sexta-feira, 30 de março de 2012

Conto da semana, de Augusto Monterroso




Augusto Monterroso (1921-2003) é um dos grandes nomes da literatura latino-americana. Seus contos curtos, muitas vezes em tom de fábulas, o tornaram conhecido muito além das fronteiras da Guatemala. Aqui vai A funda de Davi:

Era uma vez um menino chamado Davi N., cuja pontaria e habilidade no manejo da atiradeira despertavam tanta inveja e admiração entre seus amigos da vizinhança e da escola, que viam nele — e assim comentavam entre si quando os pais não podiam escutar — um novo Davi.

O tempo passou.

Cansado do tedioso tiro ao alvo que praticava disparando pedrouços contra latas vazias e pedaços de garrafa, Davi descobriu um dia que era muito mais divertido exercer contra os pássaros a habilidade com que Deus o tinha dotado, de modo que dali em diante a exercitou contra todos os que se punham ao seu alcance, em especial contra Pardais, Cotovias, Rouxinóis e Pintassilgos, cujos corpinhos sangrentos caíam suavemente sobre a grama, com o coração ainda agitado pelo susto e a violência da pedrada. 

Davi corria alegre até eles e os enterrava cristãmente.

Quando os pais de Davi se aperceberam desse costume do seu bom filho se alarmaram muito, lhe perguntaram o que é que era aquilo, e denegriram a sua conduta com termos tão ásperos e convincentes que, com lágrimas nos olhos, ele reconheceu sua culpa, se arrependeu sincero, e durante muito tempo se aplicou em disparar apenas sobre os outros meninos.

Dedicado anos depois às Forças Armadas, na Segunda Guerra Mundial Davi foi promovido até general e condecorado com as cruzes mais altas por matar sozinho trinta e seis homens, e mais tarde degradado e fuzilado por deixar escapar com vida um Pombo mensageiro do inimigo.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Livro, de José Luis Peixoto

(1948)
A mãe pousou o livro nas mãos do filho.
Que mistério. O rapaz não conseguia imaginar um propósito para o objeto que suportava. Pensou em cheirá-lo, mas a porta do quintal estava aberta, entrava luz, havia muita vida lá fora. O rapaz tinha seis anos, fugiu-lhe a atenção, distraiu-se, mas não se desinteressou pelo livro, apenas deixou de o interrogar enquanto objeto em si, começou a questioná-lo de maneira muito mais abstrata, enquanto intenção, enquanto sombra de um ato. A mãe disse o nome do filho:
Ilídio.

José Luis Peixoto (1974) estará na Flip deste ano (já esteve em Parati em 2005). O autor português conta a história de Ilídio, Josué, Adelaide, Lubélia, para falar, verdadeiramente, do movimento de emigração portuguesa para a França durante o regime de Salazar. Curiosamente, a edição brasileira - Companhia das Letras, 2012 - aparece no momento em que Portugal se debate com uma crise econômica de proporções épicas e novo movimento para fora do país. Os pais do autor, aliás, foram para a França na década de 60, ainda que Peixoto já tenha nascido em Portugal.

Na primeira das duas partes, temos a história de Ilídio e Adelaide. Ilídio é abandonado pela mãe aos seis anos. Quem irá criá-lo é Josué, o pedreiro da vila. Adelaide, por quem se apaixona, é enviada pela tia Lubélia para a França.

Ilídio propõe: Se namorares comigo, dou-te um pombo, cem escudos e um livro. Sobre o livro, é o mesmo que guardava desde o fatídico dia em que foi abandonado pela mãe. Na França, Adelaide frequentará a biblioteca de Constantino, com quem acabará se casando.

O fato de ser o dono da biblioteca em momento algum o torna um personagem bom. Pelo contrário; ele é bastante irônico e sarcástico. Assim se dirige a Adelaide:

Livro? Não basta ter capas e páginas cheias de palavras para ser um livro. Não basta ser feito de papel. Gorki, sabes o que é? Tolstoi, diz-te alguma coisa? Dostoievski, consegues pronunciar? Experimenta: Dos-toi-ev-ski. Livro? Às vezes, esqueço-me da tua ingenuidade.

O livro que Adelaide mostra a Constantino é aquele que a mãe de Ilídio lhe "pousou na mão" naquele longínquo dia de 1948.

