sábado, 26 de maio de 2012

Conto da semana, de David Dephy

Esta semana postei uma entrevista dada pelo Ian McEwan. A interpretação que ele deu ao próprio romance foi considerada horrível pelo professor do filho. Muitos dizem que o autor é um péssimo intérprete da própria obra.



O que dizer, então, dos personagens? Talvez o mais capacitado para falar da obra seja o personagem, e não o autor. Em seus contos reunidos em Words Words Words, o romancista, contista e poeta georgiano David Dephy conversa com personagens de Poe, Hemingway, Kipling, Dickens e Eurípedes.

O narrador - Dephy? - descobre então as verdadeiras versões; não aquelas dos autores, mas da boca de Medeia, por exemplo: 

- Mas na mitologia...

- Na mitologia eu sou aquela da realidade - fiel ao meu marido, honesta. E no seu livro eu sou imoral, vingativa, indigna, rasa (...) Por mais de dois mil anos eu tenho sido condenada a sofrer porque o autor acho que esse seria o modo mais interessante para o leitor (...) Os Deuses não me sacrificaram nem me apagaram dos mitos. Eu tenho de sofrer a cada vez que o livro é aberto. Não importa. Eu fecho o livro e tudo volta ao seu devido lugar.

Já n'O Livro da Selva, temos uma conversa bastante instrutiva com a serpente Kaa - que inicialmente fica um pouco frustrada quando descobre que o narrador quer apenas conversar... Admira Santiago que, afinal, luta entre tubarões, no meio do Golfo do México, num barquinho, apenas com a foto da falecida esposa e uma camisa.

E Oliver Twist parece não acreditar que o narrador sentiu alegria ao lê-lo:

- Por que? O que o deixou feliz?

- O que eu posso te dizer? Você, tudo, da primeira à última página.

- Quando eu era muito pequeno e estava naquela casa?

Em cada uma das "entrevistas", o narrador se despede com um "até breve" - no caso, até a próxima leitura. Dephy demonstra não apenas habilidade em construir essas situações e bom humor, mas principalmente ser um leitor atento e que se aprofunda nas obras que tanto admira.

Esses contos foram gentil e diretamente enviados à Biblioteca pelo autor, inédito em português. Defende sinceramente a literatura como uma ponte entre pessoas e povos, e numa relação espiritual entre leitor e escritor. Um autor a ser descoberto pelo público brasileiro.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

No One is Here, Except All of Us, de Ramona Ausubel


No One is Here Except All of Us book cover

No One is Here Except All of Us
Ramona Ausubel
Riverhead Books



A dica desse livro saiu no blog da Absynthe; li na versão Kindle. 

A autora, americana do Novo México, se inspirou nos relatos de sua avó romena. Nos Cárpatos, ao norte da Romênia, nove famílias vivem em Zalischik. Quem nos narra a história é Lena, de 11 anos, filha mais nova de um casal que planta repolhos. Eles vivem isolados do resto do mundo.



Em 1939, com o início da guerra, os adultos ficam apreensivos. Na noite de 3 de setembro, encontram uma mulher às margens do rio - essa mulher será sempre chamada de "estranha" - que relata os horrores que presenciou -  seu vilarejo arrasado do mapa; seus pais, irmã, marido e filhos assassinados, com requintes de crueldade.

O pânico aumenta, e surge então a ideia que irá agradar a todos: refundar o mundo. Como se fizéssemos um "control-alt-del", e tudo começasse novamente. Isso ocorre nas primeiras páginas, enquanto os habitantes acompanham a leitura do Genesis. A população faz uma força tremenda para realmente acreditar nisso.

Assim, acatando a ideia de Lena, negam qualquer relação com o mundo exterior; ignoram tempo e história. Empregos, maridos, uma criança é "realocada". Vivem por alguns anos nesse idílio.

Algumas oportunidades não podem ser desperdiçadas: umas mulheres trocam de maridos. Lena é "dada" como filha para os tios - e é interessante ver como ela é obrigada a virar (mais) criança, e rapidamente se tornar uma jovem noiva, para que a nova mãe, Kayla, quer "sentir a maternidade". Ela sempre estará em contato com seus quatro pais. Ela se casa com um sujeito, tem dois filhos (os primeiros a nascer no novo mundo...). Igor, porém, é incapaz de suportar o fardo da paternidade. 

