terça-feira, 31 de janeiro de 2012

27 de janeiro, de Adam Zagajewski



Nunca é demais elogiar o Poesia Ilimitada. Aqui, um poema de Adam Zagajewski, com quatro dias de atraso...


27 de janeiro


Dia gelado. Um sol de inverno. Branco vapor.
Mas nesta sexta-feira não sabíamos
o que celebrar, e o que chorar -
o Dia Memorial do Holocausto
ou o aniversário de Mozart.
Nossa memória ficou perplexa.
A imaginação perdeu o rumo.
No parapeito da janela, uma vela chorou
(fomos convidados a acender velas),
mas a suave música do jovem Mozart
chegou até nós pelos altifalantes, em estilo rococó,
a época das asas de prata e não dos cabelos grisalhos
que conhecíamos de Auschwitz,
idade dos figurinos, e não da nudez,
a imaginação cresceu, perdida em pensamentos.

Livraria Camões - o retorno

Depois de muita pressão, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda e a Grupo Almedina vão reabrir a Livraria Camões, no site da RTP.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Conto da semana: Nikolai Karamzin


O conto da semana é de Nikolai Karamzin e inaugura a incrível Nova Antologia do Conto Russo organizada por Bruno Barretto Gomide. A tradução é de Natalia Marcelli de Carvalho e Fátima Bianchi.


Karamzin é pouco conhecido, não apenas no Brasil, mas no Ocidente como um todo. Na Rússia, no entanto, é reverenciado como o autor de uma monumental História do Estado Russo.  Nobre de origens tártaras, teve grande reputação também como jogador de cartas; lia de filosofia alemã aos romances franceses da época. Em sua única viagem à Europa, consta que bateu um papo em Konigsberg com Kant e assistiu aos discursos de Robespierre e Mirabeau na Assembleia Nacional, em Paris. Essa viagem originou as Cartas de um Viajante Russo, e foi catapultado à condição de líder do sentimentalismo russo. 

Seu conto mais conhecido é esse Pobre Liza, tido como uma obra fundamental da ficção russa, em que uma camponesa é seduzida e abandonada por Erast e que ao final se atira de uma ponte em Moscou. Eis seu início:

É provável que nenhum habitante de Moscou conheça tão bem quanto eu os arredores desta cidade, porque ninguém costuma ir ao campo mais que eu, ninguém vagueia mais que eu, sem plano, sem rumo - aonde os olhos levam -, por seus prados e bosques, por suas colinas e planícies. Todo verão encontro lugares novos e agradáveis, ou novas belezas nos antigos. O narrador fala de seu conhecimento dos arredores rurais de Moscou tal como João do Rio fala do centro urbano de sua cidade.

Liza perderá toda sua inocência; na verdade, passará a pensar cada vez mais em Erast. O amor platônico havia cedido lugar a sentimentos dos quais ele não podia se orgulhar. No final, ela será "trocada"; Erast deve ir à guerra. Não quer ficar em Moscou - posso - respondeu ele -, só que a custo de uma grande desonra, de uma grande mancha em minha honra. Todo mundo haverá de me desprezar e desviar-se de mim, como de um covarde.

Ele vai - Liza o espera. A guerra acaba. Mas, certo dia em Moscou, encontra-o, mas: as circunstâncias são outras; agora estou casado. Deves deixar-me em paz e, para o teu próprio bem, esquecer-me.

Não se trata, evidentemente, de um heroi, mas tampouco de um vilão. Erast é apenas um fraco, o "homem supérfluo", como bem colocam as tradutoras. E esta falta de "veredito" pode ser considerado o diferencial deste texto em relação aos outros da época, com temática semelhante. Não é a riqueza que os afasta - ainda que Erast tenha se casado com uma viúva rica, depois de ter perdido toda a sua fortuna - mas sim as tais 

O conto fez imenso sucesso na Rússia. Pushkin se baseou neste conto para seu A Senhorita Camponesa, que integra os Contos de Belkin. Em certa medida, me parece que também se pode encontrar ecos de Liza em Anna Karenina.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O Primeiro Kindle



Eles devem ter tido o mesmo problema... 