A primeira parte do romance é, digamos, convencional em sua forma - o que não é nenhuma crítica. O tema da emigração portuguesa é trabalhado com maestria; as descrições das viagens pelas fronteiras e do que os portugueses imaginam ser a França são muito bem trabalhadas. E, em alguns momentos, me faz lembrar o conflito entre a aldeia portuguesa e a grande capital do mundo de A Cidade e as Serras.

Livro, afinal, não se conforma com os livros mal escritos sobre o tema de emigração de portugueses para a França, e decide, ele próprio, escrever um. Ao mesmo tempo, há várias críticas ao atual momento da indústria cultural. Basta ver que, ao mencionar o livro de Michel Houellebecq, diz tratar-se de uma leitura tardia, já que instalou-se a ideia de que romances destes têm de ser lidos na estação em que são publicados.

Há aqui uma suprema vingança de Adelaide: enquanto Constantino acha que o nome do filho é uma homenagem a ele e sua biblioteca, trata-se, na verdade, de uma homenagem ao presente que ela havia recebido de Ilídio em Portugal. Essa é não apenas a homenagem que ela faz ao livro (em minúscula mesmo). É também uma vingança de Adelaide contra o marido.

domingo, 25 de março de 2012

Antonio Tabucchi (1943-2012)



Morreu Antonio Tabucchi (1943-2012), em Lisboa. Um dos maiores estudiosos da literatura portuguesa, vivia em Lisboa, e um dos favoritos da Biblioteca. Meu primeiro contato com Fernando Pessoa foi através de seu livro Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa (Rocco, 1996).

Talvez o seu romance mais conhecido seja Afirma Pereira (Rocco, 1995), que deu origem ao filme de Roberto Faenza com uma das últimas participações de Marcelo Mastroianni. O filme conta ainda com Daniel Auteuil (Dr. Cardoso) e Joaquim de Almeida.

Uma nota de Tabucchi ao romance, explicando seu "encontro" com o Dr. Pereira. Um encontro a la Pirandello:

O doutor Pereira visitou-me pela primeira vez numa noite de setembro de 1992. naquela época, ele ainda não se chamava Pereira, ainda não tinha traços definidos, era algo vago, fugidio e incerto, mas já tinha vontade de ser protagonista de um livro. Era somente um personagem à procura de um autor. Não sei por que escolheu logo a mim para ser contado. Uma hipótese possível é que no mês anterior, num tórrido dia de agosto em Lisboa, eu também tinha feito uma visita. Lembro-me nitidamente daquele dia. Pela manhã, tinha comprado um diário da cidade e lera a notícia de que um velho jornalista falecera no Hospital de Santa Maria de Lisboa, e podia ser visitado para a última homenagem na capela daquele hospital.

Não diga isso

TABU - Enrique Anderson Imbert (1910-2000)


 


O anjo da guarda sussurra a Fabián, por cima de seu ombro: - Cuidado, Fabián! Está escrito que morrerás quando disser a palavra "zangolotino".
- Zangolotino? pergunta Fabián intrigado.
E morre.



sexta-feira, 23 de março de 2012

Jacques Prévert

Por mais que tenhamos uma saúde de ferro, no final nos oxidamos.

A Bala de Juan Becerra e o Executado de David Dephy

São dois os contos da semana. Algo aproxima as histórias, uma dos confins de Europa, outra da vizinha Argentina.

Guerras já foram narradas à exaustão, de diferentes formas. Os contos selecionados o fazem sob óticas no mínimo curiosas: Before the End, de David Dephy (BEF 2012, organizado por Hemon) trata de uma execução pelo próprio executado.

O georgiano David Dephy inicia assim sua história (tradução minha): Os soldados formam em linha. Sou colocado na parede e eles me miram. A ordem do comandante é ouvida. "Fogo". Eles atiram. 

O suposto traidor de Dephy descreve seus últimos segundos em três páginas. Lembra-se da infância. E ainda tem tempo para conversar com alguém: a sua morte, que não é, afinal, A Morte. É tempo de esclarecer as coisas: reafirma não ser desertor ou traidor, que tudo não passa de um equívoco. A voz, por outro lado, também: se você quer amar, deve ser capaz de odiar à primeira vista e lutar por aquele a quem odeia. Mas ninguém segue esta regra - apenas eu. E é por isso que eu sou o fim de todos, porque tenho coragem de amá-los e continuar sendo seu inimigo, seu e de todos os outros (...) eu sou o último inimigo, e aguardo o dia em que minha eternidade acabará. Mas chega, seu tempo acabou, venha comigo. 

