácea não modificam. As torres sineiras são o triunfo do estilo, repetido até à exaustão por todo o País. Saramago, Viagem a Portugal, p. 297.




Lá chegamos depois do almoço; as crianças cansadas e o sol estourando. O mosteiro me interessou mais por guardar os restos de D. Pedro e Dona Inês, os imortais amantes que esperam o fim do mundo para se levantarem e continuarem o amor no ponto em que os "brutos matadores" o cortaram, se tais continuações se tolerarem no céu. Por isso, explica o senhor Bernardino, cada túmulo está em um lado, cada par de pés virado para o outro - cada um verá o outro ao se levantar no dia do Juízo Final. Concordo com o viajante: estas altas arcas tumulares praticamente escondam ao exame a sua parte mais importante, o jazente, só visível em difíceis perfis e escorços.

Batalha


A viagem não é longa, o viajante pode ir devagar. E, para seu maior descanso, deixa a estrada principal e segue por esta, modestíssima, que faz companhia ao rio Lis. É um modo de preparar-se em paz para enfrentar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória. O viajante escreve estas palavras muito seguro de si mas em seu íntimo sabe que não tem salvação possível. Onde dez mil páginas não bastariam, uma é demais. Tem muita pena de não estar viajando de avião, assim poderia dizer: "Mal pude olhar, ia muito alto" Mas é pelo chãozinho natural que vai, e está quase a chegar, não há aqui fugir um homem ao seu dever. Mais fácil tarefa foi a de Nuno Álvares, que só teve de vencer os castelhanos. Saramago, Viagem a Portugal, p. 291.

Estamos em Batalha conduzidos pelo senhor Bernardino, que nos conta detalhes da paisagem e da história do país. O Mosteiro de Santa Maria da Vitória é o conhecido Mosteiro de Batalha - a batalha a qual se refere é a de Aljubarrota, que fica há menos de cinco quilômetros. Em  1385, os portugueses venceram os castelhanos, e devem muito a Dom Nuno Álvares Pereira, cuja estátua equestre está como que tomando conta do mosteiro. 



O senhor Bernardino conta as façanhas militares de Dom Nuno; seu arrependimento pelas mortes causadas e sua decisão de partilhar todos os seus (muitos) bens entre amigos e familiares, que não estranharam a decisão (hum... ficaram com tudo; reclamar para quê?) e foi tratar de leprosos. Ainda segundo o senhor Bernardino, foi somente há poucos anos que os cardeais castelhanos deixaram de vetar o seu nome para santo. Por mais de 600 anos, o rancor falou mais alto. Foi somente em 2009 que se tornou São Nuno. Definitivamente, o senhor Bernardino torna a viagem muito mais agradável do que parece ter sido a do viajante...

Almoçamos no Restaurante Vintage, no Hotel Mestre Afonso Domingues, que deve o nome ao responsável pela construção do mosteiro. Enquanto comíamos, contemplávamos o Mosteiro e Dom Nuno.




E, como disse o viajante:

Ao entrar na Sala do Capítulo, tem na lembrança aquelas páginas de Alexandre Herculano que o impressionaram na infância: o velho Afonso Domingues sentado sob a pedra de fecho da abóbada, os serventes retirando as escoras e o cimbre, em ânsias não fosse desmoronar-se a construção, e, da banda de fora, espreitando pela porta ou pelas janelas laterais, a multidão de obreiros, com algum fidalgo à mistura, em ansiedade igual: "Cai, não cai", não faltava quem tomasse o desastre por garantido, e, enfim, passando o tempo e sustentando-se o grande céu de pedra, o dito de Afonso Domingues: "A abóbada não caiu, a abóbada não cairá". p. 293.



Fátima


São muitas as voltas para chegar a Fátima. Há certamente caminhos mais rectos, mas dos lados donde o viajante vem, com mistura de mouros e judeus, não é de estranhar que tenha achado o percurso longo. Hoje, a imensa esplanada é um deserto. Só lá ao fundo, ao pé da Capela das Aparições, se juntaram algumas pessoas, e há pequenos grupos que se aproximam ou afastam distraidamente (...) O viajante, que é impenitente racionalista, mas que nesta viagem já muitas vezes se emocionou por causa de crenças que não partilha, gostava de poder comover-se também aqui. Retira-se sem culpas. Saramago, Viagem a Portugal, p. 285.