A primeira parte do romance tem esse tom de fantástico; a vila consegue permanecer alheia à guerra. O celeiro se torna um templo; no teto é pintado um céu estrelado. Esse lado fantástico, em tom de fábula, lembra A Noiva do Tigre de Tea Obreht (e, como este, é o seu romance de estreia, mas bastante superior). As cabras, os casamentos, o vilarejo - tudo lembra (como muitos críticos notaram) as imagens de Chagall.


Mas, obviamente, isso não duraria para sempre. A "estranha", ficamos sabendo, acompanha as notícias do "velho mundo" pelo rádio. E, quando a guerra finalmente chega aos habitantes do "novo mundo", o marido é imediatamente feito prisioneiro - outro momento interessante é sua relação com Francesco, que o capturou.

A partir daí, a história toma outro rumo. Um realismo nada fantástico; já não há aquele tom de fábula. O destino dos filhos (Solomon, o mais velho, e seu irmão, "The Beautiful Baby") é terrível, como também o da população do vilarejo, dizimada e metralhada ou desaparecida no rio.

E essa habilidade em caminhar entre duas formas, a fábula e o realismo, tão diversas de contar uma história trágica, é o grande achado da autora, além de uma prosa bastante refinada:

 "I felt like a vessel, the container itself meaningless, yet into it people kept pouring ashes, tears, blood, and calling me holy. As much as I wanted to explain the mistake, I knew they would brush me aside. A person who wants to believe lives in a world full of proof."







quarta-feira, 23 de maio de 2012

Brás Cubas, por Woody Allen


Woody Allen


Perguntado sobre os cinco livros mais importantes que já leu, Woody Allen fala de Machado de Assis, aqui.

Alguém do Brasil me mandou o livro Epitaph of a Small Winner (título em inglês das Memórias Póstumas de Brás Cubas). Era um livro fino e resolvi ler. Se fosse grosso, eu o teria desprezado. Fiquei chocado com um livro tão interessante e divertido (...) ele poderia ter sido escrito ontem, de tão moderno e divertido. Uma obra extremamente original (...) sem sentimentalismo. No The Guardian.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Onde e como escrevem os escritores?

Um blog muito interessante, com fotos dos estúdios e escritórios de diversos autores, que contam também seus rituais de trabalho. Aqui.

Como nascem os livros...


Um fluxograma seria assim:

É claro que estou presumindo que você não seja o Stephen King, a Lady Gaga ou uma "estrela" de reality show...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Conto da semana, de David Rose


O conto do inglês David Rose, Flora, abre a antologia Best British Short Stories 2011. 




O narrador encontra a garota no Kew Gardens - e vai convidá-la para frequentar sua impressionante biblioteca de botânica. Ao vê-la com uma cópia de Flora Pyrenaica, de Wilson, não se contém - tenho uma edição superior a essa.


Após uma breve conversa, ele lhe franqueia acesso à sua biblioteca de botânica. A partir daí, Rose nos conta a rotina nos dias seguintes, na sua sala de estar-biblioteca, com a presença da estudante, que se põe a copiar os desenhos das plantas. O narrador serve-lhe biscoitos, tudo para tornar sua presença a mais agradável possível.


A obsessão do narrador não se resume à sua coleção de plantas - alcança os livros de botânica e, claro, a estudante. Ela se encanta com o material posto à sua disposição - faz uma aquarela de uma flor - Convolvulus mauritanicus e a dá de presente ao botânico.


O romance por todos esperado não se concretiza - nem de longe. Ao mesmo tempo em que o narrador está esperando por isso, parece realmente acreditar que está ajudando uma pessoa com os mesmos interesses. Até que o trabalho da garota termina, e ela não mais aparece em sua casa.


O final é surpreendente - e o que ele obtém como retribuição a toda a sua solicitude. Muito cuidado com os seus livros...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Escritor, o Filho e o Professor



Na entrevista que deu ao The Guardian, Ian McEwan fala sobre seu modo de escrever, o que pensa de Tony Blair (que o confundiu com um pintor)...

Neste trecho, ele fala da estranha sensação que foi ajudar seu filho a escrever um ensaio escolar sobre um de seus livros e descobrir que o professor detestou sua interpretação -   a very low grade...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Catástrofe, de Lee Rourke


O conto da semana é do inglês Lee Rourke. Ele ganhou o curioso prêmio Not the Booker Prize, do The Guardian.