Na realidade, a execução em si tem menos importância que esses segundos finais do executado - de quem nada sabemos.

Já em Vida de uma Bala, o argentino Juan Becerra (Os Outros - narrativa argentina contemporânea, organizada por Luis Gusmán) relata a biografia de um personagem até então (que eu saiba) desprezado pela ficção, justamente aquele que vem desempenhando papel tão relevante nos últimos séculos: a bala. 


A bala de Becerra tem origens semelhantes às dos argentinos: nasce na Itália... No outono de 1836, o exército italiano encomendou a uma ferraria de Pavia uma remessa de dez mil balas para espingardas de fogo Tercerola. Foram empacotadas, sem contar, nove mil e seiscentas em dois caixotes reforçados com tiras de aço, e enviadas para um acampamento militar em Gênova. Foram recebidas, seu conteúdo averiguado, e anotado o peso e o número de carregamento em um registro oficial. Foram trasladadas para o porto e embarcadas em um navio de guerra rumo a Buenos Aires.

As quatro páginas de Becerra descrevem a trajetória da bala, da Itália até o campo de batalha e, por fim, sua glória: depois de cumprida sua missão, é retirada do corpo; é seca, guardada em um porta-joia de alpaca, junto a medalhas e uma cruz sem Cristo. Depois, chegou a Buenos Aires e ali foi inspecionada por especialistas, que a submeteram a reações químicas (...) Certa tarde, foi exibida em uma caixa de cristal, bem próxima do monumento ao homem que havia matado, e do portão de ipê que teve que atravessar para atingi-lo. Depois foi trasladada ao museu nacional.

A cada bala, rende-se a homenagem do respectivo morto.


Revista Kalinka

A Editora Kalinka lança sua Revista. Entrevistas com a tradutora Aurora Bernardini e Evguiéni Pasternak (o filho de Boris), além de um poema de Mikhail Liermontov e o conto O Paramédico, de Leonid Dobytchin - aqui. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

GUERRA E PAZ (5)


E chego ao fim daquela que, para Daniel Piza, é a maior epopeia escrita desde a Odisseia... O Epílogo é dividido em duas partes: na primeira, sabemos que Natasha e Pierre se casaram em 1813, mesmo ano da morte do conde Rostov, que implora o perdão da família pela ruína econômica. Nikolai aceita a herança do conde; no outono de 1814, casa-se com Mária.

Anos depois, Natasha está fisicamente irreconhecível; mãe de quatro filhos e totalmente devotada a eles e a Pierre. O extremo oposto da Natasha que nos foi apresentada no início do romance.

O filho de Andrei, Nikolienka, agora tem 15 anos e venera Pierre. Vive agora com Nikolai, que pagou todas as dívidas do velho conde e agora prospera. E é justamente Nikolienka quem encerra a primeira parte (e, a rigor, o romance): “E o tio Pierre! Ah, que homem incrível! E o pai? O pai! O pai! Sim, eu farei coisas que até ele iria admirar...”. A rigor, estas são as últimas frases do romance. E os personagens ficam para sempre na cabeça dos leitores.

A segunda parte é mais um ensaio sobre as teorias de Tolstoi a respeito da História. Lenin aproveitaria muito destas linhas para afirmar que o autor era um pré-revolucionário – “o espelho da Revolução Russa”, teria dito em 1908.

Assim, é com imenso prazer e orgulho que posso dizer ter traçado as 2.528 páginas da bela e acessível edição da Cosac Naify, a primeira com tradução direta do russo (Rubens Figueiredo) ao longo de cerca de dois meses e meio – com uma hérnia no meio. Dá vontade de encomendar uma salva de canhões como a de Tchaikovski... O texto em português em momento algum se torna cansativo e imagino que a tradução tenha resgatado para os brasileiros o ritmo envolvente que o original apresentou aos russos.


Na FLIP de alguns anos atrás, Peter Burke disse não imaginar as pessoas lendo, no futuro, Guerra e Paz e suas mais de 1000 páginas; que o clássico não resistirá ao tempo e que as pessoas vão ler coisas mais leves e simples nos Kindles da vida. Espero que seja daquelas previsões como a de que o cinema acabaria com o teatro, e que a TV dizimaria o cinema...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Conto da semana, de Maritta Lintunen

 

O conto da semana é de Maritta Lintunen - Semana Santa - e integra a antologia Best European Fiction (BEF 2012). Um dos melhores contos do volume, diga-se. Trata-se da narrativa, em primeira pessoa, da história de uma mulher e o que lhe sucede ao recobrar os sentidos após um terrível acidente doméstico, durante a Semana Santa. Momentos de desespero, de memórias e de solidão.