Definitivamente, Saramago não gostou de Fátima - o conjunto arquitetônico, esclareça-se. Viemos, ao contrário do viajante, de Lisboa, com o senhor Bernardino. No caminho, percebemos a diferença entre o Brasil e um país que não se pode dar ao desplante de desperdiçar terra: em quarenta minutos, passamos por vinhas, macieiras, pereiras, figueiras, oliveiras, além de modernos moinhos eólicos. Em nenhum momento passamos por capim alto.

Chegamos a Fátima pela manhã - segundo o senhor Bernardino, o melhor horário para visitá-la. Não necessariamente para quem quer rezar. O complexo está vazio, com um pequeno grupo acompanhando uma missa na Capelinha das Aparições. Como uma das previsões teria sido a queda do comunismo, há um pedaço de betão, resto do Muro de Berlim lá próximo. No Santuário estão os túmulos dos três pastores.


A estátua de João Paulo II, devoto e para quem a pastora Lúcia revelou o último segredo da Virgem, está lá, em frente a um novo e moderno santuário, do outro lado da basílica.

sábado, 14 de julho de 2012

Vermeer, de Wislawa Szymborska


Do site do Poesia Ilimitada, de Portugal, e traduzido por Ana Kalewska, Beata Cieszynska e Teresa Swiatkiewicz, um poema de Wislawa Szymborska (1923-2012), Nobel de Literatura de 1996.


VERMEER


Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração, 
dia após dia, não verter o leite 
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece 
o fim do mundo. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Conto da semana, de Andrej Blatnik

O escritor esloveno Andrej Blatnik (1963) tem dois contos traduzidos para o português, que podem ser lidos no seu site, aqui. A BEF 2010 traz alguns de seus contos, originalmente publicados em You Do Understand?; todos muito breves. Alguns, como Trinta Anos, sequer chegam à meia página - É horrível ver como o homem que você amou  por tantos anos muda, ela pensou. Sua pele costumava ser lisa como vidro e quente como o algodão. Agora é sulcada como a terra e gelada como o gelo. É horrível ver como a mulher que você amou por tantos anos muda, ela pensou. Sua mão costumava ser carinhosa, agora segura uma faca.

Ou em Separação, que começa com a seguinte constatação: It's odd to wake up in a strange apartment. You look at the woman lying next to you. How did you get there? E o próprio narrador diz: Você não pode começar uma conversa com uma mulher lendo [Paulo] Coelho no trem, realmente...; o narrador tem o hábito de avaliar os apartamentos que visita pelos livros e discos - aonde quer que vá, dá uma olhada na estante. Mas, lamenta, hoje isso não mais é possível. O que pergunta é: você separa o lixo? Onde você coloca o papel, o vidro, o lixo orgânico? 

A coletânea traz textos em que os personagens jamais são nomeados. O link que leva aos contos traduzidos - Ainda Bem e Uma fina linha vermelha - já diferem um pouco; um pouco mais extensos, mas igualmente interessantes. O autor foi baixista de uma banda punk e suas histórias estão sempre na fronteira entre o terrível e o cômico.

A série Conto da Semana volta daqui há duas semanas, em agosto...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Livreiros Malévolos


Durante o dia, escrevo, folheio, reorganizo livros, instalo as novas aquisições, transfiro seções inteiras por conta do espaço. Os recém-chegados recebem as boas-vindas depois de um estágio probatório. Se o livro é de segunda mão, deixo intactas todas as marcas, os rastros de leitores prévios, companheiros de viagem que registraram sua passagem por meio de comentários rabiscados, um nome na página de rosto, um bilhete de ônibus marcando determinada página. Velhos ou novos, o único sinal de que sempre tento livrar meus livros (em geral com pouco sucesso) é a etiqueta autocolante de preço que livreiros malévolos pregam nas contracapas. Aquelas crostas brancas e daninhas saem com dificuldade, deixando feridas leprosas e trilhas grudentas às quais aderem o pó e a lanugem do tempo, fazendo-me desejar que seu inventor seja condenado a um inferno especial, viscoso.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite. Companhia das Letras, 2006, p. 23-24. Tradução de Samuel Titan Jr.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Viagem a Portugal, de José Saramago