Eichmann no convento



Os bosques bávaros tinham seus profetas, os Waldpropheten, como o “Mühlhiasl” que trabalhava perto do convento de Windberg, por volta de 1800, e predizia apocalipses e renascimentos. Em 1934, entretanto, no convento refugiou-se durante uma semana Adolf Eichmann, numa espécie de retiro espiritual. No livro dos hóspedes, relata Trost, há ainda, de seu próprio punho, o agradecimento pela estada e hospitalidade, a expressão de uma intensa experiência e de um emocionado vínculo. Treue um Treue, fidelidade pela fidelidade, escreveu Eichmann no livro do convento em 7 de maio de 1934. O tecnocrata do massacre ama a meditação, o recolhimento interior, a paz dos bosques, quem sabe também a oração.

Cláudio Magris, Danúbio. Companhia de Bolso, 2008, tradução: Elena Grechi e Jussara de Fátima Mainardes Ribeiro

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Conto da semana, de Juan José Millás

O Inferno


Estávamos enterrando um amigo quando um celular interrompeu com seu som a grave cerimônia. Após uma breve troca de olhares reprobatórios, compreendemos que o ruído procedia do cadáver, cujo féretro havia sido aberto para que o finado recebesse o último adeus. A viúva, mais por inconsciência do que por coragem, inclinou-se sobre o morto e tirou o telefone de um dos bolsos da jaqueta dele. “Diga”, pronunciou dolorosamente. Não sabemos o que ela escutou do outro lado, mas a vimos empalidecer e gritar em seguida: “Fernando faleceu ontem e você é uma piranha que destruiu nosso lar”. Dito isso, interrompeu a comunicação e devolveu o artefato ao seu lugar.


Ao sair do cemitério, eu soube por alguém da família que o próprio Fernando manifestara o desejo de ser enterrado com o celular, o que, constituindo uma excentricidade perfeitamente afim com seu caráter, me devolvia a imagem, sombria e desagradável, de quem sem dúvida tinha sido uma das referências mais importantes da minha vida. Como é de uso, dirigi-me em companhia dos mais íntimos à casa da viúva, para dar-lhe conforto. Ela nos ofereceu um café, que estávamos saboreando enquanto falávamos de coisas intranscedentes, quando tocou o telefone. Após alguns segundos de terror, chegamos todos os presentes a um acordo tácito: ninguém tinha ouvido nada, nenhum som de além-túmulo se havia insinuado naquela reunião de amigos. Dez ou doze chamadas depois, o aparelho emudeceu, enquanto a própria viúva se levantava para tirar o telefone do gancho. “Não estou para pêsames”, disse.   


Naquela noite, na hora em que os insones costumam destrinçar um sonho, levantei-me, fui até o telefone e disquei o número do celular de Fernando. Atenderam logo ao primeiro toque, mas desliguei antes de escutar qualquer voz. Só queria comprovar que o inferno existia.


Contos de Adúlteros Desorientados. Ediouro, 2005. Tradução: Joana Angélica d'Ávila Melo

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um recado de Frederico o Grande


Frederico, o Grande, não via nenhuma contradição entre ser um imperador e também se dedicar às artes. Pelo contrário, seu talento no verso (em francês) estava entre os atributos apropriados a um estadista do Iluminismo, soldado e cidadão do mundo. Abriu o país para refugiados religiosos de outros cantos da Europa, para aumentar a população e atrair mão de obra para o desenvolvimento econômico.

Quatro anos depois da vitória de Rossbach que valeu a Frederico o epíteto de “Grande”, o rei, já com 39 anos, retomou suas ambições literárias juvenis e compôs uma fábula poética a que deu o título de “Le conte du violon” (“O conto do violino”). Escrita rapidamente em Breslau, longe da calma e da beleza de Sanssouci, nos últimos dias de 1751, conta-nos a história de um talentoso violinista a quem se pede que toque apenas com três cordas, depois com duas, depois com uma e finalmente com nenhuma, com os resultados óbvios. A fábula termina assim:

Deste conto, se te agrada,
Recolhe um conhecimento:
Por mais que tenhas talento
Arte sem meios não basta.