Catástrofe é o relato em primeira pessoa de um homem desesperado que invade um apartamento no 12º andar de um prédio que está para ser demolido. Com a crise econômica e financeira internacional, ele perdeu tudo o que tinha - o pouco  que restou jogou pela janela, com exceção de uma cadeira e uma TV.

E pela TV ele assiste à cobertura do evento que está protagonizando - as breaking news do noticiário falando de um homem que está no apartamento prestes a ser explodido... a água e a eletricidade já foram cortados pela polícia. 

O relato deste desesperado é o leitor - o autor do crime. Esperando pela catástrofe. Vou cair com o prédio, seu crime não irá me derrotar. Ao mesmo tempo, critica o que vem ouvindo e assistindo pela TV: que teve problemas na infância, que não foi amado pela mãe, que possui reféns etc. - todos esses clichês que já ouvimos antes. O que dirão agora? Que ele é louco? 

Por incrível que possa parecer, ele mantém o ar de total controle da situação - do ponto de vista de alguém que espera sinceramente que o prédio seja detonado, após a ação de despejo. Até que uma reviravolta alterará esse "equilíbrio" - o conselho municipal e agentes da prefeitura adiam a execução... por que todos vão embora? Não posso suportar isso novamente. A catástrofe nunca acontecendo - novamente. E os crimes se repetindo. Nunca chegando ao ponto irreversível, aquele pelo qual todos estamos esperando.

É interessante  a forma como o narrador, dirigindo-se para o leitor, considera como a única possibilidade de vitória o detonamento do edifício no qual se encontra, e como o adiamento da execução da ordem acaba por frustrar esta expectativa. Ele que tanto havia se preparado para esse fim...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A Escrava Isaura em Chisinau - em português

Lembram-se do post  Escrava Isaura em Chisinau?

Agora, em seu blog, a Editora Hedra, parceira da Biblioteca, apresenta a tradução para o português, por Fernando Klabin. Você pode ler aqui.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Céu dos Suicidas, de Ricardo Lísias


O Céu dos Suicidas
Ricardo Lísias
Alfaguara, 2012
186 p.

Nunca havia lido nada de Ricardo Lísias. Este O Céu dos Suicidas foi lançado em abril. Um colecionador sem coleção,  chamado Ricardo Lísias, professor universitário e em crise pelo suicídio de André, seu grande amigo. 

O fato de o personagem ser um colecionador - ou ex-colecionador - me lembra uma outra leitura recente - a do Museu da Inocência, de Pamuk. Lá, o narrador - Ohran - organiza um museu que retrata a Istambul dos anos 70, gravitando em torno de sua amada e proibida Fusun; aqui, um colecionador - Ricardo - também às voltas com conflitos dentro da família, culpas e  perdas irreparáveis (no caso, o amigo que procurou a sua ajuda e em seguida enforcou-se) dá cursos sobre o assunto - seu conhecimento é o que lhe sobrou, já que não guarda mais nenhuma de suas antigas coleções.


Tanto Lisias quanto Pamuk têm que esclarecer: não sou o Ricardo! Não sou o Orhan! Estamos na ficção, por mais que haja um forte componente autobiográfico em cada um dos romances.


Interessante como uma das suas coleções mais curiosas mostra o milagre da multiplicação dos zeros e das moedas do Brasil nas décadas de 80/90. E, também, as confusões em que se mete quando resolve ir a Beirute investigar uma possível conexão do tio-avô com o terrorismo.


Uma observação: esta semana o autor dará prosseguimento ao seu curso sobre oito grandes romances - no caso, Auto de Fé, de Elias Canetti, pelo que lamento profundamente não morar em São Paulo para assistir.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conto da semana, de Etgar Keret


O israelense Etgar Keret (Tel Aviv, 1967) terá sua estreia no Brasil - A Casa da Palavra irá editar "O Motorista de Ônibus que queria ser Deus". Sua obra já é conhecida em mais de 30 países como um dos mais criativos escritores israelenses de sua geração.

O conto da semana foi extraído do sensacional Words Without Borders. Ludwig e eu matamos Hitler - ou Uma Primavera em Berlim.

O narrador e o tal Ludwig perambulam por Berlim já com os russos batendo à porta. Passam por um cartaz de Hitler e Ludwig lembra que o conheceu na juventude - quando ele ainda não usava aquele bigode ridículo. Anna o trocou por Hitler, fato que ele até hoje não perdoa - não que você seja estúpido, mas você não tem imaginação. Já Hitler... ele é um artista!