Li o conto poucos dias depois de sofrer da minha já famosa crise de hérnia de disco num quarto de hotel em Brasília, e confesso que me lembrei imediatamente do meu próprio incidente.

O principal mérito do conto é a forma como a autora mostra os pensamentos que vêm à mente da narradora enquanto espera por um hipotético socorro. Talvez o mais correto seja afirmar que esperava pela morte. Ela se recorda das várias histórias de decadência humana que me contaram ao longo dos anos para me confortar, diz, ao se referir à morte súbita de Ilmari, enquanto imagina um destino bem diferente para ela própria. Ela pensa no filho, para quem vai deixar suas economias – mas ele não aparece, nem mesmo depois do resgate, no hospital.

Há também uma descrição da perda progressiva de seus sentidos enquanto imagina seu futuro – com certo sarcasmo: relações sexuais... quem desejaria tocar meu corpo semi-paralisado? Eu observava a Semana Santa – eu estava tendo minha própria e autêntica Paixão.

Ao final, o resgate, no domingo à noite. Mas nenhum de seus amigos está lá, nem mesmo seu filho.

Lintunen fala da família e da solidão, do ato de morrer e de sobreviver; fala de corpo e também de pensamentos. Como ela própria afirma em entrevista ao site da editora da antologia, Dalkey Archive: um escritor não tem necessariamente que viajar aos confins do mundo para ter uma ideia, para encontrar inspiração. No entanto, os movimentos ilimitados dos pensamentos de uma pessoa são um requisito básico para um trabalho literário.

Uma grande lição de escrita.

segunda-feira, 12 de março de 2012

GUERRA E PAZ (4)

Incêndio de Moscou, Smirnov (1813)

O Livro 4 é bem "curto" para os padrões: quase 400 páginas. O incêndio de Moscou é o acontecimento mais marcante de seu início, ao qual irá se seguir a retirada atabalhoada de Napoleão.

A retirada de Moscou

Pierre, que se fez prisioneiro para matar Napoleão, conhece Platon Karatáiev, que apesar de merecer poucas páginas no romance (mais exatamente o capítulo XIII da Primeira Parte), é um personagem marcante - simboliza aquilo que Tolstoi vê de mais autêntico no homem russo:

Platon Karatáiev devia ter uns cinquenta anos, a julgar por suas histórias sobre as campanhas militares de que havia participado como soldado veterano. Ele mesmo não sabia sua idade e não havia meios de determinar quantos anos tinha (...)
Seu rosto, apesar das pequenas rugas redondas, tinha uma expressão de inocência e juventude; sua voz era agradável e melodiosa. Mas a peculiaridade mais importante do seu modo de falar era a espontaneidade e a presteza.

Um antípoda do nobre de São Petersburgo...

Pierre é libertado com a fuga dos franceses e ainda assiste à morte de Pétia Rostov. A morte de Andrei, ferido gravemente na guerra e recolhido  pelos Rostov, está entre as grandes cenas da literatura. 

Pierre, agora livre de Helene (que morre), reencontra Natasha. A princesa Mária fará de tudo para reconciliá-los.

Mais uma vez, Tolstoi e suas teorias: depois de enumerar o que Napoleão deveria ter feito ao entrar em Moscou ao longo de uma página, conclui: Napoleão, o maior gênio de todos os gênios, e que tinha o poder de comandar o exército, como asseguram os historiadores, não fez nada disso. Não só não fez nada disso, como, ao contrário, empregou seu poder para escolher, entre todos os caminhos que se apresentavam, justamente o mais tolo e mais nefasto.

E assim, caminhamos ao Epílogo, em duas partes. Ainda esta semana.