Par ce conte, s’il peut vous plaires,
Apprenez, chers concitoyens
Que, malgré tout le savoir faire,
L’art reste court sans les moyens

Alberto Manguel, À mesa com o Chapeleiro Maluco. Companhia das Letras, 2009.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Uma história politicamente incorreta


Nosso já conhecido H.H. Munro – Saki (1870-1916) volta à Biblioteca, mais uma vez num conto em que os personagens principais são crianças. Do volume 9 do Mar de Histórias.

Em  O Contador de Histórias, um solteirão divide uma cabine de trem com uma senhora e duas crianças – seus sobrinhos - irrequietas e enjoadas. A mulher resolve, então contar uma história:

Em voz baixa e tom confidencial, interrompida aqui e ali por perguntas altas e petulantes dos seus ouvintes, a senhora começou uma história sem movimento e lamentavelmente desinteressante sobre uma menina que era muito boazinha, de quem todos ficavam amigos por causa do seu bom comportamento, e que acabou sendo salva da agressão de um touro furioso por vários salvadores que lhe admiravam o caráter.

As crianças detestaram a história, achando-a idiota. E o solteirão, que a tudo acompanhava, quieto, intervém: parece que a senhora não tem muito jeito para contar histórias. Desafiada, a senhora revida e pede-lhe que conte, então, uma melhor. E ele, então, conta:

Era uma vez uma meninazinha chamada Berta, que era muito boazinha.

Ela era, na verdade, horrivelmente boazinha.

Era tão boazinha que ganhou várias medalhas de bondade, que ela trazia sempre no vestido, seguras por alfinetes. Tinha uma medalha de obediência, outra de pontualidade e uma terceira de bom comportamento. Eram grandes medalhas de metal que tilintavam uma contra a outra quando ela caminhava. Na cidade onde vivia não havia outra criança que tivesse três medalhas, e assim todos sabiam que ela devia ser uma criança extraordinariamente boa.

Todos lhe comentavam a bondade, e o Príncipe do país teve notícia dela, e disse que, por ser tão boa, ela teria licença para passear uma vez por semana no seu parque, perto da cidade. Um parque bonito, onde crianças nunca tinham permissão de entrar, de modo que era grande honra para Berta ser admitida ali.

As crianças começam a se interessar; fazem algumas perguntas e o contador de história entra em alguns detalhes que acabam ainda mais atraindo sua atenção.

Berta passeava por todo o parque e divertia-se muitíssimo, e dizia com seus botões: - ‘Se eu não fosse tão extraordinariamente boazinha, não teria licença de entrar neste belo parque e de ver todas as belezas que contém’ – e as três medalhas tilintavam uma contra a outra enquanto ela caminhava e ajudava a lembrar-se de como era boazinha de verdade. Mas nesse mesmo instante um lobo enorme penetrou sorrateiramente no parque para ver se conseguia apanhar um porquinho bem gorducho para o seu jantar.

E a história parte para o seu desfecho, digamos, pouco edificante:

A primeira coisa que viu no parque foi Berta, que tinha um avental tão branco, que podia ser vista a grande distância. Berta viu o lobo, viu que ele se aproximava dela, e principiou a desejar que nunca houvesse tido licença de entrar no parque. Correu o mais depressa que pôde, e o lobo seguiu-a com enormes saltos e pulos. Berta conseguiu chegar a um grupo de moitas de murta, e escondeu-se na parte mais espessa. O lobo veio farejando entre as moitas, a língua preta pendendo fora da boca e os olhos cinza-claros brilhando de furor. Berta estava terrivelmente assustada, e disse consigo mesma: - ‘Se eu não tivesse sido tão extraordinariamente boazinha, agora estaria sã e salva na cidade’. Entretanto o cheiro da murta era tão forte que o lobo não pôde farejar o esconderijo de Berta, e as moitas tão espessas que ele poderia rondá-las por muito tempo sem avistá-la; assim, pensou em abandonar a busca e contentar-se com um porquinho. Berta tremia muito ao saber que o lobo a rondava tão de perto, farejando por toda parte, e, quando tremia, a medalha de obediência tilintava com as de pontualidade e bom comportamento. O lobo ia embora, quando ouviu o som das medalhas tilintantes, e parou para ouvir melhor; aí elas tilintaram outra vez numa das moitas mais próximas. Ele atirou-se na moita, os olhos cinza-claros a brilhar de furor e triunfo, arrancou Berta do seu esconderijo e devorou-a até o último bocado. Tudo quanto sobrou dela foram os sapatos, uns pedacinhos de roupa e as três medalhas de bondade.