Viagem a Portugal
José Saramago
Companhia das Letras, 2010, 486p


Resigne-se pois o leitor a não dispor deste livro como de um guia às ordens, ou roteiro que leva pela mão, ou catálogo geral. Às páginas adiante não se há-de recorrer como a agência de viagens ou balcão de turismo: o autor não veio dar conselhos, embora sobreabunde em opiniões. É verdade que se acharão os lugares selectos da paisagem e da arte, a face natural ou transformada da terra portuguesa: porém, não será forçadamente imposto um itinerário, ou orientado habilmente, apenas porque as conveniências e os hábitos acabaram por torná-lo obrigatório a quem de sua casa sai para conhecer o que está fora. Sem dúvida, o autor foi aonde se vai sempre, mas foi também aonde se vai quase nunca.

Na apresentação a Viagem a Portugal, Saramago já avisa que turista é uma coisa; viajante, outra. O autor é viajante; passa por lugares quase fantasmas, sombras de um passado medieval mas que parecem adquirir, ainda que por instantes, nova vida com a passagem do ilustre viajante; vai a lugares absolutamente ignorados pelo turista - é interessante como quanto menos conhecida é a localidade, mais ele se detém a descrevê-la e a senti-la. Conta casos e lendas - e já começa por Miranda do Douro e o Menino Jesus da Cartolinha, com a ironia que lhe é própria para falar de tais assuntos... Do Norte ao Algarve, percorrendo todo o país, Saramago observa com atenção incomum à geografia e à história de seu país.

Mas  a Biblioteca voltará a falar, com mais detalhes, deste livro, no final deste mês...  Como conclui Saramago, é preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Conto da Semana,de Gonçalo Tavares



Gonçalo Tavares é, sem dúvida, o mais prolífico dos grandes novos autores portugueses. Descobri esse pequeno conto - O País Ingênuo - na antologia BEF 2011. Como é muito esquisito - além de ridículo - ler autor português traduzido em inglês, procurei pela versão original. Achei-a no site da antiga e, infelizmente finada, Revista Entrelivros.

A tristeza era tanta que os sorrisos passaram a ser pagos. Alguns funcionários do Estado, disfarçados, diluídos na multidão das cidades, observavam os poucos cidadãos sorridentes que passavam, e, discretamente, mandavam-nos parar.

Apresentavam-se: Funcionários do Estado!, diziam, e pediam depois a identificação do sorridente. Registavam nome e morada.

Ao fim do mês, os referidos cidadãos recebiam o cheque. Durante o mês de fevereiro foi visto três vezes a sorrir na rua – estava escrito – com data e hora - no pequeno documento que acompanhava o dinheiro.

A quantia dada por cada sorriso não era uma fortuna, mas digamos que ser visto pelo Estado a sorrir nove vezes durante um mês dava perfeitamente para viver sem dificuldades. 

Pois bem, em pouco tempo o clima emocional do país alterou-se por completo. Seja por avidez ou pela própria natureza das coisas o país em dois anos tornou-se conhecido pelo “permanente e impressionante optimismo dos seus cidadãos”, como se dizia numa agência de notícias internacional.

Os subsídios do Estado aos sorrisos terminaram pouco tempo depois; mas como ninguém informou os cidadãos eles mantiveram aquele sorriso estúpido, repugnante, desadequado, inútil, sem razão de ser.

terça-feira, 3 de julho de 2012

3 de julho é dia de Franz Kafka


3 de julho. Em 1883, nasceu Franz Kafka.

O destino de Kafka foi transmudar as circunstâncias e as agonias em fábulas. Escreveu sórdidos pesadelos em um estilo límpido. Não em vão era leitor das Escrituras e devoto de Flaubert, de Goethe e de Swift. Era judeu, mas, que eu me lembre, a palavra 'judeu' não consta em sua obra. Ela é intemporal e talvez eterna (J. L. Borges, Biblioteca Pessoal).