quinta-feira, 8 de março de 2012

O Obituário de Deus, de Fernando Paiva

O conto da semana é brasileiro, e pode ser lido aqui. Em forma de obituário de jornais e revistas, Paiva nos comunica a morte do pai da Arquitetura Genética, Allan J. Winchmaster. Conhecido como Deus. 
As regras que criou lembram as Três Leis dos Robôs de Isaac Asimov: todos os seres desenhados são estéreis; todos devem ser menos inteligentes que o homem; todos devem estar em eterno cativeiro. O Tratado internacional lembra o de não proliferação de armas nucleares. 
Como toda grande descoberta, foi usada indevidamente para fins militares, com a criação dos guerreiros ortopédicos kamikazes... e as inteligências, cada vez mais desenvolvidas, ameaçavam a segunda lei e a própria sobrevivência humana.
Por fim, Deus, perseguido por religiosos e pela indústria, é protegido pelo serviço secreto britânico. 
O conto evidencia mais uma vez a capacidade criativa do homem e a incapacidade de controlar os resultados. O avanço tecnológico é visto como o que é - uma evolução, não necessariamente positiva ou negativa. 
O filho mais novo do cientista é ainda considerado por muitos uma nova espécie de humano, com genes potencializadores da inteligência, solidariedade e bondade, e redutores da ambição e do egoísmo. Definitivamente, não é um humano.



terça-feira, 6 de março de 2012

GUERRA E PAZ (3)


Uma hérnia de disco inesperada e uma semana de molho, e lá se foram as quase 700 páginas do Livro 3, que tem seu ápice na Batalha de Borodino. Tolstoi também fala de suas  teorias sobre a História:

Se dependia da vontade de Napoleão oferecer a batalha ou não e se dependia da sua vontade dar uma ordem ou outra qualquer, então é evidente que um resfriado, capaz de influenciar a manifestação da sua vontade, podia ser a causa da salvação da Rússia e, portanto, o camareiro que no dia 24 esqueceu de dar a Napoleão as botas impermeáveis foi o salvador da Rússia. Nessa linha de raciocínio, tal conclusão é indiscutível – tão indiscutível quanto a conclusão que, de zombaria (sem que ele mesmo soubesse de que estava zombando), fez Voltaire ao dizer que o massacre da noite de São Bartolomeu ocorreu por causa de uma indigestão de Carlos IX. Mas, para as pessoas que não admitem que a Rússia tenha sido formada pela vontade de um só homem – Pedro I – nem que o império francês tenha se constituído e a guerra contra a Rússia tenha tido início pela vontade de um só homem – Napoleão – tal raciocínio não só parece equivocado e absurdo, como também contrário a toda essência humana.




A batalha é encenada todos os anos e, no próximo setembro, completará 200 anos.

Encenação da Batalha de Borodino (1812) entre as tropas de Napoleão e tropas russas

Apesar disso, a maioria dos historiadores considera que os franceses foram os vitoriosos. E de lá, partiram para Moscou, a capital asiática tão cobiçada e idealizada por Napoleão.

No livro, Kutuzov reaparece e desta vez, se redime da surra de Austerlitz. A descrição tão esmerada do conflito mostra toda a dedicação e a pesquisa empreendida por Tolstoi. Boa parte do Livro se dedica aos detalhes do teatro de guerra.

Napoleão titubeia: o aspecto terrível do campo de batalha, coberto de cadáveres e de feridos, somado ao peso que sentia na cabeça, às notícias de que vinte generais conhecidos seus tinham sido mortos ou feridos e à consciência da fraqueza de seu braço antes poderoso produziram uma impressão inesperada em Napoleão, que em geral gostava de contemplar os feridos e os mortos, pondo à prova desse modo a sua força de espírito (assim ele pensava).

Sobre Napoleão, ainda, Pierre faz uma série de raciocínios e contas, e chega à conclusão de que se trata do Anticristo (666). O velho príncipe Bolkonski, pai de Mária e André, morre. Pierre, por sua vez, está determinado a matar Napoleão, e se passará por um camponês para alcançar seu objetivo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Conto da Semana, de Gyrdir Elíasson

A Biblioteca chega à Islândia para o conto da semana, de Gyrdir Eliasson (1961), direto do incrível site Words Without Borders. O texto pode ser lido, em inglês, aqui. 

O título - House 451 - faz referência óbvia à obra de Ray Bradbury Farenheit 451. O futuro desolador - como aquele descrito por Gospodinov - em que os livros foram banidos há muitos anos (estamos em 2072 e o narrador é nostálgico a respeito de 2012). O título de Bradbury alude à temperatura na qual o papel e o livro se incendeia. 


A Casa 451 é uma casa construída em 2010 já sem vida e sem memória. O narrador mora na casa ao lado. O ato de escrever é tão antigo e anacrônico quanto uma casa de 2010; sua mulher não vê seu hábito com bons olhos; suas filhas estão no quarto, jogando com realidade virtual. Nenhum livro na casa, como em nenhum outro lugar, já que foram, há muito tempo, banidos.