As crianças ficaram fascinadas; era a melhor história que tinham ouvido em toda a vida. A história começou mal – disse a menorzinha das meninas -, mas tem um fim muito bonito.

A tia, indignada: a história não podia ser mais imprópria para crianças. O senhor acaba de solapar o efeito de anos de ensino cuidadoso.

-  Pelo menos mantive-as sossegadas por dez minutos, o que a senhora não seria capaz de conseguir.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio


Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benarès ou em Amsterdã, em Londres ou em Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-Ihe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

*

Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flaneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.

Janeiro vem sendo, há alguns anos, um mês de leitura de clássicos brasileiros, em especial, cariocas. Nesta primeira semana, consegui A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio (1881-1921), que me foi enfaticamente recomendado por um amigo.

Mulato como Lima Barreto – que, nas Recordações do escrivão Isaías Caminha, retrata-o de forma caricata, como o jornalista Raul Gusmão - e homossexual, como Oscar Wilde  - dandi que usava chapéu coco e monóculo – é um dos maiores cronistas cariocas pré-modernistas.

No início, uma aula da história das ruas mais importantes do Centro:

Vede a Rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à mais leve sombra de perigo. (...) Começou por chamar-se Desvio do Mar. Por ela continua a passar para todos os desvios muita gente boa. No tempo em que os seus melhores prédios se alugavam modestamente por dez mil réis, era a Rua do Gadelha. Podia ser ainda hoje a Rua dos Gadelhas, atendendo ao número prodigioso de poetas nefelibatas que a infestam de cabelos e de versos. Um dia resolveu chamar-se do Ouvidor sem que o senado da câmara fosse ouvido. Chamou-se como calúnia, e elogia, como insulta e aplaude, porque era preciso denominar o lugar em que todos falam de lugar do que ouve; e parece que cada nome usado foi como a antecipação moral de um dos aspectos atuais dessa irresponsável artéria de futilidade.

Como cronista, algumas de suas constatações são válidas ainda hoje: Um homem absoluta, totalmente notável só é aceitável através do cartão postal – porque afinal fala de si, mas fala pouco.

Os mendigos também já se espalhavam pelas ruas do Rio no início do século passado: A mendicidade é a exploração mais regular, mais tranqüila desta cidade. Pedir, exclusivamente pedir, sem ambição aparente e sem vergonha, assim à beira da estrada da vida, parece o mais rendoso ofício de quantos tenham aparecido; e a própria miséria, no que ela tem de doloroso e de pungente, sofre com essa exploração.

João do Rio escreveu em plena reforma urbana promovida por Pereira Passos. Uma crônica sobre o Rio – que talvez não tenha sido em nenhuma outra ocasião um personagem tão central de uma obra literária - e seus tipos mais simples e comuns, mas nem por isso sem interesse: os caçadores, os tatuadores, os urubus (hoje os papa-defuntos), os “mercadores de livros”. E, como que num prenúncio, os “vendedores de ópio”. Os personagens que retrata são aqueles esquecidos pela “onda civilizatória”.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Três aforismos de Elias Canetti


Como narrador bondoso, adquiriu a confiança da humanidade dois meses antes de ela ir pelos ares.

*

Ele se considera profundo, pois apenas imita aqueles autores dos quais não resta mais nada senão frases incompletas.

*

Aquele tem um poeta na barriga, se ao menos o pudesse por na língua!