Próximo às ruínas da Opera, os dois encontram um bêbado que pensa estar havendo um concerto - ele ouve os canhões e diz que a Filarmônica está tocando 1812...

E, mais à frente, com uma capa... Hitler em pessoa! Adolf, como estou feliz em encontrar um rosto conhecido nessa cidade deserta, diz Ludwig. Para em seguida, disparar: meu irmão Karl, que teve que largar os estudos e servir na SS. Meses depois, se suicidou.

E, ao declarar isso, pega seu fuzil e dispara contra Hitler. Keret muda a História como Tarantino fez no cinema com seu Bastardos Inglórios...

Pede desculpas pelo "papelão". Na verdade, ele não tinha um irmão chamado Karl. E ela me disse que eu não tenho imaginação...


quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Museu de Pamuk ganha vida


Como já era esperado, o romancista Orhan Pamuk inaugurou, no último dia 27 em Istambul, um museu dedicado à memória dos personagens fictícios do seu romance Museu da Inocência. Lá estão os cigarros tocados por Fusun, o amor impossível de Kemal. Para o autor, "é talvez o primeiro museu baseado em um romance", e faz questão de frisar que não se trata de seu museu - como o livro não trata de sua história.


O autor diz ter gasto praticamente o que ganhou com o Nobel de 2006 nesta ideia. São 83 vitrines, uma para cada capítulo do livro, que se passa na Istambul dos anos 70. 



quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Chave de Casa, de Tatiana Salem Levy




A Chave da Casa
Tatiana Salem Levy
Record, 2007


Não faço outra coisa senão olhar, tocar, observar a chave. Conheço seus detalhes de cor, o tamanho preciso de suas curvas e de sua argola, seu peso, sua cor gasta. Uma chave desse tamanho não deve abrir porta alguma. A essa altura já deveriam por certo ter mudado, se não a porta, certamente a fechadura. Seria um disparate acreditar que tanto tempo depois a chave da casa permaneceria a mesma. Tenho certeza de que até meu avô é consciente disso, mas também imagino que deva ter uma curiosidade enorme de saber se ainda está lá o que deixou para trás. Que coisa estranha, que coisa esquisita deve ser: largar o país, a língua, abandonar a família em direção a algo completamente novo e, sobretudo, incerto.

Com atraso constrangedor, li neste feriado A Chave de Casa, de Tatiana Salem Levy (Record, 2007). É curioso que, quando se fala em literatura judaica, aqui, nos Estados Unidos e na Europa, em geral se fala da literatura asquenazi, com pouco – ou nenhum – espaço para a sefaradita. Joseph Roth, Bashevis, Philip Roth, Scliar e, para ser mais atual, a própria Julie Orringer e sua A Ponte Invisível. Sua leitura, logo após a do romance de Orringer, permite algumas comparações interessantes.

A autora nasceu em Portugal, em 1979 (os pais, exilados, voltaram ao Brasil pouco depois de seu nascimento) e é neta de judeus turcos, de Esmirna. A história da chave da casa, que teria sido levada pelos judeus sefaraditas à espera de um retorno que, em geral, não ocorreu, já tinha sido visitada por Borges (O Outro, o Mesmo, 1964):

UMA CHAVE NA SALÔNICA


Abravanel, Farias ou Pinedo,
Expulsos da Espanha por cruel
Perseguição, mantêm ainda fiel
A chave de uma casa de Toledo.


Livres agora de esperança e medo,
Olham a chave sob o sol oblíquo;
No bronze, restam ontens, o longínquo,
Cansado brilho e sofrimento quedo.


Hoje que é pó sua porta, o instrumento
É cifra da diáspora e do vento,
Afim com essa chave do santuário


Que alguém lançou ao céu, quando a incendiou
O romano com fogo temerário,
E que a divina mão no azul captou.

Um romance não convencional em sua forma: há várias vozes e narradores, destacando-se as da mãe e a da própria narradora. Assim, a narrativa avança e retrocede no espaço e no tempo, numa mistura de memória e ficção.  Uma abordagem bastante diferente de, por exemplo, Orringer, que também se baseia na história de seu avô para contar uma história com ritmo de cinema (o que não é nenhuma crítica). A ênfase ao contexto histórico (no caso, os anos 30-40 na Europa) não é encontrada no romance de Tatiana, que preocupa muito mais com as buscas da narradora em suas viagens pela Turquia e Portugal, em um tom decididamente mais intimista e confessional.

Merecidamente, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor estreante.