Seu O Processo deveria ser leitura obrigatória nas faculdades de Direito, ainda que eu ache que o impacto e o estranhamento causados num estudante inglês ou americano sejam maiores do que no brasileiro - e a culpa, obviamente, não é de Kafka. Mas muito do seu pesadelo burocrático é rotina por aqui.

A melhor versão para o cinema é, disparado, esta, de Orson Welles, com o próprio, Anthony Perkins e Romy Schneider, de 1962:



No final, o próprio Welles lê os nomes dos atores para terminar: Eu fiz o papel do advogado, escrevi e dirigi este filme. Meu nome é Orson Welles.

E o livro de Louis Begley, O Mundo Prodigioso que tenho na Cabeça é uma boa sugestão de leitura complementar. Em pouco mais de 260 páginas, Begley se utiliza, ainda, dos diários e das cartas do escritor para este belo ensaio.

domingo, 1 de julho de 2012

Em Roma com Woody Allen



Conseguimos assistir na estreia, aqui em Belo Horizonte, de Para Roma com Amor. Este é um filme mais engraçado que Meia-Noite em Paris, a começar com a presença, no elenco, do próprio Woody Allen,  um produtor musical recém-aposentado. Ele e a mulher chegam a Roma para encontrar sua filha, Hayley, e conhecer a família de seu noivo Michelangelo, cujo pai, Giancarlo, é dono de uma funerária e é um grande tenor (o ator, Fabio Armiliato, é de fato um tenor) que só consegue atuar debaixo do chuveiro. A conexão entre sua aposentadoria e a possibilidade de agenciar um dono de funerária atormenta não apenas ele, mas é analisada pela mulher psicanalista.

Roberto Benigni, é um sujeito "classe média de Roma" (como o narrador do filme, o guarda de trânsito, faz questão de frisar). De repente, do nada, vira uma celebridade, e todos querem saber desde o café da manhã até o tipo de cueca. As modelos e atrizes mais estonteantes querem estar com ele. No final do filme, enquanto está sendo bombardeado por flashes na porta de sua casa, um jornalista aponta para um sujeito no outro lado da rua, um motorista de ônibus. É o fim do reinado de Leopoldo e a ascensão de um novo alguém. Se antes ele estava atormentado com a fama injustificada, depois ele não se conforma com sua perda... Dizem que os italianos não gostaram muito do clichê. 

Jesse Eisenberg se vê às voltas com a amiga maluquinha da mulher. Ele sabe que ela é encrenca, mas nem por isso escapa de ser seduzido - e não é por falta de aviso do famoso arquiteto americano (Alec Baldwin), que se torna um grilo falante.

Milly e Antonio formam o casal recém-casado que resolve largar o interior para viver em Roma. Milly se perde em Roma - sim, os italianos também se perdem por lá - e se perde ao conhecer um famoso astro do cinema italiano. Já Antonio, no hotel, é confundido com um cliente pela prostituta Penelope Cruz, e é flagrado pelos seus tios. Eles formarão um improvável casal, e serão apresentados à alta sociedade romana - todos os seus representantes já foram clientes de Penelope. E a inocentezinha Milly, depois de ponderar os prós e os contras em aceitar o assédio do ator canastrão que acabou de conhecer, se decide... a favor! Mas nem por isso o sujeito se deu bem...

As quatro histórias correm paralelamente; Woody Allen participa com os melhores diálogos e está engraçado como sempre. As cenas de ópera com um pequeno box onde Giancarlo executa seu talento enquanto toma banho são um sucesso.

A Piazza di Spagna, o Coliseu, todos os lugares famosos estão presentes. O filme "descobriu" para os turistas o bairro de Monti, que se tornou o mais novo point a ser visitado. Para quem gosta de Woody Allen, imperdível (mas o de Paris é melhor); para os que não são seus fãs, a certeza de um filme muito superior a quase tudo o que costuma passar no circuitão.