Elias Canetti, Sobre os Escritores, tradução de Kristina Michahelles – José Olympio Editora.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Livraria Camões fecha as portas

A crise europeia faz uma vítima no Rio: fecha a Livraria Camões, no Edifício Avenida Central, ao lado da estação da Carioca. Estive lá na quinta, já em clima de despedida.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Conto da semana, de Nikolai Leskov



Nova Antologia do Conto Russo, organizada por Bruno Barretto Gomide e lançado pela Editora 34 em dezembro, traz não apenas contos de autores conhecidos no Brasil, mas apresenta-nos alguns que jamais haviam sido traduzidos no Brasil. A edição, em homenagem a Boris Schnaiderman, tem ainda o mérito de fazer a tradução direta do russo.

Entre eles, Nikolai Leskov (1831-1895), conhecido por sua Lady Macbeth do distrito de Mtzenk, aqui representado por Viagem com um Niilista, na tradução de Noé Silva, que explica tratar-se de uma história inspirada em um incidente que lhe fora relatado: um senhor viajava no trem, respondendo negativamente a todos os pedidos de que tirasse do assento uma mala que seria sua. Todos temiam tratar-se de um terrorista, já que, na época, membros de organizações niilistas praticavam atentados (como o que matou o czar Alexandre II). Na realidade, tratava-se de um figurão, e a mala não lhe pertencia.

No conto, ninguém notou onde o indesejável hóspede embarcara, mas não havia a menor dúvida de que aquele era um niilista de verdade. Foi o que todos no trem pensaram ao ver o estranho passageiro. Um religioso começou a confusão, incitando um militar para que fizesse alguma abordagem ao estranho, sem maiores resultados.

O condutor pede, com gentileza, que ele retire o cestinho, colocado no assento ao lado, para o vagão-bagageiro, mas a resposta é seca – não o desejo. O diácono , o militar e por fim o chefe de trem insistem, mas o passageiro não muda a sua resposta – não o desejo.

Com a parada na estação, e o chefe agora pergunta se a cesta lhe pertence. Não – para surpresa de todos. O que há na cesta? Logicamente: não sei.

E eis que a cesta é aberta, entrando no escritório um judeu com berro desesperado e disse aos gritos que aquele cestinho era seu e que levava o vestido para uma senhora fidalga, e que a cesta fora colocada no vagão por ele próprio e por nenhuma outra pessoa.

E o tal passageiro? Ele é um promotor de justiça.

O conto foi publicado em 25 de dezembro de 1882, mas poderia tê-lo sido mês passado, com algumas pequenas variações – sairia o niilista e surgiria um sujeito com traços mediterrâneos. O ridículo da situação também não seria afetado. Tal como no Khadji-Múrat, parece que estamos voltando à toda ao século XIX...

A Noiva do Tigre, de Téa Obreht


A Noiva do Tigre
Tea Obreht
Tradução: Santiago Nazarian
São Paulo: Leya, 2011
280p.

Nas minhas lembranças mais antigas, meu avô é careca como uma pedra e me leva para ver os tigres. Ele veste o chapéu, sua grande capa de chuva de botões, e eu uso meus sapatos de verniz e meu vestidinho de veludo. É outono, e tenho quatro anos de idade. A certeza desse processo: a mão do meu avô, o sibilar alegre do carrinho de passear, a umidade da manhã, o passeio lotado morro acima para o parque do forte.

Sempre dentro do bolso do meu avô: O livro da selva, com sua capa dourada e páginas velhas amareladas. Não tenho permissão para segurá-lo, mas ficará aberto em seu colo a tarde toda enquanto ele recita as passagens para mim. Mesmo que meu avô não esteja usando seu estetoscópio ou avental branco, a senhora no guichê dos ingressos de entrada o chama de “doutor” (p. 9).

De uns tempos para cá comecei a me deparar com bons autores da minha idade ou mais novos do que eu... Tea Obreht, sérvia que hoje vive nos Estados Unidos, tem 25 anos e conquistou o Prêmio Orange de 2011, dado para a melhor ficção em língua inglesa escrita por mulheres, de qualquer parte do mundo, com este A Noiva do Tigre.

A autora nasceu em Belgrado; seu avô materno era um católico esloveno e sua avó, muçulmana bósnia. Não há notícia de seu pai. Com o início da guerra, a família partiu para o Chipre e depois para o Egito. Em 1997, com o fim do conflito, os avós retornaram a Belgrado, enquanto mãe e filha partiram para os EUA.

No romance, aclamado nos EUA (mas nem tanto na Inglaterra), Natália é uma médica, assim como seu avô que acaba de falecer em circunstâncias misteriosas. Na realidade, ele foi até uma aldeia justamente para isso: morrer, sozinho. Sempre acompanhado de um exemplar, em seu bolso, do Livro da Selva, de Kipling. Natália se lembra das histórias contadas pelo avô e tenta entender o que lhe teria acontecido. E, afinal, pensa ter compreendido o que se passou.

Ao longo das quase 300 páginas, a história será contada em dois tempos: o da médica em missão nos Bálcãs (num país indeterminado), nos anos 1990, e o do avô, mergulhado em um universo fantástico. Aqui, ela se utiliza com eficiência da tradição oral da região, com fábulas envolvendo animais, rituais de enterros e salvação das almas, e cria personagens curiosos, como o Homem Sem Morte, na verdade mais interessante que a Noiva que dá o nome ao romance. Este sujeito alega ser imortal, e encontra o avô por várias vezes ao longo da vida (deste).

Gavo responde: Não sei mesmo, levei o tiro pelas costas. Vê a forma como olho para ele e continua: Sinto que você e eu, doutor, não estamos nos entendendo como deveríamos. Veja, não é que não aceito a morte ou que finjo que ela não aconteceu, por isso fico vivo. Estou simplesmente dizendo que, tão certo quanto você está sentado aqui nesta igreja, na frente de Deus e de seu colega húngaro, que não solta esse pé de cabra porque ainda pensa que sou um vampiro, eu não posso morrer. p. 61.

Tea cria contradições interessantes: neta e avô são médicos – portanto, ao menos presumivelmente, mais “racionais” – mas mesmo Natália se vê perplexa com o encontro do tal Homem Sem Morte. Definitivamente, não parece ter sido escrito por alguém tão jovem, e menos ainda seu romance de estreia.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Os Melhores de 2011 e perspectivas para 2012

Já que todo mundo faz listas, aqui vai a minha:

FICÇÃO

Para mim, do que li ano passado, destaco o remorso de baltasar serapião, de valter hugo mãe, Dublinesca de Vila-Matas, HHhH, de Laurent Binet e A Sense of an Ending, de Julian Barnes. 
A reedição das Recordações de Isaías Caminha, de Lima Barreto também me fez voltar ao grande autor carioca depois de mais de 20 anos. E O Dom do Crime, de Marco Lucchesi, que na verdade é de 2010 mas que li em 2011.

NÃO FICÇÃO

A Lebre dos Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal, que havia lido na versão Kindle; a biografia de Fernando Pessoa, de José Paulo Cavalcanti Filho, e os livros do Solomon Volkov, sobre a cultura russa (ainda não editados por aqui mas já disponíveis no Kindle).

Concorda com a lista? Acha-a absurda?

Para 2012, as duas grandes notícias de janeiro: consegui o Guerra e Paz da Cosac Naify; a Saraiva não conseguiu me enviar, mas a Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, não me decepcionou - comprei a edição há cerca de duas horas.

E, na última quinta-feira de 2011, chegou-me a História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. São meus dois grandes projetos para 2012, com direito a muitos posts.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Uma Lágrima


Inesperadamente, morreu no último dia 30 Daniel Piza, cujos textos acompanhava há pelo menos quinze anos. Fui apresentado a muitos dos meus escritores favoritos pelos seus textos - Philip Roth e Ian McEwan, por exemplo. Na Folha, na finada Gazeta Mercantil e agora no Estadão, com sua Sinopse dominical, seus textos farão muita